O papel e o desafio do leigo na Igreja

Já dissemos que nosso objetivo aqui é apresentar informações e análises sobre a Igreja Católica no mundo e, embora este post não fuja desse foco, excepcionalmente trata também de experiências deste que vos fala. O tema aqui é o papel dos leigos na Igreja e, como jornalista, o autor deste blog é também um leigo: não é padre, não é monge, não é filiado a nenhuma organização religiosa.

Tive a sorte de estar em Roma tanto para a abertura do Sínodo dos Bispos sobre a “Nova Evangelização” quanto para a abertura do chamado Ano da Fé. E a tal “Nova Evangelização” é de fato o assunto do momento.

Resumindo, para a Igreja essa expressão quer dizer resgatar os católicos que se afastaram da fé e levar a mensagem do Evangelho para aqueles que ainda não a conhecem. Num contexto de carência de vocações religiosas, volta a ganhar destaque o fiel leigo.

E o que diz a Igreja sobre a participação dos leigos? Há muita coisa escrita, mas um documento bem claro sobre o tema é a exortação apostólica Apostolicam Actuositatem (“Sobre o apostolado dos leigos”), escrita pelo Papa Paulo VI, em 1965. Desde aquele momento – à luz do Concílio Vaticano II -, já se notava que a presença dos leigos nas atividades da Igreja precisava aumentar. “As condições atuais exigem deles absolutamente um apostolado cada vez mais intenso e mais universal”, diz Paulo VI. “A Igreja dificilmente poderia estar presente e ativa sem o trabalho dos leigos”, acrescenta.

Na missa de encerramento do Sínodo dos Bispos, o Papa Bento XVI observou outro aspecto importante da participação dos leigos na Igreja: o missionário. Ele disse que “é preciso pedir ao Espírito Santo que suscite na Igreja um renovado dinamismo missionário, cujos protagonistas sejam, de modo especial, os agentes pastorais e fiéis leigos”.

Sínodo dos Bispos sobre a ‘Nova Evangelização’

Durante o Sínodo dos Bispos, um dos apelos mais fortes foi o de que os leigos “sejam protagonistas da nova Evangelização“.

Mas a questão que fica no ar é Como?. Não temos a resposta, mas podemos partilhar algumas experiências de como é difícil alcançar esse objetivo.

Há cerca de um mês estou em Roma para estudar. Além de capital da Itália, a bela e antiga “cidade eterna” abriga o Vaticano, inúmeras igrejas, universidades e institutos pontifícios, prédios oficiais da Santa Sé e de congregações religiosas… enfim, um ambiente muito, muito eclesiástico. É normal por aqui ver freiras e padres por toda parte. E é claro que também há muitos leigos por aqui.

Mas, quando o assunto é “protagonismo”, uma coisa é certa: os leigos são uma imensa minoria.

Em outras palavras, embora as melhores universidades pontifícias estejam em Roma, os supostos novos “protagonistas” estão muito longe daqui. Ainda há um grande espaço entre o que a Igreja pede dos leigos e o que a Igreja oferece aos leigos. Certamente a falta de leigos protagonistas não é falta de vontade dos próprios leigos, mas de incentivo por parte da própria Igreja.

A maioria das instituições católicas que concedem bolsas de estudos para estudantes que pretendem vir a Roma prioriza sacerdotes, seminaristas e religiosos. Pelo que vemos aqui, também as dioceses raramente apostam nos leigos. Geralmente, os bispos temem fazer um investimento alto em alguém que “não tem nenhum vínculo” com a Igreja.

De todos os estudantes leigos que conheci em Roma – algumas dezenas – apenas dois foram enviados oficialmente por seus bispos, com um grande incentivo financeiro e garantia de trabalho remunerado na volta (nestes casos, às vezes o leigo promete, em troca, dedicar-se integralmente a esse trabalho após o período de estudos, ao menos por alguns anos). São casos muito específicos, e geralmente esses leigos retornam para serem professores nos seminários locais.

Entre os poucos leigos que estão em Roma estudando em universidades pontifícias, a maioria foi por conta própria, com recursos próprios e sem nenhuma promessa de cargo. Algumas bolsas de estudos surgem no meio do caminho, isto é, depois que eles já começaram a estudar. Outra dificuldade em Roma é encontrar lugar para morar. Conta-se nos dedos de uma mão o número de residências organizadas para leigos (o chamado “Collegio”).

Missa de abertura do ano acadêmico da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma

Nem mesmo o Vaticano está suficientemente preparado para oferecer o apoio necessário aos leigos. Por exemplo, embora o decreto sobre os instrumentos de Comunicação Social Inter Mirifica diga que “é dever principalmente dos leigos animar com valores humanos e cristãos tais instrumentos, de modo que respondam plenamente à grande espera da humanidade e aos desígnios de Deus”, o Pontifício Conselho para Comunicações Sociais só oferece bolsas de estudos para sacerdotes.

É verdade que, aos poucos, os leigos começam a chegar a cargos de confiança, gerenciando áreas importantes da Igreja em alguns locais – como Finanças e Relações Públicas. Mas, se pensarmos na Igreja como um todo, geralmente os leigos trabalham principalmente como fiéis devotos e voluntários, cheios de boa vontade e vazios de formação e estímulo.

Por outro lado, conversando com estudantes alemães, soube que em algumas dioceses da Alemanha os leigos têm papel essencial. Muitas vezes formados em Teologia, Filosofia, Espiritualidade, Missiologia, etc, leigos são contratados pelas paróquias para servirem como “auxiliares” de pastoral. Portanto, além dos padres, que já se desdobram muito para atender os fiéis com a celebração dos sacramentos, as paróquias têm leigos que recebem um salário para se dedicarem integralmente à evangelização, à catequese, a palestras, retiros espirituais, etc. Também vemos isso em alguns colégios católicos.

Já é um passo enorme a Igreja perceber que o fiel leigo não aparece apenas para responder a missa. Mas passo ainda maior será dado quando os bispos, padres, diáconos e religiosos puderem realmente confiar nos leigos tanto quanto os leigos confiam neles.

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3 Comentários

Arquivado em Igreja, Igreja no Mundo, Vaticano

3 Respostas para “O papel e o desafio do leigo na Igreja

  1. Nós confiamos em todos os leigos que são responsáveis e comprometidos com a Igreja! Agradecemos a todos pela evangelização. Um Grande Abraço!.

  2. João Domingues

    Que bom que voltou a escrever aqui no seu blog, Parabéns!!!!

  3. Padre Ricardo Marques

    Penso que o espaço dos leigos nas Universidades pontifícias em Roma tende a aumentar. Também conheço alguns leigos alemães que receberam o incentivo, até financeiro, de suas respectivas dioceses para virem estudar na Cidade Eterna.

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