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A China à espera de um milagre, segundo o cardeal Zen Ze-kiun

Cardeal Zen Ze-kiun em conferência organizada pelo Acton Institute

Cardeal Zen Ze-kiun em conferência organizada pelo Acton Institute

Tanto a abertura econômica da China quanto a opressão religiosa são necessárias para a sobrevivência do Partido Comunista chinês, afirmou hoje o cardeal Joseph Zen Ze-kiun, bispo emérito de Hong Kong. Em conferência realizada em Roma pelo Acton Institute para discutir a relação entre liberdade econômica e liberdade religiosa, Dom Zen fez fortes críticas ao modelo de desenvolvimento chinês e à intervenção do governo nas atividades da Igreja.

Igreja em combate – “Gosto de esperar que o Papa Francisco possa realizar na China o mesmo milagre que João Paulo II fez na Checoslováquia”, declarou o bispo, referindo-se à contribuição de João Paulo II para a queda do regime comunista na União Soviética e a uma intensa participação do Papa na igreja clandestina daquele período. “Ele transformou a Igreja de algo temeroso ao regime em uma combatente corajosa.”

O cardeal de 82 anos, nascido em Xangai, relatou a difícil situação da igreja clandestina na China, que funciona sem permissão do governo. A igreja oficial é controlada pelo Partido Comunista. “O governo força nosso povo a agir contra a sua consciência”, criticou.

Relação conturbada – Oficialmente, estima-se que haja de 12 a 15 milhões de católicos na China, uma minoria no país de 1,4 bilhão de habitantes. O governo chinês obrigou os católicos a romperem suas relações com o Vaticano em 1951 e, seis anos depois, criou quase que uma igreja própria, tida como oficial, e chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês). Desde então, os cristãos da China enfrentam o dilema entre seguirem a Igreja Católica Apostólica Romana na clandestinidade ou ceder às exigências do governo e frequentar as atividades da ACCP.  Desde o fim de 2010, a China voltou a ordenar bispos sem a nomeação do Papa. Essa prática havia sido interrompida em 2006. A partir daquele ano, num acordo informal, os bispos ordenados eram aceitos tanto pelo Papa quanto pelo governo.

Segundo o cardeal, o Papa Bento XVI procurou dialogar com o governo chinês para garantir maior liberdade religiosa. “Ele não poderia ter feito mais pela Igreja da China. Enviou em 2007 uma carta e uma comissão especial. Mas a igreja já estava em uma situação lastimável”, comentou. “Não há uma conferência episcopal e a Associação Católica é um instrumento do Partido. Eles pagam os bispos para fazer parte do governo. Alguns são obrigados, outros são oportunistas. Mais do que sofrer pressão, os bispos da China são humilhados.”

Economia e política – O bispo emérito de Hong Kong disse, ainda, que a abertura econômica na China foi acompanhada pela forte corrupção no país. “A corrupção vem do poder. Poder absoluto causa corrupção absoluta”, comparou. “Sou um homem velho e não posso esperar muito para ver mais liberdade na China.”

Segundo Dom Zen, a abertura econômica na China não é um milagre, pois ocorreu com base na violação de direitos humanos, como a exploração do trabalho de baixo custo. “Quem se beneficiou desse milagre?”, questionou, lembrando a frase do líder reformista da China Deng Xiaping “Deixemos alguns ficarem ricos primeiro”. Para o cardeal, uma verdadeira reforma econômica chinesa deveria envolver também uma reforma política. “Poder e dinheiro são inseparáveis. E o poder está nas mãos do Partido.”

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O rosto da Igreja na Ásia (e talvez no mundo) segundo o cardeal Tagle

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manilla, e o Pe. Antonio Spadaro, diretor de 'La Civiltà Cattolica'

O Cardeal Luis Antonio Tagle (esq), Arcebispo de Manila, e o Pe. Antonio Spadaro (dir), diretor de La Civiltà Cattolica

A Igreja Católica presente na Ásia deve ter a coragem de descobrir novos modos de contar a história de Jesus. Segundo o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, esse é um dos grandes desafios dos cristãos na Ásia, um dos continentes onde a Igreja Católica cresce mais expressivamente.

“Como dizia o Papa João Paulo II, devemos encontrar uma pedagogia que fale à sensibilidade asiática. A mesma história (de Jesus) pode ser contada a partir de novos pontos de vista”, declarou o popular cardeal em conferência organizada pela revista dos padres jesuítas La Civiltà Cattolica – realizada em Roma e, por sinal, um dia após a publicação de uma longa entrevista do Pe. Antonio Spadaro com o Papa Francisco, que ganhou repercussão mundial.

