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Igreja se une aos 4 milhões que protestam contra o terrorismo

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 24 do jornal “O São Paulo”, em janeiro de 2015

Quase 4 milhões de manifestantes saíram às ruas no domingo (11) em diversas cidades da França para protestar contra os ataques terroristas que mataram 17 pessoas em três dias e chocaram o mundo.

A sequência de fatos surpreendentes começou em 7 de janeiro, quando atiradores invadiram a sede da publicação satírica Charlie Hebdo, em Paris, e mataram 12 pessoas, entre jornalistas, policias e funcionários. O jornal é conhecido por fazer fortes provocações a políticos e às religiões, especialmente o Islamismo, o Cristianismo e o Judaísmo. Nos dias seguintes, uma policial e outros quatro homens foram assassinados, dessa vez em um supermercado kosher (isto é, alimentos da tradição judaica). A organização terrorista Al Qaeda, formada por extremistas islâmicos, assumiu a responsabilidade pelos crimes. Líderes católicos de todo o mundo manifestaram profundo pesar pelos acontecimentos e criticaram qualquer forma de violência em nome da religião.

No mesmo dia 7, o Papa Francisco condenou duramente o “horrível atentado” em Paris, que “semeou a morte e espalhou consternação em toda a sociedade francesa, abalando profundamente todas as pessoas que amam a paz, muito além dos confins da França”. Ele também lançou, em sua conta na rede social Twitter seguida por 18 milhões de pessoas, a hashtag #PrayersForParis (orações por Paris, em inglês) e rezou pelas vítimas na missa celebrada na Casa Santa Marta, onde vive. “O atentado em Paris nos faz pensar a tanta crueldade, crueldade humana; seja o terrorismo isolado, seja terrorismo de Estado. Mas a crueldade da qual o homem é capaz!”, disse. “Rezemos pelas vítimas dessa crueldade. Tantas! E peçamos também pelos cruéis, para que o Senhor mude os seus corações.”

O cardeal francês Dom André Vingt-Trois

Todos em choque – O arcebispo de Paris, cardeal André Vingt-Trois, divulgou nota na qual manifestou enorme tristeza e luto pelas mortes em sua cidade. “Uma caricatura, ainda que de mau gosto, uma crítica, ainda que se gravemente injusta, não podem ser colocadas no mesmo plano de um homicídio. A liberdade de imprensa é, a qualquer custo, o sinal de uma sociedade madura”, comentou.

“Na França, estamos todos em choque. A maioria dos nossos cidadãos viveu essa situação como um apelo a redescobrir uma série de valores fundamentais de nossa república, como a liberdade de religião ou a liberdade de opinião”, acrescentou. “As reuniões espontâneas destes últimos dias se distinguem por um grande recolhimento, sem manifestação de ódio nem de violência.”

Dom Vingt-Trois ponderou que é importante não associar o fanatismo religioso a nenhuma religião. “Que ninguém se deixe levar pelo pânico ou pelo ódio; que nenhum se deixe levar pela simplificação de identificar qualquer fanático com a religião inteira. E rezemos também pelos terroristas, para que descubram a verdade do juízo de Deus.”

‘Sem liberdade de expressão, o mundo está em perigo’ – No Vaticano, uma declaração conjunta foi assinada pelo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, cardeal Jean-Louis Tauran, e quatro líderes muçulmanos franceses. A reunião entre eles já estava prevista antes mesmo dos ataques terroristas e ocorreu um dia após o primeiro atentado. “Nestas circunstâncias, é bom recordar que sem liberdade de expressão, o mundo está em perigo”, diz a declaração. Repetindo palavras do Papa Francisco, o texto ressoa que é “imperativo opor-se com qualquer meio à difusão do ódio e qualquer forma de violência, física e moral, que destrói a vida humana”. Além disso, o documento afirma que os líderes religiosos são chamados a promover cada vez mais “uma cultura de paz e de esperança”. Além do cardeal Tauran, assinam o texto o bispo de Evry, Dom Michel Dubost, e o Pe. Christophe Roucou, que trabalham nas relações com o Islã; e os imãs franceses Azzedine Gaci, Tareq Oubrou, Mohammed Moussaoui, e Djelloul Seddiki.

