O problema da pedofilia e a crise da Igreja Católica na Irlanda

Primeiro-ministro irlandês é um crítico feroz da Igreja

Muito se falou sobre os escândalos de pedofilia promovidos por membros da Igreja Católica na Irlanda, mas como ficou a situação por lá?

O Vaticano divulgou ontem um relatório que resume sua análise sobre os principais problemas da Igreja no país, observados após uma visita apostólica – investigação aprofundada feita por diversas equipes do Vaticano, por ordem do Papa Bento XVI. O objetivo é “assistir a Igreja local em seu caminho de renovação”, segundo o Papa.

O site Catholic Culture publicou um bom texto sobre essa questão, que nos inspirou a tentar explicar neste post como anda a crise da Igreja Católica na Irlanda.

Acredita-se que entre 1930 e 1990, milhares de crianças tenham sido vítimas de abuso sexual por membros da Igreja na Irlanda. Foi um fenômeno aparentemente inexplicável. As evidências mostram que muitos bispos ou superiores religiosos fracassaram no combate à pedofilia, muitas vezes protegendo padres acusados, acobertando sinais claros de má conduta ou fingindo que não viram. Há rumores de que autoridades do Vaticano tenham estimulado essa atitude dos bispos, embora não se tenham nomes.

Conforme recorda o Catholic Culture, em carta enviada à Igreja irlandesa em 2009, o Papa Bento XVI expressou “horror” diante dessa questão e do que diz respeito “a esses atos pecaminosos e criminosos que foram a raiz dessa crise particular”. Por isso, vários bispos e padres irlandeses foram afastados ou renunciaram – mas isso só ocorreu infelizmente depois do escândalo.

Também foi o problema da pedofilia que provocou o fechamento da embaixada da Irlanda no Vaticano, como uma forma de punição ao que considerou uma fraca resposta da Santa Sé (embora o governo não reconheça isso formalmente e diga que foi um corte de gastos). O primeiro-ministro irlandês, Enda Kennyfez uma crítica feroz à Igreja de Roma, dizendo que ela estava mais preocupada com sua reputação do que com a solução do problema dos abusos sexuais.

De qualquer forma, o problema está sendo investigado e, como indica o relatório recém-divulgado, a Igreja atribuiu a crise principalmente à má formação dos sacerdotes e à falta de regras de conduta. Isso ocorre tanto nos seminários quanto nas ordens religiosas, segundo o relatório do Vaticano.

Para melhorar tal aspecto, diz o texto, é necessário “garantir que a formação fornecida seja enraizada na autêntica identidade sacerdotal, oferecendo uma preparação sistemática para a vida de celibato sacerdotal, mantendo um equilíbrio apropriado entre as dimensões humana, espiritual e eclesial”. Essa ideia resume todas as outras.

Mas, além disso, propõe-se maior governança dos bispos nos seminários; critérios mais rigorosos para admissão dos candidatos ao sacerdócio; maior preocupação com a formação intelectual, em conformidade com o Magistério da Igreja; garantir que os prédios de seminários sejam exclusivos para os seminaristas, para que a “identidade sacerdotal” seja bem fundada; reavaliar os programas pastorais, dedicando maior preocupação com a preparação dos sacramentos e das orações.

Conforme o documento, os superiores de congregações religiosas devem se aliar aos bispos nessa reestruturação, “revitalizando os instrumentos de diálogo e comunhão”. Podemos dizer que essa crítica se deve ao fato de que, em muitos lugares, a relação entre os superiores religiosos e os bispos é meramente burocrática, para nomeações e autorizações formais, havendo pouca interação e identificação entre eles. Na prática acabam atuando de forma independente, o que pode causar problemas de falta de supervisão ou de autoridade.

Em âmbito pastoral, recomenda-se também uma maior atenção às vítimas de abuso sexual e às suas famílias. Nesse sentido, o relatório elogia iniciativas com a Câmara Nacional para Proteção Infantil na Igreja Católica (NBSCCC), organismo autônomo criado em 2006 pelos católicos irlandeses para promover políticas que impeçam os abusos sexuais. Também importante: o relatório pede o desenvolvimento de normas para lidar com casos em que os padres são claramente culpados, mas não condenados pelas autoridades civis; e também para reabilitar o ministério de padres falsamente acusados.

Cardeal irlandês Seán Brady, de Armagh

Grupos de defesa das vítimas de abuso sexual se pronunciaram afirmando que o relatório não é suficiente – segundo o próprio texto do Catholic Culture. Porta-vozes das vítimas dizem que o Vaticano é responsável por criar uma cultura de proteção aos membros do clero.

De fato, a resposta prática ainda é insuficiente. Mas o documento mostra que há uma preocupação real da Igreja com relação à pedofilia e o reconhecimento (ainda que tardio) de que houve erros graves na forma como lidou com problema. Em coletiva de imprensa em Dublin, o cardeal Seán Brady, que apresentou o relatório, disse que a Igreja “expressa verdadeira tristeza e pesar” e que faz “um apelo sincero de perdão junto às vítimas e a Deus, por esses terríveis crimes e pecados”.

Vale lembrar que os abusos sexuais, de qualquer tipo, são considerados crimes há pouco tempo na maioria dos países – em alguns sequer há legislação específica que atenda a esses casos -, o que não justifica a falta grave, mas dificulta o combate e a condenação dos criminosos, que estão em todos os lugares, não só nas igrejas.

Fato é que, como disse o Papa João Paulo II, citado no relatório dos observadores do Vaticano, “não há lugar no sacerdócio e na vida religiosa para aqueles que desejam prejudicar os jovens”. Agora, avança-se lentamente para colocar isso em prática.

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1 comentário

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano

Uma resposta para “O problema da pedofilia e a crise da Igreja Católica na Irlanda

  1. valentim

    melhor o silencio…, e basta.

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