Papa visita Turquia e combate o fanatismo religioso

Texto publicado na página 9 do jornal “O São Paulo”

O Papa Francisco demonstrou sua convicção em fortalecer o diálogo ecumênico e inter-religioso na viagem à Turquia entre 28 e 30 de novembro. Para ele, a aproximação entre as religiões é uma forma concreta de promover a paz onde há guerras coordenadas por extremistas. “Uma contribuição importante pode vir do diálogo inter-religioso e inter-cultural, de modo a banir qualquer forma de fundamentalismo e terrorismo, que humilha gravemente a dignidade de todos os homens e instrumentaliza a religião”, afirmou, logo na chegada a Ancara. Mas dois pontos principais resumem os objetivos da visita: combater o fanatismo religioso diante da violenta perseguição aos cristãos no Oriente Médio, especialmente no Iraque e na Síria; e aproximar ainda mais a Igreja Católica da Igreja Ortodoxa, rumo à unidade das igrejas.

Combate ao terrorismo – Há um verdadeiro massacre de cristãos no mundo. Estudos recentes da Sociedade Internacional para Direitos Humanos (ISHR, na sigla em inglês, um grupo não religioso que reúne membros de 38 países) indicam que 80% dos atos de discriminação religiosa hoje são contra cristãos. O Centro para Estudos da Cristandade Global, nos EUA, estima que 100 mil cristãos são mortos todos os anos por causa da sua fé. A maior parte justamente no Oriente Médio.

Por isso, o Papa pediu na Turquia uma ação mais firme das autoridades de países de maioria muçulmana contra os terroristas que também se dizem muçulmanos. Em especial, teme-se a ação do chamado “Estado Islâmico”, grupo que atua no Iraque e na Síria, que declarou guerra aos cristãos. No vôo de ida à Turquia, Francisco reiterou o conceito de “guerra justa”, dizendo que, quando necessário, “é legítimo parar um agressor injusto, respeitando o direito internacional”. O pontífice pediu que, no mínimo, os governantes denunciem essa violência.

Membros do “Estado Islâmico” estupram, queimam, enterram vivos, apedrejam, degolam e esquartejam aqueles que consideram inimigos – principalmente cristãos e curdos (maior minoria étnica na região), inclusive mulheres e crianças. Ou, então, os obrigam a se converterem ao islamismo. Mas, para o Papa Francisco, esse não é o verdadeiro Islã. No voo de volta a Roma, explicou: “O Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) é um livro de paz. Não se pode dizer que todos os islâmicos sejam terroristas. Em todas as religiões existem esses grupos.”

Mas a decisão do Papa de tocar no assunto junto ao presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, foi estratégica. Atualmente, o governo de Erdoğan visa a uma posição de liderança no Oriente Médio. Porém, a Turquia é branda nas condenações ao terrorismo, porque muitas vezes estes grupos combatem inimigos que os árabes turcos têm em comum – como os mesmos curdos e o ditador da Síria, Bashar al-Assad, cujo regime também é extremamente violento.

Erdoğan, por sua vez, propôs um acordo indireto ao Papa: aceita a crítica, mas também o Ocidente precisa se empenhar contra o que ele chamou de “islamofobia”, isto é, o preconceito contra muçulmanos em países ocidentais. “O racismo, a discriminação e a islamofobia, infelizmente, estão aumentando”, disse. De qualquer forma, para o presidente turco, a visita do papa é um símbolo de aproximação.

Igreja Ortodoxa – O segundo objetivo da visita do Papa à Turquia era, na verdade, o oficial: um encontro com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, da Igreja Ortodoxa. As duas igrejas eram uma só até o ano 1054, quando houve o Grande Cisma, mas hoje a proximidade entre o bispo de Roma, sucessor de apóstolo Pedro, e o bispo de Constantinopla, sucessor do apóstolo André, é muito grande. O gesto que ganhou as páginas dos jornais de todo o mundo foi quando, de improviso, Francisco se inclinou no peito de Bartolomeu e pediu que ele o abençoasse, e também à Igreja de Roma. O patriarca beijou a cabeça do Papa Francisco.

Alguns observadores do Vaticano, no entanto, minimizaram a importância desse gesto. De acordo com Sandro Magister, do jornal italiano L’Espresso, não é a primeira vez que o Papa Francisco se inclina para um líder de outra igreja. “O momento que se sobressaiu do encontro foi a troca de promessas de unidade entre as igrejas”, escreveu Magister, referindo-se à declaração conjunta que os dois bispos assinaram ao fim de uma oração ecumênica. Para Francisco, “a unidade é um caminho que se deve fazer e se deve fazer juntos, é o ecumenismo espiritual, rezar juntos trabalhar juntos. Depois, há o ecumenismo do sangue: quando matam os cristãos, o sangue se mistura. Os nossos mártires estão gritando: somos um.”

1 comentário

Arquivado em Igreja no Mundo

Uma resposta para “Papa visita Turquia e combate o fanatismo religioso

  1. Marinalva

    Nossas orações para que sejamos um só coração, desejando ardentemente a vontade de Deus.
    Que possamos viver como filhos amados de Deus.

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