Sínodo dos Bispos fortalece processo de discernimento na Igreja

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 23 de O São Paulo, em outubro de 2015

“Discernimento” é uma palavra-chave na última assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a família, realizada de 4 a 25 de outubro. O Sínodo foi um confronto direto de ideias, afinal, ocorre justamente para discutir questões complexas. Apesar das diferenças de opinião sobre como conciliar doutrina e prática pastoral, seu relatório final foi aprovado com significativo consenso dos 270 padres sinodais. “Para a Igreja, concluir o Sínodo significa voltar a realmente ‘caminhar juntos’, para levar a todas as partes do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação, o sustento da misericórdia de Deus”, afirmou o Papa Francisco, no encerramento dos trabalhos.

O Sínodo é um processo de discernimento – Em várias ocasiões, o Papa Francisco recordou que a palavra “sínodo” quer dizer “caminhar juntos”, um conceito “fácil de exprimir em palavras, mas não tão fácil de colocar em prática”. De fato, desde o início da assembleia, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, relatou que os participantes tinham “diferenças de opiniões, entre quem está mais preocupado em recordar o ensinamento católico e quem destaca mais a necessidade de dialogar com o mundo”.

Como declarou o Papa, “no caminho deste Sínodo, as opiniões diferentes que foram manifestadas abertamente certamente enriqueceram e animaram o diálogo, oferecendo uma imagem viva de uma Igreja que não usa ‘modelos pré-confeccionados’, mas que bebe da fonte inesgotável de sua fé, água viva para saciar os corações áridos”. De acordo com o pontífice, o processo foi cansativo, mas os padres sinodais saem enriquecidos. “Muitos de nós experimentaram a ação do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista e criador do Sínodo”, disse.

O arcebispo de Viena, cardeal Christoph Schönborn

Uma imagem parecida foi apresentada na cerimônia dos 50 anos de instituição do Sínodo dos Bispos, em 17 de outubro, pelo cardeal Christoph Schönborn. O arcebispo de Viena recordou o “Concílio de Jerusalém”, referindo-se à reunião narrada nos Atos dos Apóstolos, na qual os discípulos de Jesus deviam decidir se sua mensagem era só para os judeus ou também para os pagãos.

Aquele debate, contou o cardeal, começou com um “dramático conflito” e teve “animadas discussões”, mas terminou com o parecer do apóstolo Pedro. Ele simplesmente recordou o que Deus os havia dado até ali: não discriminou os pagãos e “purificou os seus corações com a fé”, contou o cardeal.

Um espírito semelhante deve inspirar o Sínodo, dizia Dom Schönborn. “Em Jerusalém, a questão era o discernimento da vontade e do caminho de Deus”, contou. “Discussões acaloradas, mais do que isso, brigas, e a disputa intensa fazem naturalmente parte do caminho sinodal. Já em Jerusalém foi assim. Mas o objetivo dos debates, o objetivo dos testemunhos é o discernimento comum da vontade de Deus. Até mesmo quando se vota, não se trata de lutas de poder, de formações de partidos, mas desse processo de formação de um juízo comum, como vimos em Jerusalém”.

Enfim, o conflito de ideias é parte do processo. Conforme afirmou à Rádio Vaticano o cardeal húngaro Péter Erdő, relator-geral do Sínodo, “existiam, existem e podem existir posições diferentes, acentuações pastorais diferentes e também a nossa formação teológica pode ser diferente na mesma e única verdade católica. Mas, diversamente da impressão que algumas notícias da imprensa davam, sempre houve uma atmosfera de fraternidade. Mais do que tudo, houve um confronto de ideias, de propostas, e não de lutas ou combates”.

Cardeal Péter Erdő

O discernimento como resposta do Sínodo – Ao final de seu discernimento, o Sínodo indicou que o próprio discernimento é um princípio geral para ir ao encontro das famílias. O relatório final o propõe não só para orientar pessoas divorciadas que vivem em segunda união, mas também o discernimento sobre a vocação da família em diversas realidades, sobre os motivos pelos quais muitos jovens se afastam da Igreja, sobre as características do matrimônio em outras tradições religiosas, no processo de acompanhamento dos noivos, no discernimento vocacional.

Enfim, especialmente nas situações de sofrimento, os padres são convidados a “discernir” juntos aos fiéis sobre cada circunstância, conforme o ensinamento da Igreja e a orientação do bispo local.

Mais de uma vez, o relatório cita o discernimento baseando-se na exortação Familiaris consortio, de João Paulo II. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, são obrigados a bem discernir as situações. O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitam a capacidade de decisão. Portanto, enquanto a doutrina é expressa com clareza, devem ser evitados juízos que não consideram a complexidade das diversas situações, e é necessário estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”, diz.

O Sínodo não oferece resposta para todos os problemas, pois tem um caráter consultivo, de ajudar o Papa a guiar a Igreja. Conforme comentou o arcebispo italiano Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, o Sínodo se mostrou atento às situações culturais, sociais e religiosas do mundo contemporâneo e analisou como a Igreja pode ser compreendida nesse mundo. À Rádio Vaticano, ele declarou: “Nós continuamos presentes no mundo, com uma proposta eficaz, forte, que é exatamente o anúncio do Evangelho. E, não esqueçamos, é um anúncio direcionado a todos, ninguém excluído.”

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