Arquivo da categoria: Igreja no Brasil

Congresso mundial no Vaticano discute identidade e missão da escola católica

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Reportagem publicada na página 11 de O São Paulo, em novembro de 2015

Identidade, missão, formação dos formadores e os grandes desafios que as escolas católicas enfrentam para promover valores cristãos sem deixar de dialogar com o mundo. Foram esses os quatro eixos principais das discussões promovidas no congresso mundial “Educar hoje e amanhã”, realizado no Vaticano entre 18 e 25 de novembro. Uma das inspirações do encontro são os 50 anos dos documentos do Concílio Vaticano II, como a declaração Gravissimum educationis, sobre a educação cristã

Organizado pela Congregação para a Educação Católica, o encontro reuniu 2,2 mil representantes de todo o mundo, inclusive muitos brasileiros. Entre eles, o bispo auxiliar de São Paulo e vigário episcopal para a Educação e a Universidade, Dom Carlos Lema Garcia, e o Pe. Vandro Pisaneschi, Coordenador de Pastoral do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade. Eles conversaram com O SÃO PAULO no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma, sobre os destaques do congresso.

Uma das grandes riquezas do congresso, segundo Dom Carlos, foi justamente encontrar pessoas de todo o mundo que vivenciam desafios parecidos com os que são encontrados em São Paulo. À frente do Vicariato, Dom Carlos explicou que vem visitando escolas e universidades católicas presentes na Arquidiocese e o congresso o ajudou a conhecer melhor outras realidades de todo o mundo. “Nós estamos acompanhando de perto as escolas e as universidades católicas, especialmente para garantir a identidade católica. E no congresso se falou muito em missão e identidade. Tudo o que foi falado no congresso, nós sentimos no dia a dia”, disse.

Dom Carlos Lema Garcia, bispo auxiliar de São Paulo responsável pela educação católica

Diversos palestrantes do congresso observaram que é impossível separar a identidade de uma instituição católica de sua missão. A missão educativa de qualquer escola deve ir ao encontro da identidade evangelizadora de uma instituição católica. Porém, segundo eles, quando as duas dimensões se separam, a escola católica falha em sua função social.

“Às vezes, por exemplo, a escola começa a derivar para o trabalho de voluntariado, assistência social, e isso é interessante, mas não pode ser desvinculado da identidade. A escola não pode se transformar numa espécie de super-ONG, esquecendo que sua razão de ser é a evangelização”, declarou Dom Carlos.

Ele afirmou que “a escola católica deve existir por ser sujeito de evangelização na Igreja”, mas ao mesmo tempo não se fechar dentro dos seus próprios muros, mensagem transmitida também pelo Papa Francisco. “Não podemos formar um grupo católico, nos proteger do clima que tem lá fora. Temos que ser conscientes da nossa identidade, mas encontrar maneiras de dialogar com o mundo de hoje.”

Nesse sentido, outro tema muito abordado no congresso, segundo o Pe. Vandro, foi a “formação integral da pessoa”. Para ele, “o ser humano possui perguntas dentro de si que só os conceitos e conteúdos não respondem”. A ideia é que as escolas com identidade católica precisam ir além da formação técnica e da excelência acadêmica, embora sejam também essenciais. “É importante que a gente não perca essa visão transcendental do homem”, algo que o Papa também destacou. “Quando a escola assume a sua função social? Quando o ser humano aprende a trabalhar pelo bem comum”, afirmou o coordenador do Vicariato.

Para isso, é preciso que os formadores, ou educadores, também conheçam os princípios da instituição em que trabalham. Dom Carlos explicou que o congresso despertou um olhar mais amplo para esse ponto, que pode ser colocado em prática pelo Vicariato. “Podemos dar esse caminho, ter iniciativas concretas. Formação espiritual, religiosa e ética dos formadores”, disse, ao mesmo tempo alegrando-se de que na Arquidiocese já exista a estrutura do Vicariato para esses projetos. “Temos muito o que crescer, mas só o fato de ter um Vicariato nessa linha já corresponde a essa expectativa.”

