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Abraços Grátis no Vaticano

Juan Mann abraçando alguém totalmente de graça

Que tal fazer uma campanha de “Abraços Grátis” na Praça de São Pedro, no meio do Vaticano? Acho que ninguém teve essa ideia ainda, mas, se tiver, é possível que ela seja bem recebida por lá.

Isso porque, em uma iniciativa curiosa, o jornalista Cristian Martini Grimaldi, do L’Osservatore Romano (o jornal do Vaticano), elogiou a campanha dos “Abraços Grátis” (Free Hugs) criada pelo australiano Juan Mann, em 2004. Nela, pessoas seguram espontaneamente cartazes nas ruas de grandes cidades com os dizeres “Abraços Grátis” e abraçam qualquer estranho que estiver passando por ali e resolver aceitar o sinal de afeto gratuito (se não conhece, veja o vídeo abaixo).

Na verdade, o texto de Grimaldi, chamado “A esperança num abraço”, se dedica principalmente a explicar o que é a campanha e dar uma noção de seu sucesso na internet. A campanha dos “Abraços Grátis” começou na Austrália e se espalhou rapidamente nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e também no Brasil. O vídeo oficial dos Free Hugs já tem mais de 72 milhões de visualiações.

Mas o jornalista também compara os abraços grátis à parábola do bom samaritano, por representarem um “‘ato de benevolência’ de modo totalmente casual e gratuito”. Segundo o texto do L’Osservatore Romano, os abraçadores costumam despertar uma certa “desconfiança inicial e depois um entusiasmo envolvedor”. E acrescenta: “parece que em cada um se desencadeia um impulso incondicionado de solidariedade para com o próximo.”

Este trecho do texto é especialmente interessante:

“E eis que é suficiente uma insólita e imprevisível circunstância e os mesmos espaços públicos tão pessimistas e precipitadamente julgados humanamente estéreis – Marc Augé definiu-os com o neologismo não-lugares, ou seja, territórios assinalados pelo consumo de massa, pela satisfação frenética do desejo, lugares de trânsito no quais as pessoas se cruzam sem nunca iniciar qualquer tipo de relação – ao contrário, voltam a pulsar de humanidade e fraternidade.”

Pois é, os abraços grátis estão em alta com o Vaticano e são considerados pelo jornal um “gesto gratuito de esperança simbólica”.


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‘Anonymous’ enfim derrubam site do Vaticano

Máscara de Guy Fawkes

Depois de ao menos uma tentativa fracassada de tirar do ar o site do Vaticano (Vatican.va), hoje finalmente o grupo de hackers “Anonymous” conseguiu fazê-lo. Não descobri por quanto tempo o site ficou offline, mas pude verificar que certamente por pelo menos umas três ou quatro horas, talvez mais.

Mas a grande questão aí não é tanto o fato de o grupo ter conseguido tirar do ar o site, pois isso aconteceu também com grandes bancos, empresas e governos – o mais impactante até agora parece ter sido o bloqueio do site da Agência de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

O mais interessante nessa história é o comunicado divulgado pelos Anonymous contra a Igreja, no qual dizem que a intenção do ataque foi penalizar “a corrupta Igreja Católica Romana e todas as suas emanações”. Vamos analisar essa questão, que, para quem tem algum conhecimento sobre as coisas da Igreja (não é preciso nem ser católico), expõe certa ingenuidade por parte dos Anonymous.

No texto do site do movimento, direcionado à Igreja, o grupo diz o ataque foi uma resposta “às suas doutrinas, liturgias e preceitos absurdos e anacrônicos que sua organização lucrativa propaga e espalha pelo mundo”. O ataque também é atribuído à ação da Igreja durante a Inquisição, à queima de livros, “à escravidão de populações usando como pretexto a missão de evangelização”, à suposta ajuda a “criminosos de guerra nazistas”, ao abuso de crianças, à interferência na vida pública da Itália, às propriedades eclesiais de “bilhões de euros”, à recusa de “práticas e objetos resultantes do progresso como preservativos ou o aborto como um problema clínico a se erradicar”. E para amenizar um pouco eles dizem que “NÃO pretendem atacar a verdadeira religião cristã e a fé pelo mundo, mas a Igreja Apostólica Romana e todas as suas emanações”.

