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De Roma a Bangui: a África no centro da Igreja

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 13 de O São Paulo, em dezembro de 2015

Pelo menos por um dia Bangui se transformou em “capital espiritual do mundo”, nas palavras do Papa Francisco, que antecipou ali a inauguração do Jubileu da Misericórdia. Em sua primeira viagem à África, na qual passou também pelo Quênia e por Uganda, o pontífice abriu no domingo (29) uma “porta santa” na catedral de Bangui, cidade na República Centro-Africana.

O local é um cenário de guerra civil entre cristãos e muçulmanos. “Hoje, Bangui se torna a capital espiritual do mundo. O Ano Santo da Misericórdia chega antes nesta terra. É uma terra que sofre há muitos anos por causa do ódio, da incompreensão, da falta de paz”, declarou o Papa aos fiéis, diante da porta da igreja.

Abrindo o Ano da Misericórdia em Bangui, o Papa atraiu atenção internacional para uma realidade insustentável. A República Centro-Africana está em guerra e sem grandes alternativas no momento. Conflitos entre forças do governo, a coalizão rebelde de maioria muçulmana (Séléka) e milícias de rebeldes cristãos, conhecidas como “anti-Balaka”, causam milhares de mortes, um enorme fluxo de refugiados e uma urgência humanitária. Eleições foram convocadas, mas o país tem um governo frágil, de transição.

Nesse contexto, em sua visita, o Papa Francisco pediu paz, misericórdia, reconciliação, mas não somente nos discursos. Em seu papa-móvel, passou por bairros perigosos da capital dividida. Mais do que isso, visitou a mesquita de Kaudoukou, próxima a uma estrada conhecida como “Km 5”, na qual se corre o risco de ser assassinado somente por atravessar para o outro lado, cristão ou muçulmano. Naquela área, ele disse que cristãos e muçulmanos são “irmãos e irmãs” e, portanto, “devemos nos considerar e nos comportar assim”.

Tropas das Nações Unidas afirmavam que não podiam garantir a segurança do Papa. Mesmo assim, ele rodou em carro aberto. Um gesto simples de confiança que muitos, como o jornal norte-americano Washington Post, chamaram de “o maior esforço diplomático do Papa até agora”. O repórter Kevin Sieff relatou que a visita foi percebida como o possível início de um processo de paz e uma potencial renovação da atenção internacional. Inclusive o arcebispo de Bangui, Dom Dieudonne Nzapalainga, afirmou à Rádio Vaticano, que a visita do papa deu nova esperança para o país. Ele manifestou confiança nos centro-africanos na busca pela paz. “Não houve sequer um tiro de arma de fogo na praça da Catedral! Era previsto o apocalipse, mas não aconteceu nada. Em vez disso, havia alegria”, disse.

COP 21 vista de Nairóbi – Em sua visita à sede das Nações Unidas em Nairóbi, no Quênia, o Papa também aproveitou para recordar a mensagem de sua encíclica Laudato si’ (Louvado seja), sobre o cuidado pelo planeta e a promoção do que chamou de uma “ecologia integral”. Para Francisco, as injustiças sociais e os problemas ambientais têm uma mesma origem – como a exploração excessiva dos recursos naturais e das pessoas, numa “cultura do descarte”. Sua encíclica foi publicada intencionalmente com o objetivo de influenciar a conferência pelo clima de Paris (COP 21), na qual representantes de quase 200 países se reúnem entre 30 de novembro e 11 de dezembro para discutir problemas ambientais, como o aquecimento global.

O fato de Francisco recordar essa mensagem em Nairóbi a reforça. Laudato si’ foi em grande parte um apelo por uma ação coletiva em defesa do meio-ambiente e no combate à pobreza. “O clima é um bem comum”, reafirmou. “Seria triste e, ousarei dizer, até mesmo catastrófico que interesses privados prevalecessem sobre o bem comum (na COP 21) e chegassem a manipular as informações para proteger os seus projetos”, completou, em uma referência indireta a empresas, grupos de interesse e de lobby que procuram negar a existência do aquecimento global, por exemplo.

