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Dois anos de reformas

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Análise publicada na página 24 de “O São Paulo”, em março de 2015

Quem caminha nas ruas próximas ao Vaticano, em Roma, encontra uma enxurrada de livros sobre o Papa Francisco. Biografias, análises e teorias da conspiração. A maioria das obras tem títulos impactantes. “O Evangelho do Sorriso”, “Mente aberta, coração fiel”, “Um papa do fim do mundo”, “Vida e revolução”, “O papa do povo”, “O milagre de Francisco”, “Porque ele comanda como comanda”, “O grande reformador”, “Até onde vai Francisco?”. Todos esses textos foram escritos nos últimos dois anos, desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio ao trono de Pedro, e têm uma coisa em comum: as reformas do pontificado do Papa Francisco.

Dois anos atrás – Bergoglio foi eleito para renovar a Igreja. A histórica decisão de Bento XVI de renunciar em 11 de fevereiro de 2013, dizendo lhe faltar “vigor no corpo e na alma”, permitiu aos cardeais que elegeriam o novo pontífice a antecipar o debate sobre os problemas que a Igreja vivia. Normalmente, com a morte de um papa, os cardeais são logo isolados em um conclave, do qual só saem depois da eleição do sucessor. No caso da renúncia de Bento XVI, que governou até o fim de fevereiro, o conclave só começou um mês depois. Por mais de 30 dias, os cardeais puderam se articular livremente fora do conclave e debater o futuro da Igreja. Não é à toa que Francisco tenha sido eleito após somente dois dias de votação, em 13 de março.

Não é à toa que o então arcebispo de Buenos Aires tenha aceitado ser o novo bispo de Roma “em espírito de penitência”. Ele conhecia os obstáculos que encontraria.

Algumas das reformas já haviam sido iniciadas por Bento XVI, como a reestruturação do banco do Vaticano, até então um terreno fértil para a crimes financeiros. Também foi Bento XVI que iniciou a política de “tolerância zero” à pedofilia, substituindo bispos que não agiram com firmeza e a instituindo organismos para estudar e resolver o problema. O Papa Francisco abraçou a causa e ampliou o combate, criando também uma comissão dentro do Vaticano. “O medo do escândalo não pode frear a limpeza”, disse o papa argentino, em fevereiro.

Dentro e fora da Igreja – “A reforma da Cúria Romana não é um fim em si mesma, mas um meio para reforçar o testemunho cristão”, afirmou Francisco, também em fevereiro. Para criar uma nova estrutura para a Cúria, a administração geral da Igreja, ele nomeou uma comissão de nove cardeais. O mesmo grupo articula uma reformulação das finanças do Vaticano, sob o comando do cardeal australiano Dom George Pell, colocando a Santa Sé dentro dos padrões internacionais de transparência.

Seria possível listar várias das reformas da popularmente chamada “revolução Francisco”. Ele está mudando a configuração do colégio de cardeais ao nomear bispos de países pouco representados e de periferias. Está estimulando a colaboração dos bispos do mundo inteiro nas questões cruciais, aumentando a chamada colegialidade. Convocou um histórico Sínodo dos Bispos para discutir os problemas das famílias. Também está retomando o empenho diplomático da Santa Sé em questões de grande relevância internacional, como o conflito Israel-Palestina e o embargo dos Estados Unidos sobre Cuba. Está fortalecendo os laços com a Igreja Ortodoxa e outros cristãos, além dos judeus e muçulmanos.

O professor de Filosofia Política da Pontifícia Universidade Gregoriana, Pe. Rocco D’Ambrosio

Reformador ou renovador – Alguns estudiosos em Roma acreditam o projeto de reforma de Francisco é um processo histórico que só poderá ser compreendido no futuro. O padre italiano Rocco D’Ambrosio, professor de Filosofia Política na Pontifícia Universidade Gregoriana, costuma dizer que os atos do Papa Francisco estão “em total continuação com as resoluções do Concílio Vaticano II”. Assim, o aggiornamento (atualização) já vinha acontecendo gradualmente. Agora, é reforçado pelo primeiro papa que não participou do Concílio.

