Bispo recém-ordenado de Xangai enfrenta governo chinês e desaparece

Dom Ma está sendo chamado de ‘bispo corajoso’

Confusão em Xangai. A bagunça que já estava instaurada em uma das mais importantes dioceses católicas da China se agravou nos últimos dias.

O recém-ordenado bispo auxiliar de Xangai, Dom Thaddeus Ma Daqin, foi barrado pelas autoridades chinesas e, na prática, proibido de exercer seu ministério. Há alguns meses, tratamos com detalhes do antigo e complicado problema da Igreja Católica na China, que voltou à tona nos últimos dias com novas ordenações realizadas pelo governo sem a permissão do Papa Bento XVI.

O motivo do sumiço de Dom Ma Daqin: ele se recusou a ocupar qualquer cargo na chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês), que é uma espécie de igreja paralela comandada pelo governo comunista chinês para supervisionar a religião, e que funciona no meio das coisas da Igreja Católica.

“Depois da ordenação de hoje, vou dedicar todo esforço ao ministério episcopal. É conveniente para mim não servir mais a um cargo da ACCP”, afirmou o bispo à assembleia na igreja, o que incluía autoridades do governo. Seu discurso foi recebido com grande surpresa entre as cerca de 1 mil pessoas presentes.

Ao recusar posições na ACCP, Dom Ma Daqin se manifestou publicamente contrário às autoridades do governo comunista. Desde então, ele não apareceu mais em público, nem para celebrar sua primeira missa como bispo. De acordo com a agência de notícias asiática UCA News, religiosos da Diocese de Xangai receberam de Dom Ma Daqin uma cartinha dizendo que estava “mentalmente e fisicamente exausto” depois da ordenação.

Ordenação ilegítima em Sichuan

Parece que ele está em um “período de descanso” em um seminário. Entretanto, segundo fontes da UCA News, o novo bispo está em uma espécie de prisão domiciliar, assim como outros bispos chineses que em algum momento se opuseram à ACCP. Alguns deles se recusaram a comparecer a ordenações irregulares ou a obedecer ordens do governo, por exemplo.

Na véspera da ordenação de Dom Ma Daqin, considerada legítima pelo Vaticano, ocorreu uma ordenação irregular amplamente anunciada pelo governo. O grande problema aí é que, depois de um razoável período de paz com Roma, há alguns meses a ACCP voltou a nomear e ordenar bispos sem autorização do Papa. Antes disso, por algum tempo houve acordo entre as duas partes e as ordenações correram relativamente bem.

O resultado agora é uma grande confusão entre os fiéis. Isso porque muitas vezes, durante as ordenações irregulares, há bispos lícitos que são obrigados a comparecer. E entre ordenações de bispos lícitos é comum aparecerem alguns bispos da ACCP, com aval do governo, como foi no caso de Dom Ma (embora os ilícitos não tenham imposto as mãos sobre sua cabeça, gesto que efetivamente concretiza o sacramento da Ordem).

Outros dois bispos de Xangai:  Jin Luxian (esq) coadjutor com 96 anos; e Xing Wenzhi (dir), auxiliar que deveria sucedê-lo, mas sumiu

Veja só como é confuso o caso de Xangai: eles têm lá quatro bispos. O bispo coadjutor, Dom Aloysius Jin Luxian, tem 96 anos e lidera a Diocese. Ele comanda a diocese no lugar do titular, Dom  Joseph Fan Zhongliang, de 94 anos, mas que não tem mais condições de trabalhar. Enfermo, Dom Fan Zhongliang é reconhecido pelo Vaticano, mas não pelo governo chinês e, portanto, liderou por muito tempo “clandestinamente” as comunidades da igreja de Xangai.

E até agora não apareceu ninguém para suceder Dom Jin Luxian – algo muito raro e uma exceção, pois todos os bispos renunciam aos 75 anos, embora possam ser mantidos por mais um tempo pelo Papa.

Na verdade, o outro bispo auxiliar da Diocese, Dom Joseph Xing Wenzhi, que provavelmente assumiria em seu lugar, também ficou mal com o governo ao se recusar a comparecer a uma ordenação irregular, entre outros motivos. Ele não costuma ser visto. O quarto é o recém-ordenado Dom Ma Daqin, que também poderia assumir a Diocese oficialmente no lugar do idoso Dom Jin Luxian, mas já foi sumido.

A situação de Dom Ma Daqin agora é incerta, mas algo provavelmente será feito pelo governo. Será liberado e retomará suas funções com cautela ou será mantido preso, resultando numa nova ordenação para Xangai. A Diocese é uma das mais importantes da China, com mais de 150 mil católicos batizados, mais de 60 padres e mais de 70 freiras.

Atualizado em 23/08/2012 corrigindo a informação de que Dom Jin Luxian é bispo titular. Embora lidere a diocese, ele é coadjutor.

2 Comentários

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo, Vaticano

2 Respostas para “Bispo recém-ordenado de Xangai enfrenta governo chinês e desaparece

  1. Vinícius

    Muitas vezes reclamamos da pressão que nossos amigos e familiares anticlericais às vezes nos fazem, mas ao menos ainda gozamos de certa liberdade religiosa no Brasil.

    Rezemos pela China: Nossa Senhora de Sheshan, rogai por nós.

  2. Pingback: China fecha seminários de Xangai após protesto de bispo contra o governo | Praça de Sales

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