O terrorismo não está só na Europa – A Nigéria precisa do mesmo apoio que a França recebeu neste momento de dor. A declaração foi do arcebispo de Jos, Dom Ignatius Ayau Kaigama, em entrevista à rádio britânica BBC, após o ataque terrorista organizado pelo grupo extremista Boko Haram que matou 2 mil pessoas em apenas um fim de semana, na cidade de Baga, localizada na fronteira com o Chade. Alguns dos ataques utilizaram inclusive mulheres suicidas e crianças-bomba.

O arcebispo nigeriano Dom Ignatius Ayau Kaigama

De acordo com a Anistia Internacional, esse foi o massacre mais mortal do Boko Haram até o momento. O exército da Nigéria continua contra-atacando os terroristas para retomar o controle de Baga. “Vejo uma reposta muito positiva do governo francês combatendo este problema da violência religiosa depois da morte de seus cidadãos. Nós precisamos que esse espírito se espalhe, não só quando isso acontece na Europa”, criticou. “Mas também quando acontece na Nigéria, no Níger, em Camarões e muitos países pobres. Que mobilizemos nossos recursos internacionais para confrontar as pessoas que trazem tamanha tristeza para tantas famílias.”

À agência Fides, Dom Kaigama contou que a nova estratégia do Boko Haram é usar crianças inocentes nos ataques, que se explodem em meio a multidões, em mercados e outros ambientes públicos. “É uma aberração inimaginável”, deplorou. “Além disso, conhecemos bem o triste fenômeno dos meninos-soldados em diversas zonas da África.” Para o arcebispo, é preciso fazer mais para combater o terrorismo. “Espero também aqui uma grande manifestação de unidade nacional que supere as divisões políticas, étnicas e religiosas, para dizer ‘não’ à violência e encontrar uma solução para nossos problemas.” Segundo ele, tanto cristãos quanto muçulmanos são vítimas da violência do Boko Haram. Muitas vezes, as pesssoas fogem de suas cidades e, juntas, buscam abrigo em outro lugar.

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Oração pela paz: um ato de coragem

Publicamos aqui no blog um trecho e o link de nossa reportagem que saiu no jornal O São Paulo no início de junho, sobre a oração pela paz na Terra Santa organizada pelo Papa Francisco no Vaticano.

“Para fazer a paz é preciso coragem, muito mais do que para fazer a guerra”, afirmou o Papa Francisco no encontro histórico do dia 8 de junho, que organizou pessoalmente com os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Palestina, Mahmoud Abbas. Foram mais de duas horas de grande proximidade, meditação e oração, também com a presença do patriarca ecumênico ortodoxo, Bartolomeu, bispo de Constantinopla. Os quatro líderes e outros representantes do judaísmo, do cristianismo e do islamismo – as três comunidades religiosas que têm sua origem no patriarca bíblico Abraão –, se reuniram no Vaticano simplesmente para rezar para o Deus único em que creem. Em momentos separados, os três grupos agradeceram pelo dom da criação, pediram perdão pelos pecados cometidos e pediram a paz no Oriente Médio e em todo o mundo. Uma reunião que talvez o próprio Francisco definisse como um ato de coragem.

“Precisamos de coragem para dizer sim ao encontro e não ao confronto; sim ao diálogo e não à violência; sim ao negociado e não às hostilidades; sim ao respeito dos pactos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isso, precisamos de coragem”, declarou o pontífice, que havia oferecido “sua casa” (literalmente, a Casa Santa Marta e os jardins do Vaticano) para sediar o encontro de oração. “Senhor, infunde em nós a coragem de realizar gestos concretos para construir a paz”, rezou. Segundo o Papa, para se alcançar a verdadeira paz é necessário romper com a “espiral do ódio e da violência com uma só palavra: irmão”. Ao fim do encontro, os quatro irmãos plantaram, juntos, um pé de oliveira, árvore-símbolo da paz.

Leia a íntegra na página 10 da versão digital do jornal, que você encontra clicando aqui.

