A misericórdia antes do julgamento

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 13 de O São Paulo, em dezembro de 2015

Um gesto simples, mas fortemente simbólico. Assim descreveu o Papa a abertura da “porta santa” da Basílica de São Pedro, no Vaticano, formalizando com ela abertura do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia. “Entrar pela porta significa descobrir a profundidade da misericórdia do Pai, que a todos acolhe e vai ao encontro de cada um pessoalmente”, explicou o pontífice durante a homilia da missa de terça-feira (8), Solenidade Imaculada Conceição. “Este será um ano em que se cresce na convicção da misericórdia”, disse. “Temos que colocar a misericórdia antes do julgamento, e em todo caso o julgamento de Deus será sempre à luz da misericórdia.”

Uma semana antes, o pontífice havia antecipado a abertura do Jubileu na cidade de Bangui, na República Centro-Africana. Agora, o ano jubilar está inaugurado para toda a igreja e várias “portas santas” serão abertas nas dioceses de todo o mundo. “Que atravessar a porta santa, portanto, nos faça sentir participantes deste mistério de amor, de ternura. Abandonemos toda forma de medo e de temor, porque isso não é próprio de quem é amado. Vivamos a alegria do encontro com a graça que tudo transforma”, acrescentou Francisco em sua homilia.

O porquê de um Jubileu da Misericórdia – Este ano jubilar, convocado pelo próprio Papa Francisco, é para ele uma grande oportunidade de a Igreja Católica aprofundar o mistério do perdão de Deus, apesar das fraquezas humanas, e um convite a uma maior abertura ao próximo. “Em qualquer lugar onde há uma pessoa, lá a Igreja é chamada a encontrá-la para levar a alegria do Evangelho e levar a misericórdia e o perdão de Deus”, declarou na homilia do domingo.

Mais do que isso, na audiência geral da quarta-feira (9), o Papa fez um resumo dos motivos que o levaram a convocar um Jubileu da Misericórdia. “Não digo: é bom para a Igreja este momento extraordinário. Digo: A Igreja precisa desse momento extraordinário”, detalhou. “Em nossa época de profundas mudanças, a Igreja é chamada a oferecer a sua contribuição peculiar, tornando visíveis os sinais da presença de da proximidade de Deus.”

Segundo o pontífice, é um momento para que a Igreja aprenda a escolher somente “o que Deus gosta mais”, que, para o Papa Francisco, é “perdoar o seus filhos, ter misericórdia deles, para que eles, por sua vez, possam perdoar os irmãos, resplendendo como luzes da misericórdia de Deus no mundo”.

Missionários da misericórdia – Duas das decisões mais importantes do Papa Francisco para o Ano da Misericórdia foram a criação dos “missionários da misericórdia” e a abertura para que, durante o Ano Santo, todos os sacerdotes católicos possam perdoar o pecado de aborto.

O presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, arcebispo Rino Fisichella, explicou à imprensa que os missionários da misericórdia são um grupo de 800 padres de todo o mundo, nomeados exclusivamente pelo Papa, autorizados a perdoar os chamados “pecados reservados à Santa Sé”.

Esses pecados, considerados mais graves pela doutrina da Igreja, são cinco: primeiro, a profanação da Eucaristia (isto é, contra a presença do corpo e o sangue de Cristo); segundo, a absolvição de um cúmplice (quando um sacerdote absolve um pecado do qual participou); terceiro, a ordenação de um bispo sem o mandato do Papa; quarto, a violação do sigilo sacramental (revelar o que foi ouvido em confissão); quinto, a violência física contra o pontífice.

Aborto e misericórdia – No caso do aborto, durante o Ano Santo, o Papa autorizou que todos os sacerdotes possam absolvê-lo, algo que não ocorre normalmente. Por ser considerado um pecado que leva à excomunhão automática – isto é, ao cometê-lo as pessoas que participaram do aborto deixam de estar em comunhão com a Igreja –, esse pecado normalmente só pode ser absolvido pelos bispos ou seus delegados (padres nomeados pelo bispo para poder exercer esse ministério em seu nome).

Quando anunciou a permissão para que todos os padres possam absolver o pecado de aborto, Papa Francisco divulgou uma carta explicativa. “Penso, em modo especial, a todas as mulheres que recorreram ao aborto. Conheço bem os condicionamentos que as levaram a essa decisão. Sei que é um drama existencial e moral”, disse.

“O perdão de Deus a quem se arrependeu não pode ser negado, sobretudo quando, com coração sincero, se aproxima ao sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai. Também por esse motivo decidi, não obstante qualquer disposição em contrário, conceder a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja perdoado.”

Aos padres, Francisco pediu uma preparação especial para essa “grande tarefa”. Que saibam “conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido, e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a sua presença”.

1 comentário

Arquivado em Igreja no Mundo, Vaticano

Uma resposta para “A misericórdia antes do julgamento

  1. Marta Domingues

    Sábias palavras… O Perdão é um gesto Divino! Peça e Ele te ouve.

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