Arquivo do mês: agosto 2015

Lançamento de Laudato si’ tem tom de evento histórico no Vaticano

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 12 de “O São Paulo”, em junho de 2015

Poucas vezes o lançamento de um documento do papa chamou tanta atenção internacional como foi o caso da nova carta encíclica Laudato si’ (Bendito seja), do Papa Francisco.“Em nove anos, raramente ou talvez nunca tinha visto uma expectativa assim tão grande e prolongada por um documento papal”, declarou o Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, na abertura da conferência de lançamento, na manhã do dia 18 de junho, à qual O SÃO PAULO compareceu.

Segundo ele, Laudato si’ já é um marco histórico porque foi escrita com a ajuda dos bispos de todo o mundo – 15 conferências episcopais nacionais são citadas no texto, além de outras regionais. Francisco contou com a habitual consulta a especialistas, mas também mencionou amplamente o patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, um dos primeiros líderes cristãos a lançar voz em favor do ambiente. “Papa Francisco tem um modo particular de liderança eclesial. Esta encíclica foi feita de um modo novo em relação às anteriores”, disse o Pe. Lombardi.

Cardeal Peter Turkson, principal articulador da encíclica

De acordo com cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho para Justiça e Paz e o principal articulador na preparação do documento, Laudato si’ é especial porque o papa “nos convida a inverter a rota atual e construir a casa comum em vez de destruir”.

Do ponto de vista teológico, explicou o arcebispo ganês, Francisco coloca no centro do debate o conceito de “ecologia integral”. Para Dom Turkson, as perguntas que o papa lança no texto nos levam a questionar o sentido da existência e os valores que estão na base da vida social. De fato, diz Francisco no documento, “essas questões não têm a ver somente com o ambiente de forma isolada; esse tema não pode ser abordado separadamente”.

O cardeal acrescentou que a ideia do Papa de escrever a primeira encíclica sobre ecologia veio da observação da realidade: “Hoje a Terra, nossa irmã, maltratada e abusada, está reclamando; e seus gemidos se unem àqueles de todo o mundo desamparado e descartado”, disse. “Papa Francisco nos convida a ouvi-los, alertando a cada um, indivíduos, famílias, comunidades locais, nações e a comunidade internacional, a uma ‘conversão ecológica’, usando as palavras de São João Paulo II.”

Um dos mais renomados teólogos da atualidade, o Metropolita ortodoxo de Pergamo, Ioannis Zizioulas, também comentou a encíclica – a primeira vez que um ortodoxo apresenta um documento papal no Vaticano. Ele destacou três aspectos principais: a importância do significado teológico da ecologia; a dimensão espiritual do problema ecológico; e a dimensão ecumênica da encíclica. “A ruptura da adequada relação entre a humanidade e a natureza se deve ao surgimento do individualismo em nossa cultura. Em nossos tempos, a busca da felicidade individual foi transformada em um ideal”, declarou. “O pecado ecológico vem da ganância humana, que cega o homem e a mulher ao ponto de ignorar ou negligenciar a verdade básica de que a felicidade do indivíduo depende de sua relação com o resto dos seres humanos.”

O Metropolita ortodoxo de Pergamo, Ioannis Zizioulas

Também comentaram o texto o cientista John Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto Postdam de Pesquisa sobre Impacto Climático, representando especialistas em ciências naturais; a professora Carolyn Woo, presidente da agência Catholic Relief Services, representando o setor econômico-financeiro; e a professora Valeria Martano, que há 20 anos trabalha na periferia de Roma com situações de “degradação humana e ambiental”.

Como foi feita a encíclica – No voo de ida às Filipinas, em 15 de janeiro, o próprio Papa Francisco explicou como foi feita a encílcia Laudato si’: “O cardeal Turkson e sua equipe prepararam o primeiro rascunho. Então, com alguma ajuda, eu trabalhei nele e, depois, com alguns teólogos, eu fiz um terceiro rascunho e mandei uma cópia para a Congregação para a Doutrina da Fé, para a segunda seção da Secretaria de Estado e para o Teólogo da Casa Pontifícia (o sacerdote dominicano Wojciech Tomasz Giertych). (…) Três semanas atrás, recebi as respostas deles, (…) todas elas construtivas. Agora, vou tirar uma semana em março, uma semana inteira, para completá-la. Acho que até o fim de março ela estará concluída e será enviada para tradução. Acho que se o trabalho de tradução for bem, ela pode sair em junho ou julho.” O lançamento oficial foi em 18 de junho. A encíclia foi enviada com antedecência a todos os bispos do mundo, acompanhada de um bilhete pessoal do Papa Francisco, que dizia: “Caro irmão no vínculo da unidade, da caridade e da paz (L.G. 22) no qual vivemos como bispos, te envio minha carta “Laudato si” sobre o cuidado da nossa casa comum, acompanhada da minha bênção. Unidos no Senhor, e, por favor, não esqueças de rezar por mim. Francisco.”

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