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Pedro visita André

Publicamos aqui no blog um trecho e o link para reportagem nossa que saiu no jornal O São Paulo sobre a visita do Papa Francisco à Terra Santa:

Cinquenta anos atrás, o papa Paulo VI e o então patriarca ecumênico, Anthenagoras I, se encontravam pela primeira vez em Jerusalém desde o cisma entre as igrejas do Ocidente e do Oriente em 1054. Celebrar a memória desse encontro foi o principal motivo da ida do papa Francisco à Terra Santa por três dias, a convite do atual patriarca, Bartolomeu I. Pela primeira vez na história os sucessores dos apóstolos irmãos Pedro e André rezaram juntos na Igreja do Santo Sepulcro, construída no lugar onde morreu e foi sepultado Jesus. O encontro do dia 25 de maio, novamente em Jerusalém, foi forte e significativo, pois a cidade remete à origem do cristianismo, quando a Igreja era uma só.

Chamando um ao outro de “amadíssimo irmão”, os dois trocaram cumprimentos fraternais. Francisco chegou a beijar a mão do patriarca de Constantinopla após ouvir seu discurso, algo inimaginável alguns anos atrás, quando era forte a rivalidade entre as igrejas católica e ortodoxa. Um gesto surpreendeu, embora seja já um hábito do Papa Francisco: ele beija as mãos de sacerdotes idosos, pessoas doentes ou sofredores, como também fez com os sobreviventes do holocausto. Bartolomeu o acolheu com um abraço e diversas vezes o amparou enquanto caminhavam, alertando-o que o piso da igreja era escorregadio.

Leia a íntegra na página 24 da versão digital do jornal, que você encontra clicando aqui.

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Papa Francisco estimula esforços no combate à pedofilia na Igreja

Francisco: Tolerância Zero com a pedofilia

Francisco: Tolerância Zero com a pedofilia

O problema dos abusos sexuais de menores por pessoas ligadas à Igreja Católica existiu e ainda existe. Depois de tantos escândalos em diversos lugares do mundo, felizmente agora há um real esforço de lidar com essa situação da melhor maneira possível. Nos últimos anos, uma série de iniciativas surgiu para minimizar o difícil e doloroso problema dos abusos sexuais na Igreja.

Entre muitos jornalistas que cobrem notícias do Vaticano, é recorrente ouvir que essa era uma das maiores lutas do Papa Bento XVI no fim de seu pontificado. Ele teria enfrentado muita resistência entre pessoas e instituições eclesiásticas para promover uma mudança formal.

Fato é que, nesta semana, o Papa Francisco encorajou o trabalho do Centro para a Proteção dos Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana, uma agência criada após a realização de um simpósio internacional de estudo e sensibilização sobre o problema de abusos de menores por pessoas ligadas à Igreja, em 2012.

Aquele simpósio, histórico por ser a primeira vez em que uma universidade pontifícia se abriu para discutir um tema tão complexo, que é motivo de vergonha para a Igreja e por isso tão delicado – inclusive com a presença de vítimas de abusos, que deram depoimentos – resultou no livro “Rumo à cura e à renovação”, organizado por padres jesuítas e pela Congregação para a Doutrina da Fé. Participaram delegados de 110 conferências episcopais e superiores de 33 ordens religiosas.

No início de 2013, um ano após o simpósio, o padre jesuíta Hans Zollner, responsável pelo evento, entrega os resultados ao Papa Bento XVI

O livro, traduzido em várias línguas, inclusive em português, inclui a Carta Circular para ajudar as Conferências Episcopais na preparação de linhas diretrizes no tratamento dos casos de abuso sexual contra menores por parte de clérigos, um documento de grande importância divulgado em maio de 2011.

Essa carta coloca sobre o bispo diocesano o peso da responsabilidade na denúncia dos casos de abusos sexuai. É dever e obrigação do bispo avisar as autoridades civis e dar suporte às vítimas de abuso sexual. Em alguns países, bispos foram presos por terem sido “cúmplices” de casos de abuso sexual de menores, ou seja, porque não informaram à polícia que um grave crime havia sido cometido.

Também daquele simpósio surgiu uma plataforma de formação à distância (e-learning) para pessoas que queiram se especializar no trabalho de acompanhamento a casos de abusos sexuais dentro da Igreja Católica. O site é aberto: http://elearning-childprotection.com (em inglês). Na ocasião do simpósio, o Papa Bento XVI enviou mensagem pedindo “uma profunda renovação da Igreja”.

