VatiLeaks: O mordomo do Papa sorri

Ciente de que não tenho conseguido postar tanto quanto gostaria nas últimas semanas, resolvi escrever um breve post ao menos atualizando no blog como ficou o caso dos “Vatileaks”, série de vazamentos de documentos sigilosos da Santa Sé (entenda), que revelaram detalhes de correspondências do Papa, discussões entre autoridades da Igreja e suspeitas de fraude no Vaticano.

Vínhamos acompanhando passo a passo o problema, mas sequer falamos aqui sobre a prisão e o perdão de Paolo Gabriele, mordomo pessoal do Papa Bento XVI acusado de roubar documentos e facilitar sua divulgação na imprensa. 

Recapitulando: como foi amplamente noticiado pela imprensa internacional, Paolo Gabriele havia sido condenado pela Justiça do Vaticano a um ano e meio de prisão por “furto agravado”, a ser cumprida no sistema carcerário italiano. Entretanto, de acordo com as leis do Vaticano, o Papa tem total autonomia para perdoá-lo e liberá-lo de ter que cumprir a pena. E foi o que aconteceu.

Gabriele não só foi perdoado (antes do Natal) como recebeu um novo emprego, no hospital pediátrico “Bambino Gesù”, que pertence à Santa Sé. Na ocasião, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, explicou o motivo do perdão concedido por Bento XVI: “Leva-se em consideração a situação de sua família e da benevolência com a qual o Papa quis intervir na situação, e portanto será oferecida uma possibilidade de alojamento e ocupação, mas não na sede da Cidade-Estado do Vaticano.”

Bento XVI perdoa mordomo

Fato é que, desde então, Paolo Gabriele voltou a sorrir. Apareceu publicamente em foto com o Papa, ambos felizes com a reconciliação. Isso levou muita gente a questionar a tal justiça vaticana: Como é que o sujeito rouba documentos, causa uma algazarra internacional e não só é perdoado, como também ganha um novo emprego?

Esse texto do vaticanista Andrea Tornielli, bastante esclarecedor no ponto de vista religioso, levanta justamente essa questão (“O sorriso de Paolo Gabriele”). Tornielli recorda que o Papa não é como um outro chefe de Estado qualquer. Acredita-se que seja o “vigário de Cristo”, isto é, um representante vivo de Jesus e, sendo assim, deve seguir seus ensinamentos. Segundo o jornalista, Bento XVI não se move sobre a base do senso comum, mas de “uma outra coisa”. Conforme a tradição cristã, “Jesus perdoou a traição de Pedro e perdoa nossos pecados, mesmo os mais graves, se reconhecemos a necessidade da sua misericórdia”, explica Tornielli. “O Papa mostra sua compaixão pela família” de Gabriele.

Um gesto caridoso, é verdade. Mas é claro que também buscou ser uma espécie de desfecho público para o complicadíssimo caso “Vatileaks”.

No entanto, algumas perguntas permanecem em aberto e as investigações continuamNo fim do ano passado, o jornal Corriere della Sera e outros observadores da Santa Sé questionaram, por exemplo, por que Gabriele estaria reunindo documentos desde 2006 e só resolveu divulgá-los no ano passado? Quem são as outras pessoas envolvidas? Sabe-se que o programador Claudio Sciarpelletti é um deles.

Gabriele em julgamento

Gabriele havia dito, em entrevista, que ao menos 20 pessoas faziam parte do esquema, que, segundo o próprio mordomo, buscava acabar com “o mal e a corrupção” no coração da Igreja. Mas não se sabe até hoje quem era de fato o alvo desse plano. Seria o secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone? Seria o próprio Papa? Seriam outros? Seria somente um plano mal feito articulado por um bem intencionado mordomo?

O vaticanista John Allen Jr observa que Gabriele, em determinado momento, afirmou ter ligação com pessoas do alto escalão na Santa Sé, mas em nenhum instante ficou claro se alguém teria autorizado ou participado da divulgação de documentos sigilosos.

O mundo continua acompanhando. A consequência positiva para todos dessa história é que cada vez mais o Vaticano começa a perceber que não vive em um mundo paralelo. O Papa e seus colaboradores vêm claramente tentando promover a transparência e a segurança no funcionamento das coisas da Igreja, justamente para evitar novas especulações, conspirações e surtos midiáticos. Seria esse o verdadeiro motivo do sorriso do mordomo?

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