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Uma geral sobre a renúncia do Papa, o conclave e os problemas na Igreja

papa-bento-XVI-233Como era de se esperar, a renúncia do Papa Bento XVI tem provocado muita especulação. Queremos neste post tentar organizar um pouco certas ideias e, sem grandes pretensões, na medida do possível, formar uma base para que o leitor possa pensar melhor sobre o que está acontecendo, num momento tão único e delicado para a Igreja Católica.

Como dizemos na descrição deste blog, o mundo é mais complexo do que gostaríamos. Nem tudo são flores, mas tampouco é o fim do mundo ou da Igreja – pelo contrário. O post está longo, porque o tema é grande. Por isso, dividimos o texto em 5 tópicos curtos, para facilitar sua leitura:

A RENÚNCIA – O que vimos foi um fato histórico: a última vez que um Papa renunciou foi há quase 600 anos. E, como todo fato histórico, não aconteceu de uma hora para outra. Foi uma decisão pessoal e livre. Evidência: como já havíamos dito em março de 2012, a saúde de Bento XVI é frágil e ele, que tem 85 anos, há muito tempo considerava essa possibilidade. Bento XVI disse há mais de dois anos que não hesitaria em fazê-lo caso não se sentisse em condições “físicas, psicológicas e espirituais” para ser Papa. Ele governará a Igreja até as 20 horas de 28 de fevereiro de 2013.

Agora, duas semanas após o anúncio, ficou mais claro que nenhum fato específico levou o Papa à decisão, mas sim toda uma conjuntura, uma série de fatores, que aos poucos o fizeram perceber que o “ministério petrino” (referência ao apóstolo Pedro) se tornou pesado demais. Entre eles: a rotina intensa de reuniões, celebrações, viagens longas, preparação de documentos, nomeações, aparições públicas, etc; os grandes desafios que a Igreja enfrenta no mundo, como a secularização, o distanciamento dos jovens, o crescimento dos grupos evangélicos, dificuldades no diálogo com outras religiões; e os recentes escândalos, como a divulgação de documentos sigilosos (VatiLeaks), a corrupção em obras da Igreja, a pedofilia praticada por membros do clero, as disputas de poder na Cúria Romana…

imageangelos873Para lidar com tudo isso, “é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”, afirmou Bento XVI no momento da renúncia. Ou seja, não foi só o cansaço físico, nem só problemas de saúde, nem só os escândalos, nem só disputas de poder. O Papa está ciente de que a Igreja precisa de um líder com mais disposição e mais força para enfrentar todos esses grandes desafios, que vão da Nova Evangelização até os problemas estruturais. Enfim, Bento XVI afirmou na Quarta-Feira de Cinzas que a Igreja precisa ser “verdadeiramente renovada”.

Fato é que a renúncia abre um precedente histórico, segundo o vaticanista italiano Andrea Tornielli (leia mais aqui). Outros haviam pensado em renunciar no passado – como João Paulo II, por exemplo – mas nunca o fizeram porque temiam que o papado pudesse perder força, como instituição. Temiam ser mal interpretados e abrir as portas para outras renúncias inadequadas ou até golpes contra o sumo-pontífice. Mas, consciente de que não seria mais de capaz de responder à altura a necessidades urgentes, Bento XVI renunciou “para o bem da Igreja”. Para os próximos Papas, certamente fica mais fácil fazer o mesmo se for preciso.  Não se sabe que efeitos isso terá no futuro, mas sabe-se que Bento XVI reagiu de forma corajosa e nova, num mundo que exige respostas novas a problemas novos.

Outros Papas idosos também cogitaram renunciar

Outros Papas também cogitaram renunciar

DIVISÕES NA IGREJA – Já mencionamos alguns dos principais desafios da Igreja atualmente. Mas um dos problemas sobre os quais mais se falam por aí são as disputas internas. Como já dissemos, elas são relevantes, mas não são a única causa para a renúncia.

