Arquivo do mês: março 2012

Bispos do Japão pedem o fim da pena de morte, e o que diz a Igreja?

O ministro da justiça japonês, Toshio Ogawa

O Japão executou hoje três prisioneiros acusados de diversos homicídios e condenados à pena de morte, por enforcamento, coisa que não acontecia desde julho de 2010, há 20 meses. A autorização foi dada pelo ministro da justiça Toshio Ogawa, afirmando que “realizou seu dever conforme estipulado em lei” e que trabalha em sintonia com a opinião pública. De fato, estima-se que 80% dos japoneses sejam favoráveis à pena de morte.

Mesmo assim, os bispos católicos do país se manifestaram veementemente contrários à retomada desse tipo de condenação. Seria esse posicionamento o mesmo defendido oficialmente pela Igreja? Para entender melhor, vamos explicar a situação do caso japonês e, depois, citar o que diz o Catecismo da Igreja Católica.

Representando o episcopado japonês, o arcebispo de Nagasaki, Dom Joseph Mitsuaki Takami, criticou a decisão do governo dizendo que a sociedade local “acredita no ‘olho por olho, dente por dente’, mas sua cegueira sobre a questão pode endurecer sua alma”. Em entrevista à AsiaNews, ele declarou que “a luta contra a pena de morte precisa continuar”.

Segundo Takami, “mesmo que a pessoa seja um assassino, sua morte é um outro assasinato, desta vez cometido pelo Estado”. Ele declarou que o posicionamento dos bispos vai além de questões filosóficas e religiosas: “O sistema legal do Japão não é perfeito. Erros jurídicos são possíveis. Muitos ocorreram no passado e ninguém pode voltar atrás no enforcamento.”

O arcebispo Dom Takami

Outros países, como a França, e diversos grupos de defesa dos direitos humanos criticaram o Japão diversas vezes pelas condenações de criminosos à pena de morte, de acordo com o site australiano de notícias News. com.au. A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (Pace, na sigla em inglês) também deplorou a punição. A Anistia Internacional disse que vai escrever uma carta ao ministro Ogawa e ao primeiro-ministro Yoshihiko Noda, como forma de protesto – ainda conforme o News.com.au.

A última vez que prisioneiros foram condenados ao enforcamento no Japão foi em 2010, com autorização da ex-ministra da justiça Keiko Chiba. O país não condenou à pena de morte nem um prisioneiro sequer em 2011, pois Chiba buscava promover uma revisão dessa punição. Com a frequente mudança no gabinete de governo no Japão, a fila do enforcamento voltou a andar.

Mas, repetindo a questão inicial, o que pensa a Igreja sobre a pena de morte? Pois bem, o Catecismo da Igreja Católica afirma no número 2267 que “o ensino tradicional da Igreja não exclui, depois de comprovadas cabalmente a identidade e a responsabilidade do culpado, o recurso à pena de morte”. Só não podemos parar de ler aí. Continuemos: “…se essa for a única via praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto”.

E tem mais: “Se os meios incruentos (isto é, em que não há derramamento de sangue, morte) bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esses.” E por quê? “… porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e estão mais conformes à dignidade da pessoa humana.”

No número 2266, a Igreja diz que uma pena aplicada a um criminosos “tem um objetivo medicinal: na medida do possível, deve contribuir à correção do culpado”.

No caso japonês, os bispos entendem que há sim outros meios para se punir os criminosos e que a pena de morte não é a melhor opção, avaliando sua realidade local. À luz do Catecismo, podemos dizer que eles estão em sintonia com o ensinamento da Igreja.

Enquanto isso não muda (e provavelmente não vai mudar), o ministro Ogawa recorda que ainda há 132 pessoas esperando no corredor japonês da morte.

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Pergunta: Por que a Igreja Católica não vende todos os seus bens e doa o dinheiro para os pobres?

Tenho adiado tentar responder à pergunta que dá título a este post, pois se trata de uma questão muito delicada, que não pode ser respondida de forma apaixonada e tampouco de forma cega. Essa questão já me foi feita várias vezes e ao menos duas pessoas pediram para o blog falar sobre isso.

Não queremos aqui defender a Igreja de qualquer acusação (aliás este não é o objetivo deste blog), mas outra vez tentar mostrar que o mundo é bem mais complexo do que pensamos. Tentar fazer o leitor pensar um pouco mais para entender por que as coisas são como são.

