Arquivo do mês: dezembro 2013

Francisco e Bento XVI se reencontram para desejar Feliz Natal

Os dois Papas, Francisco e Bento XVI, se reencontraram hoje no mosteiro Mater Ecclesiae, onde vive o Papa Emérito. Eles trocaram cumprimentos de “Feliz Natal” e fizeram uma breve oração juntos. “É um prazer vê-lo tão bem”, disse Francisco a Bento XVI, logo no início do reencontro. O diálogo privado durou cerca de meia hora.

Em um segundo momento, mais descontraído, Bento XVI brincou: “Acho que fizeram milhões de fotografias!” E Francisco respondeu: “Sim, milhões, sim!”

O Papa Francisco também cumprimentou o grupo de funcionários que vivem com o Papa Emérito, os chamados “Memores” (membros do movimento laical Memores Domini), ou “família do Papa”. Veja o vídeo da visita de Francisco a Bento XVI.

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Um debate sobre as mulheres na Igreja

2013-12-18 18.33.37O grande passo para que as mulheres voltassem a ser lembradas pela Igreja Católica foi dado no Concílio Vaticano II e de lá para cá muita coisa mudou, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Foi mais ou menos esse o tom do debate sobre o tema “A força da mulher” realizado ontem na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, por ocasião do lançamento do documentário Maria di Magdala: Le donne nella Chiesa (“Maria Madalena: As mulheres na Igreja”), dirigido e produzido pela espanhola Maite Carpio, a ser exibido pela TV italiana Rai 3 em 28 de dezembro no programa La Grande Storia.

As mães do Concílio –  “O Vaticano II foi um germe para mudanças notáveis. Foi a primeira vez que mulheres participaram de um concílio”, recordou a teóloga Marinella Perroni, doutora em Teologia e Filosofia e professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma. Convocado em 1962 pelo Papa João XXIII, o Concílio Vaticano II foi a última grande reforma da Igreja Católica, desde aspectos práticos e pastorais até a liturgia e o modo de pensar a própria Igreja.

Mulheres do Vaticano II

A professora Marinella, uma das entrevistadas do documentário, se refere às chamadas “mães do Concílio”, um grupo de 23 mulheres (13 leigas e 10 religiosas) que participaram como observadoras do grande encontro que reuniu 2.500 bispos do mundo inteiro para repensar a Igreja.  Elas chegaram muito tempo depois que o Concílio havia começado, apenas quando o então cardeal Arcebispo de Bruxelas, Dom Léon-Joseph Suenens, teria dito aos seus companheiros padres do concílio: “Caros irmãos, olhem para os lados… onde está a outra metade da Igreja?” Foi somente em setembro de 1964, sob o Papa Paulo VI, que a primeira mulher entrou numa sala conciliar.

Conforme o documentário, 60% dos fiéis que se dizem católicos atualmente são mulheres. Mas só depois do Vaticano II  as mulheres passaram a ser admitidas nas faculdades de Teologia, por exemplo. “Não nos faltou nos últimos 50 anos uma contribuição forte de teologia das mulheres, isto é, a participação da mulher na interpretação e no crescimento teológico”, afirmou Marinella. “Alegra-me recordar que estamos em um caminho de crescimento.” Numa fala bastante crítica, mas otimista, ela recordou a argentina Margarita Moyano Llerena, então presidente da Federação Mundial da Juventude Católica Feminina e uma das mulheres que participaram do Concílio, que teria dito: “As mulheres em Roma chegam só no fim, mas, no fim, chegam.”

Últimos dois Papas – O padre Federico Lombardi, atual porta-voz do Vaticano e que trabalhou como consultor na preparação do documentário Maria di Magdala observou que o aumento da participação das mulheres nas decisões da Igreja é algo que vem sendo preparado e defendido pelos últimos dois Papas, Bento XVI e Francisco, com os quais ele vem trabalhando nos últimos anos.

Para ilustrar esse ponto de vista, o padre jesuíta recordou a entrevista de Bento XVI a uma TV alemã em 2006, quando disse: “As próprias mulheres, com a sua motivação e força, com a sua por assim dizer preponderância e o seu ‘poder espiritual’, saberão encontrar o próprio espaço. E nós (homens) deveríamos procurar colocar-nos à escuta de Deus, para não nos opormos a Ele; ao contrário, fazemos votos por que o elemento feminino obtenha na Igreja o lugar ativo que lhe é próprio, a começar pela Mãe de Deus e por Maria Madalena.”

