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O atual problema da PUC-SP não é exatamente uma surpresa

Tínhamos em mente uma série de coisas para escrever aqui no blog, mas não podemos deixar de falar do problema atual da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) .

Alunos e funcionários da PUC-SP estão de greve há mais de duas semanas, em protesto contra a nomeação da professora doutora Anna Cintra para a reitoria pelo Arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Odilo Scherer, que é também o grão-chanceler da PUC e, por isso, tem o direito de escolha com base em uma lista tríplice apresentada por assembleia universitária.

O problema está instaurado, mas não é uma surpresa. Veremos neste post o porquê e qual é o desafio para a Igreja daqui pra frente.

Antes de mais nada, não se sabe ainda se a nova reitora vai assumir. Embora a posse estivesse prevista para sexta-feira, dia 30, hoje o Conselho Universitário da PUC-SP suspendeu a validade da lista tríplice de indicados. A crise lembra muito o problema vivido pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), sobre a qual falamos mais de uma vez neste blog e que perdeu oficialmente os títulos de “Pontifícia” e “Católica” conferidos pela Igreja.

Dom Odilo Scherer, cardeal e grão-chanceler da PUC-SP

O grande impasse na PUC-SP iniciou quando Dom Odilo resolveu nomear a terceira colocada da lista tríplice, coisa que tradicionalmente não acontece. Geralmente, o grão-chanceler costuma apenas confirmar a decisão da assembleia, escolhendo o candidato mais votado – neste caso, o atual reitor, Dirceu de Mello, de 81 anos. Fato é que a decisão do cardeal é legal e está dentro das normas e estatutos da PUC e do Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja).

OS DOIS LADOS – O que centenas de alunos, professores e funcionários questionam neste momento é a legitimidade da decisão. Dizem que a Igreja está “interferindo” na autonomia e na democracia da universidade. Em nota que circulou pelos corredores da PUC, os grevistas dizem que “a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP tem adotado medidas antidemocráticas que remontam ao regime autocrático, antes tão combatido”.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, em protesto, com alunos, o diretor de teatro Zé Celso afirmou que o “Vaticano tem de entrar pelo cano” e que o Papa “é um ditador”. Também conforme a Folha, o candidato mais votado, Dirceu Mello, disse que “todos na universidade ficaram decepcionados com esse desfecho”. Acrescentou: “Se eu fosse estudante, estaria procedendo da mesma forma. Os universitários de hoje sabem perfeitamente aquilo que é certo e o que é errado.”

Já os defensores da decisão do cardeal, como o jurista Ives Gandra Martins, dizem que ele tem uma “prerrogativa estatutária, que foi exercida, legal e legitimamente”. Também é interessante este post do filósofo Gabriel Ferreira, que reflete sobre o papel das universidades pontifícias e defende o direito da Igreja de participar da gestão das PUCs. Outro que merece ser lido é o canonista Edson Luiz Sampel, cujo artigo saiu também na Folha. Entre os argumentos, ele menciona que outras instituições universitárias ligadas a religiões, como os presbiterianos, metodistas e judeus, têm direção claramente confessional.

Anna Cintra é da área de Letras

E AGORA? – Nosso foco aqui é o papel da Igreja no Brasil e no mundo. Vale lembrar que por muito tempo a instituição Igreja foi relapsa na condução de algumas universidades pontifícias. E agora, de uma hora para outra, está claro que ficou meio difícil retomar essa participação, embora seja um direito garantido por leis e estatutos.

Simplificando muito uma situação bem complexa: tanto a PUC-SP quanto a PUCP (aquela do Peru) foram expoentes da chamada “Teologia da Libertação”, corrente que se destacou por ser uma interpretação do Cristianismo à luz do Marxismo e, por esse motivo, contrária ao pensamento oficial da Igreja, centralizado em Roma. Num contexto de combate às violentas ditaduras de direita, durante a Guerra Fria, os grupos de esquerda ganharam força nos âmbitos universitário e religioso.

