‘Anonymous’ enfim derrubam site do Vaticano

Máscara de Guy Fawkes

Depois de ao menos uma tentativa fracassada de tirar do ar o site do Vaticano (Vatican.va), hoje finalmente o grupo de hackers “Anonymous” conseguiu fazê-lo. Não descobri por quanto tempo o site ficou offline, mas pude verificar que certamente por pelo menos umas três ou quatro horas, talvez mais.

Mas a grande questão aí não é tanto o fato de o grupo ter conseguido tirar do ar o site, pois isso aconteceu também com grandes bancos, empresas e governos – o mais impactante até agora parece ter sido o bloqueio do site da Agência de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

O mais interessante nessa história é o comunicado divulgado pelos Anonymous contra a Igreja, no qual dizem que a intenção do ataque foi penalizar “a corrupta Igreja Católica Romana e todas as suas emanações”. Vamos analisar essa questão, que, para quem tem algum conhecimento sobre as coisas da Igreja (não é preciso nem ser católico), expõe certa ingenuidade por parte dos Anonymous.

No texto do site do movimento, direcionado à Igreja, o grupo diz o ataque foi uma resposta “às suas doutrinas, liturgias e preceitos absurdos e anacrônicos que sua organização lucrativa propaga e espalha pelo mundo”. O ataque também é atribuído à ação da Igreja durante a Inquisição, à queima de livros, “à escravidão de populações usando como pretexto a missão de evangelização”, à suposta ajuda a “criminosos de guerra nazistas”, ao abuso de crianças, à interferência na vida pública da Itália, às propriedades eclesiais de “bilhões de euros”, à recusa de “práticas e objetos resultantes do progresso como preservativos ou o aborto como um problema clínico a se erradicar”. E para amenizar um pouco eles dizem que “NÃO pretendem atacar a verdadeira religião cristã e a fé pelo mundo, mas a Igreja Apostólica Romana e todas as suas emanações”.

Seria impossível detalhar aqui todas as “respostas” oficiais da Igreja a cada uma dessas acusações, mas é possível encontrá-las por aí na internet. De qualquer forma, vemos que não há nada de novo aqui. Os Anonymous usaram como justificativa para o ataque praticamente todos os problemas da História da Igreja, que naturalmente são muitos porque se trata de uma das instituições mais antigas de nossa sociedade.

O primeiro "Anonymous" era católico

Uma resposta meio geral, e que a Igreja costuma repetir, é que se trata de uma instituição formada por seres humanos e estes são passíveis de erros. Isso não justifica os erros, mas explica porque eles acontecem. É simplesmente impossível que uma entidade tão grande e tão capilarizada tenha o controle sobre a atuação de todos os seus membros. Mesmo assim, a Igreja sobreviveu a tantas baixas e já mais de uma vez reconheceu os erros do passado.

Bem, mas os Anonymous são ingênuos basicamente por cinco motivos.

Primeiro, porque condenam a Igreja de hoje pelos erros que a Igreja do passado cometeu. Embora seja a mesma Igreja, as pessoas que a compõem são outras. Mudaram como mudam as gerações. Seria o mesmo que punir um filho pelos crimes que seu pai ou seu avô cometeram no passado. E não podemos mudar a História. Além disso, ignoram o Concílio Vaticano II, quando muita coisa mudou e deu uma nova cara para a Igreja.

Segundo, porque os erros do presente – como a pedofilia – temos de avaliar como parte de problemas de nossa sociedade como um todo, e não só da Igreja. A pedofilia e os crimes sexuais são um problema mais amplo, em uma sociedade em que o sexo está cada vez mais exposto, a internet é um ambiente de criminalidade sem punição e em que os distúrbios mentais (não sei se é assim que se fala) são muito, muito complexos. E, de novo, os erros de membros da Igreja não representam toda a instituição. As falhas existem e mudanças para corrigi-las ocorrem lentamente. Neste post, já falamos um pouco sobre isso.

Terceiro, porque os Anonymous condenam também coisas sobre a Igreja que não são exatamente erros ou problemas. Uma dessas coisas é o fato de a Igreja ter propriedades. Vale lembrar que as propriedades da Igreja não estão no nome de um único instituto, mas são de várias entidades católicas, a maioria sem fins lucrativos e devidamente documentadas junto aos governos. Há inúmeras dioceses e congregações religiosas, por exemplo. Uma outra coisa que não é um erro propriamente dito são os posicionamentos da Igreja sobre questões de sexualidade, preservativos, aborto, etc. São posições, visões de mundo, das quais podemos discordar ou concordar, mas que são coerentes. Pensar assim não é um crime como a pedofilia, por exemplo.

Arte cristã primitiva

Assim, ao derrubar o site do Vaticano, os Anonymous simplesmente tentam suprimir a Igreja por ter posições diferentes das suas, fazendo exatamente aquilo que condenam na Igreja e no mundo. É como punir um assassinato com pena de morte.

Quarto, porque os Anonymous têm como símbolo a máscara que representa Guy Fawkes (e não do “V de Vingança”) um inglês católico que conspirou contra a coroa britânica no século XVII. Provavelmente muitos hackers não sabem disso.

Enfim, a manifestação dos Anonymous está feita. Talvez tenha faltado um pouco de objetividade dos Anonymous ao justificar o protesto. Querendo abranger tudo, na verdade eles demonstraram um conhecimento superficial sobre as coisas da Igreja, repetindo críticas já conhecidas e muitas vezes respondidas.

Também mostraram a falta de foco do movimento. Isso fica claro quando eles isentam a “verdadeira religião cristã” de seus ataques. Só não dizem de onde pensam que veio essa “verdadeira religião” se não dos primeiros cristãos, que constituíram a Igreja que hoje chamamos de Católica. Esse é o quinto motivo.

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