Spadaro, que também presidiu a conferência com Tagle, apresentou o cardeal filipino como muito alinhado ao pensamento do Papa Francisco, que destaca a importância de se ter uma Igreja alegre e sorridente. “A Ásia representa um estilo de igreja: jovem”, e, como disse o Papa na entrevista aos jesuítas, o futuro das igrejas jovens deve ser construído juntamente com a tradição das igrejas antigas (como a da Europa). “Qual é o rosto da Igreja na Ásia?”, questionou Spadaro a Tagle, referindo-se a uma igreja “cheia de energia”, enquanto a da Europa é tida como “uma Igreja cansada”.

Método narrativo – Em vez de responder objetivamente à pergunta de Spadaro, o arcebispo de Manila preferiu apresentar um amplo cenário sobre os desafios da Igreja na Ásia (e que até certo ponto vale para toda a Igreja Católica). Durante toda a sua fala, o Cardeal Tagle destacou que o “método narrativo” é o principal para “proclamar a vida de Jesus na Ásia”. Segundo ele, a própria vida tem uma estrutura narrativa e contar histórias faz parte das tradições dos povos asiáticos.

“As boas histórias se baseiam nas experiências. As nossas histórias pessoais são as melhores, porque falam das nossas experiências”, explicou, acrescentando que quando uma pessoa narra sua história, torna mais compreensível também o mundo em que vive. “Da mesma forma, a Igreja na Ásia precisa partir da experiência de Jesus. Os primeiros apóstolos, que eram asiáticos, falavam de sua própria experiência.”

O cardeal filipino alertou que essa “narrativa” deve ser construída de diversas formas, seja por meio da liturgia ou da oração, seja a partir da interação com as pessoas, “especialmente os mais pobres”. Ele acredita que deva ser fortalecida não só a missão ad gentes (para as nações), mas também aplicá-la a uma realidade inter gentes (entre as nações) e “com os povos”.

Identidade – Outro grande desafio, conforme Tagle, é fortificar a identidade da igreja presente na Ásia. “Em uma grande parte da Ásia, a fé cristã é considerada uma coisa estrangeira”, alertou. “Esquece-se da história dos símbolos da fé. Devemos recordar a história da fundação da Igreja por Jesus.” Exemplificou usando três símbolos bastante conhecidos do cristianismo: a fração do pão, por exemplo, é uma mensagem de partilha; o anel de um bispo é um símbolo de serviço; o sacerdote “como presença de Jesus Cristo” é um sinal de disponibilidade para o povo.

Tagle autografa exemplares do seu livro "Gente de Páscoa”

Tagle autografa exemplares do seu livro “Gente de Páscoa”

“É necessário rastrear a origem dos símbolos da fé, que reconduz à história de Jesus.”, recordou, avisando que, sem a retomada dos significados originais, “os símbolos da Igreja podem terminar contando uma outra história, diferente daquela de Jesus”. O anel do bispo se torna uma mera joia, um símbolo de poder e riqueza, por exemplo.

Insistindo sobre a propagação da história da vida de Jesus, Tagle disse que é dessa história que vem toda a tradição da Igreja. “É a mesma história que toda a comunidade deve compartilhar. É a sua verdadeira identidade.” Essa história, declarou o cardeal, não pode ser imposta. “A Igreja na Ásia deve ser humilde e deixar que o Espírito Santo a toque. Uma Igreja narradora deve ser uma Igreja que escuta as pessoas e o Espírito Santo.”

Sobre a perseguição e a opressão que sofrem alguns povos asiáticos – como na China, onde nasceu a mãe do mesmo cardeal – Tagle evitou citar casos concretos e afirmou que, em resposta às ditaduras, “a Igreja é a voz das histórias suprimidas”. Respondendo a uma pergunta do Pe. Spadaro sobre a pequena porcentagem de cristãos na Ásia, o arcebispo filipino disse que as pequenas comunidades devem ser valorizadas. “Nestas comunidades de cinco, quatro pessoas, a Igreja é viva! Não basta o número. É claro que queremos mais pessoas. Mas a coisa mais importante é a qualidade e a adesão ao Evangelho.”

O cansaço da Europa – O Pe. Spadaro provocou o cardeal Tagle com uma última questão sobre como enxerga a Igreja na Europa. Tagle respondeu: “Escutei tantas vezes a expressão ‘o cansaço da Igreja’ na Europa. Está cansada de quê?”, brincou, tirando risos da plateia. “Parece-me que esse cansaço é motivado pela falta de capacidade de dizer que o Espírito Santo nos convida a uma nova ideia de ser Igreja”, disse firmemente. “Uma nova forma de ser Igreja termina e outra começa. A Igreja não tem tempo de estar cansada. A cada dia busca a mão do Espírito que a guia.”