O problema para a Igreja é que, mesmo depois do fim da Guerra Fria, das ditaduras na América Latina e após uma série de mudanças políticas por aqui, aparentemente não houve um esforço real de retomar sua influência ideológica nessas duas universidades. É verdade que houve uma série de reformas e intervenções administrativas (na PUC-SP uma delas para resolver um rombo nos cofres), mas que não mudaram muito a linha acadêmica e o viés político, talvez justamente para não gerar tanto conflito.

Ou seja, em muitas faculdades dessas duas PUCs (talvez de outras mais) quase sempre se destaca a linha que vai contra o ensinamento da Igreja. É normal ver nos corredores e salas de aula da PUC-SP alunos e professores defendendo o aborto, a legalização da maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – para citar apenas alguns temas mais controversos. Porém, supostamente, segundo os documentos da Igreja (como a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae – Sobre as universidades católicas), é missão das PUCs fazer florescer uma “cultura cristã”, de modo que, a rigor, ao menos a linha geral da universidade deveria seguir o que a Igreja ensina.

Dirceu Mello, atual reitor da PUC-SP

O que torna ainda mais semelhante os casos da PUC-SP e da PUCP é que ambos os arcebispos resolveram tomar uma atitude de uma hora para outra. Sem querer julgar se foram decisões certas ou erradas, podemos dizer que em ambos os casos foram bruscas. Tanto Dom Odilo Scherer quanto o cardeal de Lima, Dom  Juan Luis Cipriani Thorne, chocaram a comunidade universitária de suas PUCs porque fugiram do padrão adotado já há algum tempo, no qual aceitavam aquilo que vinha pré-definido. Antes, era só assinar embaixo.

Percebe-se que nas universidades onde a instituição Igreja sempre se manteve presente (como naquelas geridas pelos padres jesuítas, por exemplo, como a PUC-RJ) este tipo de conflito não ocorre. As intervenções não são só comuns e aceitas normalmente, como muitas vezes o reitor é um padre. E as universidades pontifícias muito frequentemente recebem estudantes de outras religiões – e, no caso de Roma, alguns são até convidados oficialmente pelo Vaticano, com bolsas de estudos, para promoverem o diálogo entre diversas correntes de pensamento. Isso flui razoavelmente bem.

Não se sabe ao certo o que vai acontecer agora com a PUC-SP, mas Dom Odilo Scherer não é do tipo que volta atrás em suas decisões. Pode ser que com muito diálogo, mudanças na lista tríplice e eventual renúncia da reitora nomeada, a situação mude um pouco e esse incêndio seja apagado.

Porém, se a Igreja quiser manter certo controle sobre suas universidades precisará em algum momento realizar verdadeiras reformas. Caso contrário, terá de aceitar a realidade atual, na qual o pensamento contrário ao da Igreja é firme e forte dentro de algumas PUCs, e aprender a lidar com toda sorte de reação às suas pequenas intervenções pontuais.

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Pergunta: Qual é a diferença entre bispo, arcebispo e cardeal?

O Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo, e o Arcebispo de Campinas, Dom Airton

No último domingo estive na cerimônia de posse do novo Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos, e, conversando com outros colegas jornalistas, que trabalhavam na cobertura da cerimônia, surgiu a dúvida que dá título a este post. Dom Airton, que era bispo da Diocese de Mogi das Cruzes, foi recentemente nomeado para assumir a Arquidiocese de Campinas, tornando-se, portanto, arcebispo.

Além do seu endereço, o que mais muda para ele? E os cardeais, são os “chefes” dos bispos e arcebispos?

Não é bem assim. Conforme explicamos neste post (“O que é um diácono?”), na Igreja Católica existem apenas três graus para o sacramento da Ordem: diaconato, presbiterato e episcopado. Todos os bispos e arcebispos (inclusive o Papa) são ordenados no terceiro grau. Nesse aspecto são todos iguais e, como costumam dizer, “irmãos no episcopado”.

