Arquivo da categoria: Cristianismo

Lançamento de Laudato si’ tem tom de evento histórico no Vaticano

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 12 de “O São Paulo”, em junho de 2015

Poucas vezes o lançamento de um documento do papa chamou tanta atenção internacional como foi o caso da nova carta encíclica Laudato si’ (Bendito seja), do Papa Francisco.“Em nove anos, raramente ou talvez nunca tinha visto uma expectativa assim tão grande e prolongada por um documento papal”, declarou o Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, na abertura da conferência de lançamento, na manhã do dia 18 de junho, à qual O SÃO PAULO compareceu.

Segundo ele, Laudato si’ já é um marco histórico porque foi escrita com a ajuda dos bispos de todo o mundo – 15 conferências episcopais nacionais são citadas no texto, além de outras regionais. Francisco contou com a habitual consulta a especialistas, mas também mencionou amplamente o patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, um dos primeiros líderes cristãos a lançar voz em favor do ambiente. “Papa Francisco tem um modo particular de liderança eclesial. Esta encíclica foi feita de um modo novo em relação às anteriores”, disse o Pe. Lombardi.

Cardeal Peter Turkson, principal articulador da encíclica

De acordo com cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho para Justiça e Paz e o principal articulador na preparação do documento, Laudato si’ é especial porque o papa “nos convida a inverter a rota atual e construir a casa comum em vez de destruir”.

Do ponto de vista teológico, explicou o arcebispo ganês, Francisco coloca no centro do debate o conceito de “ecologia integral”. Para Dom Turkson, as perguntas que o papa lança no texto nos levam a questionar o sentido da existência e os valores que estão na base da vida social. De fato, diz Francisco no documento, “essas questões não têm a ver somente com o ambiente de forma isolada; esse tema não pode ser abordado separadamente”.

O cardeal acrescentou que a ideia do Papa de escrever a primeira encíclica sobre ecologia veio da observação da realidade: “Hoje a Terra, nossa irmã, maltratada e abusada, está reclamando; e seus gemidos se unem àqueles de todo o mundo desamparado e descartado”, disse. “Papa Francisco nos convida a ouvi-los, alertando a cada um, indivíduos, famílias, comunidades locais, nações e a comunidade internacional, a uma ‘conversão ecológica’, usando as palavras de São João Paulo II.”

Um dos mais renomados teólogos da atualidade, o Metropolita ortodoxo de Pergamo, Ioannis Zizioulas, também comentou a encíclica – a primeira vez que um ortodoxo apresenta um documento papal no Vaticano. Ele destacou três aspectos principais: a importância do significado teológico da ecologia; a dimensão espiritual do problema ecológico; e a dimensão ecumênica da encíclica. “A ruptura da adequada relação entre a humanidade e a natureza se deve ao surgimento do individualismo em nossa cultura. Em nossos tempos, a busca da felicidade individual foi transformada em um ideal”, declarou. “O pecado ecológico vem da ganância humana, que cega o homem e a mulher ao ponto de ignorar ou negligenciar a verdade básica de que a felicidade do indivíduo depende de sua relação com o resto dos seres humanos.”

O Metropolita ortodoxo de Pergamo, Ioannis Zizioulas

Também comentaram o texto o cientista John Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto Postdam de Pesquisa sobre Impacto Climático, representando especialistas em ciências naturais; a professora Carolyn Woo, presidente da agência Catholic Relief Services, representando o setor econômico-financeiro; e a professora Valeria Martano, que há 20 anos trabalha na periferia de Roma com situações de “degradação humana e ambiental”.

Como foi feita a encíclica – No voo de ida às Filipinas, em 15 de janeiro, o próprio Papa Francisco explicou como foi feita a encílcia Laudato si’: “O cardeal Turkson e sua equipe prepararam o primeiro rascunho. Então, com alguma ajuda, eu trabalhei nele e, depois, com alguns teólogos, eu fiz um terceiro rascunho e mandei uma cópia para a Congregação para a Doutrina da Fé, para a segunda seção da Secretaria de Estado e para o Teólogo da Casa Pontifícia (o sacerdote dominicano Wojciech Tomasz Giertych). (…) Três semanas atrás, recebi as respostas deles, (…) todas elas construtivas. Agora, vou tirar uma semana em março, uma semana inteira, para completá-la. Acho que até o fim de março ela estará concluída e será enviada para tradução. Acho que se o trabalho de tradução for bem, ela pode sair em junho ou julho.” O lançamento oficial foi em 18 de junho. A encíclia foi enviada com antedecência a todos os bispos do mundo, acompanhada de um bilhete pessoal do Papa Francisco, que dizia: “Caro irmão no vínculo da unidade, da caridade e da paz (L.G. 22) no qual vivemos como bispos, te envio minha carta “Laudato si” sobre o cuidado da nossa casa comum, acompanhada da minha bênção. Unidos no Senhor, e, por favor, não esqueças de rezar por mim. Francisco.”

