Arquivo do mês: dezembro 2014

Papa visita Turquia e combate o fanatismo religioso

Texto publicado na página 9 do jornal “O São Paulo”

O Papa Francisco demonstrou sua convicção em fortalecer o diálogo ecumênico e inter-religioso na viagem à Turquia entre 28 e 30 de novembro. Para ele, a aproximação entre as religiões é uma forma concreta de promover a paz onde há guerras coordenadas por extremistas. “Uma contribuição importante pode vir do diálogo inter-religioso e inter-cultural, de modo a banir qualquer forma de fundamentalismo e terrorismo, que humilha gravemente a dignidade de todos os homens e instrumentaliza a religião”, afirmou, logo na chegada a Ancara. Mas dois pontos principais resumem os objetivos da visita: combater o fanatismo religioso diante da violenta perseguição aos cristãos no Oriente Médio, especialmente no Iraque e na Síria; e aproximar ainda mais a Igreja Católica da Igreja Ortodoxa, rumo à unidade das igrejas.

Combate ao terrorismo – Há um verdadeiro massacre de cristãos no mundo. Estudos recentes da Sociedade Internacional para Direitos Humanos (ISHR, na sigla em inglês, um grupo não religioso que reúne membros de 38 países) indicam que 80% dos atos de discriminação religiosa hoje são contra cristãos. O Centro para Estudos da Cristandade Global, nos EUA, estima que 100 mil cristãos são mortos todos os anos por causa da sua fé. A maior parte justamente no Oriente Médio.

Por isso, o Papa pediu na Turquia uma ação mais firme das autoridades de países de maioria muçulmana contra os terroristas que também se dizem muçulmanos. Em especial, teme-se a ação do chamado “Estado Islâmico”, grupo que atua no Iraque e na Síria, que declarou guerra aos cristãos. No vôo de ida à Turquia, Francisco reiterou o conceito de “guerra justa”, dizendo que, quando necessário, “é legítimo parar um agressor injusto, respeitando o direito internacional”. O pontífice pediu que, no mínimo, os governantes denunciem essa violência.

Membros do “Estado Islâmico” estupram, queimam, enterram vivos, apedrejam, degolam e esquartejam aqueles que consideram inimigos – principalmente cristãos e curdos (maior minoria étnica na região), inclusive mulheres e crianças. Ou, então, os obrigam a se converterem ao islamismo. Mas, para o Papa Francisco, esse não é o verdadeiro Islã. No voo de volta a Roma, explicou: “O Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) é um livro de paz. Não se pode dizer que todos os islâmicos sejam terroristas. Em todas as religiões existem esses grupos.”

Mas a decisão do Papa de tocar no assunto junto ao presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, foi estratégica. Atualmente, o governo de Erdoğan visa a uma posição de liderança no Oriente Médio. Porém, a Turquia é branda nas condenações ao terrorismo, porque muitas vezes estes grupos combatem inimigos que os árabes turcos têm em comum – como os mesmos curdos e o ditador da Síria, Bashar al-Assad, cujo regime também é extremamente violento.

Erdoğan, por sua vez, propôs um acordo indireto ao Papa: aceita a crítica, mas também o Ocidente precisa se empenhar contra o que ele chamou de “islamofobia”, isto é, o preconceito contra muçulmanos em países ocidentais. “O racismo, a discriminação e a islamofobia, infelizmente, estão aumentando”, disse. De qualquer forma, para o presidente turco, a visita do papa é um símbolo de aproximação.

Igreja Ortodoxa – O segundo objetivo da visita do Papa à Turquia era, na verdade, o oficial: um encontro com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, da Igreja Ortodoxa. As duas igrejas eram uma só até o ano 1054, quando houve o Grande Cisma, mas hoje a proximidade entre o bispo de Roma, sucessor de apóstolo Pedro, e o bispo de Constantinopla, sucessor do apóstolo André, é muito grande. O gesto que ganhou as páginas dos jornais de todo o mundo foi quando, de improviso, Francisco se inclinou no peito de Bartolomeu e pediu que ele o abençoasse, e também à Igreja de Roma. O patriarca beijou a cabeça do Papa Francisco.