Para a Igreja Católica, os bispos são os sucessores dos apóstolos como “pastores da Igreja”. Conforme o Catecismo da Igreja Católica, por meio da imposição das mãos durante a ordenação episcopal, o sacerdote assume os deveres de “santificar, ensinar e reger”. Diz o número 1558 que  os bispos, “pelo Espírito Santo que lhes foi dado, foram constituídos como verdadeiros e autênticos mestres da fé, pontífices e pastores”.

A diferença do arcebispo é que ele assume uma missão considerada talvez mais importante para a Igreja, ou pelo menos que exige uma responsabilidade ainda maior. A Wikipedia parece explicar bem quais são os diversos tipos de arcebispos, veja neste link. Os núncios apostólicos – embaixadores da Santa Sé em vários países – geralmente são arcebispos. Também na Cúria Romana há diversos arcebispos que trabalham em funções burocráticas, mas estratégicas.

Porém, a maioria dos arcebispos recebe esse título porque administra uma diocese reconhecida como das mais importantes, seja por causa do número de fiéis, pela extensão de seu território ou por questões históricas – o que, na verdade, é uma “arquidiocese“.

Além disso, as dioceses estão agrupadas em áreas territoriais chamadas “províncias eclesiásticas” e as arquidioceses são as sedes dessas províncias. Assim, os arcebispos (nestes casos “arcebispos metropolitanos”) têm alguns deveres de supervisão e jurisdição sobre as outras dioceses que compõem a mesma província – chamadas “dioceses sufragâneas”.

No caso da Arquidiocese de Campinas, citada no início deste post, sufragâneas são as Dioceses de Limeira, São Carlos, Bragança Paulista, Amparo e Piracicaba.

No entanto, os bispos de cada diocese não devem satisfações ao arcebispo no que diz respeito à ação pastoral. Cada um deles é soberano para organizar sua diocese e responde diretamente ao Papa.

Já o título de “cardeal” é outra coisa. Costuma designar um sacerdote que por algum motivo tem uma proximidade maior com o Papa, geralmente pela relevância da missão que desempenha. A maioria dos cardeais é de bispos e arcebispos, mas padres e diáconos também podem ser nomeados cardeais. No último consistório – cerimônia de criação dos cardeais pelo Papa – dois padres viraram cardeais.

Os cardeais são escolhidos pessoalmente pelo Papa. E, muitas vezes, algumas dioceses são tão importantes para a Igreja que os bispos que as assumem são quase que automaticamente criados cardeais – dois exemplos são a Arquidiocese de São Paulo e a Diocese de Hong Kong, para citar uma arquidiocese e uma diocese.

Consistório em que o Arcebispo Dom João de Aviz foi criado cardeal por Bento XVI

Ou seja, embora um cardeal geralmente esteja numa posição hierárquica mais elevada, isso não é obrigatório para chegar lá. Alguns são renomados professores universitários, por exemplo. Um cardeal não é mais bispo do que um bispo de uma pequena diocese ou um arcebispo de uma grande arquidiocese. Mas de modo geral ele está mais próximo do Papa, o que lhe confere uma autoridade e um título singulares.

Além disso, é essencial lembrar que apenas os cardeais votam nos conclaves, aquelas reuniões a portas fechadas que elegem o Papa. Todo cardeal com menos de 80 anos pode votar. E qualquer cardeal pode ser eleito Papa.

Essas diferenças todas aqui citadas podem ser notadas de várias formas, como nas roupas que usam e nos brasões de cada um deles. Os bispos e arcebispos usam roupas na cor violeta, enquanto os cardeais usam vermelho-púrpura (veja as fotos). Os brasões também têm símbolos a mais ou a menos, que sinalizam os títulos daquele bispo.

Existem outros detalhes nessa diferenciação, que podem ser encontrados por aí na internet. Mas as características que citamos aqui talvez sejam as mais básicas.

Envie você também sua dúvida sobre a Igreja nos espaços para comentários e veja aqui as outras perguntas já respondidas neste blog.

