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‘Canonização de dois papas foi convite à unidade”, diz vaticanista John Allen Jr

john allenPublicamos agora aqui no blog um trecho e o link para nossa entrevista com o vaticanista John Allen Jr, que saiu no jornal O São Paulo no fim de abril, após a canonização dos papas João Paulo II e João XXIII. Segundo John Allen, do jornal Boston Globe, a decisão do papa Francisco juntar a canonização de João 23 e João Paulo 2o é um convite à unidade.

Por que o papa Francisco resolveu canonizar os dois papas juntos?

John Allen Jr. – Veja, uma coisa para nunca esquecer sobre o papa Francisco: sim, ele é um homem humilde, simples, é o papa dos pobres, mas sob tudo isso está a mente de um brilhante político jesuíta. Ele sabe que, no ambiente católico, por mais equivocado que isso seja, João 23 é visto como um herói da esquerda e João Paulo 2o é visto como um herói da direita. Então, se você canoniza um deles separadamente, corre o risco de parecer a ‘volta olímpica’ de um lado ou de outro na Igreja, em termos de debates. Mas se você coloca os dois juntos, é um claro convite à unidade. E acho que a unidade é muito importante para este Papa.

Você trabalhou como vaticanista no pontificado de João Pau- lo 2o, de 1998 a 2005. Como descreveria as mudanças pelas quais ele passou ao longo o pontificado?

John Allen Jr. – Uma das coisas que me surpreenderam foi o quão ativo ele permaneceu no seu período de declínio físico. Eu cobri viagens que ele fez em 2003 e 2004. No fim delas, eu estava exausto! Imagine esse homem! Infelizmente, nossas memórias de João Paulo 2o, neste momento, estão muito condicionadas pela forma como ele morreu. O que as pessoas lembram é aquele homem frágil, ancião, morrendo em público. Veja, as pessoas foram inspiradas por isso, se comoveram, mas isso tem um efeito distorcido porque nós esquecemos como ele começou. Se voltarmos a 1978, ele era tipo (o ator) John Wayne de batina! Era um “super-herói”, vigoroso, arrojado, atleta- -alpinista de Deus! Ele pegou omundo como uma tempestade.

Clique aqui para ler o restante da entrevista, que você encontra na página 12 da versão digital do jornal O São Paulo

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Francisco é um ‘grande homem de governo’, afirma professor

47_480x320“O Papa é um grande homem de governo”, avalia o padre Rocco D’Ambrosio, professor de Filosofia e Ética Política da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, autor do livro “Como pensam e agem as instituições”. Ele faz parte de uma iniciativa de 15 professores que se uniram para publicar comentários sobre a exortação apostólica do papa Francisco, Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”). A coletânea está prevista para maio, mas, em entrevista exclusiva ao jornal O São Paulo, padre D’Ambrosio adiantou suas impressões sobre o primeiro ano do pontificado. Para o professor, italiano de Bari, as experiências de Jorge Mario Bergoglio como superior provincial dos Jesuítas na época de ditadura argentina e como arcebispo de Buenos Aires por 15 anos foram grandes escolas para que aprendesse a conduzir a Igreja.

Leia a íntegra de nossa reportagem na página 14 do especial publicado no jornal O São Paulo.

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O problema da pedofilia na Igreja, as críticas da ONU e reações

A Igreja Católica está acostumada a receber críticas, algumas justas, outras injustas. Mas raramente elas vêm de uma instituição tão importante como a Organização das Nações Unidas (ONU). Nos últimos anos, o Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança vem avaliando amplamente os países que assinaram um tratado de 1989 assumindo o compromisso de proteger a criança e defender seus direitos. A Santa Sé aderiu ao acordo em 1990 e, portanto, como outros membros, foi igualmente examinada.

As conclusões desse processo foram publicadas recentemente em um relatório no qual o Comitê faz duras críticas ao Vaticano, especialmente por não agir de forma correta no combate a abusos sexuais de crianças praticados por membros do clero e pessoas ligadas à Igreja. Porém, o relatório também vem sendo criticado (não só por membros da Igreja) porque toca em questões políticas e em certos pontos assume um tom “ideológico”. Além de falar do problema da pedofilia, a ONU pede mudanças na posição da Igreja sobre aborto, relações homossexuais e contracepção. Queremos tentar entender melhor o problema todo e trazer um pouco das reações.