O Pe. Vandro acrescentou que a formação dos formadores deve ser focada na transmissão de valores. “Os professores da escola católica não precisam ser necessariamente católicos, mas precisam dar testemunho dos valores cristãos”, disse. “Eles educam através do testemunho, na atitude de sala de aula tem de estar aberto ao diálogo, ao encontro, à fraternidade, porque tudo isso são valores cristãos que devem ser vividos.”

Para dar um exemplo, Pe. Vandro mencionou o caso de Bangladesh, um país onde prevalecem o Islamismo e o Hinduísmo. “Os professores dão exemplo no silêncio. Não podem falar de Cristo publicamente, mas o testemunho do professor ajuda o aluno a entender a ética, a parceria, o não aceitar uma escola competitiva que forma robôs para passar em determinados concursos, mas formar o coração dos seres humanos.”

Outro grande desafio das escolas católicas é não ser nem “elitista nem seletista”, definiu o Pe. Vandro, lembrando novamente um pedido do Papa Francisco de ir ao encontro das periferias existenciais. “Se as faculdades católicas forem muito boas mais continuarem só educando um determinado nível social, elas não vão atingir seu fim. Uma rede de educação católica que não é inclusiva não atinge a sua finalidade.” Dom Carlos completou dizendo que o Vicariato tenta promover a presença formativa nas escolas públicas da cidade e do Estado de São Paulo. “A pedido até da Secretarias de Educação, promovemos seminários de formação de professores da rede pública, para falar sobre valores, dignidade humana, virtudes”, afirmou.

Também Dom Julio Endi Akamine compareceu ao congresso, representando a Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No mesmo sentido, ele acredita que a educação católica tem como finalidade formar as pessoas, não somente para o mercado de trabalho ou para ter um bom salário, mas prepará-las para a vida, transmitir valores e princípios. A formação dos educadores é no sentido de ajudá-los a se identificar com o mesmo “espírito” da instituição católica, mesmo que tenha convicções diferentes. “A instituição católica pode ajudar a lançar pontes de encontro entre as culturas e as religiões”, avalia.

Deixe um comentário

Arquivado em Igreja no Brasil, Igreja no Mundo, Vaticano

Dom Odilo Scherer visita Papa Francisco no Vaticano

Pela primeira vez, o papa Francisco e o cardeal Odilo Pedro Scherer puderam conversar em particular sobre alguns dos temas mais importantes para a Igreja em São Paulo. Em entrevista exclusiva ao O São Paulo em Roma, o Arcebispo de São Paulo revelou que os dois refletiram sobre a necessidade de se realizar uma verdadeira “retomada missionária” nas grandes metrópoles urbanas de todo o mundo. Eles recordaram o forte exemplo do Beato Padre José de Anchieta, um dos primeiros jesuítas enviados por Santo Inácio de Loyola ao Brasil, em 1553, cuja canonização “está próxima”.

Leia aqui a íntegra da nossa reportagem publicada em O São Paulo

2 Comentários

Arquivado em Igreja no Brasil, Vaticano

Três pontos importantes sobre a viagem do Papa Francisco ao Brasil

O pontificado do Papa Francisco pode ser dividido entre antes e depois da viagem ao Brasil. A viagem para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), entre 22 e 28 de julho, já é considerada o fato mais importante de seu pontificado até agora. Poderíamos analisar muitos aspectos dessa viagem: cada mensagem e cada discurso carregam um profundo conhecimento sobre o que é a Igreja e sobre os problemas da atualidade.

Porém, queremos destacar neste post apenas três pontos que consideramos essenciais nessa discussão. São três aspectos dessa viagem que, a nosso ver, não podem ser ignorados por ninguém que queira entender algo sobre a importância da visita do Papa ao Brasil. Dividimos em tópicos para facilitar sua leitura.

