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Rio+20: o que têm a Igreja e os direitos reprodutivos da mulher a ver com isso

Já havíamos adiantado neste post um pouco do que seria a atuação da Santa Sé na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Mas o noticiário chamou a atenção para o fato de que o Vaticano pressionou o Brasil, que preside a Conferência, contra a inclusão no texto final de que os países se comprometeriam com a garantia dos “direitos de sexualidade e reprodução” da mulher. No lugar, entrou “serviços de saúde” da mulher.

A primeira coisa a se entender aí é o que tem a saúde da mulher a ver com o meio ambiente. Pois bem, muitos ambientalistas afirmam que as mulheres são as pessoas mais prejudicadas nos ambientes de extrema pobreza. Em muitos lugares onde a degradação ambiental é resultado da pobreza, como numa favela, por exemplo, as mulheres são as principais responsáveis por manter e cuidar das famílias. Às vezes têm muitos filhos e uma vida sexual descontrolada. Se a degradação ambiental agrava a pobreza, portanto, as mulheres são uma parcela da população mundial significativamente prejudicada.

O Brasil, que hoje é presidido por uma mulher, Dilma Rousseff, simpatizante da causa feminista, havia colocado no rascunho o termo “direitos de sexualidade e reprodução”, que no meio diplomático é conhecido como outra forma de dizer “métodos contraceptivos e aborto”. E como todo mundo sabe, a Igreja é contra o aborto em qualquer circunstância.

Mary Robinson criticou o documento final

Nesse contexto, alguns grupos políticos e de ambientalistas criticaram o Vaticano por ter defendido essa posição. Uma delas foi a ex-presidente da Irlanda e ex-comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, Mary Robinson, que em entrevista ao jornal O Globo disse que “as mulheres são essenciais para o desenvolvimento sustentável”. Ela lamentou muito o resultado e afirmou que a questão não avança “por uma guerra política” da qual a Igreja faz parte.

No discurso proferido na Rio+20, o Arcebispo de São Paulo e presidente da delegação da Santa Sé, Cardeal Dom Odilo Scherer, falou diretamente sobre as delegações que tentam promover “questões como ‘dinâmica populacional’ ou ‘direitos reprodutivos’, como uma forma de desenvolvimento sustentável”. Segundo ele, “estas propostas são baseadas em uma noção errada de que o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental só podem ser alcançados através da garantia de que haja menos pessoas em nosso planeta”.

Dom Odilo Scherer

Não aprofundaremos a discussão sobre qual posição é a mais correta ou melhor para o desenvolvimento sustentável. Mas há que se ponderar que a Santa Sé não foi a única contrária à inclusão do termo “direitos de sexualidade e reprodução”. Também o fizeram Chile, Nicarágua, Costa Rica, República Dominicana, Egito, Síria e Rússia. Defenderam o termo Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suíça, União Europeia e Estados Unidos.

Na verdade, o grande problema dessas conferências não é o fato de um país ou outro defender essa ou aquela posição, sobre qualquer temática que seja. Afinal, cada país é soberano em suas decisões, tem suas próprias leis, legisladores, governantes e eleitores (no caso das democracias, claro).

O problema é a lógica ingênua de exigir  que o documento final da Rio+20 seja fruto de um consenso entre todos os países representantes. Desse modo, qualquer membro tem direito de discordar de uma vírgula e pressionar para mudar o texto nesse ou naquele sentido – o que é totalmente legítimo nesse cenário. É por isso que essas reuniões raramente chegam a resultados concretos, como foi  o caso da Rio+20.

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Veja os argumentos dos ministros do STF, que liberou aborto de anencéfalos

O relator, ministro Marco Aurélio Mello

Costuma-se dizer que, no Brasil, “o Poder Executivo legisla, o Judiciário executa e o Legislativo ninguém sabe o que faz”. Ontem, pra variar a ordem, na ausência do Legislativo o Judiciário legislou.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram, por 8 votos a 2, que o aborto de bebês anencéfalos (com má formação do cérebro) pode ser realizado opcionalmente no país, sem  punição legal à mãe ou aos médicos. O STF criou, portanto, uma terceira exceção em que o aborto é liberado pela Lei – além dos casos em que há risco para saúde da mãe ou quando a gravidez é resultado de estupro.