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Centenário do genocídio armênio serve de alerta à humanidade, diz Papa

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 9 de “O São Paulo”, em abril de 2015

Patriarca de Cilicia dos Armênios Católicos, Nerses Bedros XIX Tarmouni, e Papa Francisco

Sem usar meias palavras durante missa na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco recordou o centenário do massacre de armênios pelo Império Otomano durante e depois da Primeira Guerra Mundial. Chamando o assassinato de mais de 1 milhão de pessoas de “genocídio”, expressão rejeitada pelo governo da Turquia, o pontífice afirmou que “fazer memória do que aconteceu é um dever não só para o povo armênio e para a Igreja universal, mas para a inteira família humana, para que o alarme que vem dessa tragédia nos livre de recair em horrores parecidos, que ofendem a Deus e à dignidade humana”.

A rigor, a celebração recordou o “martírio” armênio e, durante a missa, o papa proclamou “doutor da Igreja” São Gregorio di Narek. A cerimônia foi concelebrada pelo patriarca de Cilicia dos Armênios Católicos, Nerses Bedros XIX Tarmouni, na presença de outros líderes religiosos da Igreja armênia: Karekin II, supremo patriarca e catholicos de todos os armênios, e Aram I, catholicos da Grande Casa de Cilicia. A Igreja armênia tem sua origem ligada às viagens dos apóstolos Judas Tadeu e Bartolomeu e surgiu oficialmente em 301, antes mesmo que o Império Romano se tornasse oficialmente cristão, mais de dez anos depois.

“Não existe uma família armênia ainda hoje que não tenha perdido naquele evento algum dos seus caros. Realmente aquele foi o ‘Metz Yeghern’, o ‘Grande Mal’, como chamaram aquela tragédia”, afirmou o Papa em mensagem ao povo armênio.

Impasse diplomático – Citando o Papa João Paulo II, Francisco declarou que “geralmente, esse trágico evento é definido como o primeiro genocídio do século XX”. A utilização da palavra “genocídio” pelo pontífice causou grande insatisfação no governo da Turquia, atualmente de origem otomana. A nação chamou de volta o embaixador junto à Santa Sé para “consultas”, um gesto que em relações internacionais é a manifestação de constrangimento.

O embaixador, Kenan Gursoy, afirmou à rede de TV norte-americana CNN que a Turquia ainda mantém relações diplomáticas com o Vaticano, mas a decisão do Papa de repetir a palavra “genocídio” foi unilateral. Para os turcos, o número de 1 a 1,5 milhão de mortos em 1915 e 1916 é exagerado e muitas delas se deveram aos conflitos em guerra, e não a um assassinato massivo com o objetivo de exterminar uma etnia. Oficialmente, o genocídio armênio foi reconhecido por cerca de 22 países, entre eles Itália, França, Alemanha, Rússia, Canadá e Argentina. Alguns países, como Estados Unidos e Israel, não utilizam a expressão.

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Pedro visita André

Publicamos aqui no blog um trecho e o link para reportagem nossa que saiu no jornal O São Paulo sobre a visita do Papa Francisco à Terra Santa:

Cinquenta anos atrás, o papa Paulo VI e o então patriarca ecumênico, Anthenagoras I, se encontravam pela primeira vez em Jerusalém desde o cisma entre as igrejas do Ocidente e do Oriente em 1054. Celebrar a memória desse encontro foi o principal motivo da ida do papa Francisco à Terra Santa por três dias, a convite do atual patriarca, Bartolomeu I. Pela primeira vez na história os sucessores dos apóstolos irmãos Pedro e André rezaram juntos na Igreja do Santo Sepulcro, construída no lugar onde morreu e foi sepultado Jesus. O encontro do dia 25 de maio, novamente em Jerusalém, foi forte e significativo, pois a cidade remete à origem do cristianismo, quando a Igreja era uma só.

Chamando um ao outro de “amadíssimo irmão”, os dois trocaram cumprimentos fraternais. Francisco chegou a beijar a mão do patriarca de Constantinopla após ouvir seu discurso, algo inimaginável alguns anos atrás, quando era forte a rivalidade entre as igrejas católica e ortodoxa. Um gesto surpreendeu, embora seja já um hábito do Papa Francisco: ele beija as mãos de sacerdotes idosos, pessoas doentes ou sofredores, como também fez com os sobreviventes do holocausto. Bartolomeu o acolheu com um abraço e diversas vezes o amparou enquanto caminhavam, alertando-o que o piso da igreja era escorregadio.

Leia a íntegra na página 24 da versão digital do jornal, que você encontra clicando aqui.

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O rosto da Igreja na Ásia (e talvez no mundo) segundo o cardeal Tagle

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manilla, e o Pe. Antonio Spadaro, diretor de 'La Civiltà Cattolica'

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manila, e o Pe. Antonio Spadaro (dir), diretor de La Civiltà Cattolica

A Igreja Católica presente na Ásia deve ter a coragem de descobrir novos modos de contar a história de Jesus. Segundo o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, esse é um dos grandes desafios dos cristãos na Ásia, um dos continentes onde a Igreja Católica cresce mais expressivamente.

“Como dizia o Papa João Paulo II, devemos encontrar uma pedagogia que fale à sensibilidade asiática. A mesma história (de Jesus) pode ser contada a partir de novos pontos de vista”, declarou o popular cardeal em conferência organizada pela revista dos padres jesuítas La Civiltà Cattolica – realizada em Roma e, por sinal, um dia após a publicação de uma longa entrevista do Pe. Antonio Spadaro com o Papa Francisco, que ganhou repercussão mundial.

Spadaro, que também presidiu a conferência com Tagle, apresentou o cardeal filipino como muito alinhado ao pensamento do Papa Francisco, que destaca a importância de se ter uma Igreja alegre e sorridente. “A Ásia representa um estilo de igreja: jovem”, e, como disse o Papa na entrevista aos jesuítas, o futuro das igrejas jovens deve ser construído juntamente com a tradição das igrejas antigas (como a da Europa). “Qual é o rosto da Igreja na Ásia?”, questionou Spadaro a Tagle, referindo-se a uma igreja “cheia de energia”, enquanto a da Europa é tida como “uma Igreja cansada”.

Método narrativo – Em vez de responder objetivamente à pergunta de Spadaro, o arcebispo de Manila preferiu apresentar um amplo cenário sobre os desafios da Igreja na Ásia (e que até certo ponto vale para toda a Igreja Católica). Durante toda a sua fala, o Cardeal Tagle destacou que o “método narrativo” é o principal para “proclamar a vida de Jesus na Ásia”. Segundo ele, a própria vida tem uma estrutura narrativa e contar histórias faz parte das tradições dos povos asiáticos.

“As boas histórias se baseiam nas experiências. As nossas histórias pessoais são as melhores, porque falam das nossas experiências”, explicou, acrescentando que quando uma pessoa narra sua história, torna mais compreensível também o mundo em que vive. “Da mesma forma, a Igreja na Ásia precisa partir da experiência de Jesus. Os primeiros apóstolos, que eram asiáticos, falavam de sua própria experiência.”

O cardeal filipino alertou que essa “narrativa” deve ser construída de diversas formas, seja por meio da liturgia ou da oração, seja a partir da interação com as pessoas, “especialmente os mais pobres”. Ele acredita que deva ser fortalecida não só a missão ad gentes (para as nações), mas também aplicá-la a uma realidade inter gentes (entre as nações) e “com os povos”.

Identidade – Outro grande desafio, conforme Tagle, é fortificar a identidade da igreja presente na Ásia. “Em uma grande parte da Ásia, a fé cristã é considerada uma coisa estrangeira”, alertou. “Esquece-se da história dos símbolos da fé. Devemos recordar a história da fundação da Igreja por Jesus.” Exemplificou usando três símbolos bastante conhecidos do cristianismo: a fração do pão, por exemplo, é uma mensagem de partilha; o anel de um bispo é um símbolo de serviço; o sacerdote “como presença de Jesus Cristo” é um sinal de disponibilidade para o povo.

