Pergunta: Padre pode ser candidato?

O momento atual é bastante propício para responder à pergunta que dá título a este post. Muita gente vem se questionando sobre a legitimidade dos padres candidatos a cargos públicos. Será que isso é adequado? A Igreja permite? Como fica a situação do sacerdote quando deixa sua “missão pastoral” para se dedicar à política? E os padres que não são candidatos, mas apoiam explicitamente algum candidato?

Pois bem, em princípio, todo cidadão que esteja quite com a Justiça Eleitoral tem o direito de ser candidato a um cargo eletivo, desde que respeite as regras pertinentes da lei civil. A diferença neste caso é que os sacerdotes, diáconos e bispos não se submetem apenas à lei civil, mas também à lei canônica, a lei da Igreja.

Portanto, a resposta para a pergunta é simples: Não, um padre não pode ser candidato a cargos eletivos no poder civil. O Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja) especifica claramente essa proibição.

No cânon 285, está dito que os padres devem evitar tudo o que, “mesmo não sendo indecoroso, é alheio ao estado clerical“. E logo em seguida detalha: “Os clérigos são proibidos de assumir cargos públicos, que implicam participação no exercício do poder civil.”

Ou seja, como explica o canonista Pe. José Nacif Nicolau neste artigo do site Presbíteros, não há exceções nem dispensas para essa regra. Então, se você se pergunta “Um padre pode ser candidato a prefeito ou a vereador?”, a resposta é um “Não” em claro e bom tom. “Não” e ponto final.

O Pe. Nicolau esclarece, ainda, que o cânon 287 veta aos clérigos a atuação em partidos políticos e em sindicatos – estes dois casos, no entanto, podem ter exceções. “Traduzido em linguagem coloquial seria dito ao clérigo: ‘Olhe! Cuidado! Não entre nessa! Sua missão de clérigo é outra!'”, diz o Pe. Nicolau no artigo. As exceções para estes casos são apenas duas. O padre poderá receber a licença do seu bispo para se filiar a um partido (mas sem ser candidato) ou a um sindicato (mas sem dirigi-lo) quando estiver em questão “a defesa dos direitos da Igreja” ou “a promoção do bem comum”.

Mesmo assim, sabemos que muitos padres são candidatos. E o que acontece com eles?

Geralmente, são apenas suspensos do ministério pelo bispo. Isto é, o bispo responsável os impede de celebrarem os sacramentos ou terem algum tipo de participação ativa nas coisas da Igreja, ao menos enquanto eles insistirem em desobedecer a regra do Direito Canônico.

Quando eles não são eleitos ou desistem da atuação na política como protagonistas, podem ser acolhidos novamente, a depender da vontade do seu bispo. Isso porque, uma vez ordenado padre, ele é padre para a vida inteira. O ministério só pode ser suspenso ou o “estado clerical” pode ser perdido em alguns casos bem específicos. Mas, como geralmente falta padre em quase todo lugar do mundo, o retorno às atividades pastorais é bastante comum.

Dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB

E os padres que apoiam explicitamente outros candidatos que não são padres? De novo, a Igreja pede aos sacerdotes que não se envolvam ativamente na política partidária. Portanto, não é um comportamento recomendado pela Igreja. Mas também não há uma proibição clara nesse sentido, como no caso da candidatura.

De qualquer forma,  não faz parte dos rituais católicos abrir espaço para manifestações políticas dentro da igreja.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o Cardeal Dom Raymundo Damasceno, Arcebispo de Aparecida e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmou: “A posição da Igreja Católica, enquanto instituição, é de que não deve assumir nenhuma posição político-partidária. O Papa Bento XVI, numa de suas encíclicas, ‘Deus É Amor’, foi muito claro ao dizer que a Igreja não pode nem deve tomar nas suas mãos a batalha política. Isso é próprio dos políticos, dos leigos. A Igreja não pode ter pretensões de poder.”

Envie você também sua dúvida sobre a Igreja nos espaços para comentários ou para o e-mail pracadesales@gmail.com e veja aqui as outras perguntas já respondidas neste blog.

11 Comentários

Arquivado em Igreja, Perguntas

11 Respostas para “Pergunta: Padre pode ser candidato?

  1. Jonas

    Na verdade há exceção da lei, pois o Papa é chefe de Estado e responde internacionalmente pelo Vaticano.

    • Olá Jonas! Acho que você se confundiu um pouco. Veja só, estamos falando aqui de quando um clérigo se candidata a um cargo na sociedade civil alheio ao estado clerical, isto é, fora da Igreja. Já a missão do Papa está totalmente e inseparavelmente vinculada à missão da Igreja, mesmo que ele tenha de atuar junto às autoridades civis. Espero ter esclarecido, um abraço!

  2. ANGELITA CASSEMIRO DOS SANTOS

    como pode a igreja em pleno séclo xxi manter -se tão distante da sociedade,no sentido de participação, direta na politica,ainda que da exemplo de participação nos atos civis,como uma instituição que participa da vida do povo,nao se pode cobrar do que não se participa acredito que fazermos

    • Olá Angelita! A Igreja Católica estimula a participação dos fiéis na política, mas pede que os padres e religiosos não sejam os protagonistas, deixando para os leigos essa função. Obrigado pelo comentário!

  3. Nivaldo

    Muito bom o post, quem dera todos os católicos fossem esclarecidos, ou ao menos, buscassem esclarecimentos e não aceitassem guela abaixo alguns discursos, inclusive internos, manipuladores, dizendo amém para tudo. Obrigado pela contribuição, Deus abençoe…

  4. Eliseu Lopes

    Olá Domingues! Tenho uma dúvida a respeito do Padre João (João Carlos Siqueira-deputado federal), pelo fato dele ser político e usa o nome de “Padre”, então, a dúvida é, ele a inda é padre? a igreja permite ele usar o nome de padre?

    • Eliseu, não conheço o caso específico desse padre que você menciona. Porém, uma vez ordenado, ele é padre para a toda a vida. O que pode acontecer é se, um padre que não vive a vida sacerdotal de forma digna ou se pede para deixar o sacerdócio, pode ser “reduzido ao estado laical”. Nunca deixa de ser padre, mas deixa de exercer o ministério. Por isso, geralmente deixa de usar o título de padre. No caso do padre político, não se trata necessariamente do problema que menciono aqui. É mais uma questão de o padre e o seu bispo diocesano, ou superior religioso, definirem como fica a sua situação dentro da Igreja. De qualquer forma, o sacerdote que entra na política a rigor está seguindo um caminho que deveria ser deixado para os leigos, exceto em situações muito particulares, por um período breve, como mencionamos no post.

  5. JOSE NILSON DA SILVA

    O padre de minha paróquia fala nas homilias que será candidato a vereador nas eleições de 2018 por um determinado partido, já que nosso sistema eleitoral não permiti candidaturas sem partidos .
    Ocorre que os leigos da comunidade possuem plurais opções partidárias.
    O que podemos fazer para que o pároco afaste-se das funções sacerdotais, não utilizando do púlpito e/ou da condição clerical para favorecer-se e favorecer o partido que ele aderiu.???????????

    • Olá José! Vocês devem apresentar a situação ao bispo diocesano. A rigor, o certo é o padre se afastar enquanto estiver envolvido na política. As exceções são casos raros, conforme explico no post…

  6. DIEGO LUZ

    ENTÃO COMO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS FEDERAIS TEM UM “PADRE JOÃO (PT-MG)”? E NO WIKIPÉDIA TRÁS COMO PROFISSÃO SACERDOTE?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s