Para começo de conversa, temos de lembrar que quando falamos de “Igreja Católica” estamos falando de uma instituição que está no mundo inteiro – a palavra “católica” significa “universal” – o que já ajuda a explicar o fato de se ter muitos bens. Existem 1,2 bilhão de católicos no mundo, mais de 5 mil bispos, mais de 400 mil padres, mais de 720 mil religiosas. Toda essa gente precisa ter onde morar, comer, rezar, estudar… Para isso são necessários templos, colégios, residências, e como não dizer dinheiro, renda.

Outra coisa: há milhares de “Mitras (Arqui)Diocesanas”, paróquias, congregações religiosas, universidades, associações de leigos, hospitais, museus, obras sociais, escolas, fundações, embaixadas, e o próprio Vaticano – que é um país soberano – entre tantas outras organizações que constituem a Igreja.

Em outras palavras, todos esses bens estão divididos entre diversos grupos. Cada instituição católica na prática tem certa independência financeira. Aliás, muitas delas passam necessidades. O Vaticano há alguns anos gasta mais do que arrecada. Nos Estados Unidos, algumas dioceses estão falidas após pagarem indenizações altíssimas resultantes do problema da pedofilia. Tendo isso em mente, o mais importante, então, é analisarmos a forma como esses bens são utilizados. E, justiça seja feita, a maioria das instituições que se dizem católicas tem entre suas finalidades fazer o bem.

Mas alguém pode perguntar: “E toda a riqueza do Vaticano? Aquilo é desnecessário.” Talvez até seja, mas não dá para esquecer a História. Em mais de 2000 anos, muita coisa aconteceu para formar a Igreja que vemos hoje. A História da Igreja, que todo seminarista precisa estudar bem, mostra isso.

Um exemplo: aquele que é considerado o primeiro Papa e chefe da Igreja, São Pedro, foi um simples pescador, apóstolo de Jesus. Hoje, os Papas são, além de chefes da Igreja, chefes de Estado, monarcas, pontífices, bispos de Roma, que um dia foram cardeais, eleitos por um conclave, tudo ao mesmo tempo.

Não há como renunciar a isso e voltar a ser um pescador. E a mudança prática não aconteceu de uma hora para outra. Os bens da Igreja são resultado do seu processo de institucionalização, hierarquização, que aconteceu ao longo dos séculos,e que não podemos ignorar. O Vaticano de hoje é resultado de um tratado com a Itália, por exemplo, e por aí vai…

Isto é, mesmo que ter bens fosse errado, não daria para se desfazer do passado num piscar de olhos. Pode soar estranho, mas, de modo geral, a maioria dos bens da Igreja foi obtida de forma legítima em seu tempo histórico: as doações, as heranças de pessoas que entraram para a vida religiosa, a arrecadação de impostos, e até mesmo as Cruzadas, os saques, as conquistas de territórios, o jogo político junto aos reis e aos poderosos.

Alguns desses instrumentos são muito desumanos e hoje os vemos como altamente condenáveis e contraditórios com a mensagem de Cristo. Não é à toa que Lutero se rebelou contra a Igreja de seu tempo. Mas, em seus respectivos momentos, os meios usados eram legítimos – embora nem sempre moralmente lícitos. Não se tinha, por exemplo, a noção de direitos humanos que temos atualmente. A escravidão era algo comum e para muitas pessoas os índios não tinham alma.

Mas também não é por isso que se deve simplesmente vender tudo. Se fosse assim, teríamos de derrubar e vender, por exemplo, museus que um dia foram senzalas de escravos negros. Ou lugares que foram campos de concentração de judeus na Alemanha. Ou as pirâmides do Egito, talvez construídas sob muitas chicotadas. Tudo o que resulta de um passado sombrio deveria ser desfeito, destruído ou simplesmente vendido?

E mais: vender para quem? Por quanto? De que forma distribuir o dinheiro? Algumas coisas têm valor inestimável. E, ainda assim, por certo não seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Muitas obras de arte que estão no Vaticano, por exemplo, são mantidas pela Igreja e estão acessíveis a todos que quiserem visitá-las. São bens que pertencem à humanidade, como os recursos naturais. O mesmo para as construções. Muitas delas ainda são funcionais, são igrejas, escritórios, hotéis, residências…

É claro que isso não isenta a Igreja de seus erros, da forma como acumulou seus bens. Por esse motivo se diz que “a Igreja é santa, mas seus membros são pecadores” ou que “a Igreja é de Deus, mas também é dos Homens”. Por esse motivo, muitas vezes a Igreja pediu desculpas pelos erros do passado. Isso não justifica os erros. Mas significa que ela não pretende repeti-los.