Tagle autografa exemplares do seu livro "Gente de Páscoa”

Tagle autografa exemplares do seu livro “Gente de Páscoa”

“É necessário rastrear a origem dos símbolos da fé, que reconduz à história de Jesus.”, recordou, avisando que, sem a retomada dos significados originais, “os símbolos da Igreja podem terminar contando uma outra história, diferente daquela de Jesus”. O anel do bispo se torna uma mera joia, um símbolo de poder e riqueza, por exemplo.

Insistindo sobre a propagação da história da vida de Jesus, Tagle disse que é dessa história que vem toda a tradição da Igreja. “É a mesma história que toda a comunidade deve compartilhar. É a sua verdadeira identidade.” Essa história, declarou o cardeal, não pode ser imposta. “A Igreja na Ásia deve ser humilde e deixar que o Espírito Santo a toque. Uma Igreja narradora deve ser uma Igreja que escuta as pessoas e o Espírito Santo.”

Sobre a perseguição e a opressão que sofrem alguns povos asiáticos – como na China, onde nasceu a mãe do mesmo cardeal – Tagle evitou citar casos concretos e afirmou que, em resposta às ditaduras, “a Igreja é a voz das histórias suprimidas”. Respondendo a uma pergunta do Pe. Spadaro sobre a pequena porcentagem de cristãos na Ásia, o arcebispo filipino disse que as pequenas comunidades devem ser valorizadas. “Nestas comunidades de cinco, quatro pessoas, a Igreja é viva! Não basta o número. É claro que queremos mais pessoas. Mas a coisa mais importante é a qualidade e a adesão ao Evangelho.”

O cansaço da Europa – O Pe. Spadaro provocou o cardeal Tagle com uma última questão sobre como enxerga a Igreja na Europa. Tagle respondeu: “Escutei tantas vezes a expressão ‘o cansaço da Igreja’ na Europa. Está cansada de quê?”, brincou, tirando risos da plateia. “Parece-me que esse cansaço é motivado pela falta de capacidade de dizer que o Espírito Santo nos convida a uma nova ideia de ser Igreja”, disse firmemente. “Uma nova forma de ser Igreja termina e outra começa. A Igreja não tem tempo de estar cansada. A cada dia busca a mão do Espírito que a guia.”

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Papa Franciso

Primeira aparição pública do Papa Francisco, argentino. À direita na foto, o cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes, da mesma geração.

Há pouco foi eleito o primeiro Papa das Américas, Francisco, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Tanto a escolha do nome quanto o fato de ser o primeiro Papa jesuíta da História sinalizam que os cardeais querem mudar (ao menos em parte) os rumos da Igreja no mundo. Os jesuítas são tradicionalmente missionários, intelectuais, e próximos “do mundo”. São ativos não só na Igreja, mas também fora dela. Geralmente, os jesuítas têm uma segunda formação, além de serem sacerdotes, e são uma das congregações em que o tempo de estudos é mais longo – geralmente mais de dez anos. Segundo o perfil da Wikipedia, Bergoglio também é químico.

O nome Francisco pode se referir tanto a São Francisco de Assis, o santo da pobreza, da humildade, e também que protagonizou grandes reformas na História da Igreja, quanto a São Francisco Xavier, missionário jesuíta e muito próximo a Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus.

A grande surpresa na Praça de São Pedro quando o nome do novo Papa foi anunciado foi justamente o fato de que Bergoglio não estava entre os grandes “papáveis”. Ele esteve em 2005, quando Bento XVI (então cardeal Joseph Ratzinger) foi eleito. Mas dessa vez era praticamente ignorado pelas grandes listas divulgadas na imprensa. Também por não ser tão jovem – tem 76 anos -, leva a crer que seu papado não será dos mais longos. Esperava-se que, depois da renúncia de Bento XVI, um cardeal mais jovem fosse escolhido.

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Ainda há muito a se descobrir sobre o novo Papa. Mas alguns gestos já foram muito notáveis, como o fato de sair na sacada apenas com a veste branca, e não a vermelha, mais solene, e também o pedido de que os fiéis rezassem por ele em um momento de silêncio antes de receberem a bênção. Talvez tenha sido a primeira vez em que um Papa se curvou para as multidões (ou ao menos a primeira de que se tem notícia). E iniciou rezando com a multidão pelo Papa emérito, Bento XVI, que renunciou há cerca de um mês.

