Arquivo do mês: maio 2012

Bento XVI fala pela primeira vez dos VatiLeaks e se mostra entristecido

O Papa Bento XVI falou hoje pela primeira vez sobre o escândalo de vazamento de documentos secretos do Vaticano (“VatiLeaks”) e manifestou grande decepção com o episódio.

“Os eventos recentes envolvendo a Cúria e meus colaboradores trouxeram tristeza ao meu coração“, disse, em audiência geral das quartas-feiras. “No entanto, nunca perdi minha firme certeza de que, apesar da fraqueza do homem, apesar das dificuldades e desafios, a Igreja é guiada pelo Espírito Santo e o Senhor nunca lhe deixará faltar a ajuda de que precisa em sua jornada”, acrescentou.

Pessoas próximas ao sumo-pontífice já haviam revelado que ele estava bastante chateado com o furto de documentos e correspondências que vem ocorrendo nas últimas semanas – você pode lembrar do caso dos VatiLeaks clicando aqui. Recentemente, descobriu-se que o ajudante de quarto Paolo Gabriele, que trabalhava como mordomo na residência papal, foi um dos responsáveis pelo furto de documentos.

O motivo dessa tristeza de Bento XVI, portanto, não é somente o fato de os documentos terem vazado, mas também porque algumas pessoas próximas a ele traíram sua confiança em nome de algum objetivo que ainda não se sabe qual é. Além disso, a impressão geral é de que tem alguém armando contra a ordem em seu pontificado.

Entretanto, em sua fala, o Papa criticou o excesso de especulações sobre o problema e disse que alguns meios de comunicação “amplificaram as conjecturas de forma gratuita”, indo além dos fatos e passando uma imagem da Santa Sé que não corresponde à realidade. “Quero, por isso, reiterar minha confiança e meu encorajamento aos meus colaboradores mais próximos e a todos aqueles que, todos os dias, com fidelidade, espírito de sacrifício e no silêncio, ajudam-me no cumprimento do meu ministério.”

Dom Angelo Becciu, o sostituto

SOSTITUTOTambém hoje, o serviço de informações do Vaticano distribuiu uma entrevista sobre o mesmo tema com o Vice-Secretário de Estado do Vaticano (o chamado sostituto, um dos administradores do Vaticano), Arcebispo Angelo Becciu, publicada pelo jornal L’Osservatore Romano. Dom Becciu disse que o Papa está chateado porque o fato dos vazamentos é brutal e violou a liberdade de pensamento dos correspondentes envolvidos.

“Bento XVI viu publicadas cartas roubadas da sua casa, cartas que não são simples correspondências privadas, mas sim informações, reflexões, manifestações de consciência, e até demonstrações que recebeu unicamente em razão do próprio ministério”, explicou o arcebispo, chamando o roubo de uma “violência súbita”. Portanto, para a Secretaria de Estado, a publicação das cartas do Papa é “um ato imoral de inédita gravidade“.

Segundo Becciu, não se pode justificar a publicação de tais cartas com base em critérios de limpeza, transparência ou reforma da Igreja. “Não pode haver renovação que pisoteia a lei moral, talvez com base no princípio de que os fins justificam os meios, um princípio que também não é cristão.”

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VatiLeaks: mordomo do Papa vai preso, mas isto não é um romance policial

O mordomo está no banco da frente. Atrás, o secretário pessoal do Papa, Monsenhor Georg Gänswein, e Bento XVI

As notícias caminham mais rapidamente do que o autor deste blog: em dois dias que precisei ficar fora, muita coisa aconteceu no desenrolar do caso VatiLeaks (que, se você não sabe o que é, pode entender clicando aqui).

Ontem, um mordomo do Papa Bento XVI foi preso pela polícia do Vaticano “em posse ilegal de documentos reservados da Santa Sé”. Acredita-se que ele seja responsável pelo vazamento de diversos documentos sigilosos que envolvem o sumo-pontífice, os chamados “VatiLeaks”.