Alguns observadores do Vaticano, no entanto, minimizaram a importância desse gesto. De acordo com Sandro Magister, do jornal italiano L’Espresso, não é a primeira vez que o Papa Francisco se inclina para um líder de outra igreja. “O momento que se sobressaiu do encontro foi a troca de promessas de unidade entre as igrejas”, escreveu Magister, referindo-se à declaração conjunta que os dois bispos assinaram ao fim de uma oração ecumênica. Para Francisco, “a unidade é um caminho que se deve fazer e se deve fazer juntos, é o ecumenismo espiritual, rezar juntos trabalhar juntos. Depois, há o ecumenismo do sangue: quando matam os cristãos, o sangue se mistura. Os nossos mártires estão gritando: somos um.”

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Igreja no Mundo

Recuperar o valor da União

Texto publicado na página 24 do jornal “O São Paulo”

Envelhecida, abatida, desestimulada, desconfiada, solitária, consumista, individualista. São características nada desejáveis em uma pessoa, muito menos em toda uma sociedade. Foram essas algumas das palavras que o Papa Francisco usou para descrever a Europa atual em um forte discurso pronunciado no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França), em 25 de novembro. Pela primeira vez, Francisco falou aos 751 deputados europeus que representam cerca de 500 milhões de habitantes de 28 países. O contexto hoje é completamente diferente daquela visita de João Paulo II, em 1988, quando o mundo estava dividido entre capitalismo e socialismo. Mas o papa argentino não poupou críticas ao atual estilo de vida e às políticas públicas europeias. Porém, no fundo, acredita o pontífice, existe a esperança.

“A partir de minha vocação de pastor, desejo direcionar a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e encorajamento”, declarou, logo no início de sua fala. Para o Papa Francisco, a Europa abandonou no meio do caminho os valores de seus “pais fundadores”, aqueles líderes políticos que desde o fim da Segunda Guerra Mundial começaram a promover a “união” dos países do continente – que viria, em 1992, a se formalizar com o nome de União Europeia. Eles visavam a “um futuro baseado na capacidade de trabalhar juntos para superar as divisões e favorecer a paz e a comunhão entre todos os povos do continente”, recordou Papa Francisco. “Ao centro desse ambicioso projeto político estava a confiança no homem, não tanto como cidadão nem como sujeito econômico, mas como pessoa dotada de uma dignidade transcendente.”

Pessoa ou objeto? – É aí que, para Francisco, mora o problema: colocando a economia em primeiro lugar, a Europa esqueceu seus valores “humanistas”. O ser humano passou a ser tratado como objeto, “dos quais se podem programar a concepção, a configuração e a utilidade”. Para ele, é preciso voltar a promover a dignidade de cada pessoa. “Que dignidade existe quando falta a possibilidade de se exprimir livremente o próprio pensamento ou de se professar, sem coerção, a própria fé religiosa? Que dignidade é possível sem um marco jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder? Que dignidade pode jamais ter um homem ou uma mulher alvos de todo tipo de discriminação? Que dignidade poderá encontrar uma pessoa que não tem alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, que não tem o trabalho que lhe unge de dignidade?”

Segundo o Papa, aqueles ideais que um dia inspiraram a Europa parecem ter perdido força, “em favor de tecnicismos burocráticos de suas instituições”. O egoísmo faz com que a pobreza seja ignorada. O ser humano “corre o risco de ser reduzido a uma simples engrenagem de um mecanismo que o trata da mesma forma que um bem de consumo a se utilizar”. Assim, no que chamou de uma “cultura do descarte”, a vida deve ser funcional ou acaba sendo descartada sem hesitação: “Como nos casos dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem cuidados, ou das crianças assassinadas antes de nascer.”

