O Papa Bento XVI visita o México e paga uma dívida de sete anos

Bento XVI chega ao México, recebido pelo presidente Felipe Calderón e pela a primeira-dama Margarita

Bento XVI estava em dívida com os mexicanos. Em sete anos de pontificado, ele foi duas vezes à África, esteve no Brasil, nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Terra Santa, na Turquia, em diversos países da Europa (Alemanha, França, Portugal, Espanha, Polônia, Áustria, República Tcheca, Malta, Chipre, Reino Unido, Croácia) – não necessariamente nesta mesma ordem – e até à Austrália ele foi. Olha que a Austrália fica bem longe. Isso tudo sem contar as viagens dentro da Itália, que foram quase 30.

Mas o Papa Ratzinger ainda não tinha  dado nem um pulinho no segundo país com maior número de católicos no mundo, depois do Brasil: o México. Se todos temos a obrigação de fazer algumas coisas antes de morrer, podemos dizer que visitar o México estava na lista do Papa.

Agora, em sua 23ª “viagem apostólica”, o pontífice paga a dívida e cumpre uma tarefa que foi adiada por tempo demais. Serão quase três dias no México e dois em Cuba. Mas o mais importante aí não é tanto o fato de Bento XVI ir ao México, e sim, por que resolveu fazer essa viagem justo agora. São três os motivos principais:

O primeiro, meio óbvio, é pastoral. Trata-se do enfraquecimento dos valores cristãos em parte da sociedade mexicana. Não só no México, mas também em outros países da América Latina, a Igreja Católica vem perdendo influência junto aos governos e à sociedade como um todo. Em muitos lugares, as tradições perdem espaço para a globalização,  o consumo e os tais “valores mundanos” – deixar Deus de lado e cuidar só das coisas práticas da vida. Isso inclui o enfraquecimento das religiões tradicionais.

De acordo com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, um dos objetivos da visita de Bento XVI é “refundar” o México nos valores cristãos, que constituem “o DNA do povo mexicano”. Dentro desse objetivo, segundo Bertone, o Papa falará aos jovens, estimulando-os “a não se deixar seduzir pelo dinheiro fácil”.

João Paulo II esteve cinco vezes no México

O segundo motivo é político. É bom para a Igreja que o México continue sendo um país de maioria católica. E, muito perto das eleições federais no México, que serão em julho deste ano, é importante para a Santa Sé mostrar que está aberta a manter relações diplomáticas com qualquer governo, qualquer partido, mesmo que seja um governo mais distante dos cristãos.

Bento XVI quer mostrar que a Igreja continuará presente ali, mantendo sua firme atuação, ainda que o partido do presidente Felipe Calderón (PAN, que é pró-católico) perca a disputa. Nesse sentido, o Papa deve reafirmar, entre outras coisas, a importância da “família tradicional” e da “valorização da vida desde a concepção até a morte natural”.

O terceiro motivo é social e envolve a grave onda de violência e o narcotráfico no México, que atingiu níveis assustadores nos últimos meses. Mais de 50 mil pessoas morreram em cinco anos e meio, segundo o Los Angeles Times. Disputas entre cartéis de drogas acabaram com a paz de boa parte da população mexicana e transformaram regiões do país em zonas de guerra.

Não é à toa o fato de que o Papa vai direto para o Estado de Guanajuato. Ali, a violência é intensa e os cartéis são mais fortes . As principais gangues prometeram manter a paz durante a visita do Papa ao país. Bento XVI não vai à Cidade do México por causa da altitude elevada, que pode ser nociva à sua saúde (que está boa, mas é frágil, segundo o Vaticano – aliás, pela primeira vez ele apareceu publicamente usando bengala).

Também há relatos de envolvimento do tráfico de drogas com as comunidades paroquiais no México, seja por meio de doações, seja por meio de interferências nas atividades pastorais. Bento XVI pediu o fim dessas relações desde 2005, quando assumiu. Mas pouco se avançou nisso.

No avião rumo ao México ele afirmou que é preciso “desmascarar o mal e a mentira”. E acrescentou que “os problemas do narcotráfico e da violência pesam sobre a Igreja de um país com 80% de católicos”.

Depois do México, o Papa segue para Cuba, onde terá compromissos mais tensos, embora o governo tenha dito que o pontífice será ouvido “com respeito”. As relações entre o governo socialista de Cuba e a Igreja Católica melhoraram com João Paulo II, mas permanecem delicadas. Falaremos dessa outra visita em um novo post.

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Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano

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