Arquivo do mês: julho 2015

Centenário do genocídio armênio serve de alerta à humanidade, diz Papa

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 9 de “O São Paulo”, em abril de 2015

Patriarca de Cilicia dos Armênios Católicos, Nerses Bedros XIX Tarmouni, e Papa Francisco

Sem usar meias palavras durante missa na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco recordou o centenário do massacre de armênios pelo Império Otomano durante e depois da Primeira Guerra Mundial. Chamando o assassinato de mais de 1 milhão de pessoas de “genocídio”, expressão rejeitada pelo governo da Turquia, o pontífice afirmou que “fazer memória do que aconteceu é um dever não só para o povo armênio e para a Igreja universal, mas para a inteira família humana, para que o alarme que vem dessa tragédia nos livre de recair em horrores parecidos, que ofendem a Deus e à dignidade humana”.

A rigor, a celebração recordou o “martírio” armênio e, durante a missa, o papa proclamou “doutor da Igreja” São Gregorio di Narek. A cerimônia foi concelebrada pelo patriarca de Cilicia dos Armênios Católicos, Nerses Bedros XIX Tarmouni, na presença de outros líderes religiosos da Igreja armênia: Karekin II, supremo patriarca e catholicos de todos os armênios, e Aram I, catholicos da Grande Casa de Cilicia. A Igreja armênia tem sua origem ligada às viagens dos apóstolos Judas Tadeu e Bartolomeu e surgiu oficialmente em 301, antes mesmo que o Império Romano se tornasse oficialmente cristão, mais de dez anos depois.

“Não existe uma família armênia ainda hoje que não tenha perdido naquele evento algum dos seus caros. Realmente aquele foi o ‘Metz Yeghern’, o ‘Grande Mal’, como chamaram aquela tragédia”, afirmou o Papa em mensagem ao povo armênio.

Impasse diplomático – Citando o Papa João Paulo II, Francisco declarou que “geralmente, esse trágico evento é definido como o primeiro genocídio do século XX”. A utilização da palavra “genocídio” pelo pontífice causou grande insatisfação no governo da Turquia, atualmente de origem otomana. A nação chamou de volta o embaixador junto à Santa Sé para “consultas”, um gesto que em relações internacionais é a manifestação de constrangimento.

O embaixador, Kenan Gursoy, afirmou à rede de TV norte-americana CNN que a Turquia ainda mantém relações diplomáticas com o Vaticano, mas a decisão do Papa de repetir a palavra “genocídio” foi unilateral. Para os turcos, o número de 1 a 1,5 milhão de mortos em 1915 e 1916 é exagerado e muitas delas se deveram aos conflitos em guerra, e não a um assassinato massivo com o objetivo de exterminar uma etnia. Oficialmente, o genocídio armênio foi reconhecido por cerca de 22 países, entre eles Itália, França, Alemanha, Rússia, Canadá e Argentina. Alguns países, como Estados Unidos e Israel, não utilizam a expressão.

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Papa Francisco proclama o Ano Santo da Misericórdia

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Texto publicado na página 9 de “O São Paulo”, em abril de 2015

O pontificado do Papa Francisco tem sido marcado pela frequente denúncia de problemas sociais, mas o tema da misericórdia é provavelmente sua principal mensagem teológica. Não é à toa que ele, no chamado “Domingo da Misericórdia”, o segundo domingo do tempo litúrgico da Páscoa, proclamou para toda a Igreja o Ano Santo Extraordinário da Misericórdia. O ano santo, ou jubilar, é marcado por muitas peregrinações e orações especiais. Uma tradição que vem já do judaísmo: a de dedicar um inteiro ano a pedidos e graças mais urgentes. Na Igreja Católica, normalmente o ano jubilar ocorre a cada 25 anos e reflete um tema pontual. Já o ano santo “extraordinário” ocorre somente quando o papa decide antecipá-lo por algum motivo.