De qualquer forma, basta observar as mensagens do Papa Bento XVI nas últimas semanas de pontificado para ver que esse problema não é para ser ignorado, nem por seu sucessor nem pela sociedade. Numa mensagem para todos os fiéis do mundo, ele criticou o que chamou de “hipocrisia religiosa” e a instrumentalização da fé para benefício pessoal, praticadas por alguns membros do clero. São essas algumas de suas maiores preocupações.

Por quê? Porque Bento XVI tentou fazer grandes reformas na estrutura e na administração da Igreja e, de fato, conseguiu melhorar muita coisa. As maiores delas foram a criação de padrões para combater a pedofilia e uma mudança de comportamento em relação ao problema. Existem documentos claros sobre como evitar e agir nessas situações, como atender as vítimas, etc. Também foi ele quem começou a reformar o sistema financeiro do Vaticano, adaptando-o aos padrões internacionais – reforma importantíssima sobre a qual já falamos detalhadamente (Leia mais).

Porém, em ambos os casos há muita coisa ainda só no papel. Quando se fala em mexer em estruturas antigas e consolidadas, é previsto que exista forte resistência interna. Portanto, o Papa fez o que podia fazer e preferiu deixar o caminho livre para alguém com mais vigor, inclusive politicamente. Com sua saída, um governo novo pode chegar, possibilitando melhorias mais radicais.

INVESTIGAÇÃO VATILEAKS – Outro assunto importante que está circulando hoje diz respeito à comissão de cardeais que investigou o vazamento de documentos sigilosos do Papa e do Vaticano, nomeada por Bento XVI. Esses cardeais se reuniram com o Papa e ficou decidido que o relatório final da investigação, sigiloso, não será divulgado aos cardeais eleitores, mas apenas ao novo pontífice. A imprensa italiana – mais especificamente a revista Panorama e o jornal La Reppublica – publicaram fortes reportagens sobre esse assunto nas últimas semanas, dizendo que o conteúdo dos documentos envolve problemas como corrupção e prostituição praticadas por membros da Cúria Romana. Bento XVI e os cardeais da comissão, conscientes da complexidade do problema e de que não dá para resolver só com documentos, decidiram que somente um novo Papa terá os instrumentos necessários para resolver tudo isso. 

downloadconclave333CONCLAVE – Nesse grande contexto, ainda não se sabe ao certo o que os cardeais eleitores querem para o futuro da Igreja. Agora eles são 116, depois da desistência de um cardeal indonésio, por doença, e da renúncia de um cardeal inglês, por ter supostamente mantido relações pessoais inapropriadas. De qualquer forma, o que se fala em Roma é que muito provavelmente o próximo Papa será um sexagenário ou, no máximo, alguém que está na casa dos 70 anos. Afinal, não faria muito sentido eleger um Papa muito velho depois da renúncia de um Papa idoso.

A grande notícia hoje foi o fato de que Bento XVI mudou algumas regras para o conclave, reunião em que se elege o novo Papa. Ele deixou aberta a opção para que os cardeais decidam se querem antecipar ou não o início da votação. De acordo com a norma anterior, elaborada por João Paulo II em 1996, o conclave só poderia começar depois de 15 dias do início da chamada sede vacante, isto é, o período em que não se tem um Papa e a Igreja é governada pelo colégio de cardeais. O objetivo da regra original era permitir que todos os cardeais pudessem chegar a Roma em tempo para a votação.

Alguns cardeais preferem iniciar logo o conclave, já no início de março, considerando que desta vez não houve a morte de um Papa e, portanto, todos os eleitores já sabem há duas semanas que terão de estar em Roma. Assim, haveria um Papa novo antes da Páscoa. Tampouco há necessidade de realizar funerais, pois o antigo Papa está vivo. Por outro lado, outros cardeais querem chegar a Roma com calma e ter tempo de conversar com todo mundo, ver o que está acontecendo e o que os outros acham. Temem que apressar o conclave possa favorecer a eleição de “nomes prontos”, ou seja, uma eleição com pouca reflexão, meio no piloto automático, que acabaria levando ao trono de bate e pronto um dos favoritos ao papado. Talvez encontrem um meio termo nessa questão do tempo.