Da parte do Papa Francisco, Lombardi admitiu que ainda “não entendeu perfeitamente” o que ele quis dizer na entrevista coletiva concedida aos jornalistas que estavam no avião durante a viagem de volta do Rio de Janeiro a Roma, em julho.  Na ocasião, declarou Francisco: “O papel da mulher na Igreja não deve circunscrever-se a ser mãe, trabalhadora… Limitá-la não! É outra coisa!”

O Papa lembrou as mulheres do Paraguai, que depois da guerra (1864-1870) tiveram de reconstruir o país mantendo a cultura local e acrescentou: “Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres. Isso deve ser explicitado melhor. Eu acho que ainda não se fez uma profunda teologia da mulher na Igreja. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo, agora faz a coroinha, depois faz a Leitura, é a presidente da Caritas… Mas, há muito mais! É necessário fazer uma profunda teologia da mulher.” Segundo o  porta-voz do Vaticano, “os dois últimos papas têm uma perspectiva muito aberta sobre a realidade da mulher na Igreja. Muito foi feito, mas é necessário entender que ainda há muito a avançar”.

Apóstola dos apóstolos – De acordo com o presidente do Pontifício Conselho da Família, o arcebispo Dom Vincenzo Paglia, não é possível aprofundar uma “teologia da mulher” sem recordar o papel essencial das mulheres na História da Igreja. “Quando se lê a História com profundidade, encontramos algumas mulheres com um papel evidente, mas outras serão descobertas. As mulheres são parte determinante”, defendeu, destacando a história das ordens religiosas femininas. “Houve uma abadessa que tinha poder sobre os padres, mais do que o bispo. A história do monasticismo é exemplar.”

Dom Paglia, um dos entrevistados para o documentário, acredita que a força da mulher na Igreja precise ser redescoberta pelos homens, de modo que elas assumam funções mais decisivas, inclusive na administração eclesiástica. “Não há dúvidas de que seja necessária uma presença maior da mulher nas cúrias, não só na romana.” Porém, ele alerta: é indispensável não perder “a visão do mistério de Deus” ao afrontar o problema. “O poder na Igreja não é parlamentar, econômico, militar… é um poder diferente.” Referindo-se a Maria Madalena, primeira pessoa que encontrou Jesus após a ressurreição, segundo o relato bíblico, e que dá nome ao documentário, disse Dom Paglia: “Devemos redescobrir o significado de Maria Madalena; o que queremos dizer quando a chamamos ‘a apóstola dos apóstolos‘.”

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Papa Francisco é a pessoa do ano

Francisco foi eleito a pessoa do ano de 2013 pela revista Time. Não precisamos comentar o conteúdo: a reportagem é um resumão de tudo o que o Papa tem feito, sua história de vida e o que faz dele uma pessoa especial.

O porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, declarou hoje que a escolha da Time não foi uma surpresa, considerando a enorme repercussão dada à eleição de Jorge Mario Bergoglio para o papado.

“É um sinal positivo o fato de que um dos reconhecimentos mais prestigiosos da imprensa internacional tenha sido atribuído a quem anuncia no mundo valores espirituais, religiosos e morais, e fala eficazmente a favor da paz e de uma maior justiça”, disse Lombardi. “O Papa não procura fama e sucesso”, comentou o porta-voz, “mas isso demonstra que muitos entenderam a sua mensagem”.

De qualquer forma, a Time coloca o Papa e a Igreja Católica novamente no cenário internacional de forma muito positiva e fortalece a imagem de que o momento atual é de mudança favorável.

A reportagem é leitura obrigatória para quem se interessa pelos assuntos da Igreja Católica. Se você lê em inglês, recomendamos o texto original, que está aqui. Caso contrário, leia aqui a versão da Time em português (não é uma tradução do inglês, é outro texto).

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Bento XVI vive como um monge e reza todos os dias por cristãos do Oriente

Vida de aposentado (com o Arcebispo Georg Gänswein)

Bento XVI ainda é notícia. Durante visita de patriarcas do Oriente, em 29 de novembro, o Papa Emérito revelou que reza todos os dias pelos cristãos que vivem naquela região. O patriarca caldeu e Arcebispo de Bagdá, Dom Raphael Louis Sako, relatou à agência AsiaNews alguns momentos do encontro, que ocorreu no mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, onde Bento XVI decidiu morar após sua aposentadoria.

