Recuperar o valor da União

Texto publicado na página 24 do jornal “O São Paulo”

Envelhecida, abatida, desestimulada, desconfiada, solitária, consumista, individualista. São características nada desejáveis em uma pessoa, muito menos em toda uma sociedade. Foram essas algumas das palavras que o Papa Francisco usou para descrever a Europa atual em um forte discurso pronunciado no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França), em 25 de novembro. Pela primeira vez, Francisco falou aos 751 deputados europeus que representam cerca de 500 milhões de habitantes de 28 países. O contexto hoje é completamente diferente daquela visita de João Paulo II, em 1988, quando o mundo estava dividido entre capitalismo e socialismo. Mas o papa argentino não poupou críticas ao atual estilo de vida e às políticas públicas europeias. Porém, no fundo, acredita o pontífice, existe a esperança.

“A partir de minha vocação de pastor, desejo direcionar a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e encorajamento”, declarou, logo no início de sua fala. Para o Papa Francisco, a Europa abandonou no meio do caminho os valores de seus “pais fundadores”, aqueles líderes políticos que desde o fim da Segunda Guerra Mundial começaram a promover a “união” dos países do continente – que viria, em 1992, a se formalizar com o nome de União Europeia. Eles visavam a “um futuro baseado na capacidade de trabalhar juntos para superar as divisões e favorecer a paz e a comunhão entre todos os povos do continente”, recordou Papa Francisco. “Ao centro desse ambicioso projeto político estava a confiança no homem, não tanto como cidadão nem como sujeito econômico, mas como pessoa dotada de uma dignidade transcendente.”

Pessoa ou objeto? – É aí que, para Francisco, mora o problema: colocando a economia em primeiro lugar, a Europa esqueceu seus valores “humanistas”. O ser humano passou a ser tratado como objeto, “dos quais se podem programar a concepção, a configuração e a utilidade”. Para ele, é preciso voltar a promover a dignidade de cada pessoa. “Que dignidade existe quando falta a possibilidade de se exprimir livremente o próprio pensamento ou de se professar, sem coerção, a própria fé religiosa? Que dignidade é possível sem um marco jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder? Que dignidade pode jamais ter um homem ou uma mulher alvos de todo tipo de discriminação? Que dignidade poderá encontrar uma pessoa que não tem alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, que não tem o trabalho que lhe unge de dignidade?”

Segundo o Papa, aqueles ideais que um dia inspiraram a Europa parecem ter perdido força, “em favor de tecnicismos burocráticos de suas instituições”. O egoísmo faz com que a pobreza seja ignorada. O ser humano “corre o risco de ser reduzido a uma simples engrenagem de um mecanismo que o trata da mesma forma que um bem de consumo a se utilizar”. Assim, no que chamou de uma “cultura do descarte”, a vida deve ser funcional ou acaba sendo descartada sem hesitação: “Como nos casos dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem cuidados, ou das crianças assassinadas antes de nascer.”

Desocupação e migração – O bispo de Roma não poupou censuras quando citou dois dos problemas mais polêmicos na Europa atual, que se refletem em todo o mundo: o desemprego e a migração. Com a acentuada crise econômica, muitos europeus não têm trabalho e dependem de assistência social para viver – a pobreza aumenta e o desemprego chega a superar 40% da população jovem em alguns países. “É tempo de favorecer políticas de ocupação, mas, sobretudo, é necessário dar novamente dignidade ao trabalho”, reclamou Francisco. No tema das migrações, ele pediu que os homens e as mulheres estrangeiros que chegam à Europa sejam acolhidos e auxiliados. “Não podemos deixar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério!”, lamentou, referindo-se às milhares de pessoas que acabaram morrendo em embarcações superlotadas a caminho da Europa.

O princípio é o ser humano – A mensagem de esperança do Papa Francisco aos europeus é a de que possam redescobrir a relação entre duas dimensões inseparáveis: o céu e a terra. “O céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas”, explicou. Em outras palavras, para o papa é preciso que a Europa retome a centralidade da pessoa humana. “Chegou a hora de construir juntos a Europa que não gira ao redor da economia, mas ao redor da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com fé o futuro para viver plenamente e com esperança o seu presente.”

Papa Francisco com Martin Schulz

Repercussão – O discurso foi aplaudido por dez vezes pelos parlamentares, especialmente ao final, e teve grande impacto na imprensa, no ambiente eclesiástico e entre políticos europeus. No mesmo dia, o Papa falou ao Conselho Europeu, órgão que reúne chefes de Estado e de governo dos países da União Europeia, detalhando pontos apresentados no Parlamento. Pediu “unidade na diversidade”, atenção ao meio ambiente, um esforço maior pela paz…

Disse que, apesar dos pecados de seus filhos, a Igreja é uma “especialista em humanidade” – como definiu certa vez o Papa Paulo VI – e colocou-se à disposição para colaborar. “Não buscamos nada mais do que servir e testemunhar a verdade. Nada mais do que esse espírito nos guia ao sustentar o caminho da humanidade.” De fato, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que acolheu o papa em nome dos deputados, comentou que o continente vive uma crise dramática, que “os cidadãos perderam a confiança nas instituições nacionais e internacionais”, mas que a Igreja busca promover valores parecidos àqueles da União Europeia, como respeito, solidariedade e paz, e enfrenta desafios parecidos, como o da distribuição das riquezas. “Papa Francisco, suas palavras têm uma importância enorme. Para todos nós são temas universais. Suas palavras oferecem orientação em tempos de grande desorientação”, declarou Schulz.

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