A IMPRENSA –  Realmente alguns representantes da imprensa internacional estão exagerando na especulação neste momento  – esquecendo princípios básicos do jornalismo – e aproveitando a chance para mostrar todos os problemas da Igreja. Vale lembrar também que grandes veículos de comunicação têm lá seus grandes proprietários com seus grandes objetivos.

A imprensa, que atualmente funciona a mil quilômetros por hora, com poucos recursos e jornalistas muitas vezes mal informados, quer a cada segundo revelar algo novo. Acaba se esbaforindo e deixando de lado o compromisso de se ater aos fatos, e não aos boatos, às intrigas internas, às fontes duvidosas.

Por outro lado, também a Igreja, como instituição, ainda não aprendeu a lidar com um mundo em que a informação corre rapidamente e onde, se a informação não for divulgada por vias oficiais, pode acabar sendo divulgada por vias paralelas.

images-salastampaExemplo: coisas aparentemente pequenas, como a cirurgia de rotina que Bento XVI fez no coração para trocar a bateria de seu marca passo, viraram grandes especulações internacionais porque o Vaticano não divulgou essa informação no momento oportuno, há meses.

Enfim, temos aí uma relação delicada entre duas instituições que veem o mundo de forma totalmente diversa. A Igreja, busca uma visão mais intelectual, refletida, espiritual, organizada e lenta; a Imprensa quer uma visão mais materialista, prática, objetiva, quantificada, secular e rápida. Esse descompasso não é novo e ainda vai dar muito problema no futuro.

De qualquer forma, apesar de todos os problemas e especulações aparentemente negativas com relação à Igreja, o momento pode ser altamente favorável. Se os cardeais eleitores souberem aproveitar os limões para fazer limonada, uma grande mudança positiva para a Igreja e para o mundo pode estar por vir. A Igreja tem uma chance única de iniciar novas reformas estruturais com um novo pontificado mais moderno na forma – já sobre o conteúdo não cabe a nós discutir aqui, mas aos filósofos, teólogos, religiosos, etc.

Talvez seja a hora de aparecer um líder com experiência administrativa e pastoral. Talvez alguém com um olhar  diferente, moderno, com soluções inovadoras e criativas. Talvez.

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Quem elege o novo Papa?

Todos os cardeais com menos de 80 anos podem votar no conclave que elegerá o novo Papa. Após a renúncia de Bento XVI, que será oficializada no dia 28 de fevereiro de 2013, às 20 horas, começa a chamada “sede vacante”, período em que a Igreja fica sem um Papa. A partir daí, convoca-se o conclave para escolher o novo “sucessor do apóstolo Pedro”.

Atualmente, são 117 os cardeais habilitados a participar do conclave (cinco brasileiros). Mas o número pode aumentar, caso o Papa Bento XVI anuncie a criação de novos cardeais ainda nesta semana – entre eles há grandes chances de entrar o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, já que o emérito Dom Eusébio Scheid atingiu a idade limite.

Segue abaixo a lista com todos eles – que pegamos no facebook da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Teoricamente, qualquer um pode ser eleito, mas nos últimos 600 anos mais ou menos, os cardeais sempre escolheram entre eles o novo Papa. Muito provavelmente será um dos nomes abaixo. Clique nas imagens para ampliar.

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Importante relatório detalha problemas e avanços nas finanças do Vaticano

Um importante relatório sobre as finanças do Vaticano elaborado pelo Comitê de Especialistas em Avaliação de Medidas Anti-Lavagem de Dinheiro e Financiamento do Terrorismo (Moneyval) foi divulgado na metade de julho e mal discutido na imprensa internacional.

Neste post, queremos apresentar um pouco do que diz esse documento, uma das mais relevantes análises sobre a Santa Sé dos últimos tempos. Queríamos tratar do relatório na ocasião do lançamento, mas ele é meio complicado e demandou um certo tempo. O texto tem mais de 240 páginas.

