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Em Cuba, Papa Francisco propõe ‘revolução da ternura’

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 9 de O São Paulo, em setembro de 2015

O Papa Francisco convidou os cubanos à revolução. Mas uma revolução bem diferente daquela armada, socialista, marxista, liderada por Fidel Castro e Che Guevara nos anos 1950. Trata-se da “revolução da ternura”.

A ideia de que a alegria de ser cristão possa levar as pessoas a “construir pontes” e manifestar compaixão. Um caminho de solidariedade dentro do próprio país e um novo caminho de reconciliação entre os povos. A mensagem ganha ainda mais força no contexto da viagem do Papa a Cuba e aos EUA, países que recentemente retomaram suas relações diplomáticas, após um acordo histórico mediado pelo Papa e pela Santa Sé.

“Nossa revolução passa pela ternura, pela alegria que se faz proximidade, que se faz sempre compaixão”, afirmou o pontífice, em missa celebrada no Santuário da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, localizado em Santiago de Cuba.

Conforme escreveram alguns vaticanistas, como o americano John Allen Jr, do Boston Globe, Francisco usou deliberadamente a palavra “revolução”. Curiosamente, não o fez em nenhuma das praças “da Revolução” em que esteve – uma em Havana e a outra em Holguín. Muito menos no Palácio da Revolução, que fica na praça de Havana. Todos esses nomes remetem à famosa Revolução Cubana, ao nacionalismo, ao socialismo de Fidel Castro.

O Papa falou de “revolução” em solo cubano, mas o fez no Santuário da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba. Parece que, discretamente, Francisco quis dar um novo significado ao termo, consagrado no país por uma ditadura de esquerda que ao longo da história viveu momentos de auge e de depressão. Francisco talvez queira recordar que o povo cubano tem uma identidade revolucionária, mas essencialmente cristã, que se desenvolveu com a devoção à Virgem. Conforme relatou a vaticanisa Cindy Wooden, da agência Catholic News Service, embora somente 60% da população cubana seja batizada na Igreja Católica, a pequena estátua de Nossa Senhora da Caridade, descoberta há 400 anos, “é amplamente considerada um símbolo da identidade cubana e da força, apesar das dificuldades”.

Essa raiz cristã, pacífica, perseverante até mesmo na dor, é que, segundo o Papa, semeia a misericórdia, grande lema de seu pontificado. “Como Maria, mãe da caridade, queremos ser uma Igreja que saia de casa para construir pontes, derrubar muros, semear reconciliação. Como Maria, queremos ser uma Igreja que saiba acompanhar todas as situações penosas de nossa gente”, declarou. “A partir daqui (do Santuário), ela protege as nossas raízes, nossa identidade, de modo que nós nunca podemos nos desviar para caminhos de desespero.”

Portanto, Papa Francisco procurou recordar os cubanos de que a “revolução da ternura” em Cuba precede e prevalece sobre a socialista, que, politicamente, ainda comanda, atualmente com o presidente Raúl Castro.

Para isso, o pontífice recorreu a um símbolo de unidade, a Virgem, já que, como descreveu John Allen, Cuba é um país repleto de divisões políticas. Há os que apoiam o governo socialista e os que não apoiam, os que ficaram na ilha e os que fugiram em busca de asilo político em outros países, os que estão com o governo cubano e os que gostam da influência americana.

Com uma retórica forte, como é tradição em Cuba, mas permeada pelo tema da misericórdia, o Papa sinalizou que a religião é maior o ponto de unidade na região. Reforçou uma ideia que já havia sido apresentada por João Paulo II e Bento XVI, de que Cuba precisa começar um novo caminho de reconciliação com o mundo, mas que ganha vigor agora, com a retomada das relações com os EUA.

De acordo com o vaticanista Philip Pullella, da agência Reuters, provavelmente por esse motivo Francisco evitou temas polarizantes entre Cuba e EUA, como o fim do embargo econômico americano sobre a ilha: “O Papa terminou sua viagem a Cuba na terça-feira e partiu para os EUA com uma mensagem de reconciliação entre antigos inimigos na Guerra Fria”, relatou.

Também o jornalista francês Jean-Marie Guénois escreveu, em análise publicada no jornal Le Figaro, que Francisco “quer fazer da reconciliação entre estes dois inimigos ‘um exemplo’ para o mundo, demonstrando o potencial da ‘cultura do diálogo’ que esse jesuíta promove, dentro e fora da Igreja”. Ao fazer discursos de teor fortemente religioso, ainda que ao mesmo tempo políticos, Papa Francisco demonstra que a Igreja acompanha a transição gradual que a ilha está vivendo e demonstra que a via do diálogo é, para ele, a mais certa.