É inevitável a comparação do caso com um romance policial em que muitas vezes é o mordomo o culpado de um crime. Muitas piadinhas já foram feitas nos sites de notícias por aí. Mas vamos olhar para o problema com mais frieza e lembrar que a realidade é muito mais complexa do que gostaríamos (como venho repetindo neste blog).

Trata-se de Paolo Gabriele, de 42 anos, que trabalhava na residência pessoal do Papa desde 2006 e que, por isso, tinha acesso quase irrestrito ao pontífice. Oficialmente, parece que ele era um “ajudante de quarto” e entre suas funções estava auxiliar o Papa a se vestir – esta reportagem detalha. A notícia da prisão do mordomo teria deixado Bento XVI “muito entristecido”.

Segundo as agências de notícias, Gabriele já vem sendo chamado no Vaticano de “Il Corvo” (O Corvo) pela suposta traição ao sucessor de Pedro. De acordo com o porta-voz do Vaticano, Pe. Frederico Lombardi, a prisão de Gabriele é resultado do trabalho da comissão de cardeais criada pelo Papa Bento XVI para investigar o caso.

Entretanto, colocar a culpa apenas no mordomo parece simplificar demais o problema. Possivelmente, Gabriele era um interceptor de documentos, tirando-os da residência papal e entregando-os a terceiros – principalmente à imprensa italiana – mas é difícil pensar que fazia isso sozinho. E mesmo que fizesse, com que objetivo? O que o mordomo do Papa ganharia publicando documentos sigilosos que revelam discussões sobre diversos assuntos, mas cujo conteúdo em nenhum momento foi bombástico?

O Arcebispo Viganò

Certamente, Gabriele não cometeu esses crimes por si só. Muita gente já está dizendo que ele é apenas um “bode expiatório“, alguém escolhido para levar toda a culpa. Afinal, a prisão do mordomo mostra que algo está sendo feito para resolver o problema.

O importante de se chegar a Gabriele é tentar tirar dele qual é o objetivo do plano. O que até agora não se descobriu é o porquê do vazamento de documentos, que em si não são muito reveladores ou surpreendentes. O mais intrigante talvez tenha sido o primeiro deles, uma carta enviada ao Papa pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, nas quais reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o Secretário de Estado. Os outros tratam de questões talvez rotineiras, como o caso do Pe. Maciel Marçal, acusado de abusos sexuais, ou relatórios que descrevem o estilo excêntrico do ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, por exemplo.

O jornalista Gianluigi Nuzzi, que publica vários documentos no livro “Sua Santità”, afirmou que seus informantes sentem muito por terem traído a confiança do Papa, mas querem “expulsar os mercadores do templo”, numa referência ao episódio bíblico em que Jesus se revolta com a presença de comerciantes no templo de Jerusalém. Se for só isso mesmo, a atitude de Gabriele é nobre – embora não deixe de ser criminosa, pois foram violados a privacidade e o sigilo de correspondência do Papa e de outras pessoas.

Porém, é de se duvidar que seja só isso. É bem possível que haja intrigas políticas nesse meio. Alguns acreditam que os VatiLeaks já são uma preparação do terreno para o próximo conclave (reunião de cardeais que elege o novo Papa), buscando enfraquecer o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, e outros que atuam na cúria romana.

A parte boa dessa história é que, aos poucos, o Vaticano tende a caminhar para uma transparência maior, ao menos em algumas questões. Sempre haverá documentos sigilosos, todos os governos os têm, até mesmo as empresas e, enfim, as pessoas têm segredos que devem ser  preservados. Mas seria mais fácil lidar com alguns problemas se houvesse maior transparência.

Ettore Tedeschi, agora ex-presidente do Banco do Vaticano

Um exemplo é a transparência financeira. Um dos maiores feitos administrativos do pontificado de Bento XVI é a lei de transparência financeira, que busca alinhar o Vaticano aos padrões internacionais. Falamos sobre ela neste post.

E mais coisas vêm sendo feitas nesse sentido. Também nesta semana, foi demitido o presidente do Banco do Vaticano (que oficialmente se chama Instituto para as Obras Religiosas, IOR), Ettore Gotti Tedeschi. Além de ser suspeito de praticar lavagem de dinheiro, ele não vinha realizando com eficiência a função de aumentar a transparência do banco.