“Mas e todo aquele ouro nas igrejas e nos Papas?”, pode insistir alguém. Aqui devemos notar que “nem tudo o que reluz é ouro”. Existem outros metais sem grande valor aí (latão, cromo). Mas, OK, tem muito ouro também. Porém, esse ouro é usado como forma de ostentação ou como forma de elevação espiritual? Explica-se: se o ouro for apenas um sinal de riqueza material, devemos sim estranhar. Isso não é compatível com a fé cristã.

Mas muitas vezes o ouro e outras preciosidades são a forma que o Homem encontra para preparar algo considerado sagrado. São uma forma de preparar o ambiente para receber aquilo que é tido como divino. Exemplo: para quem acredita que na missa o vinho vira o sangue de Cristo, isto é, Deus verdadeiramente presente, nada mais natural do que preparar o cálice com o que se tem de melhor, isto é, o ouro. Afinal, vai se receber ali o próprio Deus.  E a arte é uma forma de se tentar chegar a Deus.

Lembremo-nos, ainda, que um dos presentes dos reis magos para Jesus foi justamente o ouro. É claro que isso não pode ficar só no ouro. É preciso lembrar também do incenso e da mirra.

É verdade que muitos membros da Igreja se esquecem dos mais pobres. Por esse motivo, por reiteradas vezes e em muito documentos, a Igreja reafirma seu compromisso com os mais pobres. Bento XVI abordou isso no Brasil, em 2007, dizendo que “Deus se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”.

A Igreja entende que sua principal missão é “evangelizar” e seus bens e propriedades devem servir a esse objetivo. Do mesmo modo, para cada um de nós, nossos bens nos ajudam a conseguir aquilo que buscamos em nossas vidas. Não podemos ser ingênuos e achar que tudo se resolve num passe de mágica.

Envie você também sua dúvida sobre a Igreja nos espaços para comentários e veja aqui as outras perguntas já respondidas.

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O segundo Papa a visitar Cuba busca as mesmas coisas que o primeiro

Bento XVI é recebido pelo presidente Raúl Castro na chegada a Cuba

Quando o Papa João Paulo II visitou Cuba, em janeiro de 1998, pediu que a ilha se abrisse para o mundo e que o mundo se aproximasse da ilha.

Condenou o embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba e seus efeitos adversos sobre os mais pobres. Em âmbito religioso, ajudou os cubanos católicos a fortalecerem sua fé. Agora, mais de 14 anos depois, um Papa volta a Cuba e o que busca? Nada mais do que maior liberdade para o povo cubano, abertura comercial e reafirmação da fé no país, que oficialmente permanece ateu.

Naturalmente, a visita de João Paulo II teve um impacto muito maior do que a de Bento XVI (que chegou hoje a Cuba, onde ficará por três dias). O Papa Wojtyła foi o primeiro a pisar em solo cubano, país que se fechou para as religiões desde a revolução socialista de 1959. Convidando o Papa, Fidel Castro, então presidente cubano, procurou sinalizar uma abertura um pouco maior para as coisas que vinham de fora. E, no âmbito religioso, foi um passo sem igual para as liberdades individuais. Hoje, em Cuba, é permitido ter uma religião (a santería, de origem africana, também é muito forte).

Fidel Castro e João Paulo II, em 1998

Mas Bento XVI chega em momento igualmente delicado. Fidel Castro já não é mais o presidente e passou o bastão para o irmão, Raúl Castro, que desde sua posse, em 2008, vem realizando reformas graduais, permitindo uma lenta e controlada – mas importante – abertura da empobrecida ilha em termos econômicos e políticos. Para Raúl Castro, a Igreja pode ser um bom meio de trazer investimentos estrangeiros para o país. E, para a Igreja Católica, uma boa relação com Cuba permitirá a abertura de mais escolas, centros culturais católicos, igrejas e seminários.

Quando entrou no avião rumo ao México (por onde passou antes), Bento XVI afirmou estar “convencido de que, neste momento de particular importância para a História, Cuba já está olhando para o futuro”. Chegando à ilha, o Papa Ratzinger disse que aquela visita de João Paulo II foi um sopro de “ar fresco”, que deu novas forças à Igreja em Cuba, criando uma nova relação entre Igreja e Estado, um “novo espírito de cooperação e confiança”.