“Uma pergunta está presente do coração de muitos: por que hoje um Jubileu da Misericórdia?”, questionou-se o Papa na homilia da oração das Vésperas (oração da tarde) na qual convocou o novo ano jubilar. “Simplesmente porque a Igreja, neste momento de grandes mudanças de época, é chamada a oferecer mais fortemente os sinais da presença e da proximidade de Deus”, respondeu. “Este não é o tempo para a distração, mas, ao contrário, para permanecer vigilantes e despertar novamente em nós a capacidade e olhar para o essencial.” Para o pontífice, este é o tempo para “oferecer a todos, a todos, o caminho do perdão e da reconciliação”. O ano santo começa na festa da Imaculada Conceição de 2015 e termina com a festa de Cristo Rei do ano que vem.

O Papa Francisco tem insistido na misericórdia desde os primeiros dias de seu pontificado. Na primeira oração do Ângelus (oração do meio-dia) que rezou na Praça de São Pedro, ele comentou o livro Misericórdia do cardeal alemão Walter Kasper. “O cardeal dizia que essa palavra muda tudo. Muda o mundo. Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo”, declarou, em março de 2013. “Deus nunca se cansa de perdoar. Nunca. Mas nós às vezes esquecemos de pedir perdão.”

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Na Semana Santa, Papa critica o orgulho dos que causam a guerra

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Texto publicado na página 9 de “O São Paulo”, em abril de 2015

Na manhã em que Jesus ressuscitou, logo cedo, segundo o relato bíblico, as mulheres entraram no sepulcro e viram o túmulo vazio. As discípulas foram as primeiras a “entrar no mistério” da ressurreição e foi esse trecho do Evangelho de Marcos que o Papa Francisco destacou em sua homilia da Vigília Pascal, em 4 de abril, quando se celebra a liturgia mais importante do Catolicismo.

“Nos faz bem refletir sobre a experiência das discípulas de Jesus, que desafia também a nós. Para isso estamos aqui: para entrar. Entrar no mistério que Deus realizou com sua vigília de amor”, afirmou o pontífice. “Não se pode viver a Páscoa sem entrar no mistério. Não é um fato intelectual, não é só conhecer, ler. É mais, é muito mais!”

Com a expressão “entrar no mistério”, o Papa Francisco se referiu à capacidade de contemplação, “de escutar o silêncio e ouvir o sussurro de um fio de silêncio sonoro no qual Deus fala”. Para isso, explicou, o cristão precisa estar disposto a “não ter medo da realidade, não se fechar em si mesmo, não fugir diante daquilo que não compreendemos, não fechar os olhos aos problemas, não negá-los, não eliminar as interrogações…” É preciso deixar de lado a preguiça e a indiferença e, enfim, ser humilde. “Para entrar no mistério é preciso esse abaixamento que é impotência, esvaziamento das próprias idolatrias, adoração.”

Humildade como resposta – A humildade foi também um importante ponto apresentado por Francisco durante a bênção Urbi et orbi (expressão latina que quer dizer “para a cidade – de Roma – e para o mundo”), que faz somente nos dias de Natal e na Páscoa, na Praça de São Pedro, no Vaticano. “Com sua morte e ressurreição, Jesus indica a todos o caminho da vida e da felicidade. Esse caminho é a humildade, que comporta a humilhação. Essa é a estrada que conduz à glória. Só quem se humilha pode andar em direção ‘às coisas do alto’, rumo a Deus. O orgulhoso, olha de cima para baixo. O humilde olha de baixo para cima”, disse.

Retomando o relato evangélico, ele explicou que os apóstolos Pedro e João, quando chegaram correndo ao sepulcro vazio, se aproximaram e se “inclinaram” para entrar. “Para entrar no mistério, é preciso inclinar-se. Só quem se abaixa compreende a glorificação de Jesus e pode seguir a sua estrada.”

Também na missa de Ceia do Senhor, da Quinta-feira Santa, o Papa insistiu no tema da humildade aplicando-o à figura de Cristo. O pontífice, que celebrou em uma prisão de Roma e lavou os pés de homens e mulheres, recordou que nos tempos de Jesus apenas escravos lavavam os pés dos senhores. “Era um trabalho de escravos e Jesus lava, como escravo, os nossos pés. Os pés dos discípulos. E, por isso, diz a Pedro, ‘aquilo que eu faço, agora você não entende; entenderá depois’. Jesus é tanto amor que se fez escravo para nos servir, para nos curar, para nos limpar.”

