A mais inusitada mensagem do Papa para o Natal saiu no ‘Financial Times’

Financial TimesÉ comum que o Papa venha a público no período de Natal para transmitir mensagens de fé e de paz no mundo, mas uma específica nos chamou a atenção neste fim de ano: o texto de Bento XVI publicado nas páginas de opinião do jornal econômico britânico Financial Times (FT). O artigo intitulado “Um tempo para os cristãos se engajarem com o mundo” pode ser lido em inglês no site do jornal, mas a tradução do Vaticano para o português está aqui.

Quem acompanha o nosso blog já sabe que o autor tem uma tendência a prestar atenção nos assuntos ligados à economia. Mas por que afinal esse texto nos chamou a atenção? Primeiro, porque é extremamente inusitado que um jornal de finanças publique um texto de um líder religioso, ainda mais falando de um tema tão religioso como o Natal.

Financial Times pediu o artigo a Bento XVI diante do recente lançamento do terceiro livro de sua série Jesus de Nazaré. Trata-se de um dos mais renomados jornais do mundo e talvez o mais lido na área de finanças, com cerca de 2 milhões de leitores. Ou seja, não é um veículo da Igreja que está disposto a ser um porta-voz do Papa. É um grande veículo de comunicação que procurou saber o que o Papa tem a dizer sobre o tema, provavelmente porque acredita que também é do interesse dos seus leitores, e publicou na página de opinião.

Bento XVI na missa da noite de Natal

Bento XVI na missa da noite de Natal

Segundo, porque a forma como foi escrito o texto de Bento XVI é interessante. Ele procura usar uma linguagem próxima aos leitores de economia e finanças. Isto é, desde a primeira frase já fala de dinheiro, que no fim das contas é o que chama a atenção desse público. O Papa inicia com a passagem da Bíblia na qual Jesus diz “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21). Um trecho forte para apresentar a pessoas que trabalham com dinheiro e cujas vidas giram em torno das aplicações, dos números, de rendimentos e riscos.

Segundo Bento XVI, a resposta de Jesus àqueles que o questionavam sobre o pagamento de impostos ao império romano “leva habilmente a questão a um nível superior”, contra a “deificação do poder temporal, e contra a incansável busca da riqueza”. Outro trecho bíblico citado por Bento XVI, é aquele em que Jesus responde a Pôncio Pilatos que seu reino “não é deste mundo”.

É curioso ver esse tipo de mensagem transmitida a um público tão poderoso (e este é o terceiro motivo pelo qual seu texto nos chama a atenção). O pontífice afirma que “o nascimento de Cristo desafia-nos a reconsiderar as nossas prioridades e valores, o nosso modo de viver”. Ele pede uma reflexão profunda e faz uma referência direta à atual crise econômica global: “o que podemos aprender da humildade, da pobreza, da simplicidade da imagem do presépio?”

Ele acrescenta que “os cristãos combatem a pobreza porque reconhecem a dignidade suprema de todos os seres humanos” e que “os cristãos lutam por uma partilha equilibrada dos recursos da terra”. Num primeiro momento, essas expressões podem parecer banais ou apenas mais um discurso do Papa. Mas pensar que isso foi publicado num grande jornal de finanças muda muito o contexto da mensagem.

money273A maior parte dos leitores do FT é de empresários e homens de negócios, investidores, políticos, autoridades. Em outras palavras, aqueles que controlam o poder político e econômico global. Não é muito simples dizer a eles que é necessário haver uma partilha equilibrada dos recursos. Não é fácil dizer ao mercado financeiro, onde o lucro muitas vezes é o principal e único objetivo, que é preciso haver uma “frutuosa colaboração” entre os seres humanos.

Vale recordar que esta não é a primeira vez em que Bento XVI se refere a temas econômicos de maneira bastante firme. Na carta encíclica Caritas in veritate, publicada em junho de 2009 (um dos momentos mais complicados da crise econômica que começou em 2008), o bispo de Roma fala sobre diversos aspectos desenvolvimento humano. Naquele documento, ele observou, por exemplo:

“É preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo, cedendo à tentação de procurar apenas o lucro a curto prazo sem cuidar igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu serviço concreto à economia real e duma adequada e oportuna promoção de iniciativas econômicas também nos países necessitados de desenvolvimento.”

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Aproveitamos para desejar a todos os frequentadores desta Praça de Sales um Feliz Natal e um excelente 2013!

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