Enfim, aos poucos as coisas caminham para um rumo melhor para a Igreja Católica, ainda que aos trancos e barrancos. Só não dá para achar que “a culpa é do mordomo” e que a história termina aí. Na verdade, esse romance policial está apenas em suas primeiras páginas.

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Mais documentos secretos vazam e ‘VatiLeaks’ começa a irritar o Vaticano

O jornalista Gianluigi Nuzzi

Uma nova onda de vazamentos de documentos sigilosos mexeu com o Vaticano nesta semana, em mais um capítulo da novela sem precedentes que vem sendo chamada de “VatiLeaks” – uma referência ao site Wikileaks, que divulgava documentos e arquivos sigilosos de vários governos e embaixadas do mundo.

Desta vez, notas, relatórios e cartas destinados ao Papa Bento XVI ou escritos por ele foram publicadas pelo jornalista Gianluigi Nuzzi no livro “Sua Santità”. E o pessoal do Vaticano ficou aparentemente mais irritado agora do que nas outras vezes. A sensação é de que eles estão achando que isso já foi longe demais.

Vários documentos foram vazados recentemente, por etapas, e até o momento não se sabe ao certo o motivo. O primeiro deles foi uma carta enviada ao Papa pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, nas quais reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o Secretário de Estado. Para recordar, recomendo o nosso post “Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano”.

Não lemos o livro de Nuzzi, mas no lançamento do livro ele afirmou quehá uma vontade de limpeza” no Vaticano e por isso seus  informantes lhe repassaram documentos. Ele acrescentou que se trata apenas de um trabalho investigativo e de “documentação”, pois seu livro não é “contra a Igreja, nem a fé, nem o Santo Padre”. Ele disse, ainda, que todos os seus informantes “confiam no Santo Padre” e que por isso “sentem ter violado a obrigação de manter segredo”, mas querem “expulsar os mercadores do templo”.

Até o lançamento do livro de Nuzzi, que também publicou outros documentos vazados no jornal italiano Libero, o Vaticano vinha respondendo mais com ações do que com palavras. No fim de abril, o Papa criou uma comissão de cardeais para investigar os vazamentos de documentos sigilosos. O Vaticano também buscou a Justiça para protestar contra a publicação de dados secretos.

No entanto, o livro mostrou que o problema é maior, pelo simples fato de que os documentos não param de vazar.  O mais grave dessa história toda não é tanto o conteúdo dos vazamentos, mas sim o fato de tais registros terem vazado. Agora, revelou-se por exemplo o conteúdo das conversas de um almoço do Papa com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, além de outras discussões, que não vamos detalhar aqui. Há relatórios do Vaticano sobre políticos e acontecimentos, destinados a Bento XVI.

Em nota, a Santa Sé repudiou a divulgação de informações sigilosas e disse que vai tomar as providências legais para que o livro de Nuzzi saia de circulação. “A nova publicação de documentos da Santa Sé e de documentos privados do Santo Padre não se apresenta mais como uma discutível – e obviamente difamatória – iniciativa jornalística, mas assume claramente os caráteres de um ato criminoso“, afirmou, acrescentando que foi violado o direito pessoal de privacidade do Papa e de seus colaboradores, assim como a liberdade de correspondência.

A Santa Sé dará “os passos oportunos a fim de que os autores do furto, da receptação e da divulgação de notícias secretas, além do uso comercial de documentos privados, obtidos e retidos ilegitimamente , respondam por seus atos perante a Justiça”. O Vaticano deve, inclusive, pedir a colaboração da Itália para impedir a disseminação de documentos, já que o livro de Nuzzi e a imprensa italiana são os principais divulgadores.