Neste post, mencionamos alguns pontos dos argumentos dos ministros usados para aprovar a medida. Os detalhes sobre as argumentações podem ser lidos no site do STF, que fez um bom resumo de cada pronunciamento. Estamos falando desse assunto porque a Igreja se manifestou veementemente contra a liberação do aborto de anencéfalos, como explicamos neste post – e já “prevíamos” a decisão do STF. Então vale dar o desfecho do caso e mostrar por que as coisas aconteceram dessa forma.

A FAVOR – O primeiro ministro a votar foi o relator do caso, Marco Aurélio Mello. Argumentou com base no que acredita ser o direito da mulher de decidir sobre seu próprio corpo – mesma opinião dos grupos feministas. Disse que “cabe à mulher, e não ao Estado (…) deliberar pela interrupção, ou não, da gravidez”. Além disso, considerou que o feto anencéfalo não pode ser visto como um ser vivo e, portanto, não é protegido pela Lei. “O anencéfalo jamais se tornará uma pessoa. Em síntese, não se cuida de vida em potencial, mas de morte segura.”

Embora não estivesse em julgamento qualquer questão religiosa, o ministro destacou que o Estado é laico e que decisão desse tipo “não pode ser examinada sob os influxos de orientações morais religiosas” (como se alguém estivesse pedindo a eles que votassem com base nisso).

Os ministros Rosa Weber e Joaquim Barbosa acompanharam o relator sem acrescentar grandes argumentos à discussão. A ministra Carmen Lúcia também foi na mesma linha, dizendo que “o feto (anencéfalo) não tem perspectiva de vida e, de toda sorte, há outras vidas que dependem exatamente da decisão que possa ser tomada livremente por esta família”. Todos eles olharam, portanto, o lado da mãe e da família, minimizando os eventuais direitos da criança.

O ministro Luiz Fux levantou a ideia de que a mãe que opta por abortar o filho anencéfalo não pode ser punida, pois já padece de uma “grande tragédia”. Se recusou a discutir qual vida é mais importante, se a do feto ou a da mãe, e disse que o STF não é capaz de solucionar esse dilema. Mas, mesmo assim, curiosamente votou pela procedência da ação, ou seja, a favor da liberação do aborto nestes casos.

O ministro Carlos Ayres Britto foi o que usou mais frases de efeito e metáforas bonitas, mas com argumentos fracos e pouco embasados. Afirmou que “o feto anencéfalo é uma crisálida que jamais se transformará em borboleta, porque não alçará voo jamais”, o que, segundo ele, não garante ao feto o direito de ser protegido pela lei de aborto brasileira. Ao falar das mulheres, levantou argumentos muito usados pelas feministas e disse que a liberdade em um país pode ser medida pela liberdade das mulheres. “Se os homens engravidassem, a interrupção da gravidez de anencéfalo estaria autorizada desde sempre”, afirmou, sem dizer de que livro tirou essa bela frase de efeito.

Mendes defendeu o direito dos religiosos de se manifestar

A fala do ministro Gilmar Mendes, que também votou com o relator, se destacou em dois aspectos: o primeiro, porque defendeu o direito democrático de qualquer grupo se manifestar sobre qualquer lei, inclusive os grupos religiosos, criticados indiretamente pelo relator e por outros.

O segundo aspecto, porque, diferentemente dos que o antecederam, olhou a questão mais pelo lado jurídico, dizendo que a lei de 1940 não compreendeu o caso de anencéfalos porque não havia tecnologia suficiente para identificá-los. Entende, portanto, que o caso de aborto de anencéfalos é semelhante aos casos já previstos na lei brasileira. Mas cobrou do Estado o dever de zelar pelo diagnóstico correto dos casos de anencefalia (muitas vezes controverso).

O ministro Celso de Mello falou muito, mas nada novo. Declarou que o anencéfalo não é uma vida e, portanto, não há aborto. “Se não há vida a ser protegida,  não há tipicidade (de crime contra a vida)”, avalia. Destacou a importância do julgamento, dizendo que “em quase 44 anos de atuação na área jurídica, nunca participou de um julgamento de tamanha magnitude, envolvendo o alcance da vida e da morte”.

