Papa adota tom conciliador em Sínodo dos Bispos sobre a família

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 23 de O São Paulo, em outubro de 2015

Procurando promover um espírito de comunhão entre os padres sinodais e evitar as especulações midiáticas, o Papa Francisco reafirmou a doutrina católica para o matrimônio e, ao mesmo tempo, insistiu na misericórdia como principal diretriz da Igreja em situações de grande sofrimento nas famílias.

Em diversas ocasiões nos últimos dias, no contexto do Sínodo dos Bispos, o Papa adotou um discurso conciliador. Defendeu a união entre homem e mulher como aliança de amor indissolúvel no matrimônio, mas também pediu uma Igreja misericordiosa e aberta a todos, que “constrói pontes, e não muros”, especialmente para quem vive no sofrimento.

O Sínodo dos Bispos volta a discutir o tema da família neste mês de outubro, entre os dias 4 e 25, após a assembleia extraordinária realizada um ano atrás, sob convocação do Papa. Agora os padres sinodais se reúnem em assembleia ordinária, ou seja, já prevista. Refletem sobre “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”.

Na missa de abertura do encontro, no domingo (4), o Papa chamou de “sonho de Deus para sua criatura” a “união de amor entre homem e mulher, feliz no caminho de comunhão e fecunda na doação recíproca”. Ele criticou as sociedades modernas, que, segundo ele, cada vez mais desestimulam relações “sólidas e fecundas de amor”. Disse que “o amor duradouro, fiel, consciente, estável, fértil é cada vez mais motivo de zombaria e visto como se fosse coisa da antiguidade”.

Embora tenha reafirmado a doutrina já conhecida, o pontífice também manifestou o desejo de ver uma Igreja mais compreensiva e acolhedora das famílias que vivem em situações difíceis, muitas vezes definidas como irregulares. “A Igreja é chamada a viver sua missão na caridade que não aponta o dedo para julgar os outros, mas, fiel à sua natureza de mãe, se sente no dever de buscar e curar as feridas com óleo da acolhida e da misericórdia.” Ele repetiu a metáfora de que a Igreja deve ser um “hospital de campanha, com as portas abertas para acolher a qualquer um que bata pedindo ajuda e sustento”.

Segundo o Papa Francisco, a Igreja deve “sair do próprio recinto em direção aos outros, com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para incluí-la e conduzi-la à fonte de salvação”. Citando o Papa João Paulo II, acrescentou que “o erro e o mal devem ser sempre condenados e combatidos, mas o homem que cai ou que erra deve ser compreendido e amado. Nós devemos amar o nosso tempo e ajudar o homem do nosso tempo.”

O Sínodo não é um parlamento – Novamente estimulando um espírito de unidade e um melhor entendimento do Sínodo, o papa afirmou que tal assembleia não é um parlamento, onde os participantes negociam e tentam convencer os outros, mas um local de oração e “abertura ao Espírito Santo”. O pontífice acrescentou que os 270 membros votantes do Sínodo precisam de “coragem, zelo pastoral e doutrinal, sabedoria, franqueza”, tendo sempre em mente o bem da Igreja, das famílias, e a lei suprema da Igreja: “a salvação das almas”.

De fato, em coletiva de imprensa no Vaticano, na segunda-feira (5), o arcebispo italiano Bruno Forte, secretário especial da assembleia, procurou afastar a ideia de que a Igreja está dividida: “Posso dizer com grande sinceridade que não há divisão. Somos todos pastores tentando ouvir a voz de Deus. Sim, há diferenças, mas uma divisão seria outra coisa”, declarou.

O Sínodo tem pauta ampla – A imprensa internacional tem dado grande ênfase às questões mais polêmicas que envolvem as famílias, como sexualidade e divórcio, mas a Igreja tem tentado transmitir a ideia de que a diferença de ideias no Sínodo é algo normal.

De acordo com o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, tanto as discussões fechadas quanto as manifestações abertas dos participantes têm demonstrado que há “diferenças de opiniões entre quem está mais preocupado em recordar o ensinamento católico e quem destaca mais a necessidade de dialogar com o mundo”.

Pe. Lombardi informou que nos primeiros três dias de reuniões a portas fechadas foram abordados, entre outros, os temas da homossexualidade; de encontrar uma linguagem nova com a qual comunicar o Evangelho; e a possibilidade de se encontrar soluções locais, em vez de universais, para questões controversas, como a comunhão aos divorciados em segunda união.

O vaticanista norte-americano, John Allen Jr., do Boston Globe, informou que alguns participantes do Sínodo creem que a assembleia do ano passado tenha gastado muito tempo e energia debatendo “como encorajar famílias que estão tentando viver o ensinamento da Igreja”. Portanto, agora, querem aprofundar, por exemplo, “a necessidade de se ter formas mais compreensivas de preparação para o matrimônio, assim como acompanhamento e apoio para famílias depois da cerimônia de casamento”.

O Sínodo não é um Fla-Flu – Nesse sentido, o vaticanista Andrea Tornielli, do jornal italiano La Stampa, escreveu, em análise, que “quem olha o Sínodo como uma partida de futebol, encontrará posições já conhecidas, graças a entrevistas e livros publicados (pelos padres sinodais), de quem joga no time dos contrários à abertura e de quem, em vez disso, está na outra metade no campo”. Mas, observou Tornielli, “o Sínodo não é uma partida de futebol, e seu primeiro dia não foi um derby com torcidas rivais. E tem alguém que continua a repetir isso: o Papa Francisco, que, mais uma vez, procurou indicar um olhar, uma abordagem ao tema da família, a partir do Evangelho”.

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