Cúria Romana deve ser mais aberta para o mundo, diz cardeal indiano

Cardeal Gracias, Arcebispo de Bombay

A reforma da Cúria Romana encomendada pelo Papa Francisco a uma comissão de oito cardeais deve torná-la ainda mais internacional e as decisões para a Igreja Católica serão tomadas de forma mais descentralizada, sinalizou recentemente o cardeal indiano Oswald Gracias, Arcebispo de Bombay e membro da comissão. “A Igreja precisa permanecer acima das nacionalidades e do paroquialismo estreito. Ela precisa ter uma visão global”, declarou o cardeal em entrevista concedida ao jornal Catholic Register, no Canadá.

A comissão nomeada pelo Papa logo após sua eleição, com um cardeal de cada continente, tem o dever de aconselhá-lo na reforma da Cúria Romana. Após uma série de escândalos de corrupção e problemas causados por disputas de poder revelados durante o pontificado de Bento XVI, a Cúria se tornou uma das principais preocupações da Igreja. Cada um dos oito cardeais já se encontrou individualmente com o Papa e, entre 1º e 3 de outubro, eles se reunirão em grupo entre si e com o pontífice.

Internacionalização – “É preciso ter alguma reflexão sobre todo o tema do Vaticano, sobre como torná-lo mais eficiente, torná-lo mais assistencial ao Santo Padre e torná-lo mais assistencial à Igreja”, comentou o cardeal Gracias ao jornal. Desde seu surgimento, no século XI, a Cúria tem a missão de auxiliar o sumo-pontífice a exercer o seu ministério e ao longo da História diversas reformas foram realizadas, adaptando-a à realidade do momento.

O cardeal indiano acrescentou que atualmente prevalecem na Cúria oficiais de nacionalidade italiana, o que tem sido alvo de críticas. “A Igreja é universal.” Mas, segundo ele, não se trata só de distribuir melhor as funções políticas a diferentes países.

“A perspectiva do Papa Francisco é de que a Igreja precisa prestar um serviço para o mundo. Se você quiser prestar serviço para o mundo, precisa estar lá fora, onde o mundo está. O centro de gravidade está sempre se mudando. A Igreja precisa estar disponível”, avalia, explicando que neste momento a Ásia precisa de maior atenção, pois é onde 60% da população mundial vive, a economia cresce rapidamente e a cultura está mudando de forma imprevisível – conforme relata o Catholic Register.

Descentralização – Gracias entende, ainda, que essa abertura maior da Cúria para o mundo implica atribuir maiores responsabilidades às conferências episcopais de cada região ou país. “Se vamos assumir mais responsabilidade, temos de ser mais responsáveis, prestar mais contas, ser mais conscientes. Neste momento é muito confortável porque sabemos que tudo tem de ser checado duas vezes. Por isso não somos assim tão sérios”, explicou ele, que é presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Índia.

A internacionalização e a descentralização da Cúria Romana não são propostas novas, pois já vêm desde o Concílio Vaticano II, no pontificado do Papa Paulo VI. Com o decreto Christus Dominus (1965) ele atendeu ao pedido dos padres do Concílio e abriu a Cúria para mais membros e oficiais de outras nacionalidades que não a italiana. Também fortaleceu o relacionamento dos bispos diocesanos com os dicastérios (espécie de Ministérios do Vaticano) e aumentou sua presença nas decisões da Cúria. Porém, as propostas do Concílio ainda não foram aplicadas plenamente. Como disse o próprio Papa Francisco quando esteve no Brasil, “a Igreja sempre precisa ser reformada”.

Burocracia – Há pouco mais de um mês, também o cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodríguez, presidente da comissão de “reformadores” da Cúria Romana, concedeu entrevista ao jornal argentino La Nación e disse que um dos principais problemas atuais é o excesso de burocracia. “Não se podem tomar decisões com a rapidez necessária”, admitiu. “Com o passar do tempo a Cúria foi se formando como um reino antigo e tudo isso não fala muito ao mundo de hoje.” Segundo ele, provavelmente será necessário eliminar estruturas inúteis. “A Cúria cresceu muito e existe muita burocracia. Isso precisa ser corrigido.”

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1 comentário

Arquivado em Igreja no Mundo, Vaticano

Uma resposta para “Cúria Romana deve ser mais aberta para o mundo, diz cardeal indiano

  1. Marinalva

    Filipe, penso que a Igreja esta num momento Franciscano, a começar pela escolha do Papa em se chamar Francisco e agora com essa reforma…
    No filme Francisco de Assis (irmã Sol-Lua), podemos ver através da conversão de Francisco os apelos do Espirito para que a Igreja se torne mais aberta . Como vc citou acima, não se trata só de distribuir melhor as funções políticas a diferentes países; a Igreja precisa estar sempre disponível para ser reformada, atendendo as necessidades (os apelos de Deus )de cada época.
    Acredito que a partir do momento que a Igreja, se abre ao mundo e “inicia” esse processo de dialogo; abordando os assuntos polêmicos ,passa então a estar disponível para prestar serviço ao mundo.
    Penso que essa disponibilidade ao dialogo, irá gerar essa cultura de irmãos; essa “Igreja que caminha” com as pessoas; uma Igreja que é mãe e que “abrace” os seus filhos,(…) numa “cultura do encontro”.
    Acho que podemos comparar a Igreja a nossa família, para resolvermos algo precisamos “abrir” o jogo, colocar as cartas na mesa, ai então acontece o dialogo, a abertura e também a proximidade…Uma igreja que aprende e não só ensina.

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