CONTRA – Os dois ministros que votaram contra a procedência da ação, Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso, tiveram de argumentar em oposição à maioria. Peluso se destacou, pois bateu de frente com os colegas. Ambos se concentraram na questão jurídica, embora o segundo tenha sido mais incisivo.

Lewandowski abordou principalmente o âmbito de atuação do Tribunal. “O STF, à semelhança das demais cortes constitucionais, só pode exercer o papel de legislador negativo, cabendo a função de extirpar do ordenamento jurídico as normas incompatíveis com a Constituição”, afirmou, recordando que nenhum dos ministros foi eleito por voto popular. Comentou, ainda, que há outras patologias que determinam a morte do feto logo após o nascimento, de modo que uma decisão positiva do STF poderia abrir um precedente para novas ações judiciais no mesmo sentido.

Cezar Peluso também falou das competências do Judiciário: “Não temos legitimidade para criar, judicialmente, esta hipótese legal.” Foi diretamente de encontro a seus colegas, no entanto, em outro aspecto: defendeu com todas as letras que o feto anencéfalo é um sujeito jurídico com o direito de ter sua vida preservada.

Peluso bateu de frente com os colegas

Toda sua argumentação se derivou da seguinte ideia: “O anencéfalo morre e só poderia morrer porque esteve vivo.” Sendo assim,  “o feto anencéfalo tem vida e, ainda que breve, sua vida é constitucionalmente protegida”. Comparou a vida do feto dentro do útero com a vida fora do útero: matá-lo depois de nascido seria um homicídio ou infanticídio, mas matá-lo no útero não?, questionou o ministro. “Havendo vida, está-se diante de um valor jurídico fundante e inegociável”, reiterou, recordando que a morte é certa para todos, de modo que o tempo de vida de cada ser humano não importa nesta discussão.

Sobre a dor da mãe, disse que, embora seja imensa, juridicamente não pode ser comparada à tortura (como sugeriu Ayres Britto), pois não é um sofrimento provocado ou voluntário, e sim decorrente da natureza ou de fatores genéticos. Segundo ele, o Estado não é o responsável por essa dor. Portanto, para Peluso, “a mãe não tem poder jurídico sobre o feto”. E a ausência de perfeição do ser não justifica a antecipação do parto, isto é, o aborto.

Fica aqui, portanto, um breve registro do que foi dito no julgamento de hoje.

Dom Odilo Scherer

Voltando à Igreja, centenas de católicos lamentaram a decisão do STF, pois acreditam que a vida começa na fertilização do óvulo pelo espermatozoide e, portanto, o feto anencéfalo é uma vida. Sobre uma eventual derrota da Igreja na disputa jurídica, o Arcebispo de São Paulo, cardeal Dom Odilo Scherer, disse no Twitter: “Vão dizer que a Igreja perdeu. Eu acho que é a humanidade que perde e se torna mais insensível, menos humana, mais ‘bruta’. É gol contra.”

Muitos ministros demonstraram em sua fala convicções pessoais sobre a vida e a morte, refletiram sobre religião e sobre coisas que fugiam do ponto principal, que deveria girar em torno dos direitos jurídicos do feto e da mãe. Independentemente de concordar ou não com o resultado, todos pudemos perceber, mais uma vez, a ineficiência do Poder Legislativo em nosso país, que, ausente, abre brechas para o Judiciário agir como achar que deve.

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O aborto de anencéfalos no Brasil, a Justiça e a posição da Igreja Católica

Supremo Tribunal Federal (STF) decidirá sobre o aborto de bebês anencéfalos

O tema “aborto” é uma das questões que mais mobilizam politicamente os católicos no Brasil. A Igreja Católica é veementemente contra qualquer tipo de aborto e sempre que ele vem à tona – como nesta semana, pois o Supremo Tribunal Federal (STF) decidirá amanhã sobre a legalização do aborto de bebês anencéfalos (aqueles com má formação do cérebro) – inúmeros grupos se unem para protestar, a começar pelos próprios bispos.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) já se pronunciou diversas vezes sobre a questão e, na semana passada, disse que “há uma enorme diferença ética, moral e espiritual entre a morte natural e a morte provocada”, reiterando que “todos têm direito à vida”. Acrescentou que “os fetos anencefálicos não são descartáveis.  O aborto de feto com anencefalia é uma pena de morte decretada contra um ser humano frágil e indefeso”. Além disso, a CNBB convocou os “cardeais, arcebispos e bispos” a promoverem em suas dioceses uma “Vigília de Oração pela Vida”.

