Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano

Bento XVI com o cardeal Bertone

Uma série de documentos secretos do Vaticano vem sendo divulgada há cerca de um mês para a imprensa italiana, causando repercussão internacional. Esse movimento, que ficou conhecido como “VatiLeaks” – uma referência ao site Wikileaks, que divulgou documentos secretos de diversos países, principalmente dos Estados Unidos – envolve relatos sigilosos de autoridades, cartas, comunicações e decisões, cuja autenticidade não é questionada. Sua revelação coloca o Vaticano numa “maré política”, digamos assim, bastante desfavorável. Tanto é que o jornal do Vaticano L’Osservatore Romano chamou de “lobos”, em um editorial, os responsáveis pela divulgação irregular desses documentos. Vamos tentar resumir essa história toda neste post.

Trata-se de um problema bastante delicado, do qual não queremos tirar conclusões próprias. Portanto, recorremos a um texto do jornalista John Allen Jr, um dos principais e mais renomados vaticanistas, para explicar o que parece estar acontecendo na Cúria Romana. A percepção que se tem é de que alguma pessoa interna do Vaticano – um funcionário ou até mesmo alguém do alto escalão, como um cardeal – está liberando cópias de tais documentos secretos. Allen explica que “este é um estranho caso em que o problema real não é tanto o conteúdo dos vazamentos”, mas o próprio fato de os documentos terem vazado.

São seis as principais questões reveladas até o momento:

1) Cartas escritas pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, atual núncio apostólico (embaixador) nos Estados Unidos, destinadas ao Papa Bento XVI e ao secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarciso Bertone. Nelas, Viganò reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o secretário de Estado. Também alerta para a “campanha” interna para difamá-lo;

2) Um memorando anônimo escrito sobre a nova lei contra lavagem de dinheiro no Vaticano, sugerindo que ela contém gargalos enormes;

3) Documentos que alimentam as acusações contra o Instituto para as Obras Religiosas (conhecido por aí como “Banco do Vaticano”), que teria transferido milhões de euros para bancos estrangeiros num movimento de evasão de divisas para escapar da fiscalização italiana;

4) Outro documento anônimo, em alemão, descrevendo uma conversa do cardeal Paolo Romeo, de Palermo (Itália), supostamente prevendo, em viagem à China, que o Papa morreria em 12 meses e seria substituído pelo cardeal Angelo Scola, de Milão (Itália). Esse documento foi repassado para o Papa pelo cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, já aposentado;

5) Dois memorandos internos alertando sobre modificações recentes nas leis de lavagem de dinheiro do Vaticano, um deles escrito pelo cardeal Attillio Nicora, que lidera a nova agência de supervisão financeira. As mudanças seriam um retrocesso e poderiam “alarmar” organismos internacionais de regulação;

6) Duas cartas confidenciais documentando um esforço fracassado do cardeal Tarciso Bertone de passar para o Vaticano o controle de uma importante universidade católica italiana e seu sistema de hospitais, em Milão. Na carta endereçada ao então cardeal-arcebispo Dionigi Tettamanzi, Bertone lhe exigia que renunciasse à presidência do instituto Sagrado Coração e nomeasse um sucessor escolhido pelo secretário de Estado.

O vaticanista Allen explica que nenhum desses casos parece ser “fatal”. Boa parte deles foi esclarecida pelo Vaticano em pronunciamentos pontuais. Mas há sim sérias implicações a serem avaliadas: internamente, é possível que os bispos e autoridades fiquem mais cautelosos e receosos em dialogar com o Vaticano antes de tomar decisões, temendo ter seus documentos vazados. Externamente, diz Allen, passa-se a imagem de que os homens da Igreja estão sempre se apunhalando pelas costas – o que dificulta a divulgação de “boas” notícias, como o primeiro simpósio contra abusos sexuais realizado pela Igreja em Roma, os grandes esforços de transparência financeira do Vaticano e o projeto de “nova evangelização” de Bento XVI.

Alguns observadores acreditam que o objetivo dos vazamentos seria atingir indiretamente o cardeal Bertone, homem de confiança do Papa, mas que alguns consideram um mau administrador (e que também tem lá seus rivais políticos). Contudo, é de se questionar a eficiência dessa estratégia, pois quem escolhe o secretário de Estado no fim das contas é o Papa. Outros dizem que o objetivo seria atingir o próprio Papa, que estaria muito ocupado com questões teológicas e filosóficas e por isso estaria delegando demais a administração do Vaticano – além da idade avançada. Nesse caso, o VatiLeaks prepararia o terreno para um novo Papa mais “gerente”.

Pe. Lombardi, porta-voz do Vaticano

Vale lembrar que o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, se pronunciou sobre os vazamentos e disse que a Santa Sé está comprometida com a “autêntica transparência” de sua governança. Ele afirmou também que os documentos divulgados recentemente não podem ser tratados como se fossem todos uma coisa só. Cada caso é um caso, com sua devida importância (ou falta de). Aquele que fala da morte do Papa em 12 meses, por exemplo, foi tratado como uma piada. (De fato, imagino eu quantas ameaças de morte um Papa deve receber por dia.) Segundo Lombardi, os vazamentos são um incentivo para mais reformas na Igreja.

Bento XVI também se pronunciou sobre o problema, embora indiretamente. Em encontro com os seminaristas de Roma, em fevereiro, o Papa disse que muitas coisas têm sido faladas sobre a Igreja de Roma e acrescentou: “Esperemos que se fale também da nossa fé.”

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6 Comentários

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano

6 Respostas para “Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano

  1. boa reportagem, ótimo texto. parabéns pelo blog!

  2. Esse vazamento é muito parecido com as denúncias efetuadas pelo Amaury Ribeiro Júnior em seu livro “A Privataria Tucana”, a única diferença é que o Vaticano tenta minimizar o problema, enquanto o tucanato fica caladinho para a coisa não feder mais, no resto é tudo igual, é muita grana na jogada.

    • Olá Luiz Borges!
      Ainda não li o livro, mas neste caso do Vaticano, como disse o vaticanista John Allen, o problema maior é o vazamento em si, e não tanto o conteúdo dos documentos revelados… acho que aí estaria uma grande diferença. O conteúdo dos VatiLeaks é forte e tem implicações que mencionamos no post, mas não abala as crenças e tradições da Igreja. Obrigado pelo comentário!

  3. Pingback: Bento XVI cria comissão de cardeais para investigar o ‘VatiLeaks’ | Praça de Sales

  4. O vaticano deve se ater a investigar a evasão dos documentos. . Quanto ao teor dos mesmos deve se limitar a, explicar aos católicos, o porquê das noticiadas corrupções, como e porque estão sendo feitas; no concernente; à lavagem de dinheiro todos sabem que não é fato novo… Recordemo-nos do Poderoso Chefão. Não sei porque todo esse escarcéu. Essa suposta ameaça à vida do papa, sim, é preocupante… O mais é bla bla bla…

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