O cardeal cubano Jaime Ortega

Embora essa relação seja bastante diplomática e aparentemente amigável, o Papa faz duras críticas ao modelo cubano. Bento XVI declarou que “não podemos mais continuar na mesma direção cultural e moral que causou a dolorosa situação com que muitos sofrem. O progresso verdadeiro tem necessidade de uma ética que coloque no centro o ser humano e leve em conta suas exigências mais autênticas”. E, durante a viagem ao México, já havia adiantado: “Está evidente que a ideologia marxista como foi concebida já não corresponde à realidade.” A ideia, portanto, é continuar pressionando o governo.

Assim como no México, Bento XVI quer reconstituir as bases da Igreja em Cuba. Estima-se que, dos 11,2 milhões de cubanos, 60% sejam batizados. Mas menos de 500 mil vivenciam o catolicismo frequentando missas, por exemplo. Por outro lado, a Igreja Católica se fortaleceu nos últimos anos, liderada regionalmente pelo Cardeal Jaime Ortega, no governo de Raúl Castro. Ortega tem sido um dos principais mediadores entre a oposição ao regime e o governo. Foi por meio dele que 130 prisioneiros dissidentes foram libertados, dois anos atrás.

Há uma expectativa muito grande para a visita de Bento XVI, justamente porque a de João Paulo II foi um marco relevante para o povo cubano. Os críticos da Igreja no país dizem que a atuação política dos católicos em Cuba ainda é fraca demais e pouco incisiva.

Mas, aparentemente, a Igreja teme elevar demais o tom e perder o que já foi conquistado. Lembremos o que disse Bento XVI, quando criticava o marxismo: “Temos de encontrar novos modelos, com paciência e de forma construtiva.”

Atualizado em 27/03/2012, às 7h41

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O Papa Bento XVI visita o México e paga uma dívida de sete anos

Bento XVI chega ao México, recebido pelo presidente Felipe Calderón e pela a primeira-dama Margarita

Bento XVI estava em dívida com os mexicanos. Em sete anos de pontificado, ele foi duas vezes à África, esteve no Brasil, nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Terra Santa, na Turquia, em diversos países da Europa (Alemanha, França, Portugal, Espanha, Polônia, Áustria, República Tcheca, Malta, Chipre, Reino Unido, Croácia) – não necessariamente nesta mesma ordem – e até à Austrália ele foi. Olha que a Austrália fica bem longe. Isso tudo sem contar as viagens dentro da Itália, que foram quase 30.

Mas o Papa Ratzinger ainda não tinha  dado nem um pulinho no segundo país com maior número de católicos no mundo, depois do Brasil: o México. Se todos temos a obrigação de fazer algumas coisas antes de morrer, podemos dizer que visitar o México estava na lista do Papa.

Agora, em sua 23ª “viagem apostólica”, o pontífice paga a dívida e cumpre uma tarefa que foi adiada por tempo demais. Serão quase três dias no México e dois em Cuba. Mas o mais importante aí não é tanto o fato de Bento XVI ir ao México, e sim, por que resolveu fazer essa viagem justo agora. São três os motivos principais:

O primeiro, meio óbvio, é pastoral. Trata-se do enfraquecimento dos valores cristãos em parte da sociedade mexicana. Não só no México, mas também em outros países da América Latina, a Igreja Católica vem perdendo influência junto aos governos e à sociedade como um todo. Em muitos lugares, as tradições perdem espaço para a globalização,  o consumo e os tais “valores mundanos” – deixar Deus de lado e cuidar só das coisas práticas da vida. Isso inclui o enfraquecimento das religiões tradicionais.

De acordo com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, um dos objetivos da visita de Bento XVI é “refundar” o México nos valores cristãos, que constituem “o DNA do povo mexicano”. Dentro desse objetivo, segundo Bertone, o Papa falará aos jovens, estimulando-os “a não se deixar seduzir pelo dinheiro fácil”.

João Paulo II esteve cinco vezes no México

O segundo motivo é político. É bom para a Igreja que o México continue sendo um país de maioria católica. E, muito perto das eleições federais no México, que serão em julho deste ano, é importante para a Santa Sé mostrar que está aberta a manter relações diplomáticas com qualquer governo, qualquer partido, mesmo que seja um governo mais distante dos cristãos.