Muitos bispos brasileiros não se contiveram e também se pronunciaram individualmente. Como em poucas vezes se vê por aqui, eles se uniram pelo mesmo propósito, inclusive alguns de diferentes linhas de atuação política e pastoral. E a internet se tornou um importante mecanismo de manifestação.

Ilustração que representa uma criança anencéfala

O cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, enumerou em um interessante artigo os principais argumentos usados pelos que defendem o aborto de anencefálos.

Entre eles está o de que “a gravidez de um anencéfalo representaria, para a mãe, um sofrimento insuportável, uma verdadeira ‘tortura’, que degradaria a dignidade da mulher”. Dom Odilo responde afirmando que “o sofrimento da mãe é compreensível e deve ser levado plenamente a sério; mas não pode ser argumento suficiente para suprimir a vida de um bebê com anomalia”.

O Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, também questionou, em entrevista à agência Aci Digital: “Que tipo de humanidade nós estamos construindo? Que tipo de valor nós damos ao ser humano? Que tipo de valor damos à vida?” E fez um apelo para que “o Brasil soberano seja um sinal para a comunidade internacional que tanto necessita de exemplos de gente que valoriza a vida, que valoriza o ser humano”.

Outro argumento contra a liberação do aborto de anencéfalos foi levantado pelo bispo de Camaçari, na Bahia, Dom João Carlos Petrini,  presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família da CNBB. Ele considera que uma decisão desse tipo seria um precedente: “Abrindo exceção a esse princípio, abre-se uma brecha não só na lei e na prática do aborto, mas na consciência das pessoas: entende-se que uma vida que traz problemas pode ser eliminada.”

Entretanto, olhando friamente para o caso, muito provavelmente os ministros do STF votarão a favor da legalização do aborto de anencéfalos. E não é preciso ser especialista em Justiça nem em aborto para deduzir isso, principalmente por dois motivos:

Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer

O primeiro é a crescente influência dos grupos feministas na sociedade civil, entre outras organizações privadas, que defendem o que consideram ser o direito da mulher de interromper a gravidez livremente, inclusive no sistema público de saúde (SUS), para não ter de dar à luz um filho indesejado ou, no caso de anencéfalos, que provavelmente morrerá poucos instantes depois de nascer  – embora em  alguns casos eles vivam por mais de um dia, às vezes por alguns anos. Aliás, esses grupos costumam defender o aborto em qualquer etapa de qualquer gestação, e não apenas no caso dos anencéfalos.

Pregam o “Estado laico”, pois entendem que aborto é uma questão de saúde pública, e não uma questão religiosa. E se recusam de toda forma a discutir onde começa a vida humana.

O segundo é o fato de que o aborto já é permitido no Brasil em duas condições (em casos de gravidez resultante de estupro e em casos de riscos para a saúde da mãe), de modo que a anencefalia seria uma terceira “exceção”. O aborto de anencéfalos já vem ocorrendo muitas vezes legalmente, a partir de ações individuais que chegam à Justiça.

Porém, não há um consenso e juízes têm tomado suas decisões com base na jurisprudência, em suas convicções pessoais e em sua própria interpretação da Constituição. Justamente por esse motivo o STF foi convocado a determinar o que pode e o que não pode. E é bem provável que, comparando a anencefalia às outras duas exceções, a Justiça contrarie a Igreja e entenda que pode.

Acompanharemos o resultado e, depois, apresentaremos algo neste blog sobre o que foi dito pelos juízes para tomar a decisão.

Atualizado em 11 de abril de 2012:

P.S. – O STF não concluiu a votação hoje e o resultado fica para quinta-feira (12 de abril). Por enquanto, está em 5 votos a 1 a favor da liberação do aborto de anencéfalos. Como já havíamos dito, essa tendência deve se confirmar. Depois da conclusão dos votos, faremos uma análise geral dos argumentos.