Cardeal Tarcisio Bertone, possível alvo dos VatiLeaks

Até agora, podemos tirar algumas conclusões. A primeira delas é a de que alguém está furtando ou interceptando documentos dentro do Vaticano e levando a público. E quem faz isso, faz com algum objetivo, que até o momento não se sabe qual é – talvez seja prejudicar o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano. De qualquer forma, o vaticanista Andrea Tornielli duvida que tudo seja apenas uma forma de pedir mais “transparência”.

A segunda é a de que a comissão de cardeais recém-implantada ainda está longe de chegar a algum resultado concreto sobre quem é que está fazendo isso. A terceira é a de que o Vaticano ainda precisa avançar muito em transparência e no cuidado dos documentos sigilosos para evitar que novos vazamentos ocorram. Será que ainda tem mais coisa para ser divulgada nessa série?

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Quem será o próximo Papa? Veja alguns nomes de possíveis ‘papáveis’

Algum tempo atrás, o Papa Bento XVI reconheceu que, aos 85 anos de idade, já está “no último trecho da viagem” de sua vida.

Por isso, embora ele esteja com boa saúde, não é crime ou desrespeito começarmos a pensar em quem poderia ser o próximo “sucessor de Pedro”. Neste post, vamos olhar para o cenário atual de “papáveis” sem compromisso nem torcida, com a ajuda do renomado jornalista americano John Allen Jr.

Allen publicou uma lista dos nomes mais citados quando o assunto é “quem será o próximo Papa?”. O vaticanista já avisa que esses levantamentos são falíveis e, portanto, devemos levá-los em conta apenas como “aquilo que se ouviria nas mesas de jantar em Roma”. Para quem lê bem em inglês recomendo que vá ao blog de John Allen clicando aqui.

Ele fez uma espécie de consulta a observadores do Vaticano – jornalistas, diplomatas, acadêmicos, religiosos – e chegou a 12 nomes de eventuais candidatos ao papado. Entre as “possibilidades”, há um brasileiro. Mas antes de resumir a lista de Allen, cabe questionar o que se espera de um Papa? São quatro pontos principais a serem avaliados pelos cardeais num conclave:

1) A experiência pastoral e o apego ao ensinamento teológico da Igreja, isto é, a essência do que é ser o “pastor” do rebanho, afinal, antes de mais nada o Papa é um líder religioso; 2) o caráter administrativo, para saber lidar com o funcionamento do Vaticano, fazer nomeações ou, pelo menos, saber delegar; 3) o caráter político, isto é, saber mediar conflitos e, ao tomar decisões, evitar desagradar partes envolvidas; 4) avaliando o “conjunto da obra”, os cardeais devem pensar no que cada um representaria em termos de transição e evolução ante os Papas anteriores e também no contexto histórico atual.

Se você não sabe como funciona a eleição do Papa, recomendo que clique aqui. Pois bem, vamos à pesquisa de John Allen:

Cardeal Scola

TRÊS FAVORITOS – Eis os “front-runners”: Cardeal Angelo Scola, Arcebispo de Milão, italiano de 70 anos; Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congreação para os Bispos, canadense de 67 anos; e Cardeal Leonardo Sandri, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, argentino de 68 anos.

O Cardeal Scola é especialista em antropologia teológica e muito alinhado ao Papa Bento XVI, o que é uma qualidade. Além disso, é mais extrovertido e, segundo Allen, mais otimista. Fãs dizem que Scola mistura a autoconfiança de João Paulo II com a intelectualidade de Bento XVI. Contra Scola está o fato de ser italiano, pois alguns cardeais querem renovar. Ele também nunca ocupou um cargo no Vaticano. Além disso, representaria o segundo pontificado consecutivo de intensos ensinamentos teológicos, o que poderia ser considerado um excesso.

Cardeal Ouellet

Cardeal Ouellet é outro discípulo intelectual de Bento XVI. Embora seja canadense, já viveu também na Áustria, na Alemanha e na Colômbia, o que é uma qualidade, além já ter trabalhado no Vaticano e como Arcebispo de Quebec. Seria o primeiro Papa das Américas. Fãs dizem que ele é humilde e um grande professor de fé. Porém, alguns dizem que ele é parecido demais com Bento XVI.