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China fecha seminários de Xangai após protesto de bispo contra o governo

Seminaristas de Sheshan

A situação dos cristãos católicos na Diocese de Xangai, na China, é cada vez mais complicada.

Há alguns meses já tratamos neste blog sobre o antigo e complicado problema da Igreja Católica na China (entenda), que perdeu sua autonomia por causa das intervenções do governo. Mais especificamente, por causa da chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês), que é uma espécie de igreja paralela organizada pelo governo chinês. Na prática, seu objetivo é supervisionar a religião.

Agora, dois seminários da Diocese de Xangai estão proibidos de abrir as portas e retomar as atividades normais, como estava previsto para setembro – ao menos temporariamente. O motivo? Ainda não está totalmente claro, mas a restrição está diretamente relacionada ao protesto do recém-ordenado bispo auxiliar de Xangai, Dom Thaddeus Ma Daqin, contra as autoridades da ACCP.

Na ocasião de sua ordenação episcopal, há mais de um mês, Dom Ma Daqin renunciou publicamente a todos os cargos que ocupava ou viria a ocupar na ACCP. Tampouco aceitou a participação de bispos não reconhecidos pelo Vaticano no ritual de sua ordenação. Com isso, ele ficou marcado e vem sendo mantido em prisão domiciliar (dentro do seminário). Ele sequer apareceu para sua primeira missa como bispo e, segundo relatos informais, não está autorizado a usar os objetos que caracterizam um bispo (anel, báculo, mitra, cruz peitoral…). Recorde esse caso clicando aqui.

Bispo auxiliar de Xangai, Dom Ma Daqin, que está em prisão domiciliar

Hoje, o bispo coadjutor de Xangai, Dom Aloysius Jin Luxian, anunciou que tanto o seminário maior quanto o seminário menor da diocese estão fechados “até nova notificação”.

Segundo o bispo, a medida é resultado da “situação presente”, mas não foram informados detalhes sobre o que isso quer dizer. Soma-se ao problema de Dom Ma Daqin o afastamento da religiosa superiora da Congregação de Nossa Senhora da Apresentação, presente na diocese em questão, Irmã Agnes Liu Shujing. Há relatos de que ela também vinha dificultando a atuação da ACCP.

De acordo com o site Vatican Insider, ambos os seminários são reconhecidos pelo governo e fazem parte da comunidade “aberta” da Igreja – isto é, não precisam funcionar clandestinamente, como ocorre quando as atividades são autorizadas apenas pelo Vaticano, mas não pelo governo chinês. Um dos seminários está em Sheshan e funciona desde 1982. É regional: aceita candidatos ao sacerdócio de Xangai e outros cinco províncias próximas (Anhui, Fujian, Jiangsu, Jiangxi e Zhejiang). Em 1992, tinha 120 estudantes. Atualmente são apenas 46, menor número já registrado.

Provavelmente, o governo da China está um tanto assustado com toda a aberta oposição que vem enfrentando ultimamente. Por isso, quer marcar posição e vem pressionando as lideranças da Igreja local. O que as autoridades da ACCP não perceberam é que a resistência dos fiéis deve aumentar na mesma medida em que aumenta a repressão do governo. Pelo menos ao longo da História da Igreja parece que foi sempre assim.

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Bispo recém-ordenado de Xangai enfrenta governo chinês e desaparece

Dom Ma está sendo chamado de ‘bispo corajoso’

Confusão em Xangai. A bagunça que já estava instaurada em uma das mais importantes dioceses católicas da China se agravou nos últimos dias.

O recém-ordenado bispo auxiliar de Xangai, Dom Thaddeus Ma Daqin, foi barrado pelas autoridades chinesas e, na prática, proibido de exercer seu ministério. Há alguns meses, tratamos com detalhes do antigo e complicado problema da Igreja Católica na China, que voltou à tona nos últimos dias com novas ordenações realizadas pelo governo sem a permissão do Papa Bento XVI.

O motivo do sumiço de Dom Ma Daqin: ele se recusou a ocupar qualquer cargo na chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês), que é uma espécie de igreja paralela comandada pelo governo comunista chinês para supervisionar a religião, e que funciona no meio das coisas da Igreja Católica.