No mesmo dia, na Missa dos Santos Óleos, celebrada pela manhã e na qual os padres renovam suas promessas sacerdotais, a lição de humildade do Papa se manifestou na sua identificação com o “cansaço dos padres”. “Penso muito nisso e rezo frequentemente, especialmente quando também eu estou cansado”, afirmou aos padres. “E o nosso cansaço, caros sacerdotes, é como incenso que sobe silenciosamente ao céu. O nosso cansaço vai direto ao coração do Pai.”

Crítica social – Na Urbi et orbi, o Papa tocou no problema da falta de humildade dos poderosos e fez uma dura crítica àqueles que chamou de “orgulhosos” que promovem a guerra. Para isso, mencionou conflitos armados que atingem diversas regiões do mundo, entre eles Síria, Iraque, Terra Santa, Nigéria, Sudão e Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Ucrânia e o recente atentado terrorista em uma universidade no Quênia, que matou 147 pessoas.

O pontífice pediu com firmeza que a comunidade internacional não permaneça inerte à “imensa tragédia humanitária dentro destes países e ao drama dos numerosos refugiados”. “Pedimos paz e liberdade para as vítimas dos traficantes de droga, tantas vezes aliados com os poderes que deveriam defender a paz e a harmonia na família humana. E paz pedimos para este mondo submisso aos traficantes de arma, que ganham com o sangue de homens e de mulheres.”

Indiferença – Na mesma linha foi também a homilia do pregador do Papa, o sacerdote franciscano Raniero Cantalamessa, que faz a homilia na cerimônia da Paixão de Cristo, na Sexta-feira Santa. Ele lamentou a indiferença das instituições internacionais para as situações de crueldade e sofrimento humano.

“Quantos prisioneiros se encontram nas mesmas condições de Jesus no pretório de Pilatos”, recordou o pregador, lembrando-se principalmente da perseguição de cristãos. Esses “não são certamente as únicas vítimas da violência homicida no mundo, mas não se pode ignorar que em muitos países eles são vítimas designadas e freqüentes”, declarou

O Pe. Cantalamessa citou, ainda, o filósofo Blaise Pascal, quando escreveu: “Cristo está em agonia até o fim do mundo: não dorme durante este tempo. Jesus é em agoni em cada homem ou mulher submetido aos mesmos tormentos que os seus. Ele não disse ‘Fizeram isso a mim!” somente àqueles que creram nele. Disse-o a cada homem e a cada mulher famintos, nus, maltratados, encarcerados.”

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Diplomacia a serviço da paz

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Texto publicado na página 14 de “O São Paulo”, em março de 2015

Cardeal Parolin em palestra na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Nikos Papaxristou

Cardeal Parolin em palestra na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Nikos Papaxristou

Construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. São essas as três principais linhas de ação da diplomacia da Santa Sé no pontificado do Papa Francisco, afirmou a O SÃO PAULO o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. O “número dois” do Vaticano esteve em 11 de março na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde deu uma palestra sobre o papel da diplomacia pontifícia na promoção da paz.

No final da conferência, Dom Parolin respondeu à pergunta da reportagem sobre qual é a influência e o poder de decisão dos papas nas atividades diplomáticas da Santa Sé, já que o Papa Francisco foi o principal articulador da recente retomada de relações bilaterais entre Estados Unidos e Cuba após 53 anos de impasse – além de suas tentativas de promover a paz entre Israel e Palestina. “Nós dizemos que o Papa é o primeiro diplomata da Santa Sé”, afirmou o cardeal, em sua réplica. “Efetivamente, todo o aparato da diplomacia pontifícia está a serviço das indicações que vêm do Papa.”

Atualmente, a Santa Sé tem relações diplomáticas com 179 países, além da União Europeia e o Estado Palestino. De acordo com o secretário de Estado, chefe de relações internacionais do Vaticano, Francisco tem um “protagonismo muito acentuado” nas questões diplomáticas. Foi no seu primeiro discurso a novos embaixadores que o Papa falou pela primeira vez sobre o que considera suas prioridades. “Ele deu três linhas diretivas para a ação da diplomacia da Santa Sé: construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. Nós estamos nos movendo sobre essas linhas”, lembrou o arcebispo.