O pontífice renovou também seu apelo à redução do consumo de combustíveis fósseis e disse que a COP 21 pode ser “um passo importante no processo de desenvolvimento de um novo sistema energético”. De fato, no voo de retorno a Roma, Papa Francisco disse que tem confiança em que os líderes globais assumam um verdadeiro compromisso em Paris. “Estamos no limite de um suicídio.”

Mártires ugandeses como exemplo de humildade – Em Uganda o pontífice recordou, entre outras coisas, que o poder terreno não oferece verdadeira alegria, mas sim o caminhar em direção ao próximo. Na memória de Carlos Lwanga e companheiros, um grupo de 23 anglicanos e 22 católicos mortos entre 1885 e 1887 pelo rei de Buganda por causa da fé cristã, disse que o testemunho dos mártires mostra que “a fidelidade a Deus, a honestidade, a integridade da vida e a genuína preocupação pelo bem dos outros” dão verdadeira alegria e paz duradoura.

Enfim, como escreveu a vaticanista argentina Inês San Martin, do site Crux, a viagem do Papa à África “sem dúvidas permitiu que Francisco mostrasse duas de suas ambições pessoais mais perceptíveis: colocar as periferias do mundo no centro da Igreja, e colocar a Igreja no centro da misericórdia de Deus”.

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Bispos pedem que Constituição não defina o Zâmbia como “nação cristã”

Dois bispos do Zâmbia: Dom George Lungu, bispo de Chiapata, e Dom Ignatius Chama, arcebispo de Kasama

Bispos católicos do Zâmbia pediram ao comitê técnico responsável por escrever a nova Constituição do país que não o considere uma “nação cristã”. Segundo informaram os bispos à agência de notícias católica Fides,  esse termo deve ser omitido. “Um país não pode praticar os valores e preceitos do Cristianismo com uma mera declaração”, afirmam os bispos.

“O princípio de separação entre Estado e Religião não deve ser perdido”, acrescentam. “Se o Zâmbio é um país multirreligioso, um fato que foi reconhecido no preâmbulo do primeiro rascunho do Comitê Técnico, dizer que o Zâmbia é uma nação cristã seria uma contradição a esse fato.”

Além disso, os bispos pediram que a Constituição do país rejeite a pena de morte e o aborto. A Conferência Episcopal do Zâmbia acredita, ainda, que o novo texto deve apresentar regulações sobre a cidadania e a exploração dos recursos naturais do país.

De acordo com o site Religión en Libertad, a atual Constituição do país é uma recompilação legislativa de 1996 e inclui uma emenda que declara o Zâmbia uma “nação cristã”, embora garanta a liberdade religiosa. Cerca de 85% da população é cristã – o que inclui católicos e protestantes -, 5% são muçulmanos, 5% pertencem a outras comunidades e 5% se dizem ateus.

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O aumento no número de católicos e o que isso quer dizer na prática

Entre os anos de 2009 e 2010 aumentou em 1,3% o número de pessoas católicas no mundo, de acordo com o Anuário Pontifício de 2012, estudo que detalha as estatísticas da Igreja Católica no mundo, divulgado hoje.

Podemos tirar algumas conclusões fáceis dos números divulgados. A primeira é a de que o número de fiéis católicos não diminuiu globalmente, como muitos querem crer. Mas esse aumento tampouco significa que o Catolicismo está se expandindo: a proporção dos católicos na população mundial permaneceu em 17,5%, pois ela também cresceu.

A proporção de católicos praticamente se manteve em todas as regiões do mundo: teve queda modesta na América do Sul (de 28,54% para 28,34%)  e na Europa (de 24,05% para 23,83%); e ganhos marginais na África (de 15,15% para 15,55%) e no sudeste asiático (10,47% para 10,87%). É importante notar aí que o número de católicos não reflete necessariamente a influência da Igreja Católica no mundo. Isso pode variar de região para região, de cultura para cultura. Além disso, muitas pessoas se dizem católicas e na verdade sequer vão à igreja nem rezam o “Pai Nosso”.

