O que a morte do Cardeal Martini representa para a Igreja Católica

Cardeal Carlo Maria Martini

Cerca de 200 mil pessoas peregrinaram até Milão para o funeral do Cardeal Carlo Maria Martini, que morreu na última sexta-feira, 31 de agosto, aos 85 anos.

Muito popular, Martini foi Arcebispo de Milão e chegou a ser cotado para o papado em 2005. Era conhecido como uma figura que frequentemente fazia autocríticas à Igreja, pedindo grandes mudanças (muitos gostam de definir esse perfil como “progressista”, mas este blog procura evitar rótulos do tipo, pois acredita que eles escondem mais do que revelam).

Martini era muito amigo do Papa João Paulo II, por quem foi nomeado Arcebispo de Milão, maior e uma das mais importantes arquidioceses do mundo. Porém, frequentemente criticava o posicionamento da Igreja sobre questões morais, inclusive junto ao Papa. Na época do conclave, se Joseph Ratzinger estava de um lado da moeda, Carlo Martini estava do outro, de modo que a escolha de um representava a alternativa contrária ao que o outro simbolizava.

Ao longo de sua vida, o cardeal jesuíta e biblista quis discutir novamente o celibato dos sacerdotes, a ordenação de mulheres ao diaconato e o uso de preservativos, por exemplo.  Diz-se que o Cardeal Martini sonhava com um Concílio Vaticano III, considerando que o Concílio Vaticano II já estava ultrapassado. Ele queria um novo “aggiornamento” (atualização) da Igreja.

Com Bento XVI

De fato, nesta entrevista, concedida no início de agosto para ser publicada após sua morte, reiterou alguns posicionamentos. “A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias, e o aparato burocrático da Igreja aumenta, os nossos ritos e os nossos hábitos são pomposos. Essas coisas expressam o que nós somos hoje?”, questionou. Disse, ainda, que a Igreja retrocedeu 200 anos.

Mesmo fazendo suas críticas, Martini foi muito admirado, inclusive pelos que dele discordaram. Observadores do Vaticano costumam dizer que João Paulo II ficava balançado com suas declarações, mas nunca se arrependeu de tê-lo nomeado para um cargo tão importante.

Bento XVI, por sua vez, após a morte de Martini disse que o cardeal era “um homem de Deus”, cujos atos e pensamentos foram “nutridos por um intenso amor à Palavra de Deus”. Afirmou, ainda, que Martini era um homem de coração aberto e que nunca se recusou a se encontrar e a dialogar com alguém.

Então o que representa a morte do Cardeal Martini? Para os católicos mais tradicionalistas, provavelmente um alívio, pois poucas pessoas na Igreja têm a mesma coragem de Martini para fazer autocríticas. Para os seus admiradores, uma perda sem tamanho, pois será difícil encontrar outro sacerdote dessa linha de pensamento que chegue a um cargo tão alto e possa ser ouvido com tanta atenção quanto Martini foi ouvido. Para a Igreja, de um modo geral, o que fica evidente é que, com a morte de Martini, o diálogo entre as diferentes vertentes dentro da Igreja se enfraquece e perde um de seus ícones.

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