O cardeal nas Nações Unidas

“Muitas das iniciativas que a Secretaria de Estado e a diplomacia pontifícia levam adiante nascem diretamente dele e do contato pessoal que ele tem com chefes de Estado, com representantes políticos”, acrescentou Parolin. De fato, no caso Cuba-Estados Unidos, Francisco vinha enviando cartas privadas aos presidentes Barack Obama e Raúl Castro e, em março do ano passado, conversou pessoalmente com Obama. Posteriormente, o Vaticano, com a presença do cardeal Parolin, sediou a última reunião entre as delegações dos dois países antes do acordo para retomar relações diretas.

Segundo o cardeal, cada papa, dependendo do seu caráter, “é mais ou menos ativo” na diplomacia. “No fundo sempre existem orientações. A ação da Santa Sé é essencialmente religiosa e exatamente por essa motivação procura favorecer a convivência pacífica entre os povos, criando todas as condições que permitam a cada pessoa viver dignamente, segundo a sua dignidade, e como criatura e filho de Deus.”

Mais que uma voz crítica – Durante sua palestra, o cardeal defendeu a ativa participação da Igreja nas questões de interesse internacional. “A ação diplomática da Santa Sé não se contenta a observar os acontecimentos ou avaliar sua grandeza, nem pode ser somente uma voz crítica. É chamada a agir para facilitar a coexistência e a convivência entre as várias nações”, afirmou. “A Santa Sé opera no cenário internacional não para garantir uma segurança genérica, mas para sustentar uma ideia de paz que seja fruto de relações justas, de respeito às normas internacionais, de tutela dos direitos humanos fundamentais, começando por aqueles dos últimos, dos mais vulneráveis.”

Diálogo ou intervenção militar – Quando um dos sacerdotes estudantes da Gregoriana perguntou a Dom Parolin sobre a dificuldade de promoção da paz junto a quem pensa de forma diversa à da Igreja, o cardeal manteve a postura discreta. “A realidade é assim. Existem tantas pessoas, tantas instituições, tantos Estados que não pensam como a Igreja. Ainda assim, houve um crescimento e um desenvolvimento da consciência sobre a paz”, observou. “Hoje se fala muito de paz e eu diria que isso também foi um resultado da presença e das relações da Igreja.”

Papa com embaixadores junto à Santa Sé

Dom Parolin acrescentou que, frequentemente, a Santa Sé coloca em prática ações de “soft power” (algo como “poder suave”, em inglês), expressão que em política internacional se refere à capacidade de atração e persuasão, em vez da coerção e do uso da força. “Temos a ideia de paz como um bem precioso e insubstituível. Também individualmente nos países (por meio dos núncios apostólicos, os diplomatas do Papa), a diplomacia bilateral trabalha sobre esse ponto. Às vezes sem muito clamor, um pouco fora dos refletores, é possível progredir.”

Para o secretário de Estado, é urgente que a comunidade internacional estabeleça mais claramente quais são as diretrizes para “intervenções humanitárias” de caráter militar para restabelecer a paz em países que enfrentam grupos terroristas, guerras civis ou milícias. São necessárias, ainda, claras políticas de reconciliação pós-guerra. “É preciso mais do que nunca mudar o paradigma. Operar para prevenir a guerra em qualquer forma”, avalia.

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Dois anos de reformas

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Análise publicada na página 24 de “O São Paulo”, em março de 2015

Quem caminha nas ruas próximas ao Vaticano, em Roma, encontra uma enxurrada de livros sobre o Papa Francisco. Biografias, análises e teorias da conspiração. A maioria das obras tem títulos impactantes. “O Evangelho do Sorriso”, “Mente aberta, coração fiel”, “Um papa do fim do mundo”, “Vida e revolução”, “O papa do povo”, “O milagre de Francisco”, “Porque ele comanda como comanda”, “O grande reformador”, “Até onde vai Francisco?”. Todos esses textos foram escritos nos últimos dois anos, desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio ao trono de Pedro, e têm uma coisa em comum: as reformas do pontificado do Papa Francisco.