Primeiro, vamos explicar o que é o Moneyval e o motivo desse relatório. Quem quiser pular essa parte pode ir direto para os resultados, logo abaixo.

CONTEXTO – O Moneyval é uma agência do Conselho Europeu que se dedica a combater a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo em seus países membros, entre os quais está a Santa Sé. Para quem não sabe, segundo o Moneyval, lavagem de dinheiro é o processo por meio do qual criminosos atribuem uma origem aparentemente legítima a um dinheiro obtido  com o crime. É um “fenômeno internacional cada vez mais comum e pode afetar principalmente economias que passam por transformações ou que oferecem significativas oportunidades para o investimento estrangeiro”.

O porquê desse relatório: Depois de uma série de escândalos sobre as finanças do Vaticano ao longo das últimas décadas – sobre os quais falamos neste post que trata da nova lei financeira da Santa Sé – , o Papa Bento XVI resolveu que chegou a hora de o Vaticano se adaptar aos padrões internacionais de transparência e regulação financeira.

Por meio do Secretário de Estado do Vaticano,  Cardeal Tarcisio Bertone, Bento XVI solicitou em fevereiro de 2011 que o Moneyval fizesse uma análise detalhada das finanças da Santa Sé e da Cidade do Vaticano. A avaliação se baseou nas leis, regulações e outros materiais apresentados pela Santa Sé, além de informações obtidas pelo Moneyval em visitas ao Vaticano entre 20 e 26 de novembro de 2011 e de 14 a 16 de março de 2012.

Para não enrolar demais, podemos dizer que o relatório descreve e analisa medidas adotadas pela Santa Sé para adequar suas finanças às principais determinações da Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF), uma organização intergovernamental que envolve vários países. Enfim, o documento “descreve e analisa essas medidas e oferece recomendações sobre como certos aspectos do sistema podem ser fortalecidos”, afirma o Moneyval.

RESULTADOS – O relatório faz um verdadeiro raio-x sobre a economia do menor país do mundo. Por exemplo: recorda que no Vaticano não há uma economia de mercado, isto é, os agentes econômicos (famílias, empresas e governo) não estão livres. No Vaticano, não há negócios independentes e, em vez disso, há um regime de monopólio público nos setores financeiro, econômico e profissional. “Por isso, as autoridades consideram que a ameaça de lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo são muito baixas“, diz o texto. “No entanto, nenhuma avaliação de risco havia sido feita até então.”

Sendo assim, os avaliadores encontraram características que podem aumentar a possibilidade de que esses crimes ocorram, como: a movimentação de altos volumes em dinheiro e eletronicamente; a disseminação global de suas atividades financeiras; e a disponibilidade limitada de informações sobre as organizações sem fins lucrativos que operam na Santa Sé e na Cidade do Vaticano. O Moneyval considerou como instituições financeiras o Instituto para as Obras Religiosas (IOR, o chamado “Banco do Vaticano”) e Administração do Patrimônio da  Sé Apostólica (APSA).

Das principais descobertas do Moneyval, destacamos algumas. A primeira é o fato de que o Vaticano avançou rapidamente na adoção de medidas necessárias para evitar a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, de acordo com o Moneyval.

Entre os avanços, estão a nova lei de combate à lavagem de dinheiro decretada pelo Papa Bento XVI e a criação da Autoridade de Informações Financeiras (AIF), unidade de inteligência e supervisão. A agência observa, ainda, que a lavagem de dinheiro foi criminalizada na Vaticano como pedem os padrões internacionais, mas ainda não é possível saber se a aplicação das normas é eficiente, pois não houve nenhum caso de investigação desde as mudanças.

Mas o Moneyval pondera que os passos dados até então são insuficientes. Sobre a recém-criada AIF, afirma que “parece haver uma falta de clareza sobre o papel, a responsabilidade, a autoridade, os poderes e a independência da AIF como supervisora”. O Moneyval recomenda também um maior rigor no monitoramento e no controle das relações comerciais e transações.