1) Um marco para o pontificado – Em sua primeira “viagem apostólica”, o primeiro Papa latino-americano viajou para o maior país da América Latina. Coincidência ou Providência Divina, a viagem já havia sido marcada pelo seu predecessor, o agora Papa Emérito Bento XVI. Enquanto esteve no Brasil Francisco teve a oportunidade de falar para diversos grupos sociais: os jovens, as autoridades políticas, os padres e bispos, os pobres, as famílias, os idosos, os artistas, os dependentes químicos…

Mais do que isso, Francisco tratou de praticamente todos os temas que a Igreja pretende apresentar à sociedade, inclusive os polêmicos. Diversas vezes pediu uma “Igreja que caminha” com as pessoas; uma Igreja que é mãe e que “abrace” os seus filhos, especialmente os que sofrem mais, numa “cultura do encontro”; pediu que a Igreja vá às periferias do mundo e aos jovens, que deixem “Cristo e sua Palavra entrarem” em suas vidas, sendo verdadeiros discípulos em missão. Disse que jovens e idosos estão condenados ao mesmo destino: a exclusão. “Não se deixem descartar”, alertou.

Não deixou de responder a perguntas de jornalistas sobre os escândalos na Cúria Romana e no banco do Vaticano (IOR), disse que a ordenação de mulheres para o sacerdócio é um “assunto encerrado” e reiterou que seu posicionamento nas questões do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo é o mesmo da Igreja. “Sou filho da Igreja”, lembrou. Ganhou as manchetes dos jornais, porém, quando disse que “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, pra julgá-la?”. Como disse o vaticanista John Allen Jr, Francisco é provavelmente “O Papa da Misericórdia“, pois essa é a mensagem principal que deseja transmitir.

Talvez um dos discursos mais contundentes, porém, tenha sido aquele que fez aos bispos representantes da América Latina e do Caribe, quando praticamente traçou uma espécie de “plano de governo”. Disse que na América Latina “estamos muito atrasados” e apontou todos os problemas da Igreja na região – mas ao mesmo tempo falando para o mundo inteiro. Criticou os padres e bispos “de sacristia” e pediu que a Igreja vá para as ruas. “Serve uma Igreja que, na sua noite, não tenha medo de sair.”

643952_660864050607629_996257171_nFoi no Brasil que Francisco disse ao mundo com todas as palavras a que veio. Desde sua eleição, embora ele já estivesse muito ativo e muito presente na mídia internacional, havia ainda muitas dúvidas sobre seu posicionamento, sobre seu entendimento a respeito dos problemas da Igreja, sobre o que planejava fazer em seu pontificado. As revelações vinham a conta-gotas em suas homilias diárias na Casa Santa Marta, onde mora, nas audiências públicas, nas orações do Angelus… Mas quando veio ao Brasil, Francisco falou claramente e não deixou mais dúvidas a respeito do que pensa sobre os mais diversos assuntos.

2) Uma mudança de tom e de estilo, mas não de conteúdo – Também foi no Brasil que Francisco esclareceu: veio para reformar muitas coisas, principalmente as estruturas e os comportamentos que estão errados. Mas também veio para manter e fortalecer outras coisas, como os ensinamentos da Igreja e (como bom jesuíta) seu espírito missionário. Embora ele seja nitidamente diferente de seu antecessor em vários aspectos, as mensagens dos dois estão em completa sintonia.

É verdade que Francisco é mais carismático, mais próximo do povo, mais sorridente, mais simples, talvez até mais objetivo que Bento XVI. Porém, suas mensagens se baseiam na mesma compreensão de mundo, aquela da Igreja. Por exemplo, na questão sobre os homossexuais, quando declarou que eles devem ser acolhidos pela Igreja e inseridos na sociedade, está praticamente repetindo o que diz o Catecismo da Igreja Católica. Não é uma coisa nova. Mas há sim um coisa nova quando diz “Quem sou eu para julgá-los?”. Aí temos uma mudança de tom e de estilo. Temos um Papa que não se vê na posição de julgar os outros e que, em Roma, já havia dito: “também sou pecador” e “sou igual a todos vocês”.

Nesse mesmo sentido, Francisco deixou claro desde o início que pretende ser mais “colegial”, ou seja, quer dividir suas responsabilidades com os outros bispos, que trata como seus colegas – esse é um dos motivos pelos quais destaca o Papa como “bispo de Roma”. Diz-se que o Papa é o primeiro entre iguais e ao assumir isso ele está mais acessível aos outros bispos. Uma mudança no estilo de governo.