Bento XVI quer mostrar que a Igreja continuará presente ali, mantendo sua firme atuação, ainda que o partido do presidente Felipe Calderón (PAN, que é pró-católico) perca a disputa. Nesse sentido, o Papa deve reafirmar, entre outras coisas, a importância da “família tradicional” e da “valorização da vida desde a concepção até a morte natural”.

O terceiro motivo é social e envolve a grave onda de violência e o narcotráfico no México, que atingiu níveis assustadores nos últimos meses. Mais de 50 mil pessoas morreram em cinco anos e meio, segundo o Los Angeles Times. Disputas entre cartéis de drogas acabaram com a paz de boa parte da população mexicana e transformaram regiões do país em zonas de guerra.

Não é à toa o fato de que o Papa vai direto para o Estado de Guanajuato. Ali, a violência é intensa e os cartéis são mais fortes . As principais gangues prometeram manter a paz durante a visita do Papa ao país. Bento XVI não vai à Cidade do México por causa da altitude elevada, que pode ser nociva à sua saúde (que está boa, mas é frágil, segundo o Vaticano – aliás, pela primeira vez ele apareceu publicamente usando bengala).

Também há relatos de envolvimento do tráfico de drogas com as comunidades paroquiais no México, seja por meio de doações, seja por meio de interferências nas atividades pastorais. Bento XVI pediu o fim dessas relações desde 2005, quando assumiu. Mas pouco se avançou nisso.

No avião rumo ao México ele afirmou que é preciso “desmascarar o mal e a mentira”. E acrescentou que “os problemas do narcotráfico e da violência pesam sobre a Igreja de um país com 80% de católicos”.

Depois do México, o Papa segue para Cuba, onde terá compromissos mais tensos, embora o governo tenha dito que o pontífice será ouvido “com respeito”. As relações entre o governo socialista de Cuba e a Igreja Católica melhoraram com João Paulo II, mas permanecem delicadas. Falaremos dessa outra visita em um novo post.

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Pergunta: O que é um diácono? Para que ele serve?

Imposição das mãos em ordenação diaconal

Às vezes as pessoas esbarram por aí com um diácono e o confundem com um padre. Muitas vezes se assustam ao ver um homem casado vestido como religioso e não entendem o porquê.

Explica-se: os diáconos têm funções importantes desde a igreja primitiva e, assim como os padres e bispos, recebem o sacramento da Ordem.

O diaconato é o primeiro grau do sacramento da Ordem. O presbiterato (padres) é o segundo e o episcopado (bispos) é o terceiro. Portanto, todo diácono católico deve ser ordenado por um bispo num ritual próprio. De acordo com o número 1554 do Catecismo da Igreja Católica, “o ministério eclesiástico, divinamente instituído, é exercido em diversas ordens pelos que desde a antiguidade são chamados bispos, presbíteros e diáconos”.

Neste contexto, segundo o Catecismo, a principal função do diácono é “ajudar e servir” os bispos e padres. Por isso, o diácono não é um sacerdote. Na ordenação de um diácono “são-lhes impostas as mãos não para o sacerdócio, mas para o serviço”, conforme o número 1569 do Catecismo. Nestes casos, apenas o bispo impõe as mãos sobre o homem ordenado (como mostra a foto), num sinal de que o diácono está diretamente ligado a ele.

Resume o Catecismo, no 1570: “Cabe  aos diáconos, entre outros serviços, assistir o Bispo e os padres na celebração dos divinos mistérios, sobretudo a Eucaristia, distribuir a Comunhão, assistir ao Matrimônio e abençoá-lo, proclamar o Evangelho e pregar, presidir os funerais e consagrar-se aos diversos serviços de caridade.” Eles não celebram missa, pois, como dissemos, não são sacerdotes. Apenas ajudam na sua preparação e na liturgia. Também não podem dar todos os tipos de bênçãos.

Dois bispos com um monte de diáconos. Repare nas roupas: alguns de estola, outros de dalmática. Os bispos de casula.

O diácono tem suas vestes litúrgicas diferentes das dos padres e bispos. A estola é transversal, e não vertical. Também pode usar a dalmática, que é diferente da casula dos padres e bispos.

Sendo assim, existem dois tipos de diáconos: os transitórios e os permanentes.