O escritor e padre americano Dwight Longenecker, colunista do site católico Aleteia, escreveu em artigo que a palavra “reformador” não é precisa para definir o Papa Francisco. Ele sugere, em vez disso, “renovador”. “O Papa Francisco quer uma renovação na Igreja”, comenta. “A verdadeira ambição de Francisco é de voltar nossos corações e mentes de novo à simplicidade da mensagem do Evangelho.”

De fato, na exortação apostólica Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho), Francisco diz: “O bem tende sempre a se comunicar. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade diante das necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem se enraíza e se desenvolve. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem.”

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Grupo de cardeais se une para defender doutrina atual sobre divórcio

Cardeal Walter Kasper

Publicamos aqui uma nota nossa que saiu na página 9 do jornal O São Paulo.

O confronto de ideias entre os participantes do Sínodo, desejado e estimulado pelo Papa Francisco, vem crescendo conforme se aproxima a assembleia extraordinária. Um grupo de cinco cardeais se uniu para escrever o livro “Permanecendo na Verdade Cristo: Casamento e Comunhão na Igreja Católica”. Embora o lançamento seja previsto para o mês de outubro, em inglês, a editora Ignatius Press já divulgou um resumo digital.

Cardeal Raymond Burke

O livro é explicitamente uma resposta e uma crítica às ideias do cardeal alemão Walter Kasper sobre a participação de pessoas divorciadas e em segunda união no sacramento da Eucaristia – um dos tópicos mais polêmicos a serem discutidos no Sínodo. Kasper, que é um teólogo reconhecido, autor de um famoso livro sobre a misericórdia divina, afirmou diversas vezes que “o ensinamento de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio é claro”, mas que é preciso “encontrar uma forma de permitir que as pessoas em segunda união possam participar integralmente da vida da Igreja”.

Ele entende que a Igreja possa, em casos específicos, “tolerar” a segunda união e permitir que os fiéis recebessem a Eucaristia, isto é, que pudessem comungar nas missas. Atualmente, a Igreja convida os fiéis em segunda união a participarem da vida pastoral, mas pede que eles não se aproximem da Eucaristia e realizem apenas a chamada “comunhão espiritual”.

O livro-resposta, organizado pelo padre norte-americano Robert Dodaro, teve contribuições dos cardeais Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; Raymond Leo Burke, prefeito da Signatura Apostólica; Walter Brandmüller, presidente emérito do Pontifício Comitê de Ciências Sociais; Carlo Caffarra, arcebispo de Bolonha e um dos teólogos mais próximos ao Papa João Paulo II em questões de moral e família; e Velasio De Paolis, presidente emérito da Prefeitura para Assuntos Econômicos da Santa Sé.

Cardeal Gerhard Müller

Os autores partem da questão difundida pelo cardeal Kasper, de que a Igreja deve criar harmonia entre “fidelidade e misericórdia em sua prática pastoral com pessoas divorciadas que outra vez se casaram civilmente”. Segundo eles, com base na tradição bíblica e dos padres da Igreja, não é possível aderir à “tolerância”.

Portanto, argumentam a favor da manutenção da atual doutrina, fortalecida especialmente pelo papa João Paulo II, que prevê uma relação direta entre o Matrimônio e a Eucaristia. A editora informa que, além disso, “o livro desafia a premissa de que a doutrina católica tradicional e a prática pastoral contemporânea estão em contradição”. E essa é justamente a base dos argumentos dos que pensam como o cardeal Kasper.