Por esse motivo vale destacar um outro número que dá uma visão melhor da coisa, que é o de sacerdotes. Desde o início da pesquisa, em 2000, houve um aumento quase que constante nesse número, apesar da suposta “crise das vocações”. Em 2010, eram 412,24 mil padres no mundo ante 410,59 mil em 2009. Essa elevação se deu principalmente entre os padres diocesanos, isto é, aqueles que são ligados diretamente às dioceses, e não a congregações religiosas (beneditinos, agostinianos, franciscanos, jesuítas, etc).

Está claro que há menos vocações do que uns 20 ou 30 anos atrás, embora não tenhamos o dado comparativo, mas a redução das vocações tem ocorrido principalmente no clero religioso, e não tanto no clero diocesano. A explicação aí pode ser a de que geralmente os padres diocesanos têm um pouco mais de independência e liberdade em relação aos padres religiosos, pois não fazem votos de pobreza, castidade e obediência – um estilo de vida talvez menos atrativo no mundo atual. Os padres diocesanos assumem  o compromisso do celibato, mas não fazem votos. Por outro lado, podem ter uma vida mais solitária do que a dos religiosos, que vivem em comunidade, e têm de organizar o próprio orçamento (por isso muitos são até mais pobres).

De qualquer forma, o mais curioso é ver a oscilação das vocações sacerdotais nos continentes. Na Ásia, houve aumento de 1,7 mil padres; na África, de 765 padres; na Oceania, de 52 padres; nas Américas, de 42 padres; já na Europa, em um ano houve queda de 905 no número de padres. Embora haja muito mais padres na Europa do que em outros lugares do mundo, fica evidente a tendência inversa àquela vista séculos atrás, quando os europeus saiam para catequizar o mundo. É cada vez mais provável que os outros continentes enviem mais e mais “missionários” para a Europa, onde o clero é envelhecido e há poucas novas vocações.

Vale notar, ainda, que houve um leve aumento no número de homens religiosos não ordenados (frades, monges ou irmãos leigos), de 54,23 mil para 54,67  mil, contrariando a tendência de queda vista em anos anteriores. As elevações mais significativas ocorreram na Ásia, de 4,1%, e na África, de 3,1%.

Já entre as religiosas, a “crise” de vocações é forte e vem se confirmando há alguns anos. De 2009 para 2010, passou-se de 729,4 mil mulheres para 721,9 mil. Essa queda foi maior na Europa (2,9%). E, de fato, conheço congregações que têm uma ou nenhuma aspirante à vida religiosa na Itália, berço da maioria delas. Também houve retração na Oceania (2,6%), além das Américas (1,6%). Porém, na África e na Ásia houve aumento de 2%. Outra vez, são os novos missionários.

A Igreja vê com preocupação a situação das vocações religiosas, mas ao mesmo tempo não sabe direito até que ponto isso é um problema, pois entende que, da mesma forma em que o mundo muda, muda a dinâmica das vocações. Além disso, a vocação é considerada um chamado de Deus ao qual a pessoa responde “sim”, de modo que interferir nisso não depende só da Igreja. Depende no que diz respeito a permitir que o vocacionado perceba esse chamado. Para isso, tem de ser mais eficiente no trabalho vocacional.

Entretanto, para compensar um pouco, há algumas décadas cresce a atuação dos leigos, sua presença em posições de liderança pastoral e nas missões. Isso ocorre inclusive em áreas antes exclusiva aos religiosos, como a saúde e a educação, por exemplo, o que fica claro diante do surgimento de cada vez mais novos grupos de pessoas que não atuam na Igreja por meio do sacerdócio ou da vida religiosa, mas como voluntários ou mesmo profissionalmente.

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