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Diplomacia a serviço da paz

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 14 de “O São Paulo”, em março de 2015

Cardeal Parolin em palestra na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Nikos Papaxristou

Cardeal Parolin em palestra na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Nikos Papaxristou

Construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. São essas as três principais linhas de ação da diplomacia da Santa Sé no pontificado do Papa Francisco, afirmou a O SÃO PAULO o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. O “número dois” do Vaticano esteve em 11 de março na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde deu uma palestra sobre o papel da diplomacia pontifícia na promoção da paz.

No final da conferência, Dom Parolin respondeu à pergunta da reportagem sobre qual é a influência e o poder de decisão dos papas nas atividades diplomáticas da Santa Sé, já que o Papa Francisco foi o principal articulador da recente retomada de relações bilaterais entre Estados Unidos e Cuba após 53 anos de impasse – além de suas tentativas de promover a paz entre Israel e Palestina. “Nós dizemos que o Papa é o primeiro diplomata da Santa Sé”, afirmou o cardeal, em sua réplica. “Efetivamente, todo o aparato da diplomacia pontifícia está a serviço das indicações que vêm do Papa.”

Atualmente, a Santa Sé tem relações diplomáticas com 179 países, além da União Europeia e o Estado Palestino. De acordo com o secretário de Estado, chefe de relações internacionais do Vaticano, Francisco tem um “protagonismo muito acentuado” nas questões diplomáticas. Foi no seu primeiro discurso a novos embaixadores que o Papa falou pela primeira vez sobre o que considera suas prioridades. “Ele deu três linhas diretivas para a ação da diplomacia da Santa Sé: construir pontes, lutar contra a pobreza e edificar a paz. Nós estamos nos movendo sobre essas linhas”, lembrou o arcebispo.

O cardeal nas Nações Unidas

“Muitas das iniciativas que a Secretaria de Estado e a diplomacia pontifícia levam adiante nascem diretamente dele e do contato pessoal que ele tem com chefes de Estado, com representantes políticos”, acrescentou Parolin. De fato, no caso Cuba-Estados Unidos, Francisco vinha enviando cartas privadas aos presidentes Barack Obama e Raúl Castro e, em março do ano passado, conversou pessoalmente com Obama. Posteriormente, o Vaticano, com a presença do cardeal Parolin, sediou a última reunião entre as delegações dos dois países antes do acordo para retomar relações diretas.

Segundo o cardeal, cada papa, dependendo do seu caráter, “é mais ou menos ativo” na diplomacia. “No fundo sempre existem orientações. A ação da Santa Sé é essencialmente religiosa e exatamente por essa motivação procura favorecer a convivência pacífica entre os povos, criando todas as condições que permitam a cada pessoa viver dignamente, segundo a sua dignidade, e como criatura e filho de Deus.”

Mais que uma voz crítica – Durante sua palestra, o cardeal defendeu a ativa participação da Igreja nas questões de interesse internacional. “A ação diplomática da Santa Sé não se contenta a observar os acontecimentos ou avaliar sua grandeza, nem pode ser somente uma voz crítica. É chamada a agir para facilitar a coexistência e a convivência entre as várias nações”, afirmou. “A Santa Sé opera no cenário internacional não para garantir uma segurança genérica, mas para sustentar uma ideia de paz que seja fruto de relações justas, de respeito às normas internacionais, de tutela dos direitos humanos fundamentais, começando por aqueles dos últimos, dos mais vulneráveis.”

Diálogo ou intervenção militar – Quando um dos sacerdotes estudantes da Gregoriana perguntou a Dom Parolin sobre a dificuldade de promoção da paz junto a quem pensa de forma diversa à da Igreja, o cardeal manteve a postura discreta. “A realidade é assim. Existem tantas pessoas, tantas instituições, tantos Estados que não pensam como a Igreja. Ainda assim, houve um crescimento e um desenvolvimento da consciência sobre a paz”, observou. “Hoje se fala muito de paz e eu diria que isso também foi um resultado da presença e das relações da Igreja.”

Papa com embaixadores junto à Santa Sé

Dom Parolin acrescentou que, frequentemente, a Santa Sé coloca em prática ações de “soft power” (algo como “poder suave”, em inglês), expressão que em política internacional se refere à capacidade de atração e persuasão, em vez da coerção e do uso da força. “Temos a ideia de paz como um bem precioso e insubstituível. Também individualmente nos países (por meio dos núncios apostólicos, os diplomatas do Papa), a diplomacia bilateral trabalha sobre esse ponto. Às vezes sem muito clamor, um pouco fora dos refletores, é possível progredir.”

Para o secretário de Estado, é urgente que a comunidade internacional estabeleça mais claramente quais são as diretrizes para “intervenções humanitárias” de caráter militar para restabelecer a paz em países que enfrentam grupos terroristas, guerras civis ou milícias. São necessárias, ainda, claras políticas de reconciliação pós-guerra. “É preciso mais do que nunca mudar o paradigma. Operar para prevenir a guerra em qualquer forma”, avalia.

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Com ajuda do Papa, cai o muro entre Estados Unidos e Cuba

Recuperamos aqui no blog alguns textos nossos publicados na imprensa nos últimos meses.