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PUC do Peru busca acordo de última hora para manter título de “Pontifícia”

Provável vitória do cardeal Juan Cipriani, Arcebispo de Lima

Há pouco mais de um mês, falamos neste post sobre a situação da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), que recentemente passou por um processo de reavaliação pelo Vaticano.  Nos últimos dias saíram novidades importantes: a PUCP tem manifestado o interesse de manter o título de “Pontifícia”.

Para lembrar: depois de perceber que muitos professores e alunos estavam se desviando ideologicamente do pensamento da Igreja, o cardeal peruano Dom  Juan Luis Cipriani Thorne, Arcebispo de Lima, pediu para exercer o direito de escolher o reitor da PUCP entre três nomes definidos em assembleia universitária. Para que isso ocorresse, seria necessário modificar os estatutos da universidade, que atualmente conferem à assembleia a eleição do reitor. O reitor  Marcial Rubio e muitos alunos acusaram perda de autonomia.

Após avaliar o caso, em fevereiro a Santa Sé pediu mudanças nos estatutos, para que ficassem em conformidade com a constituição apostólica Ex Corde Ecclesiae, que rege as universidades católicas Esse documento foi promulgado em 1990 pelo Papa João Paulo II, com objetivo de esclarecer o que é esperado de uma universidade pontifícia.

A Igreja Católica estabeleceu a Páscoa como prazo final para um acordo. E, hoje, a quatro dias da Páscoa, a PUCP anunciou que ainda há alguns impasses, mas se chegou ontem “a um acordo que permitiu a elaboração de uma proposta comum de reforma do Estatuto da Universidade e um documento que põe fim a todos os processos judiciais sobre a herança do Sr. José de la Riva-Agüero”, doador do terreno onde está a PUCP. Ele vinculou a herança à sua utilização obrigatória por uma universidade pontifícia.

Campus da PUCP

Com isso, a universidade provavelmente deve manter o caráter pontifício. As autoridades da Igreja ainda não confirmaram um acordo definitivo, mas Cipriani havia dito dias atrás que estava “otimista” com essa questão.

Segundo o site da PUCP, a proposta leva em conta que “a reitoria recebeu da Assembleia a indicação de dialogar com as autoridades da Igreja para manter o caráter católico e pontifício da Universidade, preservando sua autonomia”.

Segundo o site Catholic Culture, a perda do título de “Pontifícia” teria sérias implicações para a PUCP. Se a universidade quisesse declarar “independência” teria de abrir mão de suas propriedades, que poderiam ser repassados para a Arquidiocese de Lima, por causa da vinculação da herança do benfeitor.

De qualquer forma, trata-se de uma solução provisória para o caso. Digo provisória porque se a PUCP continuar fugindo das diretrizes ideológicas que Cipriani e a Igreja consideram mais adequadas, muito provavelmente haverá outros tipos de intervenção, o que deixará alguns professores e alunos novamente insatisfeitos, retomando o ciclo de conflitos.

Mas, se tudo se confirmar, por enquanto o cardeal Cipriani terá conseguido alinhar a universidade à Ex Corde Ecclesiae, diretriz que precisa ser seguida por qualquer universidade da Igreja.

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Advogado retira processo contra Bento XVI relacionado à pedofilia nos EUA

Jeffrey Anderson

O advogado norte-americano Jeffrey Anderson, conhecido por defender vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja nos Estados Unidos, retirou o processo que mantinha na Justiça estadual acusando o Papa Bento XVI de acobertar casos de pedofilia ocorridos na Arquidiocese de Milwaukee. Vale explicar o caso (que é bem complexo).

Segundo Anderson, que havia feito grande alarde no começo do processo, em março de 2010, convocando coletivas de imprensa que resultaram inclusive nesta polêmica reportagem no jornal The New York Times, o motivo de ter dado o passo atrás é o fato de ter obtido decisão favorável a ele em um outro processo na Justiça federal – mas este contra a Arquidiocese (que pediu falência). Ele também admitiu que os impedimentos legais eram enormes para levar adiante a ação – fico tentando adivinhar que tipo de “pena” poderia surgir no Estado de Milwaukee contra um Papa, mas enfim…

O advogado que defendeu o Vaticano, Jeffrey Lena, disse que Anderson percebeu que não conseguiria responder à altura o pedido de arquivamento do processo apresentado pela Igreja. Anderson havia solicitado ao juiz permissão para justificar as acusações em duas partes, uma envolvendo questões de jurisdição (isto é, relacionar as normas do Direito Civil com as do Direito Canônico, que são as leis que regem o funcionamento da Igreja) e outra com as acusações em si. Mas o juiz rejeitou isso e pediu uma única resposta com as duas coisas juntas, o que Anderson não foi capaz de fazer por falta de argumentos, de acordo com Lena.