O conteúdo de seus ensinamentos, porém, está em continuidade com os antecessores. Uma forte evidência disso é o fato de que Francisco praticamente só assinou a última encíclica de Bento XVI, Lumen Fidei (Luz da Fé), dando alguns retoques. Ele quis mostrar nesse gesto que os dois estão em total sintonia. Igualmente, Bento XVI também já afirmou que teologicamente está de acordo com tudo o que diz e faz o Papa Francisco.

3) A mídia e o Papa – É curioso notar a nova relação que se estabeleceu entre o Papa e a mídia internacional. Nossos colegas jornalistas (falando de modo geral) costumam ter uma abordagem predominantemente negativa a respeito da Igreja, tratando-a como uma instituição atrasada e conservadora, retrógrada, parada na Idade Média ou algo do tipo. Porém, Francisco desde o início foi capaz de, se não mudar, pelo menos amenizar isso e a cobertura da imprensa (de novo, falando de modo geral) foi muito positiva para a Igreja.

Francisco foi quase sempre descrito como um homem inteligente, carismático, simpático, carinhoso, próximo ao povo e, acima de tudo, humilde. Francisco não é bobo, e sabe a importância de tornar públicos os gestos que fortaleçam essa imagem (lembre-se de quando ele, após sua eleição ao papado, voltou para pagar a conta no hotel onde havia ficado quando cardeal, “para dar o exemplo”). Mas ao mesmo tempo, não está fingindo e não faz isso só para agradar. Esse é o verdadeiro Francisco. Aliás, esse é o verdadeiro Jorge Mario Bergoglio, basta conversar com qualquer um que o conhecesse pessoalmente em Buenos Aires.

“Esses leões não são assim tão ferozes”, disse o Papa na viagem de ida ao Brasil, respondendo a uma jornalista que havia dito algo como “o senhor foi colocado na jaula dos leões”, referindo-se ao grupo de jornalistas que viaja junto com o Papa no avião. Naquela viagem, Francisco pediu que os jornalistas o ajudassem a levar uma mensagem de esperança ao mundo e, na volta, elogiou o trabalho deles. Os jornalistas, por sua vez, pareciam encantados com um Papa que não só deu entrevistas, como o fez por mais de uma hora e respondeu a todas as perguntas, sem fugir do tema. Além disso, o Vaticano já está bem mais treinado no relacionamento com a mídia, principalmente por meio do porta-voz, Pe. Federico Lombardi.

A viagem de Francisco ao Brasil mostrou, mais uma vez, como é cada vez mais importante que os Papas saiam do Vaticano e viajem pelo mundo. Muitas das coisas que o Papa falou no Brasil ele já havia falado em Roma – como quando disse que sem sair às ruas a Igreja vira uma ONG, por exemplo. Mas o fato de ele estar fisicamente no Brasil fez com que quase toda a mídia brasileira parasse para ouvi-lo e, consequentemente, todo o povo, até os não católicos.

A imagem do Papa Francisco ficou escancarada na imprensa por uma semana. Assim, muitas de suas mensagens que não haviam chegado ainda àquele público, por fim chegaram. É de se esperar que daqui para a frente, mesmo de volta ao Vaticano, Francisco continue chegando às casas das famílias brasileiras pelos meios de comunicação. Afinal, parece mesmo que “esses leões não são assim tão ferozes”.

1 comentário

Arquivado em Igreja no Brasil, Igreja no Mundo, Vaticano

O atual problema da PUC-SP não é exatamente uma surpresa

Tínhamos em mente uma série de coisas para escrever aqui no blog, mas não podemos deixar de falar do problema atual da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) .

Alunos e funcionários da PUC-SP estão de greve há mais de duas semanas, em protesto contra a nomeação da professora doutora Anna Cintra para a reitoria pelo Arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Odilo Scherer, que é também o grão-chanceler da PUC e, por isso, tem o direito de escolha com base em uma lista tríplice apresentada por assembleia universitária.