Texto publicado na página 23 do jornal “O São Paulo”, em janeiro de 2015

O Papa Francisco e a diplomacia da Santa Sé tiveram papel estratégico na histórica retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba, anunciada em 17 de dezembro de 2014. “Hoje estamos contentes porque dois povos afastados por tantos anos deram um passo de aproximação”, declarou o pontífice em encontro com embaixadores, no Vaticano.

Os dois países eram inimigos desde os tempos da Guerra Fria. Há 53 anos, desde quando os Estados Unidos iniciaram o embargo comercial a Cuba por causa do regime comunista, Washington e Havana não mantinham nenhum tipo de relações diretas. O embargo americano provocou grande isolamento econômico da ilha, que passou a enfrentar intensa pobreza, especialmente depois da queda do seu maior aliado, a União Soviética. Mas depois de 18 meses de reuniões diplomáticas em segredo, Estados Unidos e Cuba derrubaram o muro invisível que os separava.

Reaproximação – Houve uma série de tentativas de reaproximação ao longo dos anos. Nos últimos meses, as tratativas foram sediadas pelo Canadá e estimuladas pessoalmente pelo Papa Francisco. Ele escreveu cartas privadas aos presidentes Barack Obama e Raúl Castro e, em março do ano passado, conversou pessoalmente com Obama. Oficiais americanos admitem que foi o Papa quem convenceu Raúl Castro a dialogar. O Vaticano sediou a última das reuniões, que preparou uma conversa telefônica entre os dois presidentes, em 16 de dezembro. A troca de prisioneiros americanos e cubanos marcou a reabertura entre os países.

Obama agradeceu “em especial” ao Papa Francisco – que celebrava seu aniversário de 78 anos no mesmo dia 17 – pelo papel essencial na mediação do conflito. O presidente elogiou o seu “exemplo moral, mostrando o mundo como deve ser, em vez de simplesmente aceitar o mundo como ele é”. Obama explicou que a estratégia do embargo para enfraquecer o regime cubano não funcionou. Raúl Castro, por sua vez, também agradeceu ao Papa e ao Canadá pelo apoio nas tratativas. “Os progressos obtidos nas trocas que tivemos mostram que é possível encontrar uma solução para muitos problemas”, declarou. O Vaticano informou que o Papa convidou os dois líderes a “resolver questões humanitárias de interesse comum, inclusive a situação de certos prisioneiros, para iniciar uma nova fase nas relações entre as duas partes”.

Histórico – Embora a atuação de Francisco tenha sido essencial, o vaticanista americano John Allen Jr., do jornal Boston Globe, ponderou que qualquer papa tentaria promover a normalização das relações entre Washington e Havana. Já João Paulo II, primeiro papa a visitar Cuba depois da revolução cubana, em 1998, procurou garantir maior liberdade aos cubanos. Pedia o papa: “Que Cuba se abra para o mundo e o mundo se abra para Cuba.” Bento XVI manteve a mesma política, explica Allen. Ele denunciou o embargo dos Estados Unidos a Cuba, quando visitou a ilha em 2012, chamando- de “injusto” para o povo cubano. Por outro lado, se recusou a encontrar um grupo de oposição a Fidel Castro. Segundo Allen, a diplomacia da Igreja foi muito criticada sob Bento XVI por não denunciar as injustiças na ilha, mas ao mesmo tempo garantia uma atuação mais firme nos bastidores, “especialmente porque o país se prepara para um futuro pós-Castro”.

Trabalho em equipe – De qualquer forma, o Papa Francisco não atuou sozinho. A Igreja possui a rede diplomática mais antiga do mundo: desde o quarto século, antes ainda que existisse o Estado Pontifício (hoje o Vaticano), a Sé Apostólica enviava missões diplomáticas. Atualmente, 176 países e as Nações Unidas possuem núncios, os embaixadores do papa. Segundo o vaticanista italiano Aldo Maria Valli, da televisão pública RAI 1, no caso entre Cuba e Estados Unidos, cinco nomes se destacam: o cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano; o cardeal Beniamino Stella, que foi núncio em Cuba e hoje é conselheiro do papa no Vaticano; o arcebispo Angelo Becciu, que também foi núncio em Cuba e atualmente ocupa o cargo de Substituto para Assuntos Gerais no Vaticano; e o cardeal Ortega, amigo de longa data do Papa Bergoglio. Falando à Rádio Vaticano, Dom Parolin, que é diplomata de carreira, comentou que o papel da Santa Sé em casos de interesse internacional “é facilitar o diálogo entre as duas partes”.

O presidente Raúl Castro e o cardeal cubano, Dom Jaime Lucas Ortega y Alamino

A atuação do Papa Francisco neste caso está ligada ao fato de que ele é o primeiro papa latino-americano, de modo que conhece muito bem a realidade cubana. Mas, segundo o articulista de religião David Gibson, da agência Religion News Service, também pela forma como ele entende a diplomacia católica. “Desde que foi eleito, em março de 2013, Francisco tem buscado de forma persistente elevar o Vaticano ao nível global, algo que não vimos desde a década de 1980, quando o Papa João Paulo II peregrinou entre o Leste e o Oeste para ajudar a acabar com a Guerra Fria”, observa, em artigo.

Bispos cubanos e americanos elogiaram a atuação do papa e da Santa Sé no caso. O arcebispo de Santiago de Cuba e presidente da conferência episcopal da ilha, Dom Dionisio Garcia Ibanez, enviou uma carta aberta ao Papa Francisco: “Nós, bispos de Cuba, