O rosto da Igreja na Ásia (e talvez no mundo) segundo o cardeal Tagle

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manilla, e o Pe. Antonio Spadaro, diretor de 'La Civiltà Cattolica'

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manila, e o Pe. Antonio Spadaro (dir), diretor de La Civiltà Cattolica

A Igreja Católica presente na Ásia deve ter a coragem de descobrir novos modos de contar a história de Jesus. Segundo o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, esse é um dos grandes desafios dos cristãos na Ásia, um dos continentes onde a Igreja Católica cresce mais expressivamente.

“Como dizia o Papa João Paulo II, devemos encontrar uma pedagogia que fale à sensibilidade asiática. A mesma história (de Jesus) pode ser contada a partir de novos pontos de vista”, declarou o popular cardeal em conferência organizada pela revista dos padres jesuítas La Civiltà Cattolica – realizada em Roma e, por sinal, um dia após a publicação de uma longa entrevista do Pe. Antonio Spadaro com o Papa Francisco, que ganhou repercussão mundial.

Spadaro, que também presidiu a conferência com Tagle, apresentou o cardeal filipino como muito alinhado ao pensamento do Papa Francisco, que destaca a importância de se ter uma Igreja alegre e sorridente. “A Ásia representa um estilo de igreja: jovem”, e, como disse o Papa na entrevista aos jesuítas, o futuro das igrejas jovens deve ser construído juntamente com a tradição das igrejas antigas (como a da Europa). “Qual é o rosto da Igreja na Ásia?”, questionou Spadaro a Tagle, referindo-se a uma igreja “cheia de energia”, enquanto a da Europa é tida como “uma Igreja cansada”.

Método narrativo – Em vez de responder objetivamente à pergunta de Spadaro, o arcebispo de Manila preferiu apresentar um amplo cenário sobre os desafios da Igreja na Ásia (e que até certo ponto vale para toda a Igreja Católica). Durante toda a sua fala, o Cardeal Tagle destacou que o “método narrativo” é o principal para “proclamar a vida de Jesus na Ásia”. Segundo ele, a própria vida tem uma estrutura narrativa e contar histórias faz parte das tradições dos povos asiáticos.

“As boas histórias se baseiam nas experiências. As nossas histórias pessoais são as melhores, porque falam das nossas experiências”, explicou, acrescentando que quando uma pessoa narra sua história, torna mais compreensível também o mundo em que vive. “Da mesma forma, a Igreja na Ásia precisa partir da experiência de Jesus. Os primeiros apóstolos, que eram asiáticos, falavam de sua própria experiência.”

O cardeal filipino alertou que essa “narrativa” deve ser construída de diversas formas, seja por meio da liturgia ou da oração, seja a partir da interação com as pessoas, “especialmente os mais pobres”. Ele acredita que deva ser fortalecida não só a missão ad gentes (para as nações), mas também aplicá-la a uma realidade inter gentes (entre as nações) e “com os povos”.

Identidade – Outro grande desafio, conforme Tagle, é fortificar a identidade da igreja presente na Ásia. “Em uma grande parte da Ásia, a fé cristã é considerada uma coisa estrangeira”, alertou. “Esquece-se da história dos símbolos da fé. Devemos recordar a história da fundação da Igreja por Jesus.” Exemplificou usando três símbolos bastante conhecidos do cristianismo: a fração do pão, por exemplo, é uma mensagem de partilha; o anel de um bispo é um símbolo de serviço; o sacerdote “como presença de Jesus Cristo” é um sinal de disponibilidade para o povo.

Tagle autografa exemplares do seu livro "Gente de Páscoa”

Tagle autografa exemplares do seu livro “Gente de Páscoa”

“É necessário rastrear a origem dos símbolos da fé, que reconduz à história de Jesus.”, recordou, avisando que, sem a retomada dos significados originais, “os símbolos da Igreja podem terminar contando uma outra história, diferente daquela de Jesus”. O anel do bispo se torna uma mera joia, um símbolo de poder e riqueza, por exemplo.

Insistindo sobre a propagação da história da vida de Jesus, Tagle disse que é dessa história que vem toda a tradição da Igreja. “É a mesma história que toda a comunidade deve compartilhar. É a sua verdadeira identidade.” Essa história, declarou o cardeal, não pode ser imposta. “A Igreja na Ásia deve ser humilde e deixar que o Espírito Santo a toque. Uma Igreja narradora deve ser uma Igreja que escuta as pessoas e o Espírito Santo.”

Sobre a perseguição e a opressão que sofrem alguns povos asiáticos – como na China, onde nasceu a mãe do mesmo cardeal – Tagle evitou citar casos concretos e afirmou que, em resposta às ditaduras, “a Igreja é a voz das histórias suprimidas”. Respondendo a uma pergunta do Pe. Spadaro sobre a pequena porcentagem de cristãos na Ásia, o arcebispo filipino disse que as pequenas comunidades devem ser valorizadas. “Nestas comunidades de cinco, quatro pessoas, a Igreja é viva! Não basta o número. É claro que queremos mais pessoas. Mas a coisa mais importante é a qualidade e a adesão ao Evangelho.”

O cansaço da Europa – O Pe. Spadaro provocou o cardeal Tagle com uma última questão sobre como enxerga a Igreja na Europa. Tagle respondeu: “Escutei tantas vezes a expressão ‘o cansaço da Igreja’ na Europa. Está cansada de quê?”, brincou, tirando risos da plateia. “Parece-me que esse cansaço é motivado pela falta de capacidade de dizer que o Espírito Santo nos convida a uma nova ideia de ser Igreja”, disse firmemente. “Uma nova forma de ser Igreja termina e outra começa. A Igreja não tem tempo de estar cansada. A cada dia busca a mão do Espírito que a guia.”

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Arquivado em Cristianismo, Igreja no Mundo

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