Os transitórios são homens que se preparam para o sacerdócio. No meio do caminho e antes de receberem a ordenação sacerdotal, recebem a ordenação diaconal. Depois de um tempo atuando como “ministros ordenados”, recebem o segundo grau da ordem, o presbiterado.

Os permanentes são homens que não estão caminhando rumo ao sacerdócio. Geralmente são homens casados há um bom tempo (algumas dioceses exigem cerca de 10 anos de casamento), com ativa participação nas atividades da Igreja e vocação para as obras sociais e de caridade.

Os diáconos permanentes costumam estudar teologia, filosofia, pastoral e outras coisas durante cerca de quatro anos. É estimulado que esses homens tenham suas próprias profissões para que possam sustentar a si e às suas famílias. Porém, se a dedicação for integral à Igreja, podem receber algum tipo de ressarcimento financeiro. A esposa precisa autorizar formalmente que o homem seja diácono. E, uma vez ordenados, os diáconos não podem mais se casar. Se ficarem viúvos, têm a opção de permanecerem diáconos ou se candidatarem ao sacerdócio, mesmo que em idade já avançada.

Desde o Concílio Vaticano II, o diaconato foi restabelecido “como grau próprio e permanente da hierarquia” da Igreja Católica, como explica o Catecismo (no número 1571). Deste modo, os diáconos podem e devem se vestir com roupas de clérigo – batina ou clérgima -, especialmente quando estiverem atuando em suas funções específicas.

Hoje em dia isso pode causar um pouco de confusão, porque nem mesmo os padres precisam se vestir assim, podem usar roupas comuns livremente. Mas não se assuste se encontrar por aí um homem de clérgima com mulher e filhos.

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Foto alterada em 23/03/2012, às 12h54

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O problema da pedofilia e a crise da Igreja Católica na Irlanda

Primeiro-ministro irlandês é um crítico feroz da Igreja

Muito se falou sobre os escândalos de pedofilia promovidos por membros da Igreja Católica na Irlanda, mas como ficou a situação por lá?

O Vaticano divulgou ontem um relatório que resume sua análise sobre os principais problemas da Igreja no país, observados após uma visita apostólica – investigação aprofundada feita por diversas equipes do Vaticano, por ordem do Papa Bento XVI. O objetivo é “assistir a Igreja local em seu caminho de renovação”, segundo o Papa.

O site Catholic Culture publicou um bom texto sobre essa questão, que nos inspirou a tentar explicar neste post como anda a crise da Igreja Católica na Irlanda.

Acredita-se que entre 1930 e 1990, milhares de crianças tenham sido vítimas de abuso sexual por membros da Igreja na Irlanda. Foi um fenômeno aparentemente inexplicável. As evidências mostram que muitos bispos ou superiores religiosos fracassaram no combate à pedofilia, muitas vezes protegendo padres acusados, acobertando sinais claros de má conduta ou fingindo que não viram. Há rumores de que autoridades do Vaticano tenham estimulado essa atitude dos bispos, embora não se tenham nomes.

Conforme recorda o Catholic Culture, em carta enviada à Igreja irlandesa em 2009, o Papa Bento XVI expressou “horror” diante dessa questão e do que diz respeito “a esses atos pecaminosos e criminosos que foram a raiz dessa crise particular”. Por isso, vários bispos e padres irlandeses foram afastados ou renunciaram – mas isso só ocorreu infelizmente depois do escândalo.

Também foi o problema da pedofilia que provocou o fechamento da embaixada da Irlanda no Vaticano, como uma forma de punição ao que considerou uma fraca resposta da Santa Sé (embora o governo não reconheça isso formalmente e diga que foi um corte de gastos). O primeiro-ministro irlandês, Enda Kennyfez uma crítica feroz à Igreja de Roma, dizendo que ela estava mais preocupada com sua reputação do que com a solução do problema dos abusos sexuais.

De qualquer forma, o problema está sendo investigado e, como indica o relatório recém-divulgado, a Igreja atribuiu a crise principalmente à má formação dos sacerdotes e à falta de regras de conduta. Isso ocorre tanto nos seminários quanto nas ordens religiosas, segundo o relatório do Vaticano.

Para melhorar tal aspecto, diz o texto, é necessário “garantir que a formação fornecida seja enraizada na autêntica identidade sacerdotal, oferecendo uma preparação sistemática para a vida de celibato sacerdotal, mantendo um equilíbrio apropriado entre as dimensões humana, espiritual e eclesial”. Essa ideia resume todas as outras.