As críticas – A ONU reconhece a abertura do Vaticano ao diálogo e seu “positivo compromisso” com a mudança de “atitudes e práticas” que não deram certo. Entretanto, pede medidas “firmes e concretas” nesse sentido e diz que sugestões feitas em 1995 não foram totalmente acolhidas. No que diz respeito ao problema dos abusos sexuais, o jornal norte-americano National Catholic Reporter fez um bom resumo dos pontos apresentados, que utilizamos aqui para facilitar a compreensão do leitor.

Os problemas mais graves apontados pelo relatório são: a prática de transferência de padres pedófilos de uma paróquia para outra, o que coloca em risco novas crianças; a prática de não divulgar dados sobre abusos sexuais dentro da Igreja; a aplicação de medidas disciplinares aos abusadores sem denúncia às autoridades civis; a existência de um código de silêncio entre membros do clero que tinham conhecimento dos problemas; a falta de orientação às crianças para que sejam capazes de reconhecer e evitar uma situação de risco.

Além disso, a ONU acusa a Igreja de “nunca ter tornado obrigatória” a denúncia dos casos às autoridades civis e diz que membros da Igreja, inclusive da Santa Sé, não estiveram sempre dispostos a colaborar com a Justiça e as comissões nacionais de investigação.

Em suas recomendações, a ONU pede a “imediata remoção de todos os suspeitos conhecidos” dos cargos que ocupam e o devido encaminhamento às autoridades civis. Exige, ainda, maior transparência por parte da Igreja, como a remoção de normas que exigem sigilo durante as investigações. Pede mudanças no Código de Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja), transformando a pedofilia em crime, e o desenvolvimento de programas de auxílio as vítimas. Recomenda que a comissão criada pelo Papa Francisco em dezembro para analisar os casos de abuso sexual possa investigar de forma independente, inclusive a conduta dos líderes da Igreja.

Dom Silvano Tomasi, Observador Permante da Santa Sé na ONU

O ponto mais polêmico e que gerou uma reação negativa por parte da Igreja foram os “alertas” do Comitê da ONU para que a Santa Sé mude sua posição sobre aborto, relações homossexuais e contracepção. O Comitê afirma que a Igreja deve alterar o Direito Canônico para “identificar as circunstâncias em que o acesso aos serviços de aborto sejam permitidos”. Recomenda alterações nas “políticas e práticas” da Santa Sé para que use sua “autoridade moral para condenar todas as formas de perseguição, discriminação ou violência contra crianças baseadas em sua orientação sexual ou orientação sexual de seus pais, e apoiar os esforços de nível internacional para a descriminalização da homossexualidade”. E declara que a promoção de métodos contraceptivos é necessária em políticas de combate a AIDS, por exemplo.

A resposta do Vaticano – Em comunicado oficial, a Santa Sé reiterou seu “compromisso com a defesa e a proteção dos direitos da criança”, com base na convenção assinada e nos “valores morais e religiosos oferecidos pela doutrina católica”. Entretanto, o arcebispo Observador Permanente da Santa Sé na ONU, Dom Silvano Tomasi, disse que recebeu “com surpresa” o relatório do Comitê, pois o documento contém críticas que já foram devidamente respondidas.

“O aspecto negativo do documento que produziram faz pensar que tenha sido preparado antes da reunião da Comissão com a delegação da Santa Sé, que deu em detalhes respostas precisas sobre vários pontos, que não foram, em seguida, incluídas no documento final ou pelo menos não parecem ter sido levadas seriamente em consideração”, declarou à imprensa, dizendo que o documento não identifica medidas tomadas nos últimos anos pela Igreja no combate à pedofilia.

Irmã Mary Ann Walsh, RP dos bispos norte-americanos

Ele lamentou também que a ONU tenha procurado intervir no ensinamento da Igreja sobre questões como o aborto. “A Convenção sobre a proteção das crianças  fala da defesa da vida e da proteção das crianças antes e depois do nascimento; enquanto a recomendação que é feita à Santa Sé é a de mudar a sua posição sobre a questão do aborto. É claro que, quando uma criança é morta não existem mais direitos”, ironizou.

Oportunidade perdida – A diretora de Relações Públicas da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos (um dos países onde o problema da pedofilia no clero é mais grave), Irmã Mary Ann Walsh, chamou o relatório de “uma oportunidade perdida”. “Nenhuma organização pode ser complacente (com a pedofilia)”, declarou. “Infelizmente, o relatório foi enfraquecido ao incluir objeções ao ensinamento da Igreja em questões como o casamento gay, aborto e contracepção. Isso parece violar a obrigação inicial das Nações Unidas de defender a liberdade religiosa.”

