VatiLeaks: mordomo do Papa vai a julgamento, mas a novidade não é essa

Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa

A imprensa internacional noticiou nesta semana que Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa preso com documentos sigilosos, vai ser acusado formalmente de furto com certos agravantes por ter favorecido o vazamento de informações sobre o Vaticano e o Papa Bento XVI.

Mas a novidade principal no caso dos VatiLeaks não é bem essa (entenda melhor os capítulos anteriores, clicando aqui). Estava na cara que ele seria acusado. Na verdade, as maiores novidades são duas.

A primeira delas é o fato de que um outro homem está envolvido no processo que investiga o vazamento de documentos secretos e também será acusado por isso.  Trata-se do analista de sistemas Claudio Sciarpelleti, funcionário da Secretaria de Estado, acusado de auxiliar e ser cúmplice de Gabriele.

Novidade porque até então o nome de Sciarpelleti não havia sido mencionado em nenhum momento. Aliás, até então Gabriele era o único acusado pelos VatiLeaks, e vem sendo chamado de “o corvo”.

Segundo a Rádio Vaticano, o especialista em computadores foi preso com dois envelopes de Gabriele em 25 de maio, dois dias depois da detenção do mordomo. Sciarpelleti foi liberado depois de prestar depoimento, pois aparentemente seu envolvimento foi bastante indireto. Mas ele está suspenso de suas funções no trabalho. De qualquer forma, as suspeitas de que Gabriele não agia sozinho parecem se confirmar.

Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano

Gabriele, que inicialmente havia negado o envolvimento no vazamento de documentos, reconheceu a natureza ilegal de seus atos e disse que foi motivado pela lealdade ao Papa. De acordo com o acusado, ele foi inspirado pelo Espírito Santo a combater a corrupção na Igreja e acreditava que um “choque midiático” seria “saudável” para recolocá-la no caminho correto. Aparentemente, Gabriele roubou, copiou e passou adiante uma série de documentos sigilosos.

A segunda novidade foi a fala do porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, sobre as acusações. Ele destacou o desejo do Vaticano e, indiretamente, do Papa Bento XVI, de que as acusações e o julgamento sejam tratados com total transparência.

Embora isso pareça ser uma declaração padrão, a diferença está no fato de que o Pe. Lombardi comparou o tratamento a ser dado para o caso dos VatiLeaks aos esforços de reforma e transparência financeira que vêm sendo promovidos no pontificado de Bento XVI. Recentemente, o Vaticano se submeteu a uma análise independente da Moneyval (fato muito importante, que detalhamos neste post).

Nesse sentido, o Pe. Lombardi afirmou que o Papa Bento XVI apoia o papel do Judiciário no processo e respeita sua competência e autonomia.

O porta-voz esclareceu que a comissão de cardeais criada pelo Papa para investigar o caso ainda não se pronunciou justamente para não interferir nas decisões dos juízes. Lombardi explicou que, a rigor, o Papa tem autoridade para intervir em qualquer etapa do processo, se quiser. Mas o fato de que até agora não o fez leva a crer que é desejo do pontífice que o julgamento ocorra de forma independente.

O Supremo Tribunal da Santa Sé volta do recesso de verão em 20 de setembro. Se condenado, Gabriele cumprirá até seis anos de prisão na Itália, conforme um acordo internacional com o Vaticano.

Porém, resta saber, ainda, se ele agia por conta própria e com que objetivos concretos. Ou se há outros envolvidos. A transparência envolve essas respostas.

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