Cardeal Sandri

Cardeal Sandri tem a vantagem de ser de uma família italiana na Argentina, um país em desenvolvimento. Durante cinco anos trabalhou como sostituto no Vaticano, uma espécie de administrador-geral, função em que se saiu bem. Portanto, conhece bem o Vaticano, mas pode ter sua imagem “contaminada” por erros da gestão de que participou. Ele é teologicamente alinhado, mas moderado em questões políticas – foi diplomata nos EUA. Alguns acreditam que ele seria um ótimo Secretário de Estado, e não Papa. Além disso, seu cargo atual não é de grande destaque.

Cardeal Scherer

POSSIBILIDADES – Segundo Allen, estes nomes também são muito mencionados: Cardeal Péter Erdő, Arcebispo de Budapeste, húngaro de 59 anos; Cardeal Angelo Bagnasco, Arcebispo de Gênova, suíço de 69 anos; Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, brasileiro de 62 anos.

Vamos começar pelo brasileiro. O Cardeal Scherer lidera uma importante arquidiocese da América Latina, o que lhe atribui grande visibilidade. Ele tem ampla experiência em Roma, onde viveu por sete anos. Outra qualidade é o fato de ser alinhado às tradições, mas dialogar com novos movimentos. Porém, os brasileiros em geral, segundo Allen, costumam ser vistos em Roma como “caras legais”, mas não firmes o suficiente para o papado. Outra dúvida a ser levantada é se Dom Odilo vem respondendo à altura ao crescimento do pentencostalismo e do secularismo no Brasil. Contra ele pesa também o fato de ser de família alemã o que, para alguns, representaria o segundo Papa alemão consecutivo.

Cardeal Erdő

Cardeal Erdő foi eleito duas vezes presidente da Conferência Episcopal Europeia, o que lhe atribui razoável vantagem porque quase metade dos cardeias é europeia. Ele também tem boas relações na África. Segundo Allen, ele é considerado tradicionalista na doutrina, mas bom em estabelecer consensos entre diferentes correntes. Contra ele pesa o fato de ser bastante jovem, o que consistiria num papado talvez longo demais. Além disso, é especialista em direito canônico, o que para alguns limita um pouco sua visão pastoral.

Cardeal Bagnasco

Cardeal Bagnasco é visto como um líder capaz na Itália, com habilidades para lidar com questões políticas e com a mídia. Pode favorecê-lo o fato de às vezes discordar do atual Secretário de Estado, Cardeal Tarciso Bertone, pois outros cardeais enxergam muitas fraquezas em Bertone. Porém, Bagnasco é muito conhecido apenas na Itália e nunca trabalhou fora de lá, o que pode limitar sua visão de mundo e sua visibilidade.

CHUTES – John Allen menciona outros cinco nomes menos prováveis, tidos como “chutes a longa distância”: Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, italiano de 69 anos; Cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho para Justiça e Paz, ganês de 63 anos; Cardeal Robert Sarah, Presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”, guineense de 66 anos; Cardeal Timothy Dolan, Arcebispo de Nova York, americano de 62 anos; Arcebispo Luis Antonio Tagle, de Manilla, filipino de 54 anos.

Cardeal Ravasi

Cardeal Ravasi é visto como um intelectual brilhante em diversas áreas, como teologia, arte, ciências e filosofia, e atua de forma eficiente tanto no meio acadêmico quanto na imprensa popular, aproximando-se dos não católicos. É considerado gentil, afável, engraçado. Mas não tem grande base de apoio na Itália, onde pesa o lado político. Além disso, pode ser visto como europeu demais.

Cardeais Turkson e Sarah

Os africanos Cardeais Turkson e Sarah são as principais apostas para um Papa africano. Ambos trabalharam em grandes dioceses e hoje ocupam cargos importantes no Vaticano. Turkson tem mais experiência pastoral, mas Sarah tem mais laços internos no Vaticano e atua nos bastidores. Porém, os dois dividiriam os votos de cardeais que apostam na África. Além disso, Turkson não teve chances ainda de mostrar se é bom governador e, quanto a Sarah, falta a certeza de que ele se daria bem com toda a publicidade que exige a missão de um Papa.