Dois anos atrás – Bergoglio foi eleito para renovar a Igreja. A histórica decisão de Bento XVI de renunciar em 11 de fevereiro de 2013, dizendo lhe faltar “vigor no corpo e na alma”, permitiu aos cardeais que elegeriam o novo pontífice a antecipar o debate sobre os problemas que a Igreja vivia. Normalmente, com a morte de um papa, os cardeais são logo isolados em um conclave, do qual só saem depois da eleição do sucessor. No caso da renúncia de Bento XVI, que governou até o fim de fevereiro, o conclave só começou um mês depois. Por mais de 30 dias, os cardeais puderam se articular livremente fora do conclave e debater o futuro da Igreja. Não é à toa que Francisco tenha sido eleito após somente dois dias de votação, em 13 de março.

Não é à toa que o então arcebispo de Buenos Aires tenha aceitado ser o novo bispo de Roma “em espírito de penitência”. Ele conhecia os obstáculos que encontraria.

Algumas das reformas já haviam sido iniciadas por Bento XVI, como a reestruturação do banco do Vaticano, até então um terreno fértil para a crimes financeiros. Também foi Bento XVI que iniciou a política de “tolerância zero” à pedofilia, substituindo bispos que não agiram com firmeza e a instituindo organismos para estudar e resolver o problema. O Papa Francisco abraçou a causa e ampliou o combate, criando também uma comissão dentro do Vaticano. “O medo do escândalo não pode frear a limpeza”, disse o papa argentino, em fevereiro.

Dentro e fora da Igreja – “A reforma da Cúria Romana não é um fim em si mesma, mas um meio para reforçar o testemunho cristão”, afirmou Francisco, também em fevereiro. Para criar uma nova estrutura para a Cúria, a administração geral da Igreja, ele nomeou uma comissão de nove cardeais. O mesmo grupo articula uma reformulação das finanças do Vaticano, sob o comando do cardeal australiano Dom George Pell, colocando a Santa Sé dentro dos padrões internacionais de transparência.

Seria possível listar várias das reformas da popularmente chamada “revolução Francisco”. Ele está mudando a configuração do colégio de cardeais ao nomear bispos de países pouco representados e de periferias. Está estimulando a colaboração dos bispos do mundo inteiro nas questões cruciais, aumentando a chamada colegialidade. Convocou um histórico Sínodo dos Bispos para discutir os problemas das famílias. Também está retomando o empenho diplomático da Santa Sé em questões de grande relevância internacional, como o conflito Israel-Palestina e o embargo dos Estados Unidos sobre Cuba. Está fortalecendo os laços com a Igreja Ortodoxa e outros cristãos, além dos judeus e muçulmanos.

O professor de Filosofia Política da Pontifícia Universidade Gregoriana, Pe. Rocco D’Ambrosio

Reformador ou renovador – Alguns estudiosos em Roma acreditam o projeto de reforma de Francisco é um processo histórico que só poderá ser compreendido no futuro. O padre italiano Rocco D’Ambrosio, professor de Filosofia Política na Pontifícia Universidade Gregoriana, costuma dizer que os atos do Papa Francisco estão “em total continuação com as resoluções do Concílio Vaticano II”. Assim, o aggiornamento (atualização) já vinha acontecendo gradualmente. Agora, é reforçado pelo primeiro papa que não participou do Concílio.

O escritor e padre americano Dwight Longenecker, colunista do site católico Aleteia, escreveu em artigo que a palavra “reformador” não é precisa para definir o Papa Francisco. Ele sugere, em vez disso, “renovador”. “O Papa Francisco quer uma renovação na Igreja”, comenta. “A verdadeira ambição de Francisco é de voltar nossos corações e mentes de novo à simplicidade da mensagem do Evangelho.”

De fato, na exortação apostólica Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho), Francisco diz: “O bem tende sempre a se comunicar. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade diante das necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem se enraíza e se desenvolve. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem.”

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Papa cria 20 novos cardeais de 14 países

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Texto publicado na página 24 de “O São Paulo”, em fevereiro de 2015

Acolher, integrar, sair, buscar quem está longe, sem preconceito e sem medo, manifestando gratuitamente o que também de graça recebeu. Em poucas palavras, esse é o sentido que o Papa Francisco quer dar ao cardinalato. “A total disponibilidade em servir os outros é o nosso sinal distintivo, é o nosso único título de honra!”, afirmou o pontífice no domingo (15), em sua primeira missa com seus 19 novos cardeais, criados no sábado. Para alguns observadores do Vaticano que vivem em Roma, é inovadora e corajosa a forma como Francisco passou a tratar a questão do cardinalato. Ele fortalece a ideia de que um cardeal é um servidor, que tem a missão de “integrar”, e não de “marginalizar”.