Seria impossível detalhar aqui todas as “respostas” oficiais da Igreja a cada uma dessas acusações, mas é possível encontrá-las por aí na internet. De qualquer forma, vemos que não há nada de novo aqui. Os Anonymous usaram como justificativa para o ataque praticamente todos os problemas da História da Igreja, que naturalmente são muitos porque se trata de uma das instituições mais antigas de nossa sociedade.

O primeiro "Anonymous" era católico

Uma resposta meio geral, e que a Igreja costuma repetir, é que se trata de uma instituição formada por seres humanos e estes são passíveis de erros. Isso não justifica os erros, mas explica porque eles acontecem. É simplesmente impossível que uma entidade tão grande e tão capilarizada tenha o controle sobre a atuação de todos os seus membros. Mesmo assim, a Igreja sobreviveu a tantas baixas e já mais de uma vez reconheceu os erros do passado.

Bem, mas os Anonymous são ingênuos basicamente por cinco motivos.

Primeiro, porque condenam a Igreja de hoje pelos erros que a Igreja do passado cometeu. Embora seja a mesma Igreja, as pessoas que a compõem são outras. Mudaram como mudam as gerações. Seria o mesmo que punir um filho pelos crimes que seu pai ou seu avô cometeram no passado. E não podemos mudar a História. Além disso, ignoram o Concílio Vaticano II, quando muita coisa mudou e deu uma nova cara para a Igreja.

Segundo, porque os erros do presente – como a pedofilia – temos de avaliar como parte de problemas de nossa sociedade como um todo, e não só da Igreja. A pedofilia e os crimes sexuais são um problema mais amplo, em uma sociedade em que o sexo está cada vez mais exposto, a internet é um ambiente de criminalidade sem punição e em que os distúrbios mentais (não sei se é assim que se fala) são muito, muito complexos. E, de novo, os erros de membros da Igreja não representam toda a instituição. As falhas existem e mudanças para corrigi-las ocorrem lentamente. Neste post, já falamos um pouco sobre isso.

Terceiro, porque os Anonymous condenam também coisas sobre a Igreja que não são exatamente erros ou problemas. Uma dessas coisas é o fato de a Igreja ter propriedades. Vale lembrar que as propriedades da Igreja não estão no nome de um único instituto, mas são de várias entidades católicas, a maioria sem fins lucrativos e devidamente documentadas junto aos governos. Há inúmeras dioceses e congregações religiosas, por exemplo. Uma outra coisa que não é um erro propriamente dito são os posicionamentos da Igreja sobre questões de sexualidade, preservativos, aborto, etc. São posições, visões de mundo, das quais podemos discordar ou concordar, mas que são coerentes. Pensar assim não é um crime como a pedofilia, por exemplo.

Arte cristã primitiva

Assim, ao derrubar o site do Vaticano, os Anonymous simplesmente tentam suprimir a Igreja por ter posições diferentes das suas, fazendo exatamente aquilo que condenam na Igreja e no mundo. É como punir um assassinato com pena de morte.

Quarto, porque os Anonymous têm como símbolo a máscara que representa Guy Fawkes (e não do “V de Vingança”) um inglês católico que conspirou contra a coroa britânica no século XVII. Provavelmente muitos hackers não sabem disso.

Enfim, a manifestação dos Anonymous está feita. Talvez tenha faltado um pouco de objetividade dos Anonymous ao justificar o protesto. Querendo abranger tudo, na verdade eles demonstraram um conhecimento superficial sobre as coisas da Igreja, repetindo críticas já conhecidas e muitas vezes respondidas.

Também mostraram a falta de foco do movimento. Isso fica claro quando eles isentam a “verdadeira religião cristã” de seus ataques. Só não dizem de onde pensam que veio essa “verdadeira religião” se não dos primeiros cristãos, que constituíram a Igreja que hoje chamamos de Católica. Esse é o quinto motivo.