O problema está instaurado, mas não é uma surpresa. Veremos neste post o porquê e qual é o desafio para a Igreja daqui pra frente.

Antes de mais nada, não se sabe ainda se a nova reitora vai assumir. Embora a posse estivesse prevista para sexta-feira, dia 30, hoje o Conselho Universitário da PUC-SP suspendeu a validade da lista tríplice de indicados. A crise lembra muito o problema vivido pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), sobre a qual falamos mais de uma vez neste blog e que perdeu oficialmente os títulos de “Pontifícia” e “Católica” conferidos pela Igreja.

Dom Odilo Scherer, cardeal e grão-chanceler da PUC-SP

O grande impasse na PUC-SP iniciou quando Dom Odilo resolveu nomear a terceira colocada da lista tríplice, coisa que tradicionalmente não acontece. Geralmente, o grão-chanceler costuma apenas confirmar a decisão da assembleia, escolhendo o candidato mais votado – neste caso, o atual reitor, Dirceu de Mello, de 81 anos. Fato é que a decisão do cardeal é legal e está dentro das normas e estatutos da PUC e do Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja).

OS DOIS LADOS – O que centenas de alunos, professores e funcionários questionam neste momento é a legitimidade da decisão. Dizem que a Igreja está “interferindo” na autonomia e na democracia da universidade. Em nota que circulou pelos corredores da PUC, os grevistas dizem que “a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP tem adotado medidas antidemocráticas que remontam ao regime autocrático, antes tão combatido”.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, em protesto, com alunos, o diretor de teatro Zé Celso afirmou que o “Vaticano tem de entrar pelo cano” e que o Papa “é um ditador”. Também conforme a Folha, o candidato mais votado, Dirceu Mello, disse que “todos na universidade ficaram decepcionados com esse desfecho”. Acrescentou: “Se eu fosse estudante, estaria procedendo da mesma forma. Os universitários de hoje sabem perfeitamente aquilo que é certo e o que é errado.”

Já os defensores da decisão do cardeal, como o jurista Ives Gandra Martins, dizem que ele tem uma “prerrogativa estatutária, que foi exercida, legal e legitimamente”. Também é interessante este post do filósofo Gabriel Ferreira, que reflete sobre o papel das universidades pontifícias e defende o direito da Igreja de participar da gestão das PUCs. Outro que merece ser lido é o canonista Edson Luiz Sampel, cujo artigo saiu também na Folha. Entre os argumentos, ele menciona que outras instituições universitárias ligadas a religiões, como os presbiterianos, metodistas e judeus, têm direção claramente confessional.

Anna Cintra é da área de Letras

E AGORA? – Nosso foco aqui é o papel da Igreja no Brasil e no mundo. Vale lembrar que por muito tempo a instituição Igreja foi relapsa na condução de algumas universidades pontifícias. E agora, de uma hora para outra, está claro que ficou meio difícil retomar essa participação, embora seja um direito garantido por leis e estatutos.

Simplificando muito uma situação bem complexa: tanto a PUC-SP quanto a PUCP (aquela do Peru) foram expoentes da chamada “Teologia da Libertação”, corrente que se destacou por ser uma interpretação do Cristianismo à luz do Marxismo e, por esse motivo, contrária ao pensamento oficial da Igreja, centralizado em Roma. Num contexto de combate às violentas ditaduras de direita, durante a Guerra Fria, os grupos de esquerda ganharam força nos âmbitos universitário e religioso.

O problema para a Igreja é que, mesmo depois do fim da Guerra Fria, das ditaduras na América Latina e após uma série de mudanças políticas por aqui, aparentemente não houve um esforço real de retomar sua influência ideológica nessas duas universidades. É verdade que houve uma série de reformas e intervenções administrativas (na PUC-SP uma delas para resolver um rombo nos cofres), mas que não mudaram muito a linha acadêmica e o viés político, talvez justamente para não gerar tanto conflito.

