Congresso mundial no Vaticano discute identidade e missão da escola católica

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Reportagem publicada na página 11 de O São Paulo, em novembro de 2015

Identidade, missão, formação dos formadores e os grandes desafios que as escolas católicas enfrentam para promover valores cristãos sem deixar de dialogar com o mundo. Foram esses os quatro eixos principais das discussões promovidas no congresso mundial “Educar hoje e amanhã”, realizado no Vaticano entre 18 e 25 de novembro. Uma das inspirações do encontro são os 50 anos dos documentos do Concílio Vaticano II, como a declaração Gravissimum educationis, sobre a educação cristã

Organizado pela Congregação para a Educação Católica, o encontro reuniu 2,2 mil representantes de todo o mundo, inclusive muitos brasileiros. Entre eles, o bispo auxiliar de São Paulo e vigário episcopal para a Educação e a Universidade, Dom Carlos Lema Garcia, e o Pe. Vandro Pisaneschi, Coordenador de Pastoral do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade. Eles conversaram com O SÃO PAULO no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma, sobre os destaques do congresso.

Uma das grandes riquezas do congresso, segundo Dom Carlos, foi justamente encontrar pessoas de todo o mundo que vivenciam desafios parecidos com os que são encontrados em São Paulo. À frente do Vicariato, Dom Carlos explicou que vem visitando escolas e universidades católicas presentes na Arquidiocese e o congresso o ajudou a conhecer melhor outras realidades de todo o mundo. “Nós estamos acompanhando de perto as escolas e as universidades católicas, especialmente para garantir a identidade católica. E no congresso se falou muito em missão e identidade. Tudo o que foi falado no congresso, nós sentimos no dia a dia”, disse.

Dom Carlos Lema Garcia, bispo auxiliar de São Paulo responsável pela educação católica

Diversos palestrantes do congresso observaram que é impossível separar a identidade de uma instituição católica de sua missão. A missão educativa de qualquer escola deve ir ao encontro da identidade evangelizadora de uma instituição católica. Porém, segundo eles, quando as duas dimensões se separam, a escola católica falha em sua função social.

“Às vezes, por exemplo, a escola começa a derivar para o trabalho de voluntariado, assistência social, e isso é interessante, mas não pode ser desvinculado da identidade. A escola não pode se transformar numa espécie de super-ONG, esquecendo que sua razão de ser é a evangelização”, declarou Dom Carlos.

Ele afirmou que “a escola católica deve existir por ser sujeito de evangelização na Igreja”, mas ao mesmo tempo não se fechar dentro dos seus próprios muros, mensagem transmitida também pelo Papa Francisco. “Não podemos formar um grupo católico, nos proteger do clima que tem lá fora. Temos que ser conscientes da nossa identidade, mas encontrar maneiras de dialogar com o mundo de hoje.”

Nesse sentido, outro tema muito abordado no congresso, segundo o Pe. Vandro, foi a “formação integral da pessoa”. Para ele, “o ser humano possui perguntas dentro de si que só os conceitos e conteúdos não respondem”. A ideia é que as escolas com identidade católica precisam ir além da formação técnica e da excelência acadêmica, embora sejam também essenciais. “É importante que a gente não perca essa visão transcendental do homem”, algo que o Papa também destacou. “Quando a escola assume a sua função social? Quando o ser humano aprende a trabalhar pelo bem comum”, afirmou o coordenador do Vicariato.

Para isso, é preciso que os formadores, ou educadores, também conheçam os princípios da instituição em que trabalham. Dom Carlos explicou que o congresso despertou um olhar mais amplo para esse ponto, que pode ser colocado em prática pelo Vicariato. “Podemos dar esse caminho, ter iniciativas concretas. Formação espiritual, religiosa e ética dos formadores”, disse, ao mesmo tempo alegrando-se de que na Arquidiocese já exista a estrutura do Vicariato para esses projetos. “Temos muito o que crescer, mas só o fato de ter um Vicariato nessa linha já corresponde a essa expectativa.”

O Pe. Vandro acrescentou que a formação dos formadores deve ser focada na transmissão de valores. “Os professores da escola católica não precisam ser necessariamente católicos, mas precisam dar testemunho dos valores cristãos”, disse. “Eles educam através do testemunho, na atitude de sala de aula tem de estar aberto ao diálogo, ao encontro, à fraternidade, porque tudo isso são valores cristãos que devem ser vividos.”

Para dar um exemplo, Pe. Vandro mencionou o caso de Bangladesh, um país onde prevalecem o Islamismo e o Hinduísmo. “Os professores dão exemplo no silêncio. Não podem falar de Cristo publicamente, mas o testemunho do professor ajuda o aluno a entender a ética, a parceria, o não aceitar uma escola competitiva que forma robôs para passar em determinados concursos, mas formar o coração dos seres humanos.”

Outro grande desafio das escolas católicas é não ser nem “elitista nem seletista”, definiu o Pe. Vandro, lembrando novamente um pedido do Papa Francisco de ir ao encontro das periferias existenciais. “Se as faculdades católicas forem muito boas mais continuarem só educando um determinado nível social, elas não vão atingir seu fim. Uma rede de educação católica que não é inclusiva não atinge a sua finalidade.” Dom Carlos completou dizendo que o Vicariato tenta promover a presença formativa nas escolas públicas da cidade e do Estado de São Paulo. “A pedido até da Secretarias de Educação, promovemos seminários de formação de professores da rede pública, para falar sobre valores, dignidade humana, virtudes”, afirmou.

Também Dom Julio Endi Akamine compareceu ao congresso, representando a Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No mesmo sentido, ele acredita que a educação católica tem como finalidade formar as pessoas, não somente para o mercado de trabalho ou para ter um bom salário, mas prepará-las para a vida, transmitir valores e princípios. A formação dos educadores é no sentido de ajudá-los a se identificar com o mesmo “espírito” da instituição católica, mesmo que tenha convicções diferentes. “A instituição católica pode ajudar a lançar pontes de encontro entre as culturas e as religiões”, avalia.

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