Igreja se une aos 4 milhões que protestam contra o terrorismo

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 24 do jornal “O São Paulo”, em janeiro de 2015

Quase 4 milhões de manifestantes saíram às ruas no domingo (11) em diversas cidades da França para protestar contra os ataques terroristas que mataram 17 pessoas em três dias e chocaram o mundo.

A sequência de fatos surpreendentes começou em 7 de janeiro, quando atiradores invadiram a sede da publicação satírica Charlie Hebdo, em Paris, e mataram 12 pessoas, entre jornalistas, policias e funcionários. O jornal é conhecido por fazer fortes provocações a políticos e às religiões, especialmente o Islamismo, o Cristianismo e o Judaísmo. Nos dias seguintes, uma policial e outros quatro homens foram assassinados, dessa vez em um supermercado kosher (isto é, alimentos da tradição judaica). A organização terrorista Al Qaeda, formada por extremistas islâmicos, assumiu a responsabilidade pelos crimes. Líderes católicos de todo o mundo manifestaram profundo pesar pelos acontecimentos e criticaram qualquer forma de violência em nome da religião.

No mesmo dia 7, o Papa Francisco condenou duramente o “horrível atentado” em Paris, que “semeou a morte e espalhou consternação em toda a sociedade francesa, abalando profundamente todas as pessoas que amam a paz, muito além dos confins da França”. Ele também lançou, em sua conta na rede social Twitter seguida por 18 milhões de pessoas, a hashtag #PrayersForParis (orações por Paris, em inglês) e rezou pelas vítimas na missa celebrada na Casa Santa Marta, onde vive. “O atentado em Paris nos faz pensar a tanta crueldade, crueldade humana; seja o terrorismo isolado, seja terrorismo de Estado. Mas a crueldade da qual o homem é capaz!”, disse. “Rezemos pelas vítimas dessa crueldade. Tantas! E peçamos também pelos cruéis, para que o Senhor mude os seus corações.”

O cardeal francês Dom André Vingt-Trois

Todos em choque – O arcebispo de Paris, cardeal André Vingt-Trois, divulgou nota na qual manifestou enorme tristeza e luto pelas mortes em sua cidade. “Uma caricatura, ainda que de mau gosto, uma crítica, ainda que se gravemente injusta, não podem ser colocadas no mesmo plano de um homicídio. A liberdade de imprensa é, a qualquer custo, o sinal de uma sociedade madura”, comentou.

“Na França, estamos todos em choque. A maioria dos nossos cidadãos viveu essa situação como um apelo a redescobrir uma série de valores fundamentais de nossa república, como a liberdade de religião ou a liberdade de opinião”, acrescentou. “As reuniões espontâneas destes últimos dias se distinguem por um grande recolhimento, sem manifestação de ódio nem de violência.”

Dom Vingt-Trois ponderou que é importante não associar o fanatismo religioso a nenhuma religião. “Que ninguém se deixe levar pelo pânico ou pelo ódio; que nenhum se deixe levar pela simplificação de identificar qualquer fanático com a religião inteira. E rezemos também pelos terroristas, para que descubram a verdade do juízo de Deus.”

‘Sem liberdade de expressão, o mundo está em perigo’ – No Vaticano, uma declaração conjunta foi assinada pelo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, cardeal Jean-Louis Tauran, e quatro líderes muçulmanos franceses. A reunião entre eles já estava prevista antes mesmo dos ataques terroristas e ocorreu um dia após o primeiro atentado. “Nestas circunstâncias, é bom recordar que sem liberdade de expressão, o mundo está em perigo”, diz a declaração. Repetindo palavras do Papa Francisco, o texto ressoa que é “imperativo opor-se com qualquer meio à difusão do ódio e qualquer forma de violência, física e moral, que destrói a vida humana”. Além disso, o documento afirma que os líderes religiosos são chamados a promover cada vez mais “uma cultura de paz e de esperança”. Além do cardeal Tauran, assinam o texto o bispo de Evry, Dom Michel Dubost, e o Pe. Christophe Roucou, que trabalham nas relações com o Islã; e os imãs franceses Azzedine Gaci, Tareq Oubrou, Mohammed Moussaoui, e Djelloul Seddiki.

O terrorismo não está só na Europa – A Nigéria precisa do mesmo apoio que a França recebeu neste momento de dor. A declaração foi do arcebispo de Jos, Dom Ignatius Ayau Kaigama, em entrevista à rádio britânica BBC, após o ataque terrorista organizado pelo grupo extremista Boko Haram que matou 2 mil pessoas em apenas um fim de semana, na cidade de Baga, localizada na fronteira com o Chade. Alguns dos ataques utilizaram inclusive mulheres suicidas e crianças-bomba.

O arcebispo nigeriano Dom Ignatius Ayau Kaigama

De acordo com a Anistia Internacional, esse foi o massacre mais mortal do Boko Haram até o momento. O exército da Nigéria continua contra-atacando os terroristas para retomar o controle de Baga. “Vejo uma reposta muito positiva do governo francês combatendo este problema da violência religiosa depois da morte de seus cidadãos. Nós precisamos que esse espírito se espalhe, não só quando isso acontece na Europa”, criticou. “Mas também quando acontece na Nigéria, no Níger, em Camarões e muitos países pobres. Que mobilizemos nossos recursos internacionais para confrontar as pessoas que trazem tamanha tristeza para tantas famílias.”

À agência Fides, Dom Kaigama contou que a nova estratégia do Boko Haram é usar crianças inocentes nos ataques, que se explodem em meio a multidões, em mercados e outros ambientes públicos. “É uma aberração inimaginável”, deplorou. “Além disso, conhecemos bem o triste fenômeno dos meninos-soldados em diversas zonas da África.” Para o arcebispo, é preciso fazer mais para combater o terrorismo. “Espero também aqui uma grande manifestação de unidade nacional que supere as divisões políticas, étnicas e religiosas, para dizer ‘não’ à violência e encontrar uma solução para nossos problemas.” Segundo ele, tanto cristãos quanto muçulmanos são vítimas da violência do Boko Haram. Muitas vezes, as pesssoas fogem de suas cidades e, juntas, buscam abrigo em outro lugar.

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