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O Papa Bento XVI visita o México e paga uma dívida de sete anos

Bento XVI chega ao México, recebido pelo presidente Felipe Calderón e pela a primeira-dama Margarita

Bento XVI estava em dívida com os mexicanos. Em sete anos de pontificado, ele foi duas vezes à África, esteve no Brasil, nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Terra Santa, na Turquia, em diversos países da Europa (Alemanha, França, Portugal, Espanha, Polônia, Áustria, República Tcheca, Malta, Chipre, Reino Unido, Croácia) – não necessariamente nesta mesma ordem – e até à Austrália ele foi. Olha que a Austrália fica bem longe. Isso tudo sem contar as viagens dentro da Itália, que foram quase 30.

Mas o Papa Ratzinger ainda não tinha  dado nem um pulinho no segundo país com maior número de católicos no mundo, depois do Brasil: o México. Se todos temos a obrigação de fazer algumas coisas antes de morrer, podemos dizer que visitar o México estava na lista do Papa.

Agora, em sua 23ª “viagem apostólica”, o pontífice paga a dívida e cumpre uma tarefa que foi adiada por tempo demais. Serão quase três dias no México e dois em Cuba. Mas o mais importante aí não é tanto o fato de Bento XVI ir ao México, e sim, por que resolveu fazer essa viagem justo agora. São três os motivos principais:

O primeiro, meio óbvio, é pastoral. Trata-se do enfraquecimento dos valores cristãos em parte da sociedade mexicana. Não só no México, mas também em outros países da América Latina, a Igreja Católica vem perdendo influência junto aos governos e à sociedade como um todo. Em muitos lugares, as tradições perdem espaço para a globalização,  o consumo e os tais “valores mundanos” – deixar Deus de lado e cuidar só das coisas práticas da vida. Isso inclui o enfraquecimento das religiões tradicionais.

De acordo com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, um dos objetivos da visita de Bento XVI é “refundar” o México nos valores cristãos, que constituem “o DNA do povo mexicano”. Dentro desse objetivo, segundo Bertone, o Papa falará aos jovens, estimulando-os “a não se deixar seduzir pelo dinheiro fácil”.

João Paulo II esteve cinco vezes no México

O segundo motivo é político. É bom para a Igreja que o México continue sendo um país de maioria católica. E, muito perto das eleições federais no México, que serão em julho deste ano, é importante para a Santa Sé mostrar que está aberta a manter relações diplomáticas com qualquer governo, qualquer partido, mesmo que seja um governo mais distante dos cristãos.

Bento XVI quer mostrar que a Igreja continuará presente ali, mantendo sua firme atuação, ainda que o partido do presidente Felipe Calderón (PAN, que é pró-católico) perca a disputa. Nesse sentido, o Papa deve reafirmar, entre outras coisas, a importância da “família tradicional” e da “valorização da vida desde a concepção até a morte natural”.

O terceiro motivo é social e envolve a grave onda de violência e o narcotráfico no México, que atingiu níveis assustadores nos últimos meses. Mais de 50 mil pessoas morreram em cinco anos e meio, segundo o Los Angeles Times. Disputas entre cartéis de drogas acabaram com a paz de boa parte da população mexicana e transformaram regiões do país em zonas de guerra.

Não é à toa o fato de que o Papa vai direto para o Estado de Guanajuato. Ali, a violência é intensa e os cartéis são mais fortes . As principais gangues prometeram manter a paz durante a visita do Papa ao país. Bento XVI não vai à Cidade do México por causa da altitude elevada, que pode ser nociva à sua saúde (que está boa, mas é frágil, segundo o Vaticano – aliás, pela primeira vez ele apareceu publicamente usando bengala).

Também há relatos de envolvimento do tráfico de drogas com as comunidades paroquiais no México, seja por meio de doações, seja por meio de interferências nas atividades pastorais. Bento XVI pediu o fim dessas relações desde 2005, quando assumiu. Mas pouco se avançou nisso.

No avião rumo ao México ele afirmou que é preciso “desmascarar o mal e a mentira”. E acrescentou que “os problemas do narcotráfico e da violência pesam sobre a Igreja de um país com 80% de católicos”.