Mas aparentemente os cardeais olharam diversos outros atributos. Apenas o fato de Bergoglio ser latino-americano já é enorme. Também parece ser um homem humilde e realmente envolvido nas coisas da Igreja. E, de fato, bastante alinhado aos valores e princípios de fé da Igreja Católica.

Certamente, os cardeais foram inspirados por algo diferente da simples política eclesiástica, da qual nós, jornalistas, tanto falamos nos últimos dias. Para as pessoas que não têm fé, a eleição de Bergoglio foi o resultado de uma disputa política aparentemente sem vencedor. Para quem tem fé, pura ação desse tal de Espírito Santo.

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‘Papas não renunciaram por temerem tendência perigosa’, diz vaticanista

Filipe Domingues, especial para O Estado de S. Paulo

Andrea Tornielli, vaticanista italiano do jornal La Stampa e autor de vários livros sobre personagens do catolicismo

Andrea Tornielli, vaticanista italiano do jornal La Stampa e autor de vários livros sobre personagens do catolicismo

Bento XVI não é o primeiro papa das últimas décadas a considerar a possibilidade de renunciar, mas nenhum deles deixou o papado porque temia abrir um “perigoso precedente”, avalia o vaticanista Andrea Tornielli, que trabalha para o jornal italiano La Stampa.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Tornielli afirma que os maiores desafios do sucessor de Bento XVI serão “falar com o mundo” e “reformar a Cúria Romana”. Leia a seguir os principais trechos da conversa, realizada no saguão da sala de imprensa do Vaticano.

Após a surpresa diante do anúncio da renúncia de Bento XVI, a grande pergunta que as pessoas passaram a fazer é: Quais motivos levaram o papa a tomar essa decisão? Ele disse mais de uma vez que foi uma conclusão pessoal. Mas, em sua opinião, a decisão foi mais política ou por motivos de saúde?

Acredito que é necessário se ater àquilo que o papa diz a respeito da sua condição física. Porém, certamente, como papa, ele precisa não somente do vigor físico, mas também do ânimo. Creio que os fatos que ocorreram nos últimos anos no Vaticano tenham um peso. Porém, acredito que é necessário olhar a coisa com um ponto de vista global. Portanto, existe essa questão do cansaço físico e existe também, creio eu, um reconhecimento de que a situação é tal que ele não se sente mais em condições de poder responder.

Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em quase 600 anos

Bento XVI foi o primeiro Papa a renunciar em quase 600 anos

As mensagens do papa nos últimos dias foram muito fortes, pedindo unidade na Igreja e o fim da “hipocrisia religiosa”. Elas se referem ao contexto e aos problemas atuais da Igreja?

Eu acredito que sim. Na mensagem que transmitiu na homilia da Quaresma, ele disse que existem também os riscos, essas divisões dentro da Igreja. Portanto, isso é um tema importante para o futuro da Igreja.

Essas mensagens são destinadas a algum grupo específico, como a Cúria Romana?

Creio que não. Creio que seja para toda a Igreja. É claro que existem aqueles que fomentam as divisões, isto é, aquelas pessoas que fazem as divisões aumentarem, mas há também quem, em vez disso, procure reunir. No entanto, não há necessariamente um objetivo preciso nas mensagens. Na minha opinião, o papa fala também à Cúria Romana, que nos últimos anos não deu uma bela demonstração de unidade.

A última renúncia papal ocorreu há quase 600 anos e nos últimos pontificados outros papas quiseram renunciar, mas não o fizeram. Qual é a diferença entre aqueles momentos e a situação atual da Igreja?

Já haviam pensado sobre a renúncia Pio XII, João XXIII… Tantos pensaram sobre a renúncia por causa de questões de saúde, doenças. Paulo VI também chegou a pensar na aposentaria, por causa da idade. A única diferença agora é justamente que esses papas do passado haviam pensado sobre a renúncia, mas nunca renunciaram. Temiam abrir um perigoso precedente. Bento XVI, ao contrário, renunciou. Essa é a grande novidade histórica. A diferença é que Bento XVI renunciou. Ele teve coragem e fez tudo de forma bastante histórica.

Então Bento XVI pode ter aberto um precedente para os próximos papas?

Certamente é um grande precedente.

