Arquivo do mês: setembro 2013

Jesus e o Twitter: o que disse o cardeal Ravasi e o que virou notícia no mundo

Cardeal Ravasi

Este poderia ser apenas mais um texto factual sobre um evento do qual participei em Roma, mas sua inesperada repercussão me convenceu de que, na verdade, seria mais interessante fazer uma breve reflexão do que um relato formal.

Hoje, no Cortile dei Gentili (“Pátio dos Gentios”), um espaço de diálogo entre católicos e pessoas “não crentes”, nesta edição dedicado aos jornalistas, o Cardeal Gianfranco Ravasi afirmou que Jesus Cristo usou twits para se comunicar – uma referência à rede social Twitter, na qual as mensagens são curtas (140 caracteres é o limite máximo para cada twit). Disse o cardeal: “A primeira pregação de Jesus, segundo Mateus, no original grego, tem 45 caracteres com espaços: ‘O reino de Deus está próximo. Convertei-vos.'”

Essa declaração aparentemente banal ganhou manchetes nos sites de notícias e, obviamente, nas redes sociais. A notícia que uma grande agência de notícias francesa publicou para o mundo foi “Vaticano diz que Jesus foi o primeiro a tuitar”. Outros veículos internacionais, de várias línguas, anunciaram “Jesus foi o primeiro ‘tweeter’ da história, diz Ravasi”.

A partir dessa notícia, um evento que durou 5 horas, com três conferências e profundas reflexões sobre a fé, sobre a comunicação, sobre o que é a Verdade e a objetividade do jornalismo, sobre a busca pelo bem comum seja por ateus seja por católicos, com a presença dos diretores de todos os principais jornais da Itália, se resumiu a uma discussão pouco inteligente sobre o que passa na cabeça da Igreja Católica para dizer que Jesus foi o inventor do Twitter. Seria uma estratégia de marketing? É o Vaticano querendo se apossar do ambiente virtual, onde a liberdade total é a suprema lei?

Debate entre Gianfranco Ravasi e Eugeno Scalfari, no 'Cortile dei Gentili'

Debate entre Eugenio Scalfari e Gianfranco Ravasi, no ‘Cortile dei Gentili’

Uma série de críticas à Igreja se seguiu, especialmente por parte dos ateus e agnósticos, justo aqueles com quem a Igreja busca dialogar por meio do “Cortile”. Como ocorre frequentemente com as informações de temas religiosos (e aqui não me refiro somente à Igreja Católica), a declaração de Ravasi foi apresentada sem o contexto. Queremos rapidamente tentar mostrar que contexto é esse e por que a declaração é muito menos bombástica do que tentou-se mostrar por aí.

Durante o evento, o Cardeal Gianfranco Ravasi foi convidado a debater com o fundador do jornal La Reppublica, Eugenio Scalfari, que se autointitula “um não crente, que não procura Deus, mas é apaixonado pela figura de Jesus Cristo” – o mesmo a quem o Papa Francisco escreveu recentemente a carta intitulada “Diálogo aberto com os não crentes”. Logo no início do diálogo, o jornalista moderador Emilio Carelli lançou uma questão a Ravasi: “Vivemos num contexto de mudanças grandíssimas e no qual o modelo da comunicação foi totalmente alterado. Qual é a sua mensagem, a da Igreja, sobre a comunicação religiosa?” Pronto, temos aí um pequeno contexto. A pergunta remete à comunicação religiosa, ao novo momento das comunicações no mundo.

Respondeu o cardeal italiano: “Jesus adotou como instrumento de comunicação três percursos que são aqueles que atualmente dominam e que tornam particularmente incisiva a mensagem do Papa Francisco.” O primeiro deles, para Ravasi, seria exatamente o uso do twit. “Cristo adotou o uso do twit de maneira sistemática. Aquilo que os estudiosos chamam com um termo extremamente sofisticado, arcaico, os logia, mas que na verdade são verdadeiros caracteres essenciais.” Ele citou outros momentos em que Jesus afronta a questão moral religiosa em 145 caracteres (“Ame o Senhor teu Deus com todo o teu coração, a tua mente e a tua alma. Ame o seu próximo como a ti mesmo”) e questões de fé e política, fé e economia em 39 caracteres (“Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus”).