Padre Hans Zollner, diretor do Centro de Proteção de Menores

Relatório é um “incentivo” mas tem pontos cegos – Para o Padre Hans Zollner, diretor do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e do Centro de Proteção de Menores, em Roma, a ONU reconheceu os esforços da Igreja no combate à pedofilia, e isso pode ser visto como um incentivo. Porém, ele afirma que nos últimos 13 anos a Santa Sé vem realizando uma política de tolerância zero à pedofilia. À Radio Vaticano, ele comentou: “Tenho a impressão de que o relatório é sobre muitas coisas que deram errado nos últimos anos e décadas. Mas os recentes esforços da Santa Sé parecem não se refletir em medida suficiente. Esforços para aumentar a transparência, a tentativa de definir mudanças no Direito Canônico e introduzir novas normas”.

O jornalista John Allen

Não existe um complô contra a Igreja – O relatório do Comitê não tem como objetivo criar uma perseguição religiosa contra a Igreja Católica, mas misturou o tema da proteção dos menores com propostas ideológicas, afirmou o vaticanista do Boston Globe, John Allen Jr, em entrevista a Il Sussidiario. “A causa da proteção dos menores deveria ser defendida por todos, indistintamente, sejam conservadores, liberais, leigos ou crentes. Qualquer um deveria estar de acordo com o fato de que a defesa das crianças é uma prioridade absoluta. No entanto, a ONU decidiu confundir as águas, misturando o tema dos abusos sexuais com uma batalha cultural partidária”, analisa.

Segundo John Allen, não é correto dizer que a Igreja não tem feito nada para resolver o problema da pedofilia. Esses esforços, diz o analista, foram intensificados durante o pontificado de Bento XVI. “Certamente no passado houve essa tendência (de esconder os casos de abuso sexual), e a Santa Sé mesmo o reconheceu a partir de Bento XVI. A Igreja hoje é muito diferente e está se empenhando em uma política de ‘tolerância zero’ contra os abusos. É necessário, entretanto, estarmos atentos para que essa política seja efetivamente aplicada.”

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Francisco e Bento XVI se reencontram para desejar Feliz Natal

Os dois Papas, Francisco e Bento XVI, se reencontraram hoje no mosteiro Mater Ecclesiae, onde vive o Papa Emérito. Eles trocaram cumprimentos de “Feliz Natal” e fizeram uma breve oração juntos. “É um prazer vê-lo tão bem”, disse Francisco a Bento XVI, logo no início do reencontro. O diálogo privado durou cerca de meia hora.

Em um segundo momento, mais descontraído, Bento XVI brincou: “Acho que fizeram milhões de fotografias!” E Francisco respondeu: “Sim, milhões, sim!”

O Papa Francisco também cumprimentou o grupo de funcionários que vivem com o Papa Emérito, os chamados “Memores” (membros do movimento laical Memores Domini), ou “família do Papa”. Veja o vídeo da visita de Francisco a Bento XVI.

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Um debate sobre as mulheres na Igreja

2013-12-18 18.33.37O grande passo para que as mulheres voltassem a ser lembradas pela Igreja Católica foi dado no Concílio Vaticano II e de lá para cá muita coisa mudou, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Foi mais ou menos esse o tom do debate sobre o tema “A força da mulher” realizado ontem na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, por ocasião do lançamento do documentário Maria di Magdala: Le donne nella Chiesa (“Maria Madalena: As mulheres na Igreja”), dirigido e produzido pela espanhola Maite Carpio, a ser exibido pela TV italiana Rai 3 em 28 de dezembro no programa La Grande Storia.

As mães do Concílio –  “O Vaticano II foi um germe para mudanças notáveis. Foi a primeira vez que mulheres participaram de um concílio”, recordou a teóloga Marinella Perroni, doutora em Teologia e Filosofia e professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma. Convocado em 1962 pelo Papa João XXIII, o Concílio Vaticano II foi a última grande reforma da Igreja Católica, desde aspectos práticos e pastorais até a liturgia e o modo de pensar a própria Igreja.

Mulheres do Vaticano II

A professora Marinella, uma das entrevistadas do documentário, se refere às chamadas “mães do Concílio”, um grupo de 23 mulheres (13 leigas e 10 religiosas) que participaram como observadoras do grande encontro que reuniu 2.500 bispos do mundo inteiro para repensar a Igreja.  Elas chegaram muito tempo depois que o Concílio havia começado, apenas quando o então cardeal Arcebispo de Bruxelas, Dom Léon-Joseph Suenens, teria dito aos seus companheiros padres do concílio: “Caros irmãos, olhem para os lados… onde está a outra metade da Igreja?” Foi somente em setembro de 1964, sob o Papa Paulo VI, que a primeira mulher entrou numa sala conciliar.