Cardeal Dolan

Cardeal Dolan ganhou muito destaque nos últimos meses por causa das desavenças com o governo de Barack Obama, nos Estados Unidos, e foi o centro das atenções no último consistório de cardeais. O discurso que fez diante do Papa Bento XVI sobre a “Nova Evangelização” o tornou uma estrela, segundo Allen. Ele tem um estilo de governar pouco rigoroso, mas confiante e bem-humorado. Em Roma, diz-se que ele é o primeiro americano “papabile“. Porém, Dolan nunca trabalhou no Vaticano, seu italiano não é fluente e não se sabe se ele conhece a realidade da Igreja fora do Ocidente. Dolan pode ser visto como extravagante demais para o papado.

Arcebispo Tagle

Arcebispo Tagle é um verdadeiro chute, pois sequer é cardeal (ainda). Isso pode mudar no ano que vem, pois ele tem ganhado bastante destaque no Oriente. Entre suas qualidades estão os fatos de ter posições fortes e saber se comunicar muito bem. Um comentarista filipino disse que Tagle tem “a mente de um teólogo, a alma de um músico e o coração de um pastor”. Porém, além de não ser cardeal, ele nunca morou em Roma e não se sabe se ele conhece a realidade do Ocidente. Tagle também pode ser jovem demais por enquanto: com apenas 54 anos, um eventual papado seu poderia durar mais de 30.

Esse é o cenário atual. Mas, com o passar do tempo, é claro que tudo pode mudar. E vale lembrar que muitos dos Papas eleitos no passado foram azarões, verdadeiras zebras. O mais recente foi um tal de Karol Wojtyła, polonês cujo nome os outros cardeais mal sabiam pronunciar direito.

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O trabalho não deve ser um obstáculo para a família, diz Bento XVI

Bento XVI é reconhecido por aí como um dos Papas mais atentos aos problemas práticos de seu tempo. Ele, que de forma recorrente menciona nos discursos temas como o meio ambiente e a economia, hoje falou rapidamente de uma situação muito particular, mas ao mesmo tempo muito comum: o conflito entre o trabalho e a família.

Na audiência geral desta quarta-feira, referindo-se ao Dia Internacional das Famílias observado ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU), cujo tema foi trabalho e família, o Papa alertou que “o trabalho não deve ser um obstáculo para a família, mas, em vez disso, deve sustentá-la e uni-la”.

Segundo Bento XVI, o trabalho deve ajudar a família “a ser aberta à vida e a entrar em uma relação com a sociedade e a Igreja”. Para ele, a relação entre trabalho e família se perde quando há excessivas demandas do trabalho.

O pontífice defendeu a preservação do domingo como o dia de ficar sem trabalhar, pois o trabalho tem de ser compatível com os planos de Deus.

Como na tradição judaica – que respeita o sábado, ou “Shabbat” -, os cristãos católicos guardam o domingo como “o Dia do Senhor”, pois acreditam que a ressurreição de Jesus Cristo tenha ocorrido num domingo. Bento XVI recomendou, portanto, que o domingo seja “uma Páscoa semanal, seja um dia de descanso e uma ocasião para fortalecer os laços familiares”.

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Vaticano e Benetton fazem as pazes após fotomontagem com o Papa

O Vaticano retirou hoje o processo contra a famosa marca italiana de roupas Benetton por usar indevidamente a imagem do Papa Bento XVI em uma campanha publicitária no ano passado. Vamos recordar o caso neste post e ver o que acontece agora.

Em um dos anúncios da Unhate Foundation (“unhate” em inglês quer dizer “não ódio” ou “pare de odiar”) divulgados em novembro de 2011, o Benetton Group colocou Bento XVI beijando a boca do xeque egípcio Ahmad al Tayyib, presidente da Universidade Al Azhar, que rompeu relações com a Santa Sé. Na época, o Vaticano considerou a imagem “uma séria falta de respeito” e disse que a manipulação da imagem foi “inaceitável”, pois tem fins comerciais e, além de ser um desrespeito com o Papa, é um desrespeito com os fiéis.