Depois do México, o Papa segue para Cuba, onde terá compromissos mais tensos, embora o governo tenha dito que o pontífice será ouvido “com respeito”. As relações entre o governo socialista de Cuba e a Igreja Católica melhoraram com João Paulo II, mas permanecem delicadas. Falaremos dessa outra visita em um novo post.

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A insatisfação dos bispos com a reforma da saúde no governo Obama

Bispos católicos dos Estados Unidos bateram de frente com o governo do presidente Barack Obama nas últimas semanas por causa de uma regra administrativa relacionada à reforma do sistema de saúde aprovada em 2010. Essa regra passou a exigir que todas as empresas que fornecem plano de saúde para seus funcionários ofereçam, inclusive, o acesso a métodos contraceptivos, inclusive anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte para mulheres.

Para entender o questionamento dos bispos, é preciso saber que nos Estados Unidos não existe  um sistema de saúde pública em si. Cada indivíduo tem de ter o seu plano e existem planos de saúde do governo. A reforma da saúde proposta por Obama possibilitou o acesso de milhões de pessoas desamparadas a um plano de saúde. Os bispos apoiaram a reforma de um modo geral, com a ressalva de que o dinheiro público não deveria ser destinado ao aborto ou aos métodos contraceptivos.

Vale lembrar também que a Igreja Católica é oficialmente contra qualquer tipo de método contraceptivo, pois entende que o sexo deve ser praticado dentro do casamento e  que o casamento visa ao bem dos cônjuges e de seus descendentes – e para que haja descendentes,  é preciso que o casal esteja aberto a tê-los. Entende que os filhos são um dom de Deus e não podem ser rejeitados. Esta é a posição oficial da Igreja desde que o Papa Paulo VI assim a determinou na encíclica Humanae Vitae – que reflete sobre a vida humana como um todo, e não só sobre esse tema. Digo que é a posição oficial porque alguns grupos da Igreja defendem uma flexibilização nessa ideia. Mas não é bem disso que estamos falando agora.

Nesse contexto, o bispos dos Estados Unidos ficaram furiosos quando a nova regra do “Obamacare”, apelido dado ao programa de saúde, passou a exigir que todos os planos de empresas fornecessem contraceptivos. Isso porque há milhares de empresas ligadas à Igreja no país, como escolas, hospitais, escritórios e até mesmo paróquias, além de milhões de empresários católicos ou protestantes que não querem financiar a contracepção e o aborto.

Liderado pelo arcebispo de Nova York, cardeal Dom Timothy Dolan, o episcopado questionou duramente o governo Obama a respeito da saúde pública. E pediu mudanças na regra, pois entende que ela é um desrespeito à liberdade religiosa, garantida na Constituição do país. A reação de Obama foi quase que imediata: o presidente desistiu da exigência de que  organizações religiosas fossem obrigadas a fornecer métodos de controle de natalidade. Em vez disso, os próprios planos de saúde deveriam se responsabilizar. O problema aí é que, em muitos casos, os planos de saúde são das próprias instituições religiosas, o que torna a questão ainda mais complicada. Não está claro como vai ficar isso.

O cardeal Dolan

Por esse e por outros motivos, os bispos não estão satisfeitos. Pedem uma “isenção de consciência” para os grupos religiosos que se opuserem à regra. Além disso, ainda são contrários ao fato de que o governo manteve a cobertura à esterilização, à contracepção e a métodos abortivos nos planos de saúde em geral. Também questionam o funcionamento adminstrativo da regra. Pedem uma “cuidadosa análise moral” e criticam a “intromissão” do governo em questões de governança religiosa.

Para complicar ainda mais o embate, algumas religiosas católicas dos Estados Unidos, especialmente de congregações que atuam na área da saúde, se manifestaram diversas vezes a favor da reforma, que consideram essencial para a população mais carente. Ao fazer isso, elas contrariam os bispos em parte, pois defendem o acesso de todos à saúde pública sem questionar pontualmente as políticas públicas de contracepção. Mas concordam com a “isenção de consciência” para instituições religiosas e acham que essa solução já basta.

Vamos acompanhar os próximos capítulos dessa novela. Além da questão religiosa, o caso desgastou significativamente a imagem do presidente Barack Obama – candidato à reeleição neste ano – também junto a outros grupos religiosos que seguem a mesma linha de pensamento dos bispos católicos.

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