Arquivo da tag: bispos

A queda do número de católicos no Brasil e a tal ‘nova evangelização’

O noticiário destacou hoje a queda do número de brasileiros que se declaram católicos, de acordo com dados do Censo de 2010, realizado pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dez anos, a proporção de católicos no Brasil caiu de 73,6% da população para 64,6%. Enquanto isso, cresce o número de evangélicos, que cada vez mais se espalham por diferentes e novas igrejas.

Não há como negar que a queda é expressiva. E a primeira questão que se levanta é, por que isso acontece? Alguns atribuem  o fato à lentidão da Igreja Católica em aceitar as mudanças do mundo, especialmente no que diz respeito às questões sexuais, reprodutivas e familiares.

Outros dizem que não é isso o que afasta as pessoas da Igreja e de Deus, mas sim uma questão social e cultural, pois a religião como um todo está perdendo espaço na vida das pessoas para outras atividades com as quais passaram a ocupar mais tempo e a dar mais importância, como o trabalho, o estudo, o lazer, etc. Sendo assim, não só o catolicismo seria afetado, mas também outras religiões. Em outras palavras, no mundo atual, muitas vezes as pessoas sentem menos necessidade da religião.

A resposta oficial da Igreja no Brasil aos dados do IBGE foi dada hoje pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Declarou que, embora o número de pessoas que se dizem católicas tenha caído, cresce o número de padres e paróquias, o que, em sua visão, mostra que a Igreja está “viva” no país – que é o mais católico do mundo e cuja população é predominantemente católica.

Vale recordar os dados globais, que foram divulgados no Anuário Pontifício de 2012 – sobre o qual fizemos uma breve análise neste blog. Naquela ocasião, percebemos que, globalmente, o número de católicos cresce proporcionalmente ao aumento da população global. Ou seja, numericamente, estão elas por elas.

Porém, a Igreja está no mínimo atenta a essas mudanças. Quando esteve no Brasil, em 2007, o Papa Bento XVI afirmou na sessão inaugural da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe (Celam): “Observa-se uma certa debilitação da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria pertença à Igreja Católica devido ao secularismo, hedonismo, indiferentismo e proselitismo de numerosas seitas, de religiões animistas e de novas expressões pseudo-religiosas.”

Bento XVI com bispos em Aparecida (SP)

Não é à toa a iniciativa de Bento XVI de promover um processo de “nova evangelização“, defendido já por João Paulo II. Segundo Bento XVI, é preciso mudar a forma de transmitir a mensagem deixada por Jesus Cristo, levando-a a novos lugares e retomando-a firmemente em regiões onde ela está se perdendo. Nos países desenvolvidos, avalia o Papa, “o bem-estar econômico e o consumismo, embora misturado com tremendas situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem viver ‘como se Deus não existisse'”.

O documento preparatório para o Sínodo dos Bispos, quando se discutirá a “nova evangelização”, em outubro de 2012, reconhece a necessidade de que a Igreja “recomece sempre por se evangelizar a si mesma”. Diz ainda: “Nova evangelização significa dar resposta adequada aos sinais dos tempos, às necessidades dos homens e dos povos de hoje, aos novos cenários que mostram a cultura por meio da qual exprimimos a nossa identidade e procuramos o sentido da nossa existência“.

Os números divulgados hoje pelo Censo não são, portanto, nenhuma surpresa para a Igreja Católica. Mas chamam a atenção porque colocam a olhos vistos o que já era sabido: que, se o objetivo é disseminar uma determinada mensagem, os métodos usados atualmente não estão sendo suficientes.

1 comentário

Arquivado em Cristianismo, Igreja no Brasil, Outras crenças

A nova posição de Obama sobre o casamento gay e a reação dos bispos

Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez uma declaração histórica na rede de televisão americana ABC dizendo ser favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Imediatamente, os bispos católicos do país e outros grupos da sociedade reagiram, bem ou mal.

Vamos ver aqui o que disse Obama, em que contexto, e o que disseram alguns bispos. Antes de mais nada, recordamos que o objetivo deste blog de jornalismo religioso não é se posicionar contra ou a favor disso ou daquilo, mas apenas relatar o que aconteceu. Então vamos lá.

A declaração de Obama foi histórica porque ele se tornou o primeiro presidente americano a se posicionar nesse sentido. Grupos de defesa dos direitos dos homossexuais fizeram as pazes com Barack Obama, que na campanha eleitoral de 2008 havia se mostrado veementemente contra o chamado “casamento gay”. Naquela ocasião, Barack Obama afirmou: “Acredito que o casamento é a união entre um homem e uma mulher e, para mim, como cristão, também é uma união sagrada.”