Os cardeais são considerados os principais homens de confiança do Papa em todo o mundo. Originalmente, o título foi criado para diferenciar os homens que estariam dispostos a dar a vida pela Igreja na missão de auxiliar o Papa em seu “ministério petrino” – por isso as vestimentas de cor vermelha. No início, todos os cardeais viviam em Roma, mas, com o tempo, passou-se a nomear cardeais em todo o mundo. E uma parte importante da missão deles é justamente eleger o próximo bispo de Roma, o Papa, quando ele morre ou renuncia.

É previsto que os cardeais tenham um peso político decisivo dentro da Igreja e na sua relação com a sociedade. São eles que ajudam o Papa a entender as realidades locais da Igreja e a conduzi-la da melhor forma. Lideram instituições importantes e visitam países. Por isso, só mesmo o Papa nomeia pessoalmente os cardeais. Assim, por muitos anos, o cardinalato foi considerado um título de honra.

Mas são justamente os resquícios dessa mentalidade que Francisco parece tentar eliminar. “A dignidade cardinalícia é certamente uma dignidade, mas não é honorífica”, afirmou no consistório (reunião de cardeais com o papa). Ele recordou que a palavra “cardeal” remete a cardine (dobradiça), ou seja, “não um acessório, uma decoração, mas um eixo, um ponto de apoio e de movimento, essencial para a vida da comunidade”.

Falando sobre a passagem do Evangelho de Marcos em que Jesus cura um homem doente de lepra, o Papa deu uma clara mensagem de amor que deve ser praticado pelos cardeais. “A compaixão leva Jesus a agir de modo concreto: a reintegrar o marginalizado. São estes os conceitos-chave que a Igreja nos propõe hoje: a compaixão de Jesus diante da marginalização e a sua vontade de reintegração.”

Um resumo de como o Papa Francisco entende o que é ser um cardeal foi dado no fim de sua homilia. “Eu vos exorto a servirem a Igreja de maneira que os cristãos, edificados com nosso testemunho, não sejam tentados a estar com Jesus sem querer estar com os marginalizados, isolando-se em uma casta que nada tem de autenticamente eclesial”, declarou. “Vos exorto a ver o Senhor em toda pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que está nua; o Senhor que é presente também naqueles que perderam a fé, ou que se afastaram, ou que se declaram ateus.”

Cardeais em todo o mapa – O que marca as nomeações de Francisco é claramente um desejo de representar melhor no colégio cardinalício uma parte da Igreja que não vinha sendo considerada. No consistório do ano passado, ele priorizou países que nunca tiveram um cardeal antes, como o Haiti, um dos mais pobres do mundo. Desta vez, nomeou 6 cardeais de países que não tinham nenhum. Alguns têm um cardeal pela primeira vez na história: Cabo Verde, na África; Myanmar (Birmânia), na Ásia; e Tonga, um arquipélago de 176 ilhas no Oceano Pacífico. Os 20 novos cardeais são de 14 países diferentes.

O jornalista da Rádio Vaticano Sean Patrick Lovett

O critério mais evidente é o da universalidade”, resumiu o porta-voz do Vaticano, Pe. Federio Lombardi, em entrevista coletiva realizada em janeiro. “Nota-se a presença de comunidades eclesiais pequenas ou em situação de minoria. Nota-se que há apenas um novo cardeal da Cúria Romana”, completou.

Para o diretor do programa da Rádio Vaticano em inglês, o jornalista Sean Patrick Lovett, que acompanha os papas há mais de duas décadas, basta olhar para a lista dos países que os novos cardeais representam para entender o que Francisco entende por universalidade. “De Moçambique a México, de Tailândia a Tonga. De Portugal ao Panamá, do Vietnã a Cabo Verde. Sem mencionar Birmânia, Uruguai e, o mais longe de todos, Nova Zelândia. Por acaso eu mencionei Etiópia, Espanha e, claro, Itália?”, brincou, em depoimento à própria rádio.