Conforme o documentário, 60% dos fiéis que se dizem católicos atualmente são mulheres. Mas só depois do Vaticano II  as mulheres passaram a ser admitidas nas faculdades de Teologia, por exemplo. “Não nos faltou nos últimos 50 anos uma contribuição forte de teologia das mulheres, isto é, a participação da mulher na interpretação e no crescimento teológico”, afirmou Marinella. “Alegra-me recordar que estamos em um caminho de crescimento.” Numa fala bastante crítica, mas otimista, ela recordou a argentina Margarita Moyano Llerena, então presidente da Federação Mundial da Juventude Católica Feminina e uma das mulheres que participaram do Concílio, que teria dito: “As mulheres em Roma chegam só no fim, mas, no fim, chegam.”

Últimos dois Papas – O padre Federico Lombardi, atual porta-voz do Vaticano e que trabalhou como consultor na preparação do documentário Maria di Magdala observou que o aumento da participação das mulheres nas decisões da Igreja é algo que vem sendo preparado e defendido pelos últimos dois Papas, Bento XVI e Francisco, com os quais ele vem trabalhando nos últimos anos.

Para ilustrar esse ponto de vista, o padre jesuíta recordou a entrevista de Bento XVI a uma TV alemã em 2006, quando disse: “As próprias mulheres, com a sua motivação e força, com a sua por assim dizer preponderância e o seu ‘poder espiritual’, saberão encontrar o próprio espaço. E nós (homens) deveríamos procurar colocar-nos à escuta de Deus, para não nos opormos a Ele; ao contrário, fazemos votos por que o elemento feminino obtenha na Igreja o lugar ativo que lhe é próprio, a começar pela Mãe de Deus e por Maria Madalena.”

Da parte do Papa Francisco, Lombardi admitiu que ainda “não entendeu perfeitamente” o que ele quis dizer na entrevista coletiva concedida aos jornalistas que estavam no avião durante a viagem de volta do Rio de Janeiro a Roma, em julho.  Na ocasião, declarou Francisco: “O papel da mulher na Igreja não deve circunscrever-se a ser mãe, trabalhadora… Limitá-la não! É outra coisa!”

O Papa lembrou as mulheres do Paraguai, que depois da guerra (1864-1870) tiveram de reconstruir o país mantendo a cultura local e acrescentou: “Na Igreja, temos de pensar a mulher sob essa perspectiva de escolhas arriscadas, mas como mulheres. Isso deve ser explicitado melhor. Eu acho que ainda não se fez uma profunda teologia da mulher na Igreja. Limitamo-nos a dizer que pode fazer isto, pode fazer aquilo, agora faz a coroinha, depois faz a Leitura, é a presidente da Caritas… Mas, há muito mais! É necessário fazer uma profunda teologia da mulher.” Segundo o  porta-voz do Vaticano, “os dois últimos papas têm uma perspectiva muito aberta sobre a realidade da mulher na Igreja. Muito foi feito, mas é necessário entender que ainda há muito a avançar”.

Apóstola dos apóstolos – De acordo com o presidente do Pontifício Conselho da Família, o arcebispo Dom Vincenzo Paglia, não é possível aprofundar uma “teologia da mulher” sem recordar o papel essencial das mulheres na História da Igreja. “Quando se lê a História com profundidade, encontramos algumas mulheres com um papel evidente, mas outras serão descobertas. As mulheres são parte determinante”, defendeu, destacando a história das ordens religiosas femininas. “Houve uma abadessa que tinha poder sobre os padres, mais do que o bispo. A história do monasticismo é exemplar.”

Dom Paglia, um dos entrevistados para o documentário, acredita que a força da mulher na Igreja precise ser redescoberta pelos homens, de modo que elas assumam funções mais decisivas, inclusive na administração eclesiástica. “Não há dúvidas de que seja necessária uma presença maior da mulher nas cúrias, não só na romana.” Porém, ele alerta: é indispensável não perder “a visão do mistério de Deus” ao afrontar o problema. “O poder na Igreja não é parlamentar, econômico, militar… é um poder diferente.” Referindo-se a Maria Madalena, primeira pessoa que encontrou Jesus após a ressurreição, segundo o relato bíblico, e que dá nome ao documentário, disse Dom Paglia: “Devemos redescobrir o significado de Maria Madalena; o que queremos dizer quando a chamamos ‘a apóstola dos apóstolos‘.”

