Papa cria 20 novos cardeais de 14 países

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 24 de “O São Paulo”, em fevereiro de 2015

Acolher, integrar, sair, buscar quem está longe, sem preconceito e sem medo, manifestando gratuitamente o que também de graça recebeu. Em poucas palavras, esse é o sentido que o Papa Francisco quer dar ao cardinalato. “A total disponibilidade em servir os outros é o nosso sinal distintivo, é o nosso único título de honra!”, afirmou o pontífice no domingo (15), em sua primeira missa com seus 19 novos cardeais, criados no sábado. Para alguns observadores do Vaticano que vivem em Roma, é inovadora e corajosa a forma como Francisco passou a tratar a questão do cardinalato. Ele fortalece a ideia de que um cardeal é um servidor, que tem a missão de “integrar”, e não de “marginalizar”.

Os cardeais são considerados os principais homens de confiança do Papa em todo o mundo. Originalmente, o título foi criado para diferenciar os homens que estariam dispostos a dar a vida pela Igreja na missão de auxiliar o Papa em seu “ministério petrino” – por isso as vestimentas de cor vermelha. No início, todos os cardeais viviam em Roma, mas, com o tempo, passou-se a nomear cardeais em todo o mundo. E uma parte importante da missão deles é justamente eleger o próximo bispo de Roma, o Papa, quando ele morre ou renuncia.

É previsto que os cardeais tenham um peso político decisivo dentro da Igreja e na sua relação com a sociedade. São eles que ajudam o Papa a entender as realidades locais da Igreja e a conduzi-la da melhor forma. Lideram instituições importantes e visitam países. Por isso, só mesmo o Papa nomeia pessoalmente os cardeais. Assim, por muitos anos, o cardinalato foi considerado um título de honra.

Mas são justamente os resquícios dessa mentalidade que Francisco parece tentar eliminar. “A dignidade cardinalícia é certamente uma dignidade, mas não é honorífica”, afirmou no consistório (reunião de cardeais com o papa). Ele recordou que a palavra “cardeal” remete a cardine (dobradiça), ou seja, “não um acessório, uma decoração, mas um eixo, um ponto de apoio e de movimento, essencial para a vida da comunidade”.

Falando sobre a passagem do Evangelho de Marcos em que Jesus cura um homem doente de lepra, o Papa deu uma clara mensagem de amor que deve ser praticado pelos cardeais. “A compaixão leva Jesus a agir de modo concreto: a reintegrar o marginalizado. São estes os conceitos-chave que a Igreja nos propõe hoje: a compaixão de Jesus diante da marginalização e a sua vontade de reintegração.”

Um resumo de como o Papa Francisco entende o que é ser um cardeal foi dado no fim de sua homilia. “Eu vos exorto a servirem a Igreja de maneira que os cristãos, edificados com nosso testemunho, não sejam tentados a estar com Jesus sem querer estar com os marginalizados, isolando-se em uma casta que nada tem de autenticamente eclesial”, declarou. “Vos exorto a ver o Senhor em toda pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que está nua; o Senhor que é presente também naqueles que perderam a fé, ou que se afastaram, ou que se declaram ateus.”

Cardeais em todo o mapa – O que marca as nomeações de Francisco é claramente um desejo de representar melhor no colégio cardinalício uma parte da Igreja que não vinha sendo considerada. No consistório do ano passado, ele priorizou países que nunca tiveram um cardeal antes, como o Haiti, um dos mais pobres do mundo. Desta vez, nomeou 6 cardeais de países que não tinham nenhum. Alguns têm um cardeal pela primeira vez na história: Cabo Verde, na África; Myanmar (Birmânia), na Ásia; e Tonga, um arquipélago de 176 ilhas no Oceano Pacífico. Os 20 novos cardeais são de 14 países diferentes.

O jornalista da Rádio Vaticano Sean Patrick Lovett

O critério mais evidente é o da universalidade”, resumiu o porta-voz do Vaticano, Pe. Federio Lombardi, em entrevista coletiva realizada em janeiro. “Nota-se a presença de comunidades eclesiais pequenas ou em situação de minoria. Nota-se que há apenas um novo cardeal da Cúria Romana”, completou.

Para o diretor do programa da Rádio Vaticano em inglês, o jornalista Sean Patrick Lovett, que acompanha os papas há mais de duas décadas, basta olhar para a lista dos países que os novos cardeais representam para entender o que Francisco entende por universalidade. “De Moçambique a México, de Tailândia a Tonga. De Portugal ao Panamá, do Vietnã a Cabo Verde. Sem mencionar Birmânia, Uruguai e, o mais longe de todos, Nova Zelândia. Por acaso eu mencionei Etiópia, Espanha e, claro, Itália?”, brincou, em depoimento à própria rádio.

Alguns entusiastas enxergam uma mudança histórica na forma que Francisco vem dando ao colégio cardinalício, como John Allen Jr, editor do site Crux e articulista do jornal americano Boston Globe. “Criando 20 novos cardeais de todo o mundo, o primeiro papa de um país em desenvolvimento deve mudar o Catolicismo para sempre”, escreveu, em análise.

Ele explica que Francisco está deixando de lado a tradição de que algumas grandes dioceses, por sua importância, precisavam ter bispos cardeais – eram as chamadas dioceses cardinalícias. Francisco passou a priorizar dioceses menores, localizadas “literalmente” em todo o mapa. “Ainda não sabemos quais são as consequências dessa mudança, mas parece ser profunda.”

Depois do último consistório, o colégio de cardeais passou de 110 a 125 representantes com idade inferior a 80 anos, que são aqueles que podem votar num eventual conclave (reunião de cardeais para eleger um papa). Deste total, 31 deles foram nomeados pelo Papa Francisco, em dois consistórios. Nenhum brasileiro entrou na última lista e, portanto, permanecem quatro os cardeais eleitores do Brasil.

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