Fato é que o processo foi retirado. Mas o importante aqui é notar como as coisas são mais complicadas do que pensamos.

Esse processo se referia ao falecido padre Lawrence Murphy, que teria abusado sexualmente de 200 meninos, entre 1950 e 1974, em Milwaukee. O Vaticano reconhece que Murphy cometeu os crimes. O advogado das vítimas acusava o cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI) de ter conhecimento dos delitos e os acobertar enquanto liderou a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão responsável por avaliar eventuais punições administrativas para esse tipo de caso entre tantas outras coisas. Anderson alegava que isso teria ocorrido por meio documento secreto Crimen sollicitationis, de 1922, reeditado em 1962, que contém orientações para bispos sobre como proceder quando houver assédio durante o sacramento da confissão (que é altamente sigiloso). Murphy teria cometido esse grave delito. Anderson dizia, entre outros argumentos, que o Crimen impediu os bispos de informarem as autoridades civis sobre os crimes.

Já Lena afirma que o Crimen se refere a obrigações canônicas, e não civis, de modo que nunca impediu os bispos de informarem a polícia, por exemplo. Além disso, o Crimen já articulava sobre esses procedimentos muito antes de existirem leis civis específicas para tais crimes. O advogado pondera que o Vaticano não é o responsável imediato por cada um dos 400 mil padres do mundo, mas sim seus bispos e arcebispos diretos. Aliás, hoje a recomendação da Igreja aos bispos é justamente que as autoridades civis sejam informadas.

O Vaticano argumenta, ainda, que  só ficou sabendo do problema 20 anos depois, já que as autoridades civis arquivaram denúncias contra Murphy naquela ocasião. O porta-voz Pe. Federico Lombardi sustenta que não existem punições automáticas para esses crimes nas leis da Igreja e que, no caso do Pe. Murphy, não houve uma penalidade eclesial porque o padre já era idoso, bastante doente e vivia isolado. Murphy morreu quatro meses depois da notificação ao Vaticano.

Vale lembrar que alguns membros da Igreja realmente erraram feio no que diz respeito aos casos de pedofilia, ao fechar os olhos para eles – e a Igreja não nega isso. Um grande problema aí parece ser o fato de que, durante muitos anos, faltou uma diretriz clara sobre como os bispos devem agir em todos os casos de abuso sexual. Mas isso mudou. Não é à toa que, recentemente, ocorreu o primeiro Simpósio em Roma sobre o combate à pedofilia.

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O drama da PUC do Peru

O reitor Rubio e o cardeal Cipriani

Em Lima, há um duro impasse sobre a  Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) que muito deveria interessar às PUCs do Brasil, ou a quem estuda ou trabalha nelas. Explico: Em muitos países do mundo existem as “Pontifícias Universidades Católicas”, as chamadas PUCs, que são universidades vinculadas à Igreja. A PUC de São Paulo, por exemplo, tem como mantenedora a Fundação São Paulo, que existe desde 1945 e, por sua vez, é presidida pelo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, atualmente o cardeal Dom Odilo Scherer.

Porém, as PUCs costumam ser instituições independentes. É a tão defendida autonomia universitária. Quem estuda numa PUC certamente quase nunca (ou nunca) vê o bispo responsável por ela. As universidades têm um reitor para administrá-las, têm assembleias, conselhos, burocracias, eleições, tudo conforme as normas dos estatutos, que variam de caso a caso e conforme as leis de cada país. Não dá para saber exatamente em que medida a Igreja interfere nas decisões das PUCs, nas linhas de pesquisas, na conduta dos professores. Tudo isso varia.