E Ravasi arrematou: “Então, temos o uso sistemático da frase essencial e incisiva. E até aqui temos uma aula, também no que diz respeito aos pregadores.” Alguma dúvida de que ele se referia ao twit como uma analogia e, obviamente, não de modo explícito? Ravasi quer dizer que o modo como Jesus se comunicava é válido até hoje, especialmente para os pregadores.

E continua, com os outros dois modelos mencionados no início da fala. O segundo é a articulação do pensamento por meio de parábolas, também muito usado pelo Papa Francisco, “que é substancialmente o uso da televisão, porque é um cenário” (outra analogia ao mundo das comunicações, e nem por isso vamos colocar nos jornais que “Jesus foi o primeiro apresentador de televisão, diz Vaticano”). De acordo com o cardeal, a parábola do bom samaritano, por exemplo, apresenta diversas perspectivas de filmagem: “Nesse caso vemos ainda a capacidade incisiva, de fazer com que a complexidade do reino de Deus, quer dizer, do projeto de Deus, a visão global do ser e do existir, através de uma narração, através do símbolo, que é fundamental na nossa civilização, sobretudo na imagem.”

A terceira via é a da corporalidade, explica o presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. “Se pegamos o Evangelho de Marcos, 43%  do ministério de Cristo é constituído da cura. Isto é, ele toca ininterruptamente os corpos. Fala com o contato dos corpos”, afirma. “Com o seu corpo, usa a saliva algumas vezes, usa as suas mãos, violando as normas hebraicas também para os leprosos. É importante para nós que queremos fazer uma comunicação religiosa de valores, etc, esse discurso sobre o método.”

Qualquer pessoa com boa vontade para entender o que o cardeal Ravasi disse não teve dificuldades. Não é preciso concordar com sua análise teórica, mas entendê-la. Ele conclui esse pensamento afirmando que “Se um pastor não se interessa por comunicação, está fora do seu próprio ministério. Não esqueçamos que Cristo, a primeira coisa que diz é ‘andai e anunciai'”.

Sobre o jornalismo – Para piorar a situação da falsa notícia, parece que não é a primeira vez que Ravasi expõe essas metáforas entre Jesus e o mundo da Comunicação. O fez em outras ocasiões, no mesmo “Cortile dei Gentili” e ninguém deu bola – porque os jornalistas não estavam lá. E é assim que uma declaração fora de contexto vira fofoca.

Mais grave ainda é o fato de que usou-se o termo “Vaticano” para se referir a um único indivíduo, o cardeal Ravasi, que embora seja presidente de uma instituição da Cúria Romana não fala em nome do Vaticano e nem de toda a Igreja. Na verdade, a rigor o “Vaticano” sequer existe. É um termo que usamos pra simplificar as coisas. O que existe são uma série de instituições da Igreja (a Cúria, a Santa Sé, a Cidade-Estado do Vaticano…) e nenhum indivíduo sozinho a representa completamente, nem mesmo o Papa.

Infelizmente o que vemos muito frequentemente é um jornalismo preguiçoso e catastrófico. Uma declaração simples, uma alegoria, um recurso retórico para explicar um determinado pensamento vira uma manchete bombástica.

Resumindo a ópera: o mundo das Comunicações vive uma crise dura e profunda. A perda de público por causa das mídias digitais provoca perda de qualidade de conteúdo porque, com receita menor, as empresas precisam reduzir custos e investir menos. Os jornalistas, cada vez mais desqualificados, são obrigados a trabalhar sem parar e a escrever sobre tudo e sobre todos, em poucos minutos. A notícia é produto. Quanto mais melhor. Mais rápido, melhor. Essa perda de qualidade agrava a perda de público da mídia tradicional. O resultado é um apelo às manchetes bombásticas na internet, que deem cliques e, portanto, anúncios publicitários por alguns minutos, gerando um pouco de receita pelo menos até a próxima “bomba” explodir.