O porta-voz Pe. Federico Lombardi afirmou na ocasião que o anúncio da Benetton foi “uma afronta aos sentimentos dos fiéis e uma demonstração evidente de como, no campo da propaganda, as regras mais elementares do respeito aos outros podem ser quebradas para atrair atenção por meio da provocação”. Portanto, a Secretaria de Estado da Santa Sé autorizou seus advogados a processar a Benetton pelo uso indevido da imagem do Papa.

Horas depois do pronunciamento do Vaticano, a Benetton se retratou: “Pedimos desculpas que o uso da imagem (do Papa) tenha afetado tanto a sensibilidade dos fiéis.” Logo em seguida, a marca retirou os anúncios de circulação, mas, como eles caíram na internet, obviamente foi impossível apagá-los completamente.

Ahmad al Tayyib, que aparece no anúncio beijando Bento XVI

Hoje, o Vaticano divulgou outro comunicado, encerrando a briga. Segundo o Pe. Lombardi, o Benetton Group reiterou, na sexta-feira passada, seu pedido de desculpas e garantiu que todas as imagens do Papa foram retiradas da circulação comercial.

A marca “prometeu não usar a imagem do Santo Padre no futuro sem autorização da Santa Sé”, disse Lombardi, acrescentando que a empresa “vai usar seus recursos para impedir outras utilizações da imagem por terceiros em sites na internet ou em outros lugares”. – (Comentário nosso: Não sei como.)

Por fim, “o Benetton Group reconheceu que a imagem do Papa precisa ser respeitada”. De acordo com Lombardi, a Santa Sé não buscava compensação financeira, mas moral, o que foi atendido pela Benetton, realizando um “ato de generosidade, efetivo, embora limitado, junto a uma das atividades de caridade da Igreja”. Não foi informado o valor da doação nem para qual instituição ela foi feita.

Infelizmente, não é possível saber se a retratação da Benetton foi sincera ou se foi apenas mais uma jogada publicitária. Ou, ainda, se foi só uma forma de evitar o pagamento de uma grande indenização ao Vaticano.

Isso porque os outros anúncios – que incluem o presidente americano, Barack Obama, beijando Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e o presidente chinês, Hu Jintao, entre outros – não foram tirados do ar e ainda podem ser vistos e copiados livremente no site da Unhate Foundation. Além disso, as imagens correm à solta na internet e, neste momento, todos os sites de notícias, o Google e o Facebook estão fazendo propaganda de graça para a Benetton.

Ou seja, apenas a imagem que inclui o Papa foi supostamente considerada desrespeitosa pela marca. As outras pelo visto não.

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A nova posição de Obama sobre o casamento gay e a reação dos bispos

Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez uma declaração histórica na rede de televisão americana ABC dizendo ser favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Imediatamente, os bispos católicos do país e outros grupos da sociedade reagiram, bem ou mal.

Vamos ver aqui o que disse Obama, em que contexto, e o que disseram alguns bispos. Antes de mais nada, recordamos que o objetivo deste blog de jornalismo religioso não é se posicionar contra ou a favor disso ou daquilo, mas apenas relatar o que aconteceu. Então vamos lá.

A declaração de Obama foi histórica porque ele se tornou o primeiro presidente americano a se posicionar nesse sentido. Grupos de defesa dos direitos dos homossexuais fizeram as pazes com Barack Obama, que na campanha eleitoral de 2008 havia se mostrado veementemente contra o chamado “casamento gay”. Naquela ocasião, Barack Obama afirmou: “Acredito que o casamento é a união entre um homem e uma mulher e, para mim, como cristão, também é uma união sagrada.”

Agora, o presidente dos Estados Unidos mudou de ideia. Disse que, depois de conversar com amigos, parentes e vizinhos percebeu que há muitas pessoas “em relações monogâmicas homossexuais, que estão criando crianças juntos”. Declarou Obama: “Eu chego à conclusão de que, para mim, pessoalmente, é importante seguir e afirmar que casais do mesmo sexo devem poder se casar.” Entretanto, ele deixou claro que cada Estado americano deve avaliar essa questão e ter a sua própria lei.

