VatiLeaks: mordomo do Papa vai preso, mas isto não é um romance policial

O mordomo está no banco da frente. Atrás, o secretário pessoal do Papa, Monsenhor Georg Gänswein, e Bento XVI

As notícias caminham mais rapidamente do que o autor deste blog: em dois dias que precisei ficar fora, muita coisa aconteceu no desenrolar do caso VatiLeaks (que, se você não sabe o que é, pode entender clicando aqui).

Ontem, um mordomo do Papa Bento XVI foi preso pela polícia do Vaticano “em posse ilegal de documentos reservados da Santa Sé”. Acredita-se que ele seja responsável pelo vazamento de diversos documentos sigilosos que envolvem o sumo-pontífice, os chamados “VatiLeaks”.

É inevitável a comparação do caso com um romance policial em que muitas vezes é o mordomo o culpado de um crime. Muitas piadinhas já foram feitas nos sites de notícias por aí. Mas vamos olhar para o problema com mais frieza e lembrar que a realidade é muito mais complexa do que gostaríamos (como venho repetindo neste blog).

Trata-se de Paolo Gabriele, de 42 anos, que trabalhava na residência pessoal do Papa desde 2006 e que, por isso, tinha acesso quase irrestrito ao pontífice. Oficialmente, parece que ele era um “ajudante de quarto” e entre suas funções estava auxiliar o Papa a se vestir – esta reportagem detalha. A notícia da prisão do mordomo teria deixado Bento XVI “muito entristecido”.

Segundo as agências de notícias, Gabriele já vem sendo chamado no Vaticano de “Il Corvo” (O Corvo) pela suposta traição ao sucessor de Pedro. De acordo com o porta-voz do Vaticano, Pe. Frederico Lombardi, a prisão de Gabriele é resultado do trabalho da comissão de cardeais criada pelo Papa Bento XVI para investigar o caso.

Entretanto, colocar a culpa apenas no mordomo parece simplificar demais o problema. Possivelmente, Gabriele era um interceptor de documentos, tirando-os da residência papal e entregando-os a terceiros – principalmente à imprensa italiana – mas é difícil pensar que fazia isso sozinho. E mesmo que fizesse, com que objetivo? O que o mordomo do Papa ganharia publicando documentos sigilosos que revelam discussões sobre diversos assuntos, mas cujo conteúdo em nenhum momento foi bombástico?

O Arcebispo Viganò

Certamente, Gabriele não cometeu esses crimes por si só. Muita gente já está dizendo que ele é apenas um “bode expiatório“, alguém escolhido para levar toda a culpa. Afinal, a prisão do mordomo mostra que algo está sendo feito para resolver o problema.

O importante de se chegar a Gabriele é tentar tirar dele qual é o objetivo do plano. O que até agora não se descobriu é o porquê do vazamento de documentos, que em si não são muito reveladores ou surpreendentes. O mais intrigante talvez tenha sido o primeiro deles, uma carta enviada ao Papa pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, nas quais reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o Secretário de Estado. Os outros tratam de questões talvez rotineiras, como o caso do Pe. Maciel Marçal, acusado de abusos sexuais, ou relatórios que descrevem o estilo excêntrico do ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, por exemplo.

O jornalista Gianluigi Nuzzi, que publica vários documentos no livro “Sua Santità”, afirmou que seus informantes sentem muito por terem traído a confiança do Papa, mas querem “expulsar os mercadores do templo”, numa referência ao episódio bíblico em que Jesus se revolta com a presença de comerciantes no templo de Jerusalém. Se for só isso mesmo, a atitude de Gabriele é nobre – embora não deixe de ser criminosa, pois foram violados a privacidade e o sigilo de correspondência do Papa e de outras pessoas.

Porém, é de se duvidar que seja só isso. É bem possível que haja intrigas políticas nesse meio. Alguns acreditam que os VatiLeaks já são uma preparação do terreno para o próximo conclave (reunião de cardeais que elege o novo Papa), buscando enfraquecer o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, e outros que atuam na cúria romana.

A parte boa dessa história é que, aos poucos, o Vaticano tende a caminhar para uma transparência maior, ao menos em algumas questões. Sempre haverá documentos sigilosos, todos os governos os têm, até mesmo as empresas e, enfim, as pessoas têm segredos que devem ser  preservados. Mas seria mais fácil lidar com alguns problemas se houvesse maior transparência.

Ettore Tedeschi, agora ex-presidente do Banco do Vaticano

Um exemplo é a transparência financeira. Um dos maiores feitos administrativos do pontificado de Bento XVI é a lei de transparência financeira, que busca alinhar o Vaticano aos padrões internacionais. Falamos sobre ela neste post.

E mais coisas vêm sendo feitas nesse sentido. Também nesta semana, foi demitido o presidente do Banco do Vaticano (que oficialmente se chama Instituto para as Obras Religiosas, IOR), Ettore Gotti Tedeschi. Além de ser suspeito de praticar lavagem de dinheiro, ele não vinha realizando com eficiência a função de aumentar a transparência do banco.

Enfim, aos poucos as coisas caminham para um rumo melhor para a Igreja Católica, ainda que aos trancos e barrancos. Só não dá para achar que “a culpa é do mordomo” e que a história termina aí. Na verdade, esse romance policial está apenas em suas primeiras páginas.

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