Na segunda conferência do “Cortile”, os diretores dos maiores jornais italianos discutiram o complexo tema “As liberdades e as responsabilidades na comunicação. Objetividade e verdade – vícios e virtudes”, e o jornalista Mario Calabresi, diretor de La Stampa declarou que o maior compromisso do jornalista na atualidade deve ser com o contexto.

Parece que ele tem razão. Nossas liberdades de jornalista aumentam nossas responsabilidades. O contexto é essencial. Mas, como acabo de constatar novamente, muitas vezes nossa suposta objetividade é manipulada pelos nossos vícios, e não por nossas virtudes. E é assim que o contexto fica para trás.

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O rosto da Igreja na Ásia (e talvez no mundo) segundo o cardeal Tagle

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manilla, e o Pe. Antonio Spadaro, diretor de 'La Civiltà Cattolica'

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manila, e o Pe. Antonio Spadaro (dir), diretor de La Civiltà Cattolica

A Igreja Católica presente na Ásia deve ter a coragem de descobrir novos modos de contar a história de Jesus. Segundo o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, esse é um dos grandes desafios dos cristãos na Ásia, um dos continentes onde a Igreja Católica cresce mais expressivamente.

“Como dizia o Papa João Paulo II, devemos encontrar uma pedagogia que fale à sensibilidade asiática. A mesma história (de Jesus) pode ser contada a partir de novos pontos de vista”, declarou o popular cardeal em conferência organizada pela revista dos padres jesuítas La Civiltà Cattolica – realizada em Roma e, por sinal, um dia após a publicação de uma longa entrevista do Pe. Antonio Spadaro com o Papa Francisco, que ganhou repercussão mundial.

Spadaro, que também presidiu a conferência com Tagle, apresentou o cardeal filipino como muito alinhado ao pensamento do Papa Francisco, que destaca a importância de se ter uma Igreja alegre e sorridente. “A Ásia representa um estilo de igreja: jovem”, e, como disse o Papa na entrevista aos jesuítas, o futuro das igrejas jovens deve ser construído juntamente com a tradição das igrejas antigas (como a da Europa). “Qual é o rosto da Igreja na Ásia?”, questionou Spadaro a Tagle, referindo-se a uma igreja “cheia de energia”, enquanto a da Europa é tida como “uma Igreja cansada”.

Método narrativo – Em vez de responder objetivamente à pergunta de Spadaro, o arcebispo de Manila preferiu apresentar um amplo cenário sobre os desafios da Igreja na Ásia (e que até certo ponto vale para toda a Igreja Católica). Durante toda a sua fala, o Cardeal Tagle destacou que o “método narrativo” é o principal para “proclamar a vida de Jesus na Ásia”. Segundo ele, a própria vida tem uma estrutura narrativa e contar histórias faz parte das tradições dos povos asiáticos.

“As boas histórias se baseiam nas experiências. As nossas histórias pessoais são as melhores, porque falam das nossas experiências”, explicou, acrescentando que quando uma pessoa narra sua história, torna mais compreensível também o mundo em que vive. “Da mesma forma, a Igreja na Ásia precisa partir da experiência de Jesus. Os primeiros apóstolos, que eram asiáticos, falavam de sua própria experiência.”

O cardeal filipino alertou que essa “narrativa” deve ser construída de diversas formas, seja por meio da liturgia ou da oração, seja a partir da interação com as pessoas, “especialmente os mais pobres”. Ele acredita que deva ser fortalecida não só a missão ad gentes (para as nações), mas também aplicá-la a uma realidade inter gentes (entre as nações) e “com os povos”.