Segundo o Papa Francisco, o trabalho do Centro é importante. “Continuem assim”, afirmou ao fim de uma missa celebrada na Casa Santa Marta, onde mora – conforme relata o site Vatican Insider. De acordo com o vaticanista Marco Tosati, do jornal italiano La Stampa, que entrevistou o Pe. Davide Cito, consultor da Congregação para o Clero para a situação dos abusos na Igreja, todos os anos chegam a Roma 400 denúncias de abusos. Inicialmente, vinham principalmente do mundo anglófono, mas agora também da América do Sul, do México, da Europa em geral, como Itália, Espanha e Polônia. Ainda são poucas as denúncias sobre África e Ásia.

“As pessoas são incentivadas a expor a denúncia à autoridade civil”, explicou o padre ao jornalista Tosati, mas muitas vezes as vítimas não querem se expor a tal constrangimento. Enquanto nos casos de abuso “civil” a maioria das vítimas tem idade inferior aos 10 anos (30% do sexo masculino), nos casos que envolvem pessoas da Igreja a idade mais frequente das denúncias se refere a vítimas com de 15 a 17 anos, sendo 90% meninos.

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O atual problema da PUC-SP não é exatamente uma surpresa

Tínhamos em mente uma série de coisas para escrever aqui no blog, mas não podemos deixar de falar do problema atual da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) .

Alunos e funcionários da PUC-SP estão de greve há mais de duas semanas, em protesto contra a nomeação da professora doutora Anna Cintra para a reitoria pelo Arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Odilo Scherer, que é também o grão-chanceler da PUC e, por isso, tem o direito de escolha com base em uma lista tríplice apresentada por assembleia universitária.

O problema está instaurado, mas não é uma surpresa. Veremos neste post o porquê e qual é o desafio para a Igreja daqui pra frente.

Antes de mais nada, não se sabe ainda se a nova reitora vai assumir. Embora a posse estivesse prevista para sexta-feira, dia 30, hoje o Conselho Universitário da PUC-SP suspendeu a validade da lista tríplice de indicados. A crise lembra muito o problema vivido pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), sobre a qual falamos mais de uma vez neste blog e que perdeu oficialmente os títulos de “Pontifícia” e “Católica” conferidos pela Igreja.

Dom Odilo Scherer, cardeal e grão-chanceler da PUC-SP

O grande impasse na PUC-SP iniciou quando Dom Odilo resolveu nomear a terceira colocada da lista tríplice, coisa que tradicionalmente não acontece. Geralmente, o grão-chanceler costuma apenas confirmar a decisão da assembleia, escolhendo o candidato mais votado – neste caso, o atual reitor, Dirceu de Mello, de 81 anos. Fato é que a decisão do cardeal é legal e está dentro das normas e estatutos da PUC e do Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja).

OS DOIS LADOS – O que centenas de alunos, professores e funcionários questionam neste momento é a legitimidade da decisão. Dizem que a Igreja está “interferindo” na autonomia e na democracia da universidade. Em nota que circulou pelos corredores da PUC, os grevistas dizem que “a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP tem adotado medidas antidemocráticas que remontam ao regime autocrático, antes tão combatido”.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, em protesto, com alunos, o diretor de teatro Zé Celso afirmou que o “Vaticano tem de entrar pelo cano” e que o Papa “é um ditador”. Também conforme a Folha, o candidato mais votado, Dirceu Mello, disse que “todos na universidade ficaram decepcionados com esse desfecho”. Acrescentou: “Se eu fosse estudante, estaria procedendo da mesma forma. Os universitários de hoje sabem perfeitamente aquilo que é certo e o que é errado.”

Já os defensores da decisão do cardeal, como o jurista Ives Gandra Martins, dizem que ele tem uma “prerrogativa estatutária, que foi exercida, legal e legitimamente”. Também é interessante este post do filósofo Gabriel Ferreira, que reflete sobre o papel das universidades pontifícias e defende o direito da Igreja de participar da gestão das PUCs. Outro que merece ser lido é o canonista Edson Luiz Sampel, cujo artigo saiu também na Folha. Entre os argumentos, ele menciona que outras instituições universitárias ligadas a religiões, como os presbiterianos, metodistas e judeus, têm direção claramente confessional.

Anna Cintra é da área de Letras

E AGORA? – Nosso foco aqui é o papel da Igreja no Brasil e no mundo. Vale lembrar que por muito tempo a instituição Igreja foi relapsa na condução de algumas universidades pontifícias. E agora, de uma hora para outra, está claro que ficou meio difícil retomar essa participação, embora seja um direito garantido por leis e estatutos.