Leia aqui a íntegra da edição do jornal O São Paulo

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Cúria Romana deve ser mais aberta para o mundo, diz cardeal indiano

Cardeal Gracias, Arcebispo de Bombay

A reforma da Cúria Romana encomendada pelo Papa Francisco a uma comissão de oito cardeais deve torná-la ainda mais internacional e as decisões para a Igreja Católica serão tomadas de forma mais descentralizada, sinalizou recentemente o cardeal indiano Oswald Gracias, Arcebispo de Bombay e membro da comissão. “A Igreja precisa permanecer acima das nacionalidades e do paroquialismo estreito. Ela precisa ter uma visão global”, declarou o cardeal em entrevista concedida ao jornal Catholic Register, no Canadá.

A comissão nomeada pelo Papa logo após sua eleição, com um cardeal de cada continente, tem o dever de aconselhá-lo na reforma da Cúria Romana. Após uma série de escândalos de corrupção e problemas causados por disputas de poder revelados durante o pontificado de Bento XVI, a Cúria se tornou uma das principais preocupações da Igreja. Cada um dos oito cardeais já se encontrou individualmente com o Papa e, entre 1º e 3 de outubro, eles se reunirão em grupo entre si e com o pontífice.

Internacionalização – “É preciso ter alguma reflexão sobre todo o tema do Vaticano, sobre como torná-lo mais eficiente, torná-lo mais assistencial ao Santo Padre e torná-lo mais assistencial à Igreja”, comentou o cardeal Gracias ao jornal. Desde seu surgimento, no século XI, a Cúria tem a missão de auxiliar o sumo-pontífice a exercer o seu ministério e ao longo da História diversas reformas foram realizadas, adaptando-a à realidade do momento.

O cardeal indiano acrescentou que atualmente prevalecem na Cúria oficiais de nacionalidade italiana, o que tem sido alvo de críticas. “A Igreja é universal.” Mas, segundo ele, não se trata só de distribuir melhor as funções políticas a diferentes países.

“A perspectiva do Papa Francisco é de que a Igreja precisa prestar um serviço para o mundo. Se você quiser prestar serviço para o mundo, precisa estar lá fora, onde o mundo está. O centro de gravidade está sempre se mudando. A Igreja precisa estar disponível”, avalia, explicando que neste momento a Ásia precisa de maior atenção, pois é onde 60% da população mundial vive, a economia cresce rapidamente e a cultura está mudando de forma imprevisível – conforme relata o Catholic Register.

Descentralização – Gracias entende, ainda, que essa abertura maior da Cúria para o mundo implica atribuir maiores responsabilidades às conferências episcopais de cada região ou país. “Se vamos assumir mais responsabilidade, temos de ser mais responsáveis, prestar mais contas, ser mais conscientes. Neste momento é muito confortável porque sabemos que tudo tem de ser checado duas vezes. Por isso não somos assim tão sérios”, explicou ele, que é presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Índia.

A internacionalização e a descentralização da Cúria Romana não são propostas novas, pois já vêm desde o Concílio Vaticano II, no pontificado do Papa Paulo VI. Com o decreto Christus Dominus (1965) ele atendeu ao pedido dos padres do Concílio e abriu a Cúria para mais membros e oficiais de outras nacionalidades que não a italiana. Também fortaleceu o relacionamento dos bispos diocesanos com os dicastérios (espécie de Ministérios do Vaticano) e aumentou sua presença nas decisões da Cúria. Porém, as propostas do Concílio ainda não foram aplicadas plenamente. Como disse o próprio Papa Francisco quando esteve no Brasil, “a Igreja sempre precisa ser reformada”.

Burocracia – Há pouco mais de um mês, também o cardeal hondurenho Óscar Andrés Rodríguez, presidente da comissão de “reformadores” da Cúria Romana, concedeu entrevista ao jornal argentino La Nación e disse que um dos principais problemas atuais é o excesso de burocracia. “Não se podem tomar decisões com a rapidez necessária”, admitiu. “Com o passar do tempo a Cúria foi se formando como um reino antigo e tudo isso não fala muito ao mundo de hoje.” Segundo ele, provavelmente será necessário eliminar estruturas inúteis. “A Cúria cresceu muito e existe muita burocracia. Isso precisa ser corrigido.”

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