Identidade – Outro grande desafio, conforme Tagle, é fortificar a identidade da igreja presente na Ásia. “Em uma grande parte da Ásia, a fé cristã é considerada uma coisa estrangeira”, alertou. “Esquece-se da história dos símbolos da fé. Devemos recordar a história da fundação da Igreja por Jesus.” Exemplificou usando três símbolos bastante conhecidos do cristianismo: a fração do pão, por exemplo, é uma mensagem de partilha; o anel de um bispo é um símbolo de serviço; o sacerdote “como presença de Jesus Cristo” é um sinal de disponibilidade para o povo.

Tagle autografa exemplares do seu livro "Gente de Páscoa”

Tagle autografa exemplares do seu livro “Gente de Páscoa”

“É necessário rastrear a origem dos símbolos da fé, que reconduz à história de Jesus.”, recordou, avisando que, sem a retomada dos significados originais, “os símbolos da Igreja podem terminar contando uma outra história, diferente daquela de Jesus”. O anel do bispo se torna uma mera joia, um símbolo de poder e riqueza, por exemplo.

Insistindo sobre a propagação da história da vida de Jesus, Tagle disse que é dessa história que vem toda a tradição da Igreja. “É a mesma história que toda a comunidade deve compartilhar. É a sua verdadeira identidade.” Essa história, declarou o cardeal, não pode ser imposta. “A Igreja na Ásia deve ser humilde e deixar que o Espírito Santo a toque. Uma Igreja narradora deve ser uma Igreja que escuta as pessoas e o Espírito Santo.”

Sobre a perseguição e a opressão que sofrem alguns povos asiáticos – como na China, onde nasceu a mãe do mesmo cardeal – Tagle evitou citar casos concretos e afirmou que, em resposta às ditaduras, “a Igreja é a voz das histórias suprimidas”. Respondendo a uma pergunta do Pe. Spadaro sobre a pequena porcentagem de cristãos na Ásia, o arcebispo filipino disse que as pequenas comunidades devem ser valorizadas. “Nestas comunidades de cinco, quatro pessoas, a Igreja é viva! Não basta o número. É claro que queremos mais pessoas. Mas a coisa mais importante é a qualidade e a adesão ao Evangelho.”

O cansaço da Europa – O Pe. Spadaro provocou o cardeal Tagle com uma última questão sobre como enxerga a Igreja na Europa. Tagle respondeu: “Escutei tantas vezes a expressão ‘o cansaço da Igreja’ na Europa. Está cansada de quê?”, brincou, tirando risos da plateia. “Parece-me que esse cansaço é motivado pela falta de capacidade de dizer que o Espírito Santo nos convida a uma nova ideia de ser Igreja”, disse firmemente. “Uma nova forma de ser Igreja termina e outra começa. A Igreja não tem tempo de estar cansada. A cada dia busca a mão do Espírito que a guia.”

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Papa convoca vigília de oração pela Síria

ImagePapa Francisco hoje: “Decidi convocar toda a Igreja, no dia 7 de setembro, vigília da Natividade de Maria, Rainha da Paz, para um dia de oração e jejum pela paz na Síria, no Oriente Médio e no mundo inteiro. Convido a unir-se a esta iniciativa, do modo que considerarem mais oportuno, os irmãos cristãos não-católicos, os fiéis de outras religiões e todos os homens de boa vontade”.

No Vaticano, serão cinco horas de oração na Praça de São Pedro, das 19h às 24h. Desde o pontificado de Bento XVI a Igreja vem pedindo ao mundo uma solução pacífica para o problema dos conflitos na Síria.

Com o  recente ataque com armas químicas no país e um agravamento do tom na comunidade internacional – especialmente depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que haverá uma operação militar na Síria – o Papa Francisco também resolveu intensificar as orações pela Paz. De modo velado, hoje ele criticou a posição norte-americana, de realizar uma intervenção militar na Síria. Já há algumas semanas vem pedindo uma solução por meio do diálogo.

“O uso da violência nunca conduz à paz. Guerra chama mais guerra, violência chama mais violência”, declarou o Papa neste domingo.

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