Bento XVI nomeia para a Doutrina da Fé um bispo, digamos, eclético

Dom Gerhard Müller é o novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé

O Papa Bento XVI fez uma nomeação hoje que, embora já esperada, chamou a atenção daqueles que acompanham as notícias do Vaticano. Apontou para o cargo de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – espécie de ministério que um dia foi o Santo Ofício (ou a Inquisição) – o bispo de Ratisbona, Dom Gerhard Ludwig Müller.

Alemão de 64 anos e amigo pessoal de Bento XVI, Müller agora se torna arcebispo e deve ser nomeado cardeal no próximo consistório (se você não sabe qual é a diferença entre bispo, arcebispo e cardeal, clique aqui). Ele substitui o cardeal americano Dom William Levada, que renunciou por completar 75 anos, como pedem as normas da Igreja.

Mas o grande detalhe dessa nomeação é que Müller é um teólogo atípico. Por um lado, na Alemanha ele é visto como um grande defensor da “ortodoxia católica”. Por outro, ele foi aluno e é amigo de um dos criadores da nada ortodoxa “Teologia da Libertação“, o peruano Pe. Gustavo Gutiérrez. Essa corrente de pensamento teológico se destacou por ser uma interpretação do Cristianismo à luz do Marxismo.

O padre dominicano Gustavo Gutiérrez foi um dos criadores da “Teologia da Libertação”

A “Teologia da Libertação” foi muito forte especialmente nos países latino-americanos nos tempos de ditaduras de direita e surgiu não só como um movimento religioso, mas também como uma resposta política e ideológica de esquerda. Ainda hoje há alguns católicos que procuram seguir essa linha, mas às vezes não tanto sob o rótulo da “Teologia da Libertação”, mas principalmente  por meio do chamado “compromisso com os mais pobres”.

Durante anos, boa parte desses teólogos foi investigada e questionada pela Congregação para a Doutrina da Fé, principalmente sob o comando do então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), pois Roma considerava esse pensamento um ponto fora da curva, político demais, muito próximo do Comunismo e, portanto, distante do “Magistério da Igreja“.

Porém, com a escolha de Müller justamente para o mesmo cargo que Bento XVI ocupou, parece que há uma tentativa de reaproximação, ou ao menos de “atualização” dessa corrente de pensamento. Alguns observadores do Vaticano dizem que Müller é um admirador da “Teologia da Libertação” por causa do compromisso com os mais pobres. Mas não na questão política ou ideológica.

João Paulo II e o então Cardeal Ratzinger, que liderou a Doutrina da Fé por 24 anos

Em 2011, ele disse em conferência: “Não falo da Teologia da Libertação de forma abstrata e teórica, nem tampouco ideológica, para louvar o grupo eclesial progressista. Igualmente, não temo tampouco o que possa ser interpretado como uma falta de ortodoxia. A teologia de Gustavo Gutiérrez, independentemente de por onde se olhe, é ortodoxa porque é ortoprática e nos ensina o modo correto do agir cristão, porque procede da verdadeira fé.”

De fato, segundo essa reportagem do vaticanista Andrea Tornielli, nos tempos do auge ta Teologia da Libertação, Ratzinger chegou a examinar a fundo os textos do Pe. Gutiérrez para ver se havia desvios teológicos e não chegou a nenhuma condenação ou sanção – diferentemente do que aconteceu com outros teólogos, como o brasileiro Leonardo Boff, que um dia foi aluno do próprio Ratzinger (e o então cardeal definiu Boff como um “teólogo piedoso”, mas que se afastou do ensinamento da Igreja).

Portanto, o fato de Müller ser um pouco de cada coisa e criticado pelos dois extremos ideológicos talvez seja até uma qualidade. Porém, resta saber se sua capacidade de articulação e diálogo está à altura do que exige o delicado e visível cargo na Doutrina da Fé.

Atualizado em 03/07/2012, às 09h58

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6 Comentários

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano

6 Respostas para “Bento XVI nomeia para a Doutrina da Fé um bispo, digamos, eclético

  1. Vinícius

    Bento XVI tem uma coerência muito profunda.

    Já é a segunda vez que nos surpreende ao confiar em pessoas aparentemente “manchadas”.

    Se nomeou Müller, deve conhecer sua ortodoxia e tirado a limpo qualquer ambiguidade em seus discursos sobre o dogma da transubstanciação e a pastoralidade do Vaticano II – objeções que os tradicionalistas impõem à sua nomeação.

  2. Vinícius Ferreira Afonso

    Desse jeito, vai ser muito difícil uma reaproximação tão já… Que lástima!

  3. Luiz

    Doutrina não é coisa para ser mudada. a Igreja Católica não se move aos ventos e tendências do mundo. Quem não está contente com a ortodoxia, a porta da rua é a serventia da casa.

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