O segundo Papa a visitar Cuba busca as mesmas coisas que o primeiro

Bento XVI é recebido pelo presidente Raúl Castro na chegada a Cuba

Quando o Papa João Paulo II visitou Cuba, em janeiro de 1998, pediu que a ilha se abrisse para o mundo e que o mundo se aproximasse da ilha.

Condenou o embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba e seus efeitos adversos sobre os mais pobres. Em âmbito religioso, ajudou os cubanos católicos a fortalecerem sua fé. Agora, mais de 14 anos depois, um Papa volta a Cuba e o que busca? Nada mais do que maior liberdade para o povo cubano, abertura comercial e reafirmação da fé no país, que oficialmente permanece ateu.

Naturalmente, a visita de João Paulo II teve um impacto muito maior do que a de Bento XVI (que chegou hoje a Cuba, onde ficará por três dias). O Papa Wojtyła foi o primeiro a pisar em solo cubano, país que se fechou para as religiões desde a revolução socialista de 1959. Convidando o Papa, Fidel Castro, então presidente cubano, procurou sinalizar uma abertura um pouco maior para as coisas que vinham de fora. E, no âmbito religioso, foi um passo sem igual para as liberdades individuais. Hoje, em Cuba, é permitido ter uma religião (a santería, de origem africana, também é muito forte).

Fidel Castro e João Paulo II, em 1998

Mas Bento XVI chega em momento igualmente delicado. Fidel Castro já não é mais o presidente e passou o bastão para o irmão, Raúl Castro, que desde sua posse, em 2008, vem realizando reformas graduais, permitindo uma lenta e controlada – mas importante – abertura da empobrecida ilha em termos econômicos e políticos. Para Raúl Castro, a Igreja pode ser um bom meio de trazer investimentos estrangeiros para o país. E, para a Igreja Católica, uma boa relação com Cuba permitirá a abertura de mais escolas, centros culturais católicos, igrejas e seminários.

Quando entrou no avião rumo ao México (por onde passou antes), Bento XVI afirmou estar “convencido de que, neste momento de particular importância para a História, Cuba já está olhando para o futuro”. Chegando à ilha, o Papa Ratzinger disse que aquela visita de João Paulo II foi um sopro de “ar fresco”, que deu novas forças à Igreja em Cuba, criando uma nova relação entre Igreja e Estado, um “novo espírito de cooperação e confiança”.

O cardeal cubano Jaime Ortega

Embora essa relação seja bastante diplomática e aparentemente amigável, o Papa faz duras críticas ao modelo cubano. Bento XVI declarou que “não podemos mais continuar na mesma direção cultural e moral que causou a dolorosa situação com que muitos sofrem. O progresso verdadeiro tem necessidade de uma ética que coloque no centro o ser humano e leve em conta suas exigências mais autênticas”. E, durante a viagem ao México, já havia adiantado: “Está evidente que a ideologia marxista como foi concebida já não corresponde à realidade.” A ideia, portanto, é continuar pressionando o governo.

Assim como no México, Bento XVI quer reconstituir as bases da Igreja em Cuba. Estima-se que, dos 11,2 milhões de cubanos, 60% sejam batizados. Mas menos de 500 mil vivenciam o catolicismo frequentando missas, por exemplo. Por outro lado, a Igreja Católica se fortaleceu nos últimos anos, liderada regionalmente pelo Cardeal Jaime Ortega, no governo de Raúl Castro. Ortega tem sido um dos principais mediadores entre a oposição ao regime e o governo. Foi por meio dele que 130 prisioneiros dissidentes foram libertados, dois anos atrás.

Há uma expectativa muito grande para a visita de Bento XVI, justamente porque a de João Paulo II foi um marco relevante para o povo cubano. Os críticos da Igreja no país dizem que a atuação política dos católicos em Cuba ainda é fraca demais e pouco incisiva.

Mas, aparentemente, a Igreja teme elevar demais o tom e perder o que já foi conquistado. Lembremos o que disse Bento XVI, quando criticava o marxismo: “Temos de encontrar novos modelos, com paciência e de forma construtiva.”

Atualizado em 27/03/2012, às 7h41

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Arquivado em Cristianismo, Igreja, Igreja no Mundo, Vaticano

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