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O segundo Papa a visitar Cuba busca as mesmas coisas que o primeiro

Bento XVI é recebido pelo presidente Raúl Castro na chegada a Cuba

Quando o Papa João Paulo II visitou Cuba, em janeiro de 1998, pediu que a ilha se abrisse para o mundo e que o mundo se aproximasse da ilha.

Condenou o embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba e seus efeitos adversos sobre os mais pobres. Em âmbito religioso, ajudou os cubanos católicos a fortalecerem sua fé. Agora, mais de 14 anos depois, um Papa volta a Cuba e o que busca? Nada mais do que maior liberdade para o povo cubano, abertura comercial e reafirmação da fé no país, que oficialmente permanece ateu.

Naturalmente, a visita de João Paulo II teve um impacto muito maior do que a de Bento XVI (que chegou hoje a Cuba, onde ficará por três dias). O Papa Wojtyła foi o primeiro a pisar em solo cubano, país que se fechou para as religiões desde a revolução socialista de 1959. Convidando o Papa, Fidel Castro, então presidente cubano, procurou sinalizar uma abertura um pouco maior para as coisas que vinham de fora. E, no âmbito religioso, foi um passo sem igual para as liberdades individuais. Hoje, em Cuba, é permitido ter uma religião (a santería, de origem africana, também é muito forte).

Fidel Castro e João Paulo II, em 1998

Mas Bento XVI chega em momento igualmente delicado. Fidel Castro já não é mais o presidente e passou o bastão para o irmão, Raúl Castro, que desde sua posse, em 2008, vem realizando reformas graduais, permitindo uma lenta e controlada – mas importante – abertura da empobrecida ilha em termos econômicos e políticos. Para Raúl Castro, a Igreja pode ser um bom meio de trazer investimentos estrangeiros para o país. E, para a Igreja Católica, uma boa relação com Cuba permitirá a abertura de mais escolas, centros culturais católicos, igrejas e seminários.

Quando entrou no avião rumo ao México (por onde passou antes), Bento XVI afirmou estar “convencido de que, neste momento de particular importância para a História, Cuba já está olhando para o futuro”. Chegando à ilha, o Papa Ratzinger disse que aquela visita de João Paulo II foi um sopro de “ar fresco”, que deu novas forças à Igreja em Cuba, criando uma nova relação entre Igreja e Estado, um “novo espírito de cooperação e confiança”.

O cardeal cubano Jaime Ortega

Embora essa relação seja bastante diplomática e aparentemente amigável, o Papa faz duras críticas ao modelo cubano. Bento XVI declarou que “não podemos mais continuar na mesma direção cultural e moral que causou a dolorosa situação com que muitos sofrem. O progresso verdadeiro tem necessidade de uma ética que coloque no centro o ser humano e leve em conta suas exigências mais autênticas”. E, durante a viagem ao México, já havia adiantado: “Está evidente que a ideologia marxista como foi concebida já não corresponde à realidade.” A ideia, portanto, é continuar pressionando o governo.

Assim como no México, Bento XVI quer reconstituir as bases da Igreja em Cuba. Estima-se que, dos 11,2 milhões de cubanos, 60% sejam batizados. Mas menos de 500 mil vivenciam o catolicismo frequentando missas, por exemplo. Por outro lado, a Igreja Católica se fortaleceu nos últimos anos, liderada regionalmente pelo Cardeal Jaime Ortega, no governo de Raúl Castro. Ortega tem sido um dos principais mediadores entre a oposição ao regime e o governo. Foi por meio dele que 130 prisioneiros dissidentes foram libertados, dois anos atrás.

Há uma expectativa muito grande para a visita de Bento XVI, justamente porque a de João Paulo II foi um marco relevante para o povo cubano. Os críticos da Igreja no país dizem que a atuação política dos católicos em Cuba ainda é fraca demais e pouco incisiva.

Mas, aparentemente, a Igreja teme elevar demais o tom e perder o que já foi conquistado. Lembremos o que disse Bento XVI, quando criticava o marxismo: “Temos de encontrar novos modelos, com paciência e de forma construtiva.”