Ou seja, em muitas faculdades dessas duas PUCs (talvez de outras mais) quase sempre se destaca a linha que vai contra o ensinamento da Igreja. É normal ver nos corredores e salas de aula da PUC-SP alunos e professores defendendo o aborto, a legalização da maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – para citar apenas alguns temas mais controversos. Porém, supostamente, segundo os documentos da Igreja (como a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae – Sobre as universidades católicas), é missão das PUCs fazer florescer uma “cultura cristã”, de modo que, a rigor, ao menos a linha geral da universidade deveria seguir o que a Igreja ensina.

Dirceu Mello, atual reitor da PUC-SP

O que torna ainda mais semelhante os casos da PUC-SP e da PUCP é que ambos os arcebispos resolveram tomar uma atitude de uma hora para outra. Sem querer julgar se foram decisões certas ou erradas, podemos dizer que em ambos os casos foram bruscas. Tanto Dom Odilo Scherer quanto o cardeal de Lima, Dom  Juan Luis Cipriani Thorne, chocaram a comunidade universitária de suas PUCs porque fugiram do padrão adotado já há algum tempo, no qual aceitavam aquilo que vinha pré-definido. Antes, era só assinar embaixo.

Percebe-se que nas universidades onde a instituição Igreja sempre se manteve presente (como naquelas geridas pelos padres jesuítas, por exemplo, como a PUC-RJ) este tipo de conflito não ocorre. As intervenções não são só comuns e aceitas normalmente, como muitas vezes o reitor é um padre. E as universidades pontifícias muito frequentemente recebem estudantes de outras religiões – e, no caso de Roma, alguns são até convidados oficialmente pelo Vaticano, com bolsas de estudos, para promoverem o diálogo entre diversas correntes de pensamento. Isso flui razoavelmente bem.

Não se sabe ao certo o que vai acontecer agora com a PUC-SP, mas Dom Odilo Scherer não é do tipo que volta atrás em suas decisões. Pode ser que com muito diálogo, mudanças na lista tríplice e eventual renúncia da reitora nomeada, a situação mude um pouco e esse incêndio seja apagado.

Porém, se a Igreja quiser manter certo controle sobre suas universidades precisará em algum momento realizar verdadeiras reformas. Caso contrário, terá de aceitar a realidade atual, na qual o pensamento contrário ao da Igreja é firme e forte dentro de algumas PUCs, e aprender a lidar com toda sorte de reação às suas pequenas intervenções pontuais.

Deixe um comentário

Arquivado em Igreja no Brasil, Outras crenças

Um sinal de alerta dos bispos da Amazônia para todo o Brasil

É um desafio lidar com a riqueza da Amazônia. Cultural, ambiental e social. Não se sabe direito como preservá-la sem colocá-la à margem do desenvolvimento. Entre os importantes agentes presentes na Amazônia, refletindo sobre essa questão e participando lá dentro, está a Igreja Católica.

Na semana passada, um grupo de bispos da região da Amazônia se reuniu para discutir justamente essa atuação, que se dá por meio de missões, projetos pastorais e sociais. Liderados pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes, arcebispo brasileiro de maior destaque em âmbitos nacional e internacional (que já trabalhou no Vaticano e hoje se encarrega dos pobres da Amazônia), refletiram sobre conclusões tomadas pela própria Igreja 40 anos atrás – na cidade de Santarém, entre 24 a 30 de maio de 1972, foram estabelecidas as diretrizes para a Igreja na Amazônia. E daí saiu o “Documento de Santarém”, um marco para a religião católica no país.

Dom Cláudio Hummes é presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia

Neste novo encontro, que terminou em 7 de julho de 2012, publicaram uma carta assinada pelos bispos novamente em Santarém. O conteúdo da Carta dos Bispos ao Povo de Deus na Amazônia é, na verdade, de interesse de todos os brasileiros. Vejamos a seguir alguns elementos apresentados por ela, que passou batida na imprensa.

No texto, os bispos constatam novamente o grande sofrimento dos povos da Amazônia. E aí está a maior crítica da carta.