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A insatisfação dos bispos com a reforma da saúde no governo Obama

Bispos católicos dos Estados Unidos bateram de frente com o governo do presidente Barack Obama nas últimas semanas por causa de uma regra administrativa relacionada à reforma do sistema de saúde aprovada em 2010. Essa regra passou a exigir que todas as empresas que fornecem plano de saúde para seus funcionários ofereçam, inclusive, o acesso a métodos contraceptivos, inclusive anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte para mulheres.

Para entender o questionamento dos bispos, é preciso saber que nos Estados Unidos não existe  um sistema de saúde pública em si. Cada indivíduo tem de ter o seu plano e existem planos de saúde do governo. A reforma da saúde proposta por Obama possibilitou o acesso de milhões de pessoas desamparadas a um plano de saúde. Os bispos apoiaram a reforma de um modo geral, com a ressalva de que o dinheiro público não deveria ser destinado ao aborto ou aos métodos contraceptivos.

Vale lembrar também que a Igreja Católica é oficialmente contra qualquer tipo de método contraceptivo, pois entende que o sexo deve ser praticado dentro do casamento e  que o casamento visa ao bem dos cônjuges e de seus descendentes – e para que haja descendentes,  é preciso que o casal esteja aberto a tê-los. Entende que os filhos são um dom de Deus e não podem ser rejeitados. Esta é a posição oficial da Igreja desde que o Papa Paulo VI assim a determinou na encíclica Humanae Vitae – que reflete sobre a vida humana como um todo, e não só sobre esse tema. Digo que é a posição oficial porque alguns grupos da Igreja defendem uma flexibilização nessa ideia. Mas não é bem disso que estamos falando agora.

Nesse contexto, o bispos dos Estados Unidos ficaram furiosos quando a nova regra do “Obamacare”, apelido dado ao programa de saúde, passou a exigir que todos os planos de empresas fornecessem contraceptivos. Isso porque há milhares de empresas ligadas à Igreja no país, como escolas, hospitais, escritórios e até mesmo paróquias, além de milhões de empresários católicos ou protestantes que não querem financiar a contracepção e o aborto.

Liderado pelo arcebispo de Nova York, cardeal Dom Timothy Dolan, o episcopado questionou duramente o governo Obama a respeito da saúde pública. E pediu mudanças na regra, pois entende que ela é um desrespeito à liberdade religiosa, garantida na Constituição do país. A reação de Obama foi quase que imediata: o presidente desistiu da exigência de que  organizações religiosas fossem obrigadas a fornecer métodos de controle de natalidade. Em vez disso, os próprios planos de saúde deveriam se responsabilizar. O problema aí é que, em muitos casos, os planos de saúde são das próprias instituições religiosas, o que torna a questão ainda mais complicada. Não está claro como vai ficar isso.

O cardeal Dolan

Por esse e por outros motivos, os bispos não estão satisfeitos. Pedem uma “isenção de consciência” para os grupos religiosos que se opuserem à regra. Além disso, ainda são contrários ao fato de que o governo manteve a cobertura à esterilização, à contracepção e a métodos abortivos nos planos de saúde em geral. Também questionam o funcionamento adminstrativo da regra. Pedem uma “cuidadosa análise moral” e criticam a “intromissão” do governo em questões de governança religiosa.

Para complicar ainda mais o embate, algumas religiosas católicas dos Estados Unidos, especialmente de congregações que atuam na área da saúde, se manifestaram diversas vezes a favor da reforma, que consideram essencial para a população mais carente. Ao fazer isso, elas contrariam os bispos em parte, pois defendem o acesso de todos à saúde pública sem questionar pontualmente as políticas públicas de contracepção. Mas concordam com a “isenção de consciência” para instituições religiosas e acham que essa solução já basta.

Vamos acompanhar os próximos capítulos dessa novela. Além da questão religiosa, o caso desgastou significativamente a imagem do presidente Barack Obama – candidato à reeleição neste ano – também junto a outros grupos religiosos que seguem a mesma linha de pensamento dos bispos católicos.

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