Mas, além disso, propõe-se maior governança dos bispos nos seminários; critérios mais rigorosos para admissão dos candidatos ao sacerdócio; maior preocupação com a formação intelectual, em conformidade com o Magistério da Igreja; garantir que os prédios de seminários sejam exclusivos para os seminaristas, para que a “identidade sacerdotal” seja bem fundada; reavaliar os programas pastorais, dedicando maior preocupação com a preparação dos sacramentos e das orações.

Conforme o documento, os superiores de congregações religiosas devem se aliar aos bispos nessa reestruturação, “revitalizando os instrumentos de diálogo e comunhão”. Podemos dizer que essa crítica se deve ao fato de que, em muitos lugares, a relação entre os superiores religiosos e os bispos é meramente burocrática, para nomeações e autorizações formais, havendo pouca interação e identificação entre eles. Na prática acabam atuando de forma independente, o que pode causar problemas de falta de supervisão ou de autoridade.

Em âmbito pastoral, recomenda-se também uma maior atenção às vítimas de abuso sexual e às suas famílias. Nesse sentido, o relatório elogia iniciativas com a Câmara Nacional para Proteção Infantil na Igreja Católica (NBSCCC), organismo autônomo criado em 2006 pelos católicos irlandeses para promover políticas que impeçam os abusos sexuais. Também importante: o relatório pede o desenvolvimento de normas para lidar com casos em que os padres são claramente culpados, mas não condenados pelas autoridades civis; e também para reabilitar o ministério de padres falsamente acusados.

Cardeal irlandês Seán Brady, de Armagh

Grupos de defesa das vítimas de abuso sexual se pronunciaram afirmando que o relatório não é suficiente – segundo o próprio texto do Catholic Culture. Porta-vozes das vítimas dizem que o Vaticano é responsável por criar uma cultura de proteção aos membros do clero.

De fato, a resposta prática ainda é insuficiente. Mas o documento mostra que há uma preocupação real da Igreja com relação à pedofilia e o reconhecimento (ainda que tardio) de que houve erros graves na forma como lidou com problema. Em coletiva de imprensa em Dublin, o cardeal Seán Brady, que apresentou o relatório, disse que a Igreja “expressa verdadeira tristeza e pesar” e que faz “um apelo sincero de perdão junto às vítimas e a Deus, por esses terríveis crimes e pecados”.

Vale lembrar que os abusos sexuais, de qualquer tipo, são considerados crimes há pouco tempo na maioria dos países – em alguns sequer há legislação específica que atenda a esses casos -, o que não justifica a falta grave, mas dificulta o combate e a condenação dos criminosos, que estão em todos os lugares, não só nas igrejas.

Fato é que, como disse o Papa João Paulo II, citado no relatório dos observadores do Vaticano, “não há lugar no sacerdócio e na vida religiosa para aqueles que desejam prejudicar os jovens”. Agora, avança-se lentamente para colocar isso em prática.

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Qual é o dia do seu onomástico?

Mario Monti e Bento XVI

Hoje, 19 de março, é dia de São José. Portanto, é o dia do onomástico do Papa Bento XVI, que se chama Joseph Ratzinger.

Na Itália, é tradição as pessoas  serem saudadas no dia do santo que tem o seu nome. Hoje, o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, conversou por telefone com Bento XVI para dizer os parabéns pelo dia de sua “festa onomástica”. O Papa também deu os parabéns a Monti por seu aniversário de 69 anos.

Muitos bispos costumam mandar cartinhas de saudação ao Papa pelo dia do seu onomástico. E, no Vaticano, o porta-voz Federico Lombardi também se pronunciou sobre isso, dizendo que Bento XVI é guiado por seu santo patrono: “São José conduziu sua família ‘como aquele que serve’. Ele nos ensina que podemos amar sem possuir e nos revela o segredo de viver na presença do mistério. Nele não há separação entre fé e ação, porque sua fé teve efeito decisivo em suas ações”, afirmou.

O meu onomástico é no dia 3 de maio, dia de São Filipe Apóstolo. E você, tem um santo com o mesmo nome?

Neste site aqui é possível pesquisar os santos por nome. Este outro parece estar melhor para pesquisar, mas é em inglês, precisa saber a tradução…

Atualizado em 19/03/2012, às 21h36

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