Desocupação e migração – O bispo de Roma não poupou censuras quando citou dois dos problemas mais polêmicos na Europa atual, que se refletem em todo o mundo: o desemprego e a migração. Com a acentuada crise econômica, muitos europeus não têm trabalho e dependem de assistência social para viver – a pobreza aumenta e o desemprego chega a superar 40% da população jovem em alguns países. “É tempo de favorecer políticas de ocupação, mas, sobretudo, é necessário dar novamente dignidade ao trabalho”, reclamou Francisco. No tema das migrações, ele pediu que os homens e as mulheres estrangeiros que chegam à Europa sejam acolhidos e auxiliados. “Não podemos deixar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério!”, lamentou, referindo-se às milhares de pessoas que acabaram morrendo em embarcações superlotadas a caminho da Europa.

O princípio é o ser humano – A mensagem de esperança do Papa Francisco aos europeus é a de que possam redescobrir a relação entre duas dimensões inseparáveis: o céu e a terra. “O céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas”, explicou. Em outras palavras, para o papa é preciso que a Europa retome a centralidade da pessoa humana. “Chegou a hora de construir juntos a Europa que não gira ao redor da economia, mas ao redor da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com fé o futuro para viver plenamente e com esperança o seu presente.”

Papa Francisco com Martin Schulz

Repercussão – O discurso foi aplaudido por dez vezes pelos parlamentares, especialmente ao final, e teve grande impacto na imprensa, no ambiente eclesiástico e entre políticos europeus. No mesmo dia, o Papa falou ao Conselho Europeu, órgão que reúne chefes de Estado e de governo dos países da União Europeia, detalhando pontos apresentados no Parlamento. Pediu “unidade na diversidade”, atenção ao meio ambiente, um esforço maior pela paz…

Disse que, apesar dos pecados de seus filhos, a Igreja é uma “especialista em humanidade” – como definiu certa vez o Papa Paulo VI – e colocou-se à disposição para colaborar. “Não buscamos nada mais do que servir e testemunhar a verdade. Nada mais do que esse espírito nos guia ao sustentar o caminho da humanidade.” De fato, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que acolheu o papa em nome dos deputados, comentou que o continente vive uma crise dramática, que “os cidadãos perderam a confiança nas instituições nacionais e internacionais”, mas que a Igreja busca promover valores parecidos àqueles da União Europeia, como respeito, solidariedade e paz, e enfrenta desafios parecidos, como o da distribuição das riquezas. “Papa Francisco, suas palavras têm uma importância enorme. Para todos nós são temas universais. Suas palavras oferecem orientação em tempos de grande desorientação”, declarou Schulz.

Deixe um comentário

Arquivado em Igreja no Mundo, Vaticano

‘Corajoso cristão, incansável apóstolo’

Texto publicado na página 11 do jornal “O São Paulo”

Revela-se a imagem do recém-beatificado Papa Paulo VI na Praça de São Pedro, no Vaticano. Após a fórmula da beatificação dita pelo Papa Francisco, o novo “bem-aventurado” surge à multidão em uma foto grande, que pende da sacada central da basílica. Paulo VI aparece em pé, sorrindo e de braços abertos, gesto que na iconografia cristã representa a intercessão. Gesto, também, que muitos fazem ao serem acolhidos pelas massas, o que pode levar a crer que Paulo VI era um grande arrebatador de multidões. Não era. O chamado “papa do diálogo” era um homem sério e tímido. Discreto, sofreu por muito tempo em silêncio com problemas de saúde. Mas, em um mundo cada vez mais adverso à religião, entre 1963 e 1978, ouvia e estimulava diferentes vozes dentro e fora da Igreja. Falava pouco, mas escrevia muito. Abriu as portas para o diálogo com outros cristãos e outras religiões. Criticou o modo cruel como o mundo vinha se desenvolvendo. Organizou a discussão sobre o valor da vida humana. Seu pontificado ocorreu entre o de João XXIII, o “papa bom”, e o de João Paulo I, o “papa sorriso”, dois comunicadores muito populares. Mas foi por meio de seus ouvidos, seus textos e suas fortes decisões que Paulo VI conseguiu transformar a Igreja.

