Um sinal de alerta dos bispos da Amazônia para todo o Brasil

É um desafio lidar com a riqueza da Amazônia. Cultural, ambiental e social. Não se sabe direito como preservá-la sem colocá-la à margem do desenvolvimento. Entre os importantes agentes presentes na Amazônia, refletindo sobre essa questão e participando lá dentro, está a Igreja Católica.

Na semana passada, um grupo de bispos da região da Amazônia se reuniu para discutir justamente essa atuação, que se dá por meio de missões, projetos pastorais e sociais. Liderados pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes, arcebispo brasileiro de maior destaque em âmbitos nacional e internacional (que já trabalhou no Vaticano e hoje se encarrega dos pobres da Amazônia), refletiram sobre conclusões tomadas pela própria Igreja 40 anos atrás – na cidade de Santarém, entre 24 a 30 de maio de 1972, foram estabelecidas as diretrizes para a Igreja na Amazônia. E daí saiu o “Documento de Santarém”, um marco para a religião católica no país.

Dom Cláudio Hummes é presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia

Neste novo encontro, que terminou em 7 de julho de 2012, publicaram uma carta assinada pelos bispos novamente em Santarém. O conteúdo da Carta dos Bispos ao Povo de Deus na Amazônia é, na verdade, de interesse de todos os brasileiros. Vejamos a seguir alguns elementos apresentados por ela, que passou batida na imprensa.

No texto, os bispos constatam novamente o grande sofrimento dos povos da Amazônia. E aí está a maior crítica da carta.

Eles atribuem isso principalmente ao fato de que, apesar de alguns avanços, a região ainda está à margem do restante do país. A Amazônia, dizem eles, ainda é vista como uma colônia: como há 40 anos, “é apenas ‘província’, primeiro província madeireira e mineradora, depois a última fronteira agrícola no intuito de expandir o agronegócio até os confins deste delicado e complexo ecossistema, único em todo o planeta.”

Mais do que isso, analisam os bispos, as decisões sobre a Amazônia são sempre tomadas de fora para dentro, sem a participação dos povos locais (ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, indígenas).

Rio Xingu, onde se constrói a controversa Usina de Belo Monte

A Amazônia é vista por governos e empresas como uma província também “energética”, dado seu enorme potencial hidrelétrico, que, na avaliação dos bispos, coloca em risco os povos da região.

“Sob a alegação de gerar energia limpa se esconde a verdade de que mais florestas sucumbirão, mais áreas, inclusive urbanas, serão inundadas, milhares de famílias serão expulsas de suas terras ancestrais, mais aldeias indígenas diretamente afetadas”, afirmam. Nesta declaração, está implícita uma crítica à Usina de Belo Monte, que vem sendo construída no Rio Xingu, no Pará, à revelia de grande parte da população local.

Citando o Papa João Paulo II, os bispos da Amazônia observam que o agravamento da devastação e da miséria gera “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres”. Segundo eles, quem se opõe às decisões tomadas pelos governos e empresas costuma ser visto como “inimigo”. “Somado a estes desafios nos deparamos com a emergência do fenômeno urbano, com o inchaço nas periferias das grandes cidade, exploração sexual, tráfico de pessoas e de drogas, violência”, acrescentam.

Sobre a ação pastoral da própria Igreja na Amazônia, os bispos destacam três pontos principais (sempre à luz do Documento de Santarém).

O primeiro é a falta de padres, maior problema da Igreja Católica na região. E, mesmo para os poucos que existem, a formação é considerada precária. Também os leigos carecem de formação.

O segundo, por outro lado, destaca o valor das chamadas “Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)“, vistas como uma grande riqueza – elas visam, por exemplo, a reunir uma determinada comunidade em torno da leitura da Bíblia e da avaliação da realidade local.

O terceiro, por fim, é a questão indígena. Diz o texto que, não fosse a intervenção da Igreja, muitos povos indígenas teriam desaparecido. “A presença solidária e o apoio incondicional à luta por seus direitos foi fundamental para que hoje a maioria dos povos indígenas da região tenha suas terras demarcadas.”

Alguém pode perguntar: “Mas o que têm esses bispos a ver com tudo isso?”. Eles mesmos, na carta, adiantam que “como 40 anos atrás, também hoje os bispos se entendem como mensageiros dos povos da Amazônia”. Sua mensagem é relevante, portanto, porque “nestes nossos tempos, as feridas se tornaram chagas abertas que perpassam e sangram a Amazônia de fora a fora, causando cada dia mais vítimas fatais”, afirmam.

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Arquivado em Cristianismo, Igreja no Brasil, Outras crenças

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