E mais. Diz que o Banco do Vaticano precisa definir em estatuto quais são as categorias de pessoas que podem manter uma conta e sugere que o banco seja supervisionado por uma entidade independente (supomos que se refira a uma auditoria ou uma agência de classificação de risco), o que não acontece hoje.

Monsenhor Ettore Balestrero

Além disso, o Moneyval critica a ausência de reguladores para as movimentações financeiras das obras sem fins lucrativos. Outra debilidade apontada é o sistema de registro de transações financeiras suspeitas, mesmo numa economia relativamente pequena. “A eficiência do sistema de registros é questionável”, diz o documento.

O Vaticano ficou satisfeito com o relatório. “Demos um passo definitivo lançando os alicerces de uma ‘casa’. Agora queremos construir um ‘edifício’ que demonstre a vontade da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano de ser um ‘companheiro’ confiável na comunidade internacional”, afirmou à imprensa o subsecretário para as Relações com os Estados da Secretaria de Estado do Vaticano, Monsenhor Ettore Balestrero.

SEM PRECEDENTES – Percebe-se, portanto, importantes observações feitas pelo Moneyval. O vaticanista italiano Sandro Magister, do L’Espresso, identificou nos resultados do relatório um avanço sem precendentes. “Pela primeira vez, a Santa Sé submeteu os seus institutos e as suas leis ao juizo de um árbitro externo, internacional. Pela primeira vez, se deixou atribuir uma opinião e recebeu as tarefas de uma autoridade secular”, comentou.

Magister avalia, ainda, que a presença do Moneyval dentro do Vaticano nos obriga “mais uma vez a reescrever o perfil convencional do Papa Bento XVI”. Segundo o jornalista, “o professor de teologia se revelou no momento um homem de governo inflexível. Deu a ordem de que no campo financeiro tudo seja feito (de forma) transparente e exemplar, mesmo à custa de fazer explodir dentro dos muros do Vaticano uma dureza sem precedentes. E assim foi”.

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Mais documentos secretos vazam e ‘VatiLeaks’ começa a irritar o Vaticano

O jornalista Gianluigi Nuzzi

Uma nova onda de vazamentos de documentos sigilosos mexeu com o Vaticano nesta semana, em mais um capítulo da novela sem precedentes que vem sendo chamada de “VatiLeaks” – uma referência ao site Wikileaks, que divulgava documentos e arquivos sigilosos de vários governos e embaixadas do mundo.

Desta vez, notas, relatórios e cartas destinados ao Papa Bento XVI ou escritos por ele foram publicadas pelo jornalista Gianluigi Nuzzi no livro “Sua Santità”. E o pessoal do Vaticano ficou aparentemente mais irritado agora do que nas outras vezes. A sensação é de que eles estão achando que isso já foi longe demais.

Vários documentos foram vazados recentemente, por etapas, e até o momento não se sabe ao certo o motivo. O primeiro deles foi uma carta enviada ao Papa pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, nas quais reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o Secretário de Estado. Para recordar, recomendo o nosso post “Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano”.

Não lemos o livro de Nuzzi, mas no lançamento do livro ele afirmou quehá uma vontade de limpeza” no Vaticano e por isso seus  informantes lhe repassaram documentos. Ele acrescentou que se trata apenas de um trabalho investigativo e de “documentação”, pois seu livro não é “contra a Igreja, nem a fé, nem o Santo Padre”. Ele disse, ainda, que todos os seus informantes “confiam no Santo Padre” e que por isso “sentem ter violado a obrigação de manter segredo”, mas querem “expulsar os mercadores do templo”.

Até o lançamento do livro de Nuzzi, que também publicou outros documentos vazados no jornal italiano Libero, o Vaticano vinha respondendo mais com ações do que com palavras. No fim de abril, o Papa criou uma comissão de cardeais para investigar os vazamentos de documentos sigilosos. O Vaticano também buscou a Justiça para protestar contra a publicação de dados secretos.