Atualizado em 27/03/2012, às 7h41

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O Papa Bento XVI visita o México e paga uma dívida de sete anos

Bento XVI chega ao México, recebido pelo presidente Felipe Calderón e pela a primeira-dama Margarita

Bento XVI estava em dívida com os mexicanos. Em sete anos de pontificado, ele foi duas vezes à África, esteve no Brasil, nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Terra Santa, na Turquia, em diversos países da Europa (Alemanha, França, Portugal, Espanha, Polônia, Áustria, República Tcheca, Malta, Chipre, Reino Unido, Croácia) – não necessariamente nesta mesma ordem – e até à Austrália ele foi. Olha que a Austrália fica bem longe. Isso tudo sem contar as viagens dentro da Itália, que foram quase 30.

Mas o Papa Ratzinger ainda não tinha  dado nem um pulinho no segundo país com maior número de católicos no mundo, depois do Brasil: o México. Se todos temos a obrigação de fazer algumas coisas antes de morrer, podemos dizer que visitar o México estava na lista do Papa.

Agora, em sua 23ª “viagem apostólica”, o pontífice paga a dívida e cumpre uma tarefa que foi adiada por tempo demais. Serão quase três dias no México e dois em Cuba. Mas o mais importante aí não é tanto o fato de Bento XVI ir ao México, e sim, por que resolveu fazer essa viagem justo agora. São três os motivos principais:

O primeiro, meio óbvio, é pastoral. Trata-se do enfraquecimento dos valores cristãos em parte da sociedade mexicana. Não só no México, mas também em outros países da América Latina, a Igreja Católica vem perdendo influência junto aos governos e à sociedade como um todo. Em muitos lugares, as tradições perdem espaço para a globalização,  o consumo e os tais “valores mundanos” – deixar Deus de lado e cuidar só das coisas práticas da vida. Isso inclui o enfraquecimento das religiões tradicionais.

De acordo com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, um dos objetivos da visita de Bento XVI é “refundar” o México nos valores cristãos, que constituem “o DNA do povo mexicano”. Dentro desse objetivo, segundo Bertone, o Papa falará aos jovens, estimulando-os “a não se deixar seduzir pelo dinheiro fácil”.

João Paulo II esteve cinco vezes no México

O segundo motivo é político. É bom para a Igreja que o México continue sendo um país de maioria católica. E, muito perto das eleições federais no México, que serão em julho deste ano, é importante para a Santa Sé mostrar que está aberta a manter relações diplomáticas com qualquer governo, qualquer partido, mesmo que seja um governo mais distante dos cristãos.

Bento XVI quer mostrar que a Igreja continuará presente ali, mantendo sua firme atuação, ainda que o partido do presidente Felipe Calderón (PAN, que é pró-católico) perca a disputa. Nesse sentido, o Papa deve reafirmar, entre outras coisas, a importância da “família tradicional” e da “valorização da vida desde a concepção até a morte natural”.

O terceiro motivo é social e envolve a grave onda de violência e o narcotráfico no México, que atingiu níveis assustadores nos últimos meses. Mais de 50 mil pessoas morreram em cinco anos e meio, segundo o Los Angeles Times. Disputas entre cartéis de drogas acabaram com a paz de boa parte da população mexicana e transformaram regiões do país em zonas de guerra.

Não é à toa o fato de que o Papa vai direto para o Estado de Guanajuato. Ali, a violência é intensa e os cartéis são mais fortes . As principais gangues prometeram manter a paz durante a visita do Papa ao país. Bento XVI não vai à Cidade do México por causa da altitude elevada, que pode ser nociva à sua saúde (que está boa, mas é frágil, segundo o Vaticano – aliás, pela primeira vez ele apareceu publicamente usando bengala).

Também há relatos de envolvimento do tráfico de drogas com as comunidades paroquiais no México, seja por meio de doações, seja por meio de interferências nas atividades pastorais. Bento XVI pediu o fim dessas relações desde 2005, quando assumiu. Mas pouco se avançou nisso.

No avião rumo ao México ele afirmou que é preciso “desmascarar o mal e a mentira”. E acrescentou que “os problemas do narcotráfico e da violência pesam sobre a Igreja de um país com 80% de católicos”.

Depois do México, o Papa segue para Cuba, onde terá compromissos mais tensos, embora o governo tenha dito que o pontífice será ouvido “com respeito”. As relações entre o governo socialista de Cuba e a Igreja Católica melhoraram com João Paulo II, mas permanecem delicadas. Falaremos dessa outra visita em um novo post.

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