Agora, o presidente dos Estados Unidos mudou de ideia. Disse que, depois de conversar com amigos, parentes e vizinhos percebeu que há muitas pessoas “em relações monogâmicas homossexuais, que estão criando crianças juntos”. Declarou Obama: “Eu chego à conclusão de que, para mim, pessoalmente, é importante seguir e afirmar que casais do mesmo sexo devem poder se casar.” Entretanto, ele deixou claro que cada Estado americano deve avaliar essa questão e ter a sua própria lei.

Analistas políticos dizem que, em 2008, quando Obama (Partido Democrata) era oposição e disputava contra o senador John McCain (Partido Republicano), precisava do apoio dos grupos chamados “mais conservadores” (já disse que não gosto dessas definições “progressista”, “conservador”, porque não explicam nada, mas lá eles falam assim, paciência). Muitos cristãos e especialmente os católicos, muitos deles latinos, votaram em Obama com gosto – não só por isso, claro, mas também por isso.

Pesquisas mostram que atualmente metade da população aprova leis que liberam o “casamento gay” e metade não aprova. Assim, ao se declarar a favor, Obama assumiu uma postura política arriscada. Embora possa se aproximar de grupos que cada vez mais ganham força política no país, como os homossexuais, pode acabar se afastando de outros grupos mais tradicionais – que debandariam para o lado da oposição, o Partido Republicano, “mais conservador”.

Mitt Romney, provável adversário de Obama

Os que apoiam Obama dizem que ele foi corajoso ao afirmar publicamente, em pleno ano eleitoral, o que realmente acha. Além disso, acreditam que a sociedade já não leva em consideração essas questões na hora de votar, separando-as da política partidária. Entendem que o país evoluiu e deve dar direitos iguais a todos.

Os que são contrários a Obama dizem que ele só está sendo político, querendo se aproximar mais da parcela da população que se afastou e que de qualquer forma não votaria em Mitt Romney (provável candidato Republicano). Também acusam Obama de querer desviar o debate dos verdadeiros problemas do país, como a economia, que vai bem mal. Vale lembrar que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos.

Mas os bispos católicos dos Estados Unidos não querem saber se a nova posição de Obama é uma convicção real ou apenas uma manobra política. Para eles, Obama vem traindo a confiança daqueles que votaram nele lá atrás. E a relação entre os bispos e Obama já estava estremecida por causa das mudanças na política de saúde pública, conforme relatamos há um tempo, neste post aqui.

O presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, de Nova York, disse que os comentários de Obama “apoiando a redefinição do casamento são profundamente entristecedores”.

Cardeal de Nova York, Timothy Dolan

Ele afirmou que os bispos católicos se unem ao presidente e ao governo sempre que adotam medidas que fortalecem o casamento e a família, mas, desta vez, as palavras de Obama “enfraquecem a instituição do casamento, a principal pedra angular de nossa sociedade”. Dolan acrescentou que reza por Obama todos os dias: “E continuarei rezando para que ele e sua administração ajam de forma justa para apoiar e proteger o casamento como uma união de um homem e uma mulher.”

Outro bispo que se manifestou sobre o tema foi Dom Salvatore Cordileone, da Diocese de Oakland (Califórnia), presidente do Subcomitê para Promoção e Defesa do Casamento da USCCB. Mas ele veio a público para falar sobre uma emenda na lei no Estado da Carolina do Norte, que proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Segundo Cordileone, a decisão reafirma “o sentido autêntico e perene do casamento”. Aderiram a ele os bispos Dom Michael Burbidge, de Raleigh, e Dom Peter Jugis, de Charlotte, todos do mesmo Estado.

Dom Cordileone, de Oakland

“Espero que o presidente Obama também reconheça o papel essencial (do casamento entre um homem e uma mulher para o bem comum). Esta não é uma questão partidária”, comentou o bispo de Oakland. Para ele, toda criança tem o direito básico de ser bem-vinda e criada por uma mãe e um pai.

Em resposta a Obama, o pré-candidato Mitt Romney reafirmou sua posição contrária ao “casamento gay”. Mas nem por isso já tem o apoio dos bispos. Ainda é preciso acompanhar mais a campanha.