“Depois da ordenação de hoje, vou dedicar todo esforço ao ministério episcopal. É conveniente para mim não servir mais a um cargo da ACCP”, afirmou o bispo à assembleia na igreja, o que incluía autoridades do governo. Seu discurso foi recebido com grande surpresa entre as cerca de 1 mil pessoas presentes.

Ao recusar posições na ACCP, Dom Ma Daqin se manifestou publicamente contrário às autoridades do governo comunista. Desde então, ele não apareceu mais em público, nem para celebrar sua primeira missa como bispo. De acordo com a agência de notícias asiática UCA News, religiosos da Diocese de Xangai receberam de Dom Ma Daqin uma cartinha dizendo que estava “mentalmente e fisicamente exausto” depois da ordenação.

Ordenação ilegítima em Sichuan

Parece que ele está em um “período de descanso” em um seminário. Entretanto, segundo fontes da UCA News, o novo bispo está em uma espécie de prisão domiciliar, assim como outros bispos chineses que em algum momento se opuseram à ACCP. Alguns deles se recusaram a comparecer a ordenações irregulares ou a obedecer ordens do governo, por exemplo.

Na véspera da ordenação de Dom Ma Daqin, considerada legítima pelo Vaticano, ocorreu uma ordenação irregular amplamente anunciada pelo governo. O grande problema aí é que, depois de um razoável período de paz com Roma, há alguns meses a ACCP voltou a nomear e ordenar bispos sem autorização do Papa. Antes disso, por algum tempo houve acordo entre as duas partes e as ordenações correram relativamente bem.

O resultado agora é uma grande confusão entre os fiéis. Isso porque muitas vezes, durante as ordenações irregulares, há bispos lícitos que são obrigados a comparecer. E entre ordenações de bispos lícitos é comum aparecerem alguns bispos da ACCP, com aval do governo, como foi no caso de Dom Ma (embora os ilícitos não tenham imposto as mãos sobre sua cabeça, gesto que efetivamente concretiza o sacramento da Ordem).

Outros dois bispos de Xangai:  Jin Luxian (esq) coadjutor com 96 anos; e Xing Wenzhi (dir), auxiliar que deveria sucedê-lo, mas sumiu

Veja só como é confuso o caso de Xangai: eles têm lá quatro bispos. O bispo coadjutor, Dom Aloysius Jin Luxian, tem 96 anos e lidera a Diocese. Ele comanda a diocese no lugar do titular, Dom  Joseph Fan Zhongliang, de 94 anos, mas que não tem mais condições de trabalhar. Enfermo, Dom Fan Zhongliang é reconhecido pelo Vaticano, mas não pelo governo chinês e, portanto, liderou por muito tempo “clandestinamente” as comunidades da igreja de Xangai.

E até agora não apareceu ninguém para suceder Dom Jin Luxian – algo muito raro e uma exceção, pois todos os bispos renunciam aos 75 anos, embora possam ser mantidos por mais um tempo pelo Papa.

Na verdade, o outro bispo auxiliar da Diocese, Dom Joseph Xing Wenzhi, que provavelmente assumiria em seu lugar, também ficou mal com o governo ao se recusar a comparecer a uma ordenação irregular, entre outros motivos. Ele não costuma ser visto. O quarto é o recém-ordenado Dom Ma Daqin, que também poderia assumir a Diocese oficialmente no lugar do idoso Dom Jin Luxian, mas já foi sumido.

A situação de Dom Ma Daqin agora é incerta, mas algo provavelmente será feito pelo governo. Será liberado e retomará suas funções com cautela ou será mantido preso, resultando numa nova ordenação para Xangai. A Diocese é uma das mais importantes da China, com mais de 150 mil católicos batizados, mais de 60 padres e mais de 70 freiras.

Atualizado em 23/08/2012 corrigindo a informação de que Dom Jin Luxian é bispo titular. Embora lidere a diocese, ele é coadjutor.

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Entenda o antigo e complicado problema da Igreja Católica na China

Ordenação irregular de Huang Bingzhang, que foi excomungado

Recentemente, o Papa Bento XVI nomeou cardeal o bispo de Hong Kong, John Tong Hon, num gesto que mais uma vez sinalizou a grande preocupação da Igreja Católica com a China. Trata-se de um conflito antigo, que começou com a perseguição dos cristãos católicos na revolução Comunista de 1949, e que voltou a se agravar com ordenações irregulares de bispos nos últimos dois anos.

Vamos explicar essa questão e depois citar algumas falas do novo cardeal chinês. Nesta entrevista ao vaticanista Andrea Tornielli, ele disse que a situação da Igreja Católica na China é “maravilhosa, difícil e possível”.

