A diplomacia da Santa Sé e a difícil situação da mulher no campo

Plenário das Nações Unidas

A diplomacia da Santa Sé é uma das áreas mais interessantes de atuação da Igreja no mundo e uma das que menos se fala por aí.

Hoje, uma representante da Missão Observadora Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas (ONU) tocou num tema social delicadíssimo – a difícil situação da mulher na zona rural – e demonstrou um olhar pelo menos apurado diante dos problemas do mundo. Vamos explicar rapidamente o que é essa “Missão Observadora” e depois citar o que a representante Dianne Willman falou, em Nova York, nas atividades da 56ª sessão da Comissão de Status da Mulher.

De acordo com o site oficial da Missão Observadora, a Santa Sé já realiza missões diplomáticas desde o século IV, ou seja, bem antes da criação do Estado do Vaticano. Quando a Santa Sé e a Itália assinaram o Tratado de Latrão, em 1929, reconhecendo a soberania da Cidade do Vaticano, entre outras coisas, estabeleceu-se que as relações diplomáticas da Santa Sé seguiriam as regras do Direito Internacional. A Cidade do Vaticano é, portanto, “a base territorial da Santa Sé”, que é uma autoridade independente e soberana, e também a autoridade suprema da Igreja.

Estabeleceram-se relações formais entre a Santa Sé e as Nações Unidas em 1957. Por opção própria, a Santa Sé adotou a posição de “Observadora Permanente”, e não a de um Estado membro como todos os outros, que têm direito a voto (e alguns, de veto). O objetivo ao fazer isso foi “manter a neutralidade em problemas políticos específicos”. Assim, sempre há um núncio apostólico Observador Permanente, que representa a Santa Sé na ONU – atualmente o arcebispo Dom Francis Chullikatt. Ele fala pela Santa Sé nas discussões diplomáticas das Nações Unidas. E, esporadicamente, o próprio Papa vai à ONU para fazer algum discurso, assim como outros chefes de Estado. Bento XVI esteve lá em 2008.

Pois bem, voltando ao pronunciamento de hoje, que pode ser lido na íntegra aqui (em inglês): a representante Dianne Willman chamou a atenção para o fato de que “as mulheres da zona rural muitas vezes trabalham em situações deploráveis contrárias a todas as possibilidades que desafiam a imaginação”.

“Longas horas de trabalho sem pagamento, situações anti-higiênicas, má nutrição, falta de acesso à água, acesso limitado à saúde, discriminação e exposição à violência, inclusive contra mães grávidas, são apenas alguns dos desafios que muitas delas enfrentam”, observou a diplomata. Segundo ela, “todos esses desafios impactam sua capacidade de cuidar de si mesmas, de seus filhos e de suas famílias”. Muitas vezes, essas mulheres são líderes de famílias e de comunidades. A pobreza e a fome se acentuam em regimes políticos em que “as mulheres não têm direitos legais ou uma voz nas decisões que as afetam”.

Como proposta para superar esse problema, a delegação da Santa Sé sugere políticas de cooperação e envolvimento do homem, especialmente iniciativas  para superar o preconceito centradas no ser humano, “respeitando a dignidade da pessoa humana” (aqui fala-se “pessoa humana” porque existe também “pessoa divina”). Chama a atenção para “a segurança alimentar, a erradicação da pobreza e o papel central da família para o desenvolvimento integral”.

E acrescenta que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que ocorre em junho no Rio de Janeiro, será uma boa oportunidade para fortalecer a atenção para as pessoas rurais, inclusive mulheres e meninas, “aumentando seu comprometimento com os processos de elaboração de políticas”.

Algumas pessoas podem dizer que esse pronunciamento foi apenas burocrático, que falou de um problema que todos nós já conhecemos. Pode ser. Mas alguém precisa lembrar constantemente as autoridades do mundo, os diplomatas e os chefes de Estado e de governo, que alguns problemas aparentemente corriqueiros são na verdade uma aberração produzida pela humanidade.

Esses problemas, como o das mulheres que sofrem na zona rural, não deveriam ser a regra, mas a exceção.

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Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano

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