Voltando a Lima, a PUC do Peru tem como “Grão-Chanceler” o cardeal Arcebispo Dom  Juan Luis Cipriani Thorne. O reitor é Marcial Rubio. Acontece que, de uns tempos para cá, Cipriani percebeu que muitos professores e alunos começaram a se desviar ideologicamente das posições defendidas pela Igreja. Não gosto de usar expressões como “progressista” e “conservador” porque elas simplificam demais a realidade, então digamos que Cipriani defende posições mais tradicionais, enquanto que grande parte dos alunos e funcionários da PUCP não liga para o “Pontifícia” nem para o “Católica” que a universidade leva em seu nome.

Cipriani quer o direito de escolher o reitor da PUCP entre três nomes definidos em assembleia universitária, conforme lhe garante o Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja Católica Apostólica Romana). Mas, atualmente, a assembleia da PUCP é quem elege o reitor, conforme lhe garante a lei peruana. Para que ocorra a mudança, é preciso alterar os estatutos da PUCP – o que o reitor e os alunos não querem, pois dizem que perderiam a autonomia universitária.

Moral da história: o caso foi parar no Vaticano. O reitor Rubio disse ao jornal El Comercio que Cipriani “quer se apoderar dos bens da universidade”. Cipriani diz que “é preciso estender pontes, buscar o bem“, e acredita que a mudança nos estatutos seria melhor para todos. A universidade foi inspecionada e Rubio foi convocado ao Vaticano para dar explicações.

A Santa Sé pediu as mudanças nos estatutos o quanto antes. Como se trata de uma universidade católica privada, Cipriani teria o direito de escolher o reitor e quem está do seu lado argumenta que os tratados do Peru com o Vaticano sustentam isso. Mas os que se opõem a Cipriani dizem que os tratados incluem “o respeito às leis peruanas”, de modo que os estatutos têm de ficar como estão. Esse pessoal afirma que a PUCP pode até se declarar independente e se isolar da Igreja. Porém, a Igreja tem também o direito sobre os bens da PUCP, fundada por ela.

Ainda não há uma solução para o caso. Continuaremos acompanhando. A complexidade dessa questão está no fato de que a autonomia universitária é necessária, mas ao mesmo tempo está claro que muitas PUCs se desviaram daquela função que lhes foi atribuída no começo, pois são católicas só no nome.

Se as PUCs não forem analisadas com calma ao longo do tempo, um conflito mais árduo pode ser travado de forma brusca, a qualquer momento.

Leia também: PUC do Peru busca acordo de última hora para manter título de “Pontifícia”

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Inaugurada a Praça

São Francisco de Sales

Há tempos sentia saudades de ter um blog, mas o facebook supriu temporariamente minha necessidade de escrever sobre coisas de que gosto fora do trabalho – onde escrevo sobre Economia. Este blog é sobre religião, mas não é um blog religioso.

Não é sobre devoções, mas um espaço para expor informações que não encontramos facilmente em outros lugares e que podem nos ajudar a entender melhor o que é a Igreja.

Já sabemos que a Igreja é uma instituição grande, antiga e complexa, formada por pessoas de diversas culturas e movimentos dos mais variados. Ainda que lentamente, está sempre mudando. Ao contrário do que muitos pensam, a Igreja não está engessada.

Muitas pessoas me perguntam sobre religião, Cristianismo, Igreja… Quando sei responder, respondo, e se não sei, procuro quem saiba – e é isso o que faz um jornalista e é isso que quero fazer aqui. Por isso, sinta-se à vontade para perguntar.

Este é o blog Praça de Sales (PS). “Praça” porque é um lugar aberto para quem quiser passar, chegar, parar e conversar – comentários agressivos serão ignorados. “Sales” vem de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e, portanto, deste blog. Tanto eu quanto meus colegas precisamos sempre de uma ajudinha.

Se eu errar, por favor me corrijam. No mais, bem-vindo ao PS!

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