Igreja se une a Obama contra as armas

Em liquidação?

Uma das discussões mais intensas e acaloradas nos Estados Unidos tem sido o controle sobre a compra e o porte de armas proposto pelo presidente Barack Obama. E a Igreja Católica tem se mostrado firmemente a favor da adoção de novas restrições, posição que contraria boa parte da sociedade americana (praticamente a metade), mas que não é nova e, aparentemente, ainda não foi amplamente divulgada pela imprensa internacional.

Neste post, primeiro vamos ver como está a situação do problema nos Estados Unidos e, segundo, apresentar o que diz a Igreja Católica sobre esse assunto.

CONTEXTO – Basicamente, o ambiente esquentou quando o recém-reeleito presidente Obama disse no fim do ano passado que apresentaria medidas urgentes para mudar as políticas de compra e controle de armas de fogo no país, após mais um entre tantos tristes massacres em escolas americanas – quando um atirador matou 20 crianças e 6 adultos. Porém, a rica e potente indústria bélica dos Estados Unidos, com seus influentes grupos de lobby no Congresso e apoio de boa parte da população, quer impedir qualquer mudança nesse sentido e procura desvincular as frequentes tragédias ao fácil acesso às armas de fogo.

Obama e o Partido Democrata apresentaram mais de 20 medidas, entre elas a proibição da venda de armas pesadas e militares, como metralhadoras, e a necessidade de comprovação de ausência de antecedentes criminais para que se possa comprar armas de fogo. Mas é grande a resistência a esse projeto, que precisa ser aprovado também por legisladores do Partido Republicano. Os Republicanos geralmente têm maior número de representantes nas regiões onde o comércio de armas está mais consolidado e faz parte da cultura local. É muito comum em áreas rurais praticar caça, por exemplo, ou tiro ao alvo.

Obama assumiu praticar tiro ao alvo, mas está firme na guerra contra as armas

Mas, de acordo com Obama, que hoje afirmou ser ele próprio um praticante de tiro ao alvo, as regras são importantes para as áreas urbanas do país. Segundo o presidente americano, é preciso “entender que a realidade das armas em áreas urbanas é muito diferente das realidades em áreas rurais”. A Associação Nacional de Rifles, uma das mais fortes instituições contrárias ao controle de armas nos Estados Unidos, reclama que as ideias de Obama vão de encontro aos direitos individuais de todo cidadão, que pode comprar quantas armas quiser para proteger a si mesmo, à sua família e a seus bens pessoais.

Na tentativa de explicar o motivo da forte resistência popular ao controle de armas, Obama declarou: “Se você cresceu e seu pai te deu um rifle de caça quando você fez 10 anos, e você saiu e passou o dia com ele e com seus tios, e isso se tornou parte das tradições de sua família, dá para ver por que você resistiria a isso (o controle de armas).” De qualquer forma, o presidente tem reclamado que os Republicanos não querem se comprometer com essa essencial mudança na sociedade.

IGREJA DEFENDE RESTRIÇÕES – Embora a Igreja Católica e o governo Obama tenham se enfrentado no que diz respeito à defesa da vida e o sistema de saúde americano (entenda melhor aqui), desta vez os dois estão do mesmo lado da briga. Em janeiro deste ano, a Santa Sé afirmou que recebeu positivamente a iniciativa de Barack Obama.

Dessa vez juntos

Dessa vez, juntos

O porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, publicou um editorial no jornal L’Osservatore Romano dizendo que “as iniciativas anunciadas pela administração americana para a limitação e o controle da difusão e do uso das armas são certamente um passo na justa direção”. O sacerdote recordou que “47 líderes religiosos de várias confissões e religiões enviaram um apelo aos deputados americanos para limitar as armas de fogo que ‘estão fazendo a sociedade pagar um preço inaceitável em tragédias e mortes insensatas’, e acrescentou: “Estou com eles.”

E essa posição, como dissemos no início do post, não é recente e vem sendo há tempos reiterada. Em 2006, na Mensagem para o Dia Mundial para a Paz, o Papa Bento XVI lamentou “o aumento preocupante das despesas militares” e o comércio de armas “cada vez mais próspero” no mundo.

No caso específico dos Estados Unidos, os bispos americanos divulgaram em novembro 2000 um documento chamado “Responsabilidade, Reabilitação e Restauração: Uma Perspectiva Católica sobre o Crime e a Justiça Criminal“, no qual dizem claramente que são contra o livre comércio de armas no país e que, no longo prazo, seu uso deveria ser “eliminado de nossa sociedade”, exceto para policiais e militares. Diz o episcopado americano:

“Como bispos, apoiamos as medidas que controlam a venda e o uso de armas de fogo e as tornam mais seguras – especialmente esforços para evitar seu uso não supervisionado por crianças ou qualquer outra pessoa que não o proprietário – e reiteramos nosso pedido por uma regulação sensata das armas de fogo.”

Enfim, muitas outras vezes a Igreja Católica vem defendendo a restrição e até mesmo o fim do comércio de armas. Também outras instituições e associações – muitas delas formadas por parentes de vítimas de massacres – tentam caminhar no mesmo sentido. Aparentemente, o governo Obama está fazendo um esforço real para mudar a situação, mas a dificuldade está no Congresso.

Como nos Estados Unidos os dois principais partidos se enfrentam muito duramente na política e os grupos de lobby são muito ricos e influentes, pode ser que ainda por um bom tempo as coisas fiquem como estão. Enquanto isso, até em supermercados é possível comprar revólveres e munições e, com sorte, quem sabe se encontra uma boa liquidação.

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