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Bento XVI vive como um monge e reza todos os dias por cristãos do Oriente

Vida de aposentado (com o Arcebispo Georg Gänswein)

Bento XVI ainda é notícia. Durante visita de patriarcas do Oriente, em 29 de novembro, o Papa Emérito revelou que reza todos os dias pelos cristãos que vivem naquela região. O patriarca caldeu e Arcebispo de Bagdá, Dom Raphael Louis Sako, relatou à agência AsiaNews alguns momentos do encontro, que ocorreu no mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, onde Bento XVI decidiu morar após sua aposentadoria.

“Tivemos um encontro amigável. Perguntamos a ele sobre sua saúde e ele nos perguntou sobre o Oriente Médio e a situação dos cristãos orientais”, contou Dom Sako. Segundo ele, os patriarcas brincaram com o Papa Emérito quando o viram: “Santidade, nós viemos do nosso hotel sob chuva, como peregrinos, e por isso merecemos uma bênção especial e uma oração especial pelo Iraque.” Depois disso, Bento XVI teria respondido: “Rezo pelo Iraque, pela Síria e pelo resto do Oriente todos os dias.”

O arcebispo contou, ainda, que convidou o Papa Emérito a visitar o Iraque, mas ele teria recusado o convite, recordando: “Estou ficando velho e sou um monge que decidiu passar o resto de seu tempo em oração e descanso”, relata a AsiaNews. Alguns dias antes, o Papa Francisco teria prometido uma visita ao Iraque, segundo informou o arcebispo à agência asiática.

Um mundo com dois Papas

Para recordar – A última vez em que Bento XVI apareceu em público foi ao lado do Papa Francisco, em julho de 2013, para uma breve cerimônia de consagração da Cidade do Vaticano a São José e São Miguel Arcanjo, com a bênção de uma imagem. Conforme informaram os vaticanistas na época, ele foi convidado pessoalmente por Francisco e, após relutar um pouco, aceitou participar da inauguração da estátua, pois o projeto começou durante seu pontificado.

Mas sua manifestação pública mais recente foi quando, em 24 de setembro, o jornal italiano La Repubblica publicou uma carta-resposta de Bento XVI ao matemático e ensaísta Piergiorgio Odifreddi, que criticou a obra do pontífice emérito sobre a vida de Jesus. No texto, agradeceu a crítica e respondeu aos pontos com os quais discordava. Concentrou-se, portanto, no debate teológico com o autor.

O Papa Emérito, de 86 anos, continua recebendo discretas visitas. O Vaticano procura não falar sobre ele, mas acredita-se que esteja em boas condições de saúde. De qualquer forma, Joseph Ratzinger tem evitado interferir no pontificado de Francisco, como havia anunciado no momento da renúncia. Antes da eleição de Francisco, Bento XVI prometeu obediência ao novo Papa que estava por vir. E, logo no início do pontificado do Papa argentino, observou que “teologicamente” estava de acordo com tudo o que Francisco vinha fazendo. Sobre seu novo estilo de vida, em junho deste ano declarou ao jornalista alemão Manfred Lütz: “Estou bem e vivo como um monge.”

Bento XVI e o então Cardeal Bergoglio, no Brasil

Um mundo com dois Papas – Antes da eleição de Francisco, existia uma grande preocupação entre membros da Igreja e entre a imprensa que acompanha os assuntos do Vaticano a respeito de como seria um mundo com dois Papas. Seriam necessárias novas regras? Novos títulos para o Papa aposentado? Manteria o nome ou voltaria a ser só Joseph Ratzinger? Como ele iria se vestir? Receberia ordens do novo pontífice? Poderia continuar escrevendo livros, dando conferências? Ainda que Bento XVI tenha prometido não intervir, como se sentiria o novo Papa sabendo que seu antecessor ainda estava vivo e presente dentro do Vaticano?

Porém, a situação tem sido muito mais tranquila do que se imaginava. Bento XVI mantém enorme discrição, como anunciado antes. Não aparece sem ser convidado e respeita Francisco desde sempre: “O senhor é o Papa, o senhor é o Papa!”, alertou a Francisco no primeiro encontro dos dois após a eleição, em Castel Gandolfo, quando Bergoglio se recusou a ajoelhar-se em um lugar de honra. Por fim, ajoelhados lado a lado, os dois rezaram juntos.