O Papa Francisco, buscando reverter a ideia de que o legado de Paulo VI não havia ainda sido reconhecido pela Igreja, aceitou beatificá-lo no dia 19 de outubro, na missa de conclusão do Sínodo dos Bispos sobre o tema da família. “Sobre este grande papa, este corajoso cristão, este incansável apóstolo, diante de Deus hoje não podemos não dizer uma palavra tão simples, sincera e importante: Obrigado! Obrigado, nosso caro e amado Papa Paulo VI! Obrigado por seu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja!”, declarou, em sua homilia.

Francisco atribuiu a ele um grande exemplo de humildade e recordou um texto do diário de Paulo VI, no qual diz: “Talvez o Senhor tenha me chamado a este serviço não tanto porque eu tenha qualquer atitude, ou para que eu governe e salve a Igreja de suas presentes dificuldades, mas para que eu sofra alguma coisa pela Igreja, e fique claro que Ele, e não outro, a guia e a salva.” Segundo o Papa, “enquanto se formava uma sociedade secularizada e hostil, Paulo VI soube conduzir o timão da barca de Pedro com sabedoria voltada para o futuro – e às vezes na solidão –, sem perder nunca a alegria e a confiança no Senhor”.

Repercussão – Quando foi eleito papa, o então cardeal Giovani Battista Montini, arcebispo de Milão, escolheu para si o nome do “apóstolo missionário”. Segundo afirmou o cardeal Roger Etchegaray à agência Catholic News Agency, Paulo VI era “um papa que parecia ser tímido, discreto, mas que ao mesmo tempo tinha esse zelo missionário”. “Se eu tivesse que resumir Paulo VI em dois adjetivos diria que ele foi místico e profético”, afirmou. “Ele foi considerado um papa frio, mas foi realmente um místico. Aprofundar sua espiritualidade faria tão bem a qualquer um.”

De acordo com o escritor David Gibson, em artigo para a Religion News Service, são quatro as principais características de Paulo VI: a primeira, “reformador”, por ter promovido a colegialidade entre os bispos, a internacionalização da administração da Igreja e, mais do que isso, ter liderado grande parte do Concílio Vaticano II. A segunda, “um papa evangelizador”, pela essencial encíclica Evangelii Nuntiandi, de forte teor pastoral. A terceira, “um papa peregrino”, por ter sido o primeiro pontífice da era moderna a ter viajado para fora da Itália: visitou a Ásia, a África e a América Latina. E, quarta, ele foi um “construtor de pontes”, buscando sempre promover a unidade da Igreja e o “diálogo com o mundo”.

O biógrafo Russel Shaw, professor da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, disse à agência Aleteia que Paulo VI governou a Igreja durante um período muito duro. Os anos após o Concílio Vaticano II, que foi de 1962 a 1965, foram marcados por uma forte divisão ideológica. Discutia-se a questão dos métodos contraceptivos (que resultou na encíclica Humanae Vitae) e, em âmbito administrativo, viu-se várias pessoas deixarem a vida religiosa. “O vírus da dissidência se espalhou rapidamente e, com apoio da mídia, logo se impregnou”, conta Shaw. O papa do diálogo foi injustamente acusado por isso, pois, segundo Shaw, a divisão já existia antes dele. “Será que sua santidade foi construída e testada durante sua última e difícil década?” Com a beatificação, afirma o escritor, “aqueles que admiraram Paulo VI agora dizem: Até que enfim ele está recebendo o que merece.”

Deixe um comentário

Arquivado em Igreja, Vaticano