Alguns entusiastas enxergam uma mudança histórica na forma que Francisco vem dando ao colégio cardinalício, como John Allen Jr, editor do site Crux e articulista do jornal americano Boston Globe. “Criando 20 novos cardeais de todo o mundo, o primeiro papa de um país em desenvolvimento deve mudar o Catolicismo para sempre”, escreveu, em análise.

Ele explica que Francisco está deixando de lado a tradição de que algumas grandes dioceses, por sua importância, precisavam ter bispos cardeais – eram as chamadas dioceses cardinalícias. Francisco passou a priorizar dioceses menores, localizadas “literalmente” em todo o mapa. “Ainda não sabemos quais são as consequências dessa mudança, mas parece ser profunda.”

Depois do último consistório, o colégio de cardeais passou de 110 a 125 representantes com idade inferior a 80 anos, que são aqueles que podem votar num eventual conclave (reunião de cardeais para eleger um papa). Deste total, 31 deles foram nomeados pelo Papa Francisco, em dois consistórios. Nenhum brasileiro entrou na última lista e, portanto, permanecem quatro os cardeais eleitores do Brasil.

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A maior missa papal da história

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Texto publicado na página 16 do jornal “O São Paulo”, em janeiro de 2015

Uma multidão de seis a sete milhões de pessoas participou da missa celebrada pelo Papa Francisco no último domingo (18) em Manila, nas Filipinas. O pontífice realizou uma visita de cinco dias ao país asiático, depois de passar também pelo Sri Lanka. O número de pessoas na missa, divulgado pelas autoridades locais, é o maior já registrado na história dos papas – supera, inclusive, a missa celebrada por João Paulo II no mesmo parque, chamado Rizal, em 1995, durante a Jornada Mundial da Juventude. Nas Filipinas, 86% da população de 100 milhões de pessoas se diz católica.

Em sua homilia, Papa Francisco voltou denunciou os problemas sociais. Para ele, a distorção da criação divina pelo ser humano construiu “estruturas sociais que tornaram permanente a pobreza, a ignorância e a corrupção”. No dia da celebração do Menino Jesus – terceiro domingo de janeiro –, ele comentou a importância de “proteger as nossas famílias, aquela maior família, que é a Igreja, família de Deus, e o mundo, nossa família humana”. Segundo o Papa, “hoje a família precisa ser protegida de ataques traiçoeiros e de programas contrários a tudo o que consideramos verdadeiro e sagrado”. Cada criança precisa ser vista como “um dom a ser acolhido, amado e protegido”, disse, e os jovens precisam de esperança.

O frequente apelo do papa por justiça social torna a figura de Francisco muito popular nas Filipinas, o que ajuda a explicar o porquê de tanta gente nos eventos. Um quarto da população do país vive em situação de extrema pobreza, com menos de US$ 1,25 por dia (pouco mais de R$ 3,00). “Aqui nas Filipinas, inúmeras famílias ainda sofrem por causa dos efeitos dos desastres naturais. A situação econômica fez com que famílias fossem separadas pela migração e pela busca de emprego, e os problemas financeiros atingem muitos lares”, lamentou o papa em encontro com o presidente filipino, Benigno S. Aquino III, assim que chegou.

Lágrimas – De fato, a dor do povo filipino foi o principal motivo para que Francisco tomasse pessoalmente a decisão de visitá-los. Quando o tufão Haiyan matou 6,3 mil pessoas e deixou mais de mil desaparecidas, em novembro de 2013, o papa teve a certeza de que precisava ir às Filipinas. “Naquele dia, eu senti que deveria estar aqui”, declarou, na missa celebrada no dia 16 de janeiro em Tacoblan, local mais atingido pelo desastre. “Estou aqui para estar com vocês. Um pouco atrasado, reconheço, mas estou aqui.”

A forte chuva e o vento de 100 km/h levaram o papa e os concelebrantes a usar capas de chuva de plástico, as mesmas distribuídas para o povo. Em clima de profunda emoção, ele admitiu não ter grandes respostas para um momento de tanta dor: “Não sei o que dizer a vocês. Muitos de vocês perderam parte de suas famílias. Tudo o que posso fazer é manter o silêncio. Caminho com todos vocês, com meu coração silencioso.”

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