Por sua vez, Francisco, que já visitou Bento XVI em diversas ocasiões, assumiu com naturalidade que seria pouco inteligente não consultar o Papa Emérito quando necessário. E certamente não avisa antes de telefonar. Afinal, ele é como um “avô sábio”, definiu.

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Cúria Romana deve ser mais aberta para o mundo, diz cardeal indiano

Cardeal Gracias, Arcebispo de Bombay

A reforma da Cúria Romana encomendada pelo Papa Francisco a uma comissão de oito cardeais deve torná-la ainda mais internacional e as decisões para a Igreja Católica serão tomadas de forma mais descentralizada, sinalizou recentemente o cardeal indiano Oswald Gracias, Arcebispo de Bombay e membro da comissão. “A Igreja precisa permanecer acima das nacionalidades e do paroquialismo estreito. Ela precisa ter uma visão global”, declarou o cardeal em entrevista concedida ao jornal Catholic Register, no Canadá.

A comissão nomeada pelo Papa logo após sua eleição, com um cardeal de cada continente, tem o dever de aconselhá-lo na reforma da Cúria Romana. Após uma série de escândalos de corrupção e problemas causados por disputas de poder revelados durante o pontificado de Bento XVI, a Cúria se tornou uma das principais preocupações da Igreja. Cada um dos oito cardeais já se encontrou individualmente com o Papa e, entre 1º e 3 de outubro, eles se reunirão em grupo entre si e com o pontífice.

Internacionalização – “É preciso ter alguma reflexão sobre todo o tema do Vaticano, sobre como torná-lo mais eficiente, torná-lo mais assistencial ao Santo Padre e torná-lo mais assistencial à Igreja”, comentou o cardeal Gracias ao jornal. Desde seu surgimento, no século XI, a Cúria tem a missão de auxiliar o sumo-pontífice a exercer o seu ministério e ao longo da História diversas reformas foram realizadas, adaptando-a à realidade do momento.

O cardeal indiano acrescentou que atualmente prevalecem na Cúria oficiais de nacionalidade italiana, o que tem sido alvo de críticas. “A Igreja é universal.” Mas, segundo ele, não se trata só de distribuir melhor as funções políticas a diferentes países.

“A perspectiva do Papa Francisco é de que a Igreja precisa prestar um serviço para o mundo. Se você quiser prestar serviço para o mundo, precisa estar lá fora, onde o mundo está. O centro de gravidade está sempre se mudando. A Igreja precisa estar disponível”, avalia, explicando que neste momento a Ásia precisa de maior atenção, pois é onde 60% da população mundial vive, a economia cresce rapidamente e a cultura está mudando de forma imprevisível – conforme relata o Catholic Register.

Descentralização – Gracias entende, ainda, que essa abertura maior da Cúria para o mundo implica atribuir maiores responsabilidades às conferências episcopais de cada região ou país. “Se vamos assumir mais responsabilidade, temos de ser mais responsáveis, prestar mais contas, ser mais conscientes. Neste momento é muito confortável porque sabemos que tudo tem de ser checado duas vezes. Por isso não somos assim tão sérios”, explicou ele, que é presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Índia.

A internacionalização e a descentralização da Cúria Romana não são propostas novas, pois já vêm desde o Concílio Vaticano II, no pontificado do Papa Paulo VI. Com o decreto Christus Dominus (1965) ele atendeu ao pedido dos padres do Concílio e abriu a Cúria para mais membros e oficiais de outras nacionalidades que não a italiana. Também fortaleceu o relacionamento dos bispos diocesanos com os dicastérios (espécie de Ministérios do Vaticano) e aumentou sua presença nas decisões da Cúria. Porém, as propostas do Concílio ainda não foram aplicadas plenamente. Como disse o próprio Papa Francisco quando esteve no Brasil, “a Igreja sempre precisa ser reformada”.

Burocracia – Há pouco mais de um mês, também o cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodríguez, presidente da comissão de “reformadores” da Cúria Romana, concedeu entrevista ao jornal argentino La Nación e disse que um dos principais problemas atuais é o excesso de burocracia. “Não se podem tomar decisões com a rapidez necessária”, admitiu. “Com o passar do tempo a Cúria foi se formando como um reino antigo e tudo isso não fala muito ao mundo de hoje.” Segundo ele, provavelmente será necessário eliminar estruturas inúteis. “A Cúria cresceu muito e existe muita burocracia. Isso precisa ser corrigido.”

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