Analistas políticos dizem que, em 2008, quando Obama (Partido Democrata) era oposição e disputava contra o senador John McCain (Partido Republicano), precisava do apoio dos grupos chamados “mais conservadores” (já disse que não gosto dessas definições “progressista”, “conservador”, porque não explicam nada, mas lá eles falam assim, paciência). Muitos cristãos e especialmente os católicos, muitos deles latinos, votaram em Obama com gosto – não só por isso, claro, mas também por isso.

Pesquisas mostram que atualmente metade da população aprova leis que liberam o “casamento gay” e metade não aprova. Assim, ao se declarar a favor, Obama assumiu uma postura política arriscada. Embora possa se aproximar de grupos que cada vez mais ganham força política no país, como os homossexuais, pode acabar se afastando de outros grupos mais tradicionais – que debandariam para o lado da oposição, o Partido Republicano, “mais conservador”.

Mitt Romney, provável adversário de Obama

Os que apoiam Obama dizem que ele foi corajoso ao afirmar publicamente, em pleno ano eleitoral, o que realmente acha. Além disso, acreditam que a sociedade já não leva em consideração essas questões na hora de votar, separando-as da política partidária. Entendem que o país evoluiu e deve dar direitos iguais a todos.

Os que são contrários a Obama dizem que ele só está sendo político, querendo se aproximar mais da parcela da população que se afastou e que de qualquer forma não votaria em Mitt Romney (provável candidato Republicano). Também acusam Obama de querer desviar o debate dos verdadeiros problemas do país, como a economia, que vai bem mal. Vale lembrar que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos.

Mas os bispos católicos dos Estados Unidos não querem saber se a nova posição de Obama é uma convicção real ou apenas uma manobra política. Para eles, Obama vem traindo a confiança daqueles que votaram nele lá atrás. E a relação entre os bispos e Obama já estava estremecida por causa das mudanças na política de saúde pública, conforme relatamos há um tempo, neste post aqui.

O presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, disse que os comentários de Obama “apoiando a redefinição do casamento são profundamente entristecedores”.

Cardeal de Nova York, Timothy Dolan

Ele afirmou que os bispos católicos se unem ao presidente e ao governo sempre que adotam medidas que fortalecem o casamento e a família, mas, desta vez, as palavras de Obama “enfraquecem a instituição do casamento, a principal pedra angular de nossa sociedade”. Dolan acrescentou que reza por Obama todos os dias: “E continuarei rezando para que ele e sua administração ajam de forma justa para apoiar e proteger o casamento como uma união de um homem e uma mulher.”

Outro bispo que se manifestou sobre o tema foi Dom Salvatore Cordileone, da Diocese de Oakland (Califórnia), presidente do Subcomitê para Promoção e Defesa do Casamento da USCCB. Mas ele veio a público para falar sobre uma emenda na lei no Estado da Carolina do Norte, que proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Segundo Cordileone, a decisão reafirma “o sentido autêntico e perene do casamento”. Aderiram a ele os bispos Dom Michael Burbidge, de Raleigh, e Dom Peter Jugis, de Charlotte, todos do mesmo Estado.

Dom Cordileone, de Oakland

“Espero que o presidente Obama também reconheça o papel essencial (do casamento entre um homem e uma mulher para o bem comum). Esta não é uma questão partidária”, comentou o bispo de Oakland. Para ele, toda criança tem o direito básico de ser bem-vinda e criada por uma mãe e um pai.

Em resposta a Obama, o pré-candidato Mitt Romney reafirmou sua posição contrária ao “casamento gay”. Mas nem por isso já tem o apoio dos bispos. Ainda é preciso acompanhar mais a campanha.

Vale lembrar que, nos Estados Unidos, cada Estado tem autonomia para decidir sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 31 deles, a prática é ilegal e em 7 é permitida pela Lei.

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