Eles atribuem isso principalmente ao fato de que, apesar de alguns avanços, a região ainda está à margem do restante do país. A Amazônia, dizem eles, ainda é vista como uma colônia: como há 40 anos, “é apenas ‘província’, primeiro província madeireira e mineradora, depois a última fronteira agrícola no intuito de expandir o agronegócio até os confins deste delicado e complexo ecossistema, único em todo o planeta.”

Mais do que isso, analisam os bispos, as decisões sobre a Amazônia são sempre tomadas de fora para dentro, sem a participação dos povos locais (ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, indígenas).

Rio Xingu, onde se constrói a controversa Usina de Belo Monte

A Amazônia é vista por governos e empresas como uma província também “energética”, dado seu enorme potencial hidrelétrico, que, na avaliação dos bispos, coloca em risco os povos da região.

“Sob a alegação de gerar energia limpa se esconde a verdade de que mais florestas sucumbirão, mais áreas, inclusive urbanas, serão inundadas, milhares de famílias serão expulsas de suas terras ancestrais, mais aldeias indígenas diretamente afetadas”, afirmam. Nesta declaração, está implícita uma crítica à Usina de Belo Monte, que vem sendo construída no Rio Xingu, no Pará, à revelia de grande parte da população local.

Citando o Papa João Paulo II, os bispos da Amazônia observam que o agravamento da devastação e da miséria gera “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres”. Segundo eles, quem se opõe às decisões tomadas pelos governos e empresas costuma ser visto como “inimigo”. “Somado a estes desafios nos deparamos com a emergência do fenômeno urbano, com o inchaço nas periferias das grandes cidade, exploração sexual, tráfico de pessoas e de drogas, violência”, acrescentam.

Sobre a ação pastoral da própria Igreja na Amazônia, os bispos destacam três pontos principais (sempre à luz do Documento de Santarém).

O primeiro é a falta de padres, maior problema da Igreja Católica na região. E, mesmo para os poucos que existem, a formação é considerada precária. Também os leigos carecem de formação.

O segundo, por outro lado, destaca o valor das chamadas “Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)“, vistas como uma grande riqueza – elas visam, por exemplo, a reunir uma determinada comunidade em torno da leitura da Bíblia e da avaliação da realidade local.

O terceiro, por fim, é a questão indígena. Diz o texto que, não fosse a intervenção da Igreja, muitos povos indígenas teriam desaparecido. “A presença solidária e o apoio incondicional à luta por seus direitos foi fundamental para que hoje a maioria dos povos indígenas da região tenha suas terras demarcadas.”

Alguém pode perguntar: “Mas o que têm esses bispos a ver com tudo isso?”. Eles mesmos, na carta, adiantam que “como 40 anos atrás, também hoje os bispos se entendem como mensageiros dos povos da Amazônia”. Sua mensagem é relevante, portanto, porque “nestes nossos tempos, as feridas se tornaram chagas abertas que perpassam e sangram a Amazônia de fora a fora, causando cada dia mais vítimas fatais”, afirmam.

Deixe um comentário

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Brasil, Outras crenças

Um bom perfil de Dom Eugênio Sales

A morte do Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, arcebispo emérito de São Sebastião do Rio de Janeiro, aos 91 anos, foi amplamente noticiada desde ontem à noite. Ele era o bispo católico que há mais tempo foi nomeado cardeal – em 1969, pelo Papa Paulo VI – e sua atuação na Igreja durou muitos anos. Ele foi uma das pessoas mais importantes para a história da Igreja no Brasil.

Para não repetir o que já está na mídia, recomendamos um ótimo perfil escrito pelo jornalista José Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo – até onde eu sei o único repórter da grande imprensa brasileira que se dedica ao jornalismo religioso.

Neste texto, Mayrink resume a trajetória de Dom Eugênio sem simplificá-la demais e sem colocar um rótulo, como fazem alguns obituários. Dom Eugênio Sales, como qualquer pessoa, foi uma personalidade complexa, ao mesmo tempo conservador e liberal, rico e pobre, de direita e de esquerda. Segue o primeiro parágrafo. Para ler o restante, clique abaixo.