No entanto, o livro mostrou que o problema é maior, pelo simples fato de que os documentos não param de vazar.  O mais grave dessa história toda não é tanto o conteúdo dos vazamentos, mas sim o fato de tais registros terem vazado. Agora, revelou-se por exemplo o conteúdo das conversas de um almoço do Papa com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, além de outras discussões, que não vamos detalhar aqui. Há relatórios do Vaticano sobre políticos e acontecimentos, destinados a Bento XVI.

Em nota, a Santa Sé repudiou a divulgação de informações sigilosas e disse que vai tomar as providências legais para que o livro de Nuzzi saia de circulação. “A nova publicação de documentos da Santa Sé e de documentos privados do Santo Padre não se apresenta mais como uma discutível – e obviamente difamatória – iniciativa jornalística, mas assume claramente os caráteres de um ato criminoso“, afirmou, acrescentando que foi violado o direito pessoal de privacidade do Papa e de seus colaboradores, assim como a liberdade de correspondência.

A Santa Sé dará “os passos oportunos a fim de que os autores do furto, da receptação e da divulgação de notícias secretas, além do uso comercial de documentos privados, obtidos e retidos ilegitimamente , respondam por seus atos perante a Justiça”. O Vaticano deve, inclusive, pedir a colaboração da Itália para impedir a disseminação de documentos, já que o livro de Nuzzi e a imprensa italiana são os principais divulgadores.

Cardeal Tarcisio Bertone, possível alvo dos VatiLeaks

Até agora, podemos tirar algumas conclusões. A primeira delas é a de que alguém está furtando ou interceptando documentos dentro do Vaticano e levando a público. E quem faz isso, faz com algum objetivo, que até o momento não se sabe qual é – talvez seja prejudicar o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano. De qualquer forma, o vaticanista Andrea Tornielli duvida que tudo seja apenas uma forma de pedir mais “transparência”.

A segunda é a de que a comissão de cardeais recém-implantada ainda está longe de chegar a algum resultado concreto sobre quem é que está fazendo isso. A terceira é a de que o Vaticano ainda precisa avançar muito em transparência e no cuidado dos documentos sigilosos para evitar que novos vazamentos ocorram. Será que ainda tem mais coisa para ser divulgada nessa série?

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Entenda o ‘VatiLeaks’, vazamento de documentos secretos do Vaticano

Bento XVI com o cardeal Bertone

Uma série de documentos secretos do Vaticano vem sendo divulgada há cerca de um mês para a imprensa italiana, causando repercussão internacional. Esse movimento, que ficou conhecido como “VatiLeaks” – uma referência ao site Wikileaks, que divulgou documentos secretos de diversos países, principalmente dos Estados Unidos – envolve relatos sigilosos de autoridades, cartas, comunicações e decisões, cuja autenticidade não é questionada. Sua revelação coloca o Vaticano numa “maré política”, digamos assim, bastante desfavorável. Tanto é que o jornal do Vaticano L’Osservatore Romano chamou de “lobos”, em um editorial, os responsáveis pela divulgação irregular desses documentos. Vamos tentar resumir essa história toda neste post.

Trata-se de um problema bastante delicado, do qual não queremos tirar conclusões próprias. Portanto, recorremos a um texto do jornalista John Allen Jr, um dos principais e mais renomados vaticanistas, para explicar o que parece estar acontecendo na Cúria Romana. A percepção que se tem é de que alguma pessoa interna do Vaticano – um funcionário ou até mesmo alguém do alto escalão, como um cardeal – está liberando cópias de tais documentos secretos. Allen explica que “este é um estranho caso em que o problema real não é tanto o conteúdo dos vazamentos”, mas o próprio fato de os documentos terem vazado.