Qual é exatamente a relação entre o papa Bento XVI e o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano? Bertone é apontado por alguns no Vaticano como um detentor de poder paralelo, mas o papa sempre o manteve no cargo.

Mesmo com seus limites, Cardeal Bertone é homem de confiança de Bento XVI

Mesmo com seus limites, Cardeal Bertone é homem de confiança de Bento XVI

Bertone é atacado e está no centro de tantas polêmicas. Seguramente, a Cúria e a Secretaria de Estado do Vaticano sob o cardeal Bertone cometeram muitos erros. Isso tudo é verdade. Porém, o papa, no fim das contas, sempre confiou em Bertone. O cardeal sempre foi uma figura de confiança para o papa. E por isso o papa vem sempre renovando sinais de confiança, apesar dos limites de Bertone.

Quais são os desafios do próximo papa?

O maior desafio é falar com o mundo. A Igreja precisa de um papa que fale para o mundo, também para fora da Igreja, e anuncie o Evangelho como uma mensagem positiva. É a nova resposta, a nova evangelização. E, depois, uma reforma da Cúria Romana. Uma reforma séria que transforme a Cúria Romana em algo mais simples.

E sobre a questão da liturgia?

Para promover unidade na Igreja e acolher fiéis tradicionalistas, que preferem a missa antiga, em latim, Bento XVI planejava reformar aspectos da liturgia católica. A liturgia é uma das coisas que Ratzinger queria fazer. Seria a reforma da reforma. Porém, essa era uma coisa de Ratzinger. Não sei se o novo papa vai querer fazer.

Outras reformas são discutidas na Igreja, como o celibato dos padres e o sacerdócio feminino. Existirá espaço para pensar sobre isso no novo pontificado?

Eu creio que é preciso fazer uma distinção sobre os temas do celibato dos padres e o sacerdócio feminino, pois ambas as coisas são questões muito clericais, que não se referem verdadeiramente à realidade da Igreja. E, mesmo mudando as normas da Igreja – sobre o celibato dos padres é possível fazer, já sobre o sacerdócio feminino é um pouco mais difícil -, não significa que as pessoas vão voltar à missa. Não significa que as pessoas vão frequentar a missa porque o padre é casado e tem filhos. As pessoas não voltam para a Igreja porque atrás do altar tem uma mulher. As confissões cristãs que fizeram isso não mudaram em nada o problema da secularização. A Igreja Anglicana perdeu e continua perdendo fiéis. Porque isso é uma prioridade clerical, ou seja, para o clero. Hoje, é necessária uma virada não clerical. Um outro discurso, por outro lado, é o tema do cisma silencioso dos divorciados e novamente casados. Evidentemente, como já disse o papa, é preciso procurar um modo de fazer com que eles não se sintam excluídos da Igreja. É preciso pensar em como anunciar o cristianismo de maneira positiva e propositiva.

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Bispos pedem que Constituição não defina o Zâmbia como “nação cristã”

Dois bispos do Zâmbia: Dom George Lungu, bispo de Chiapata, e Dom Ignatius Chama, arcebispo de Kasama

Bispos católicos do Zâmbia pediram ao comitê técnico responsável por escrever a nova Constituição do país que não o considere uma “nação cristã”. Segundo informaram os bispos à agência de notícias católica Fides,  esse termo deve ser omitido. “Um país não pode praticar os valores e preceitos do Cristianismo com uma mera declaração”, afirmam os bispos.

“O princípio de separação entre Estado e Religião não deve ser perdido”, acrescentam. “Se o Zâmbio é um país multirreligioso, um fato que foi reconhecido no preâmbulo do primeiro rascunho do Comitê Técnico, dizer que o Zâmbia é uma nação cristã seria uma contradição a esse fato.”

Além disso, os bispos pediram que a Constituição do país rejeite a pena de morte e o aborto. A Conferência Episcopal do Zâmbia acredita, ainda, que o novo texto deve apresentar regulações sobre a cidadania e a exploração dos recursos naturais do país.

De acordo com o site Religión en Libertad, a atual Constituição do país é uma recompilação legislativa de 1996 e inclui uma emenda que declara o Zâmbia uma “nação cristã”, embora garanta a liberdade religiosa. Cerca de 85% da população é cristã – o que inclui católicos e protestantes -, 5% são muçulmanos, 5% pertencem a outras comunidades e 5% se dizem ateus.

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