Simplificando muito uma situação bem complexa: tanto a PUC-SP quanto a PUCP (aquela do Peru) foram expoentes da chamada “Teologia da Libertação”, corrente que se destacou por ser uma interpretação do Cristianismo à luz do Marxismo e, por esse motivo, contrária ao pensamento oficial da Igreja, centralizado em Roma. Num contexto de combate às violentas ditaduras de direita, durante a Guerra Fria, os grupos de esquerda ganharam força nos âmbitos universitário e religioso.

O problema para a Igreja é que, mesmo depois do fim da Guerra Fria, das ditaduras na América Latina e após uma série de mudanças políticas por aqui, aparentemente não houve um esforço real de retomar sua influência ideológica nessas duas universidades. É verdade que houve uma série de reformas e intervenções administrativas (na PUC-SP uma delas para resolver um rombo nos cofres), mas que não mudaram muito a linha acadêmica e o viés político, talvez justamente para não gerar tanto conflito.

Ou seja, em muitas faculdades dessas duas PUCs (talvez de outras mais) quase sempre se destaca a linha que vai contra o ensinamento da Igreja. É normal ver nos corredores e salas de aula da PUC-SP alunos e professores defendendo o aborto, a legalização da maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – para citar apenas alguns temas mais controversos. Porém, supostamente, segundo os documentos da Igreja (como a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae – Sobre as universidades católicas), é missão das PUCs fazer florescer uma “cultura cristã”, de modo que, a rigor, ao menos a linha geral da universidade deveria seguir o que a Igreja ensina.

Dirceu Mello, atual reitor da PUC-SP

O que torna ainda mais semelhante os casos da PUC-SP e da PUCP é que ambos os arcebispos resolveram tomar uma atitude de uma hora para outra. Sem querer julgar se foram decisões certas ou erradas, podemos dizer que em ambos os casos foram bruscas. Tanto Dom Odilo Scherer quanto o cardeal de Lima, Dom  Juan Luis Cipriani Thorne, chocaram a comunidade universitária de suas PUCs porque fugiram do padrão adotado já há algum tempo, no qual aceitavam aquilo que vinha pré-definido. Antes, era só assinar embaixo.

Percebe-se que nas universidades onde a instituição Igreja sempre se manteve presente (como naquelas geridas pelos padres jesuítas, por exemplo, como a PUC-RJ) este tipo de conflito não ocorre. As intervenções não são só comuns e aceitas normalmente, como muitas vezes o reitor é um padre. E as universidades pontifícias muito frequentemente recebem estudantes de outras religiões – e, no caso de Roma, alguns são até convidados oficialmente pelo Vaticano, com bolsas de estudos, para promoverem o diálogo entre diversas correntes de pensamento. Isso flui razoavelmente bem.

Não se sabe ao certo o que vai acontecer agora com a PUC-SP, mas Dom Odilo Scherer não é do tipo que volta atrás em suas decisões. Pode ser que com muito diálogo, mudanças na lista tríplice e eventual renúncia da reitora nomeada, a situação mude um pouco e esse incêndio seja apagado.

Porém, se a Igreja quiser manter certo controle sobre suas universidades precisará em algum momento realizar verdadeiras reformas. Caso contrário, terá de aceitar a realidade atual, na qual o pensamento contrário ao da Igreja é firme e forte dentro de algumas PUCs, e aprender a lidar com toda sorte de reação às suas pequenas intervenções pontuais.

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O voto católico em Obama

Resolvemos propositalmente esperar até o fim de semana para escrever neste blog sobre a reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, que ocorreu na última terça-feira (6). Queríamos ver qual seria a reação da mídia católica e dos jornalistas de religião e, como imaginávamos, muito se falou sobre as supostas “incertezas” nas relações diplomáticas entre a Santa Sé e os Estados Unidos. Mas essa não parece ser a grande questão neste momento.

Se o presidente é o mesmo, os partidos são os mesmos, o Papa é o mesmo, a relação continua sendo a mesma: delicada, especialmente no que diz respeito às questões da chamada “defesa da vida”. Já tratamos neste blog da insatisfação dos bispos católicos dos Estados Unidos com a reforma da saúde do governo Obama, que obriga empresas  a fornecerem plano de saúde para seus funcionários (com acesso a anticoncepcionais, pílulas do dia seguinte e aborto em alguns casos) e sobre a mudança de posição pessoal de Obama a respeito do casamento de pessoas do mesmo sexo. Ele se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a aprovar o “casamento gay”. Em ambos os casos, as decisões foram fortemente contrárias ao posicionamento oficial da Igreja, o que ajuda a explicar por que a relação está abalada.

A grande questão que precisa ser analisada e estudada por especialistas agora é o fato de que metade dos eleitores que se dizem católicos votou em Obama, ou seja, contra a recomendação dos bispos católicos de seu país. Está na cara que temos aí um conflito. Os bispos americanos vinham insistindo há meses principalmente na questão do direito à vida e à família, criticando qualquer iniciativa do governo Obama em favor do aborto e da contracepção. E, mesmo assim, deu Obama.

Candidato derrotado, Mitt Romney

Mais do que isso, em referendo realizado no mesmo dia da eleição presidencial, eleitores de Washington, Maine e Maryland aprovaram medidas que legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em Maine, apenas três anos atrás os cidadãos haviam rejeitado a mesma emenda. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o “casamento gay” foi aprovado em todos os Estados em que foi colocado à prova. E, em Minnesota, uma proposta de proibição para essa união foi rejeitada pela população.

Em outras palavras, mesmo após uma intensa e agressiva campanha dos bispos, muita gente, inclusive católicos, votou em Obama. O que poderia ter causado isso? São várias possibilidades. Mas fato é que vem ocorrendo uma forte mudança nos padrões culturais e comportamentais de muitos países, não só nos Estados Unidos, que vai de encontro ao ensinamento da Igreja, cuja mensagem vem sendo rejeitada por grupos que antes a aceitavam sem questionar muito. São cada vez mais fortes e mais presentes os grupos feministas que defendem o aborto, os grupos de defesa dos direitos dos homossexuais e os ateus engajados, por exemplo. É a tal da “secularização” dando as caras novamente, e com força.

Cardeal Timothy Dolan, de Nova York

Outra forma de se encarar a questão é analisar a maneira como a Igreja vem transmitindo sua mensagem. Fazer a chamada “defesa da vida” com discursos agressivos pode não ser a forma mais eficiente. O sarcasmo, a ironia e as mensagens indiretas podem ser interpretados como arrogância e abuso de autoridade, lembrando a imagem da antiga Igreja que mais reprimia do que acolhia. “Chamar para a briga” num cenário de divisão pode não ser a forma mais inteligente de mobilizar a sociedade.

E é exatamente o que a Igreja tem feito – pedido uma firme mobilização em favor da liberdade religiosa, da defesa da vida e da família. Em editorial, o jornal L’Osservatore Romano afirmou que a Igreja não sai derrotada e que os católicos devem defender o ensinamento da Igreja diante de ideologias politicamente corretas que invadem todas as culturas do mundo e contrariam as bases de nossa sociedade.

O presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, grande porta-voz da campanha dos bispos contra Obama, disse que eles rezam pelo presidente, mas pediu que Obama busque o bem comum, especialmente cuidando dos mais vulneráveis, “o que inclui os não nascidos, os pobres e os imigrantes”. Segundo Dolan, os bispos católicos vão continuar defendendo “a vida, o casamento e nossa mais querida liberdade, a liberdade religiosa”. Para ele, obrigar católicos a obedecer leis que favorecem a contracepção, por exemplo, é um atentado à liberdade religiosa.

Há que se observar, ainda, que Obama não ganhou a eleição sozinho. Ele disputou contra Mitt Romney, que tem lá suas qualidades e defeitos, e cujo Partido Republicano tem nos assuntos bélicos tradição e gosto mais do que comprovados. Sendo assim, o que pode ser “defesa da vida” para alguns eleitores católicos pode não ser a mesma “defesa da vida” para outros. É uma questão de avaliar qual é a prioridade. E as prioridades mudam.

De qualquer forma, o Papa Bento XVI saudou o presidente eleito, oferecendo suas orações para que Deus o ajude a conduzir suas sérias responsabilidades (o texto da mensagem não foi divulgado). No seu discurso de vitória, Obama disse que volta à Casa Branca mais inspirado e determinado. “O reconhecimento de que temos esperanças e sonhos comuns não acaba com todos os impasses, nem resolve nossos problemas ou substitui o cuidadoso trabalho de construir consensos e assumir compromissos difíceis e necessários para conduzir este país adiante”, declarou.

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Veja por que é tão delicada e perigosa a viagem de Bento XVI ao Líbano

Bento XVI na Jordânia

Está prevista para 14 a 16 de setembro uma viagem apostólica do Papa Bento XVI ao Líbano.

A Santa Sé já confirmou mais de uma vez que a visita vai acontecer, mas são cada vez maiores os rumores de que a viagem pode ser cancelada a qualquer momento. É uma das visitas mais delicadas do pontificado de Bento XVI e vamos tentar explicar de forma simplificada o porquê.

O motivo dessa incerteza é a intensa violência naquela região do mundo, especialmente na Síria, onde rebeldes enfrentam o governo do presidente Bashar al-Assad. O ditador, que sucedeu seu pai e está no poder desde o ano 2000, é a cabeça da mais sangrenta repressão política da atualidade.

O Líbano e a Jordânia têm sido os principais destinos dos refugiados sírios. E, mais do que o problema da Síria, o que vem preocupando a comunidade internacional é a “exportação” dos conflitos para o Líbano.

A tensão na região da fronteira entre os dois países aumenta dia a dia e uma série de confrontos e mortes tem ocorrido já em território libanês. Além disso, as diferenças entre as etnias islâmicas xiita e sunita não respeitam fronteiras. E mais: os partidos políticos estão envolvidos nessa história toda, divididos entre interesses, regiões, influências do exterior, etc. O negócio é complexo.

O objetivo “oficial” da viagem de Bento XVI ao Líbano é apresentar as conclusões de um encontro dos bispos do Oriente Médio, ocorrido em 2010. Mas a esperança é de que o Papa possa levar novamente uma mensagem de paz à região, um apelo à convivência entre diferentes religiões, um pedido à procura do bem comum. E também um alento aos cristãos, minoria perseguida em algumas localidades. De acordo com o site Vatican Insider, fontes da Santa Sé afirmaram que “é importante que os cristãos desempenhem um papel ativo: são um fator de estabilidade e devem continuar a desenvolvê-lo, em um momento de grandes mudanças e de incógnitas para o futuro de toda a região”.

Porém, esta seria a primeira visita do Papa à região após a chamada “Primavera Árabe“, uma onda de protestos que começou em 2010 no Oriente Médio e no Norte da África. Só isso já aumenta o peso dessa visita em relação às anteriores – Bento XVI já esteve na Turquia, na Terra Santa, na Jordânia e no Chipre. Qualquer palavra ou passo fora do programado pode resultar num grande mal-entendido.

Maioria dos cristãos no Líbano pratica o rito oriental Maronita

Outro detalhe importante: o vaticanista americano John Allen Jr alerta para o fato de que a viagem de Bento XVI ao Líbano será um grande desafio à diplomacia papal. Isso porque, embora o Papa tenha pedido diversas vezes o fim da violência na região, o Vaticano até hoje não adotou um posicionamento sobre a ideia da intervenção militar internacional na Síria. Muitos grupos defendem que exércitos de outros países entrem na Síria para derrubar Assad e acabar com o conflito. Mas o Vaticano não tem uma posição clara e ainda considera essa proposta “preocupante”.

Neste contexto, até diferentes grupos de cristãos no Líbano têm posições divergentes sobre a intervenção militar na Síria.

Alguns políticos cristãos são aliados de Assad e outros querem vê-lo bem longe dali, por exemplo. “Quem estiver esperando uma linha clara de Bento XVI sobre a situação da Síria deve ficar decepcionado”, avalia o jornalista John Allen Jr, explicando que o Papa deve se concentrar na questão humanitária e na boa relação entre as religiões.

O problema geopolítico se soma ao problema da segurança do Papa. Mesmo assim, na semana passada o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, afirmou que o papamóvel já está em Beirute. “A preparação para a viagem do Papa ao Líbano prossegue sem incertezas por parte do Vaticano”, declarou.

De qualquer forma, analistas do Vaticano dizem que, se a situação no Líbano piorar, nada impede de que a delicada e perigosa viagem seja repensada.

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