Coerência e idealismo marcaram a vida de d. Eugenio

“De padre da roça a cardeal no Rio de Janeiro, o nordestino d. Eugenio de Araújo Sales foi, à sua maneira, um revolucionário – na opinião do presidente-marechal Castelo Branco, “o bispo mais perigoso do Brasil”. Natural de Acari, no Rio Grande do Norte, onde nasceu em 8 de novembro de 1920, sonhava ser vigário do interior até ser mandado para Natal, seu primeiro estágio durante dez anos para uma vida a serviço dos pobres. (…)”

1 comentário

Arquivado em Igreja no Brasil

A queda do número de católicos no Brasil e a tal ‘nova evangelização’

O noticiário destacou hoje a queda do número de brasileiros que se declaram católicos, de acordo com dados do Censo de 2010, realizado pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dez anos, a proporção de católicos no Brasil caiu de 73,6% da população para 64,6%. Enquanto isso, cresce o número de evangélicos, que cada vez mais se espalham por diferentes e novas igrejas.

Não há como negar que a queda é expressiva. E a primeira questão que se levanta é, por que isso acontece? Alguns atribuem  o fato à lentidão da Igreja Católica em aceitar as mudanças do mundo, especialmente no que diz respeito às questões sexuais, reprodutivas e familiares.

Outros dizem que não é isso o que afasta as pessoas da Igreja e de Deus, mas sim uma questão social e cultural, pois a religião como um todo está perdendo espaço na vida das pessoas para outras atividades com as quais passaram a ocupar mais tempo e a dar mais importância, como o trabalho, o estudo, o lazer, etc. Sendo assim, não só o catolicismo seria afetado, mas também outras religiões. Em outras palavras, no mundo atual, muitas vezes as pessoas sentem menos necessidade da religião.

A resposta oficial da Igreja no Brasil aos dados do IBGE foi dada hoje pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Declarou que, embora o número de pessoas que se dizem católicas tenha caído, cresce o número de padres e paróquias, o que, em sua visão, mostra que a Igreja está “viva” no país – que é o mais católico do mundo e cuja população é predominantemente católica.

Vale recordar os dados globais, que foram divulgados no Anuário Pontifício de 2012 – sobre o qual fizemos uma breve análise neste blog. Naquela ocasião, percebemos que, globalmente, o número de católicos cresce proporcionalmente ao aumento da população global. Ou seja, numericamente, estão elas por elas.

Porém, a Igreja está no mínimo atenta a essas mudanças. Quando esteve no Brasil, em 2007, o Papa Bento XVI afirmou na sessão inaugural da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe (Celam): “Observa-se uma certa debilitação da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria pertença à Igreja Católica devido ao secularismo, hedonismo, indiferentismo e proselitismo de numerosas seitas, de religiões animistas e de novas expressões pseudo-religiosas.”

Bento XVI com bispos em Aparecida (SP)

Não é à toa a iniciativa de Bento XVI de promover um processo de “nova evangelização“, defendido já por João Paulo II. Segundo Bento XVI, é preciso mudar a forma de transmitir a mensagem deixada por Jesus Cristo, levando-a a novos lugares e retomando-a firmemente em regiões onde ela está se perdendo. Nos países desenvolvidos, avalia o Papa, “o bem-estar econômico e o consumismo, embora misturado com tremendas situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem viver ‘como se Deus não existisse'”.

O documento preparatório para o Sínodo dos Bispos, quando se discutirá a “nova evangelização”, em outubro de 2012, reconhece a necessidade de que a Igreja “recomece sempre por se evangelizar a si mesma”. Diz ainda: “Nova evangelização significa dar resposta adequada aos sinais dos tempos, às necessidades dos homens e dos povos de hoje, aos novos cenários que mostram a cultura por meio da qual exprimimos a nossa identidade e procuramos o sentido da nossa existência“.

Os números divulgados hoje pelo Censo não são, portanto, nenhuma surpresa para a Igreja Católica. Mas chamam a atenção porque colocam a olhos vistos o que já era sabido: que, se o objetivo é disseminar uma determinada mensagem, os métodos usados atualmente não estão sendo suficientes.

1 comentário

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Brasil, Outras crenças