Entenda o antigo e complicado problema da Igreja Católica na China

Ordenação irregular de Huang Bingzhang, que foi excomungado

Recentemente, o Papa Bento XVI nomeou cardeal o bispo de Hong Kong, John Tong Hon, num gesto que mais uma vez sinalizou a grande preocupação da Igreja Católica com a China. Trata-se de um conflito antigo, que começou com a perseguição dos cristãos católicos na revolução Comunista de 1949, e que voltou a se agravar com ordenações irregulares de bispos nos últimos dois anos.

Vamos explicar essa questão e depois citar algumas falas do novo cardeal chinês. Nesta entrevista ao vaticanista Andrea Tornielli, ele disse que a situação da Igreja Católica na China é “maravilhosa, difícil e possível”.

Oficialmente, estima-se que haja de 12 a 15 milhões de católicos na China, uma minoria no país de 1,4 bilhão de habitantes. O governo chinês obrigou os católicos a romperem suas relações com o Vaticano em 1951 e, seis anos depois, criou uma igreja própria, tida como oficial, e chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês). Desde então, os cristãos na República Popular da China enfrentam o dilema entre seguirem a Igreja Católica Apostólica Romana na clandestinidade ou ceder às exigências do governo e frequentar os rituais da ACCP.

Desde o fim de 2010, a China voltou a ordenar bispos sem a nomeação do Papa. Essa prática havia sido interrompida em 2006. A partir daquele ano, num acordo informal, os bispos ordenados eram aceitos tanto pelo Papa quanto pelo governo. Vale lembrar que todo e qualquer bispo do mundo precisa ser nomeado pelo Papa para depois ser ordenado e aceito pela Igreja de Roma. É claro que, para isso, existem diversos mecanismos de indicação dos bispos, como as nunciaturas apostólicas e a Congregação para os Bispos, pois o Papa não conhece todas milhares de pessoas do clero.

Lei Shuyin também não é reconhecido como bispo de Leshan

Nestes casos irregulares, o sacramento da ordem em si é válido, assim como os sacramentos realizados por estes bispos “ilegais”. Mas a Igreja rejeita o fato de a ordenação ter sido realizada sem a autorização do Papa, pois isso demonstra que aquelas pessoas não estão em sintonia com a Igreja como um todo. Quem participa delas está sujeito à excomunhão.

Tampouco é reconhecida a autoridade do bispo irregular sobre diocese para a qual foi designado pela ACCP. O Vaticano considera essas ordenações uma “grave violação da liberdade e da consciência religiosa”, de modo que as autoridades ofendem “o Santo Padre, a Igreja na China e a Igreja universal (ou seja, Católica)”.

Em carta conciliatória enviada em 2007 à China, Bento XVI disse que a nomeação pelo sucessor de Pedro é uma garantia da unidade dos cristãos. Sinalizou que acha “compreensível” a preocupação do governo, mas deplora a irregularidade. As ordenações irregulares são eventos predominantemente políticos na China. Muitas vezes, bispos fiéis ao Papa são obrigados a comparecer a cerimônias realizadas sob forte esquema de segurança. Alguns bispos estão presos ou foram silenciados.

Neste contexto, o bispo Tong Hon se pronunciou em entrevistas após ser criado cardeal em 20 de fevereiro. Ele considera a situação da Igreja na China “maravilhosa” porque, mesmo com tantas restrições do governo, ela continua crescendo. Em 1949, eram apenas 3 milhões de católicos. A segunda palavra usada por Tong Hon para definir a questão foi “difícil”, por causa do “controle imposto sobre a vida eclesial por parte do governo através da ACCP”. A terceira palavra foi “possível”. Ele diz que, “Deus pode dispor as coisas de modo que as dificuldades também possam, enfim, concorrer para o bem da Igreja. Assim, vemos que, por si só, não é o aumento dos controles que pode apagar a fé. Ao contrário, pode acontecer que o efeito seja o de aumentar a unidade na Igreja”.

O cardeal John Tong Hon, bispo de Hong Kong

Tong Hon explica que prefere ser moderado, paciente e aberto ao diálogo. E pede o mesmo ao governo.

Para vermos como a coisa é complexa, o próprio cardeal participou de uma ordenação episcopal irregular em 1985, quando era sacerdote. O padre escolhido,  Jin Luxian, era seu amigo e pediu que Tong Hon estivesse presente. Depois que o bispo Jin, de Xangai, manifestou sua fidelidade à Igreja de Roma, a ordenação acabou sendo reconhecida, em 1992.

Nesta outra entrevista, ao Vatican Insider, o cardeal de Hong Kong defendeu uma formação melhor para os padres, bispos e até para os leigos na China. Assim, aumentam as chances de que os bispos nomeados pelo governo chinês sejam bons católicos, que possam a vir a ser reconhecidos pela Santa Sé por sua verdadeira capacidade – como ocorreu com Jin Luxian e tantos outros.

Ele recorda, ainda, que a Igreja Católica estimula os fiéis ao patriotismo e ao amor à nação, de modo que não representa um risco para as autoridades políticas da China. “Gostaria que o governo tivesse confiança nos fiéis católicos, de modo que pudessem gozar realmente da plena liberdade e que possam oferecer uma contribuição maior à sua nação.”

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Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Outras crenças, Vaticano

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