São seis as principais questões reveladas até o momento:

1) Cartas escritas pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, atual núncio apostólico (embaixador) nos Estados Unidos, destinadas ao Papa Bento XVI e ao secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarciso Bertone. Nelas, Viganò reclama da corrupção nas finanças do Vaticano quando ele mesmo era o secretário de Estado. Também alerta para a “campanha” interna para difamá-lo;

2) Um memorando anônimo escrito sobre a nova lei contra lavagem de dinheiro no Vaticano, sugerindo que ela contém gargalos enormes;

3) Documentos que alimentam as acusações contra o Instituto para as Obras Religiosas (conhecido por aí como “Banco do Vaticano”), que teria transferido milhões de euros para bancos estrangeiros num movimento de evasão de divisas para escapar da fiscalização italiana;

4) Outro documento anônimo, em alemão, descrevendo uma conversa do cardeal Paolo Romeo, de Palermo (Itália), supostamente prevendo, em viagem à China, que o Papa morreria em 12 meses e seria substituído pelo cardeal Angelo Scola, de Milão (Itália). Esse documento foi repassado para o Papa pelo cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, já aposentado;

5) Dois memorandos internos alertando sobre modificações recentes nas leis de lavagem de dinheiro do Vaticano, um deles escrito pelo cardeal Attillio Nicora, que lidera a nova agência de supervisão financeira. As mudanças seriam um retrocesso e poderiam “alarmar” organismos internacionais de regulação;

6) Duas cartas confidenciais documentando um esforço fracassado do cardeal Tarciso Bertone de passar para o Vaticano o controle de uma importante universidade católica italiana e seu sistema de hospitais, em Milão. Na carta endereçada ao então cardeal-arcebispo Dionigi Tettamanzi, Bertone lhe exigia que renunciasse à presidência do instituto Sagrado Coração e nomeasse um sucessor escolhido pelo secretário de Estado.

O vaticanista Allen explica que nenhum desses casos parece ser “fatal”. Boa parte deles foi esclarecida pelo Vaticano em pronunciamentos pontuais. Mas há sim sérias implicações a serem avaliadas: internamente, é possível que os bispos e autoridades fiquem mais cautelosos e receosos em dialogar com o Vaticano antes de tomar decisões, temendo ter seus documentos vazados. Externamente, diz Allen, passa-se a imagem de que os homens da Igreja estão sempre se apunhalando pelas costas – o que dificulta a divulgação de “boas” notícias, como o primeiro simpósio contra abusos sexuais realizado pela Igreja em Roma, os grandes esforços de transparência financeira do Vaticano e o projeto de “nova evangelização” de Bento XVI.

Alguns observadores acreditam que o objetivo dos vazamentos seria atingir indiretamente o cardeal Bertone, homem de confiança do Papa, mas que alguns consideram um mau administrador (e que também tem lá seus rivais políticos). Contudo, é de se questionar a eficiência dessa estratégia, pois quem escolhe o secretário de Estado no fim das contas é o Papa. Outros dizem que o objetivo seria atingir o próprio Papa, que estaria muito ocupado com questões teológicas e filosóficas e por isso estaria delegando demais a administração do Vaticano – além da idade avançada. Nesse caso, o VatiLeaks prepararia o terreno para um novo Papa mais “gerente”.

Pe. Lombardi, porta-voz do Vaticano

Vale lembrar que o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, se pronunciou sobre os vazamentos e disse que a Santa Sé está comprometida com a “autêntica transparência” de sua governança. Ele afirmou também que os documentos divulgados recentemente não podem ser tratados como se fossem todos uma coisa só. Cada caso é um caso, com sua devida importância (ou falta de). Aquele que fala da morte do Papa em 12 meses, por exemplo, foi tratado como uma piada. (De fato, imagino eu quantas ameaças de morte um Papa deve receber por dia.) Segundo Lombardi, os vazamentos são um incentivo para mais reformas na Igreja.

Bento XVI também se pronunciou sobre o problema, embora indiretamente. Em encontro com os seminaristas de Roma, em fevereiro, o Papa disse que muitas coisas têm sido faladas sobre a Igreja de Roma e acrescentou: “Esperemos que se fale também da nossa fé.”

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