“Tivemos um encontro amigável. Perguntamos a ele sobre sua saúde e ele nos perguntou sobre o Oriente Médio e a situação dos cristãos orientais”, contou Dom Sako. Segundo ele, os patriarcas brincaram com o Papa Emérito quando o viram: “Santidade, nós viemos do nosso hotel sob chuva, como peregrinos, e por isso merecemos uma bênção especial e uma oração especial pelo Iraque.” Depois disso, Bento XVI teria respondido: “Rezo pelo Iraque, pela Síria e pelo resto do Oriente todos os dias.”

O arcebispo contou, ainda, que convidou o Papa Emérito a visitar o Iraque, mas ele teria recusado o convite, recordando: “Estou ficando velho e sou um monge que decidiu passar o resto de seu tempo em oração e descanso”, relata a AsiaNews. Alguns dias antes, o Papa Francisco teria prometido uma visita ao Iraque, segundo informou o arcebispo à agência asiática.

Um mundo com dois Papas

Para recordar – A última vez em que Bento XVI apareceu em público foi ao lado do Papa Francisco, em julho de 2013, para uma breve cerimônia de consagração da Cidade do Vaticano a São José e São Miguel Arcanjo, com a bênção de uma imagem. Conforme informaram os vaticanistas na época, ele foi convidado pessoalmente por Francisco e, após relutar um pouco, aceitou participar da inauguração da estátua, pois o projeto começou durante seu pontificado.

Mas sua manifestação pública mais recente foi quando, em 24 de setembro, o jornal italiano La Repubblica publicou uma carta-resposta de Bento XVI ao matemático e ensaísta Piergiorgio Odifreddi, que criticou a obra do pontífice emérito sobre a vida de Jesus. No texto, agradeceu a crítica e respondeu aos pontos com os quais discordava. Concentrou-se, portanto, no debate teológico com o autor.

O Papa Emérito, de 86 anos, continua recebendo discretas visitas. O Vaticano procura não falar sobre ele, mas acredita-se que esteja em boas condições de saúde. De qualquer forma, Joseph Ratzinger tem evitado interferir no pontificado de Francisco, como havia anunciado no momento da renúncia. Antes da eleição de Francisco, Bento XVI prometeu obediência ao novo Papa que estava por vir. E, logo no início do pontificado do Papa argentino, observou que “teologicamente” estava de acordo com tudo o que Francisco vinha fazendo. Sobre seu novo estilo de vida, em junho deste ano declarou ao jornalista alemão Manfred Lütz: “Estou bem e vivo como um monge.”

Bento XVI e o então Cardeal Bergoglio, no Brasil

Um mundo com dois Papas – Antes da eleição de Francisco, existia uma grande preocupação entre membros da Igreja e entre a imprensa que acompanha os assuntos do Vaticano a respeito de como seria um mundo com dois Papas. Seriam necessárias novas regras? Novos títulos para o Papa aposentado? Manteria o nome ou voltaria a ser só Joseph Ratzinger? Como ele iria se vestir? Receberia ordens do novo pontífice? Poderia continuar escrevendo livros, dando conferências? Ainda que Bento XVI tenha prometido não intervir, como se sentiria o novo Papa sabendo que seu antecessor ainda estava vivo e presente dentro do Vaticano?

Porém, a situação tem sido muito mais tranquila do que se imaginava. Bento XVI mantém enorme discrição, como anunciado antes. Não aparece sem ser convidado e respeita Francisco desde sempre: “O senhor é o Papa, o senhor é o Papa!”, alertou a Francisco no primeiro encontro dos dois após a eleição, em Castel Gandolfo, quando Bergoglio se recusou a ajoelhar-se em um lugar de honra. Por fim, ajoelhados lado a lado, os dois rezaram juntos.

Por sua vez, Francisco, que já visitou Bento XVI em diversas ocasiões, assumiu com naturalidade que seria pouco inteligente não consultar o Papa Emérito quando necessário. E certamente não avisa antes de telefonar. Afinal, ele é como um “avô sábio”, definiu.

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