Vale lembrar que, nos Estados Unidos, cada Estado tem autonomia para decidir sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 31 deles, a prática é ilegal e em 7 é permitida pela Lei.

3 Comentários

Arquivado em Igreja no Mundo, Outras crenças

Pergunta: O que é um diácono? Para que ele serve?

Imposição das mãos em ordenação diaconal

Às vezes as pessoas esbarram por aí com um diácono e o confundem com um padre. Muitas vezes se assustam ao ver um homem casado vestido como religioso e não entendem o porquê.

Explica-se: os diáconos têm funções importantes desde a igreja primitiva e, assim como os padres e bispos, recebem o sacramento da Ordem.

O diaconato é o primeiro grau do sacramento da Ordem. O presbiterato (padres) é o segundo e o episcopado (bispos) é o terceiro. Portanto, todo diácono católico deve ser ordenado por um bispo num ritual próprio. De acordo com o número 1554 do Catecismo da Igreja Católica, “o ministério eclesiástico, divinamente instituído, é exercido em diversas ordens pelos que desde a antiguidade são chamados bispos, presbíteros e diáconos”.

Neste contexto, segundo o Catecismo, a principal função do diácono é “ajudar e servir” os bispos e padres. Por isso, o diácono não é um sacerdote. Na ordenação de um diácono “são-lhes impostas as mãos não para o sacerdócio, mas para o serviço”, conforme o número 1569 do Catecismo. Nestes casos, apenas o bispo impõe as mãos sobre o homem ordenado (como mostra a foto), num sinal de que o diácono está diretamente ligado a ele.

Resume o Catecismo, no 1570: “Cabe  aos diáconos, entre outros serviços, assistir o Bispo e os padres na celebração dos divinos mistérios, sobretudo a Eucaristia, distribuir a Comunhão, assistir ao Matrimônio e abençoá-lo, proclamar o Evangelho e pregar, presidir os funerais e consagrar-se aos diversos serviços de caridade.” Eles não celebram missa, pois, como dissemos, não são sacerdotes. Apenas ajudam na sua preparação e na liturgia. Também não podem dar todos os tipos de bênçãos.

Dois bispos com um monte de diáconos. Repare nas roupas: alguns de estola, outros de dalmática. Os bispos de casula.

O diácono tem suas vestes litúrgicas diferentes das dos padres e bispos. A estola é transversal, e não vertical. Também pode usar a dalmática, que é diferente da casula dos padres e bispos.

Sendo assim, existem dois tipos de diáconos: os transitórios e os permanentes.

Os transitórios são homens que se preparam para o sacerdócio. No meio do caminho e antes de receberem a ordenação sacerdotal, recebem a ordenação diaconal. Depois de um tempo atuando como “ministros ordenados”, recebem o segundo grau da ordem, o presbiterado.

Os permanentes são homens que não estão caminhando rumo ao sacerdócio. Geralmente são homens casados há um bom tempo (algumas dioceses exigem cerca de 10 anos de casamento), com ativa participação nas atividades da Igreja e vocação para as obras sociais e de caridade.

Os diáconos permanentes costumam estudar teologia, filosofia, pastoral e outras coisas durante cerca de quatro anos. É estimulado que esses homens tenham suas próprias profissões para que possam sustentar a si e às suas famílias. Porém, se a dedicação for integral à Igreja, podem receber algum tipo de ressarcimento financeiro. A esposa precisa autorizar formalmente que o homem seja diácono. E, uma vez ordenados, os diáconos não podem mais se casar. Se ficarem viúvos, têm a opção de permanecerem diáconos ou se candidatarem ao sacerdócio, mesmo que em idade já avançada.

Desde o Concílio Vaticano II, o diaconato foi restabelecido “como grau próprio e permanente da hierarquia” da Igreja Católica, como explica o Catecismo (no número 1571). Deste modo, os diáconos podem e devem se vestir com roupas de clérigo – batina ou clérgima -, especialmente quando estiverem atuando em suas funções específicas.

Hoje em dia isso pode causar um pouco de confusão, porque nem mesmo os padres precisam se vestir assim, podem usar roupas comuns livremente. Mas não se assuste se encontrar por aí um homem de clérgima com mulher e filhos.

Envie você também sua dúvida sobre a Igreja nos espaços para comentários e veja aqui as outras perguntas já respondidas.

Foto alterada em 23/03/2012, às 12h54

33 Comentários

Arquivado em Cristianismo, Igreja, Perguntas