Oficialmente, estima-se que haja de 12 a 15 milhões de católicos na China, uma minoria no país de 1,4 bilhão de habitantes. O governo chinês obrigou os católicos a romperem suas relações com o Vaticano em 1951 e, seis anos depois, criou uma igreja própria, tida como oficial, e chamada Associação Católica Patriótica Chinesa (ACCP, em inglês). Desde então, os cristãos na República Popular da China enfrentam o dilema entre seguirem a Igreja Católica Apostólica Romana na clandestinidade ou ceder às exigências do governo e frequentar os rituais da ACCP.

Desde o fim de 2010, a China voltou a ordenar bispos sem a nomeação do Papa. Essa prática havia sido interrompida em 2006. A partir daquele ano, num acordo informal, os bispos ordenados eram aceitos tanto pelo Papa quanto pelo governo. Vale lembrar que todo e qualquer bispo do mundo precisa ser nomeado pelo Papa para depois ser ordenado e aceito pela Igreja de Roma. É claro que, para isso, existem diversos mecanismos de indicação dos bispos, como as nunciaturas apostólicas e a Congregação para os Bispos, pois o Papa não conhece todas milhares de pessoas do clero.

Lei Shuyin também não é reconhecido como bispo de Leshan

Nestes casos irregulares, o sacramento da ordem em si é válido, assim como os sacramentos realizados por estes bispos “ilegais”. Mas a Igreja rejeita o fato de a ordenação ter sido realizada sem a autorização do Papa, pois isso demonstra que aquelas pessoas não estão em sintonia com a Igreja como um todo. Quem participa delas está sujeito à excomunhão.

Tampouco é reconhecida a autoridade do bispo irregular sobre diocese para a qual foi designado pela ACCP. O Vaticano considera essas ordenações uma “grave violação da liberdade e da consciência religiosa”, de modo que as autoridades ofendem “o Santo Padre, a Igreja na China e a Igreja universal (ou seja, Católica)”.

Em carta conciliatória enviada em 2007 à China, Bento XVI disse que a nomeação pelo sucessor de Pedro é uma garantia da unidade dos cristãos. Sinalizou que acha “compreensível” a preocupação do governo, mas deplora a irregularidade. As ordenações irregulares são eventos predominantemente políticos na China. Muitas vezes, bispos fiéis ao Papa são obrigados a comparecer a cerimônias realizadas sob forte esquema de segurança. Alguns bispos estão presos ou foram silenciados.

Neste contexto, o bispo Tong Hon se pronunciou em entrevistas após ser criado cardeal em 20 de fevereiro. Ele considera a situação da Igreja na China “maravilhosa” porque, mesmo com tantas restrições do governo, ela continua crescendo. Em 1949, eram apenas 3 milhões de católicos. A segunda palavra usada por Tong Hon para definir a questão foi “difícil”, por causa do “controle imposto sobre a vida eclesial por parte do governo através da ACCP”. A terceira palavra foi “possível”. Ele diz que, “Deus pode dispor as coisas de modo que as dificuldades também possam, enfim, concorrer para o bem da Igreja. Assim, vemos que, por si só, não é o aumento dos controles que pode apagar a fé. Ao contrário, pode acontecer que o efeito seja o de aumentar a unidade na Igreja”.

O cardeal John Tong Hon, bispo de Hong Kong

Tong Hon explica que prefere ser moderado, paciente e aberto ao diálogo. E pede o mesmo ao governo.

Para vermos como a coisa é complexa, o próprio cardeal participou de uma ordenação episcopal irregular em 1985, quando era sacerdote. O padre escolhido,  Jin Luxian, era seu amigo e pediu que Tong Hon estivesse presente. Depois que o bispo Jin, de Xangai, manifestou sua fidelidade à Igreja de Roma, a ordenação acabou sendo reconhecida, em 1992.

Nesta outra entrevista, ao Vatican Insider, o cardeal de Hong Kong defendeu uma formação melhor para os padres, bispos e até para os leigos na China. Assim, aumentam as chances de que os bispos nomeados pelo governo chinês sejam bons católicos, que possam a vir a ser reconhecidos pela Santa Sé por sua verdadeira capacidade – como ocorreu com Jin Luxian e tantos outros.

Ele recorda, ainda, que a Igreja Católica estimula os fiéis ao patriotismo e ao amor à nação, de modo que não representa um risco para as autoridades políticas da China. “Gostaria que o governo tivesse confiança nos fiéis católicos, de modo que pudessem gozar realmente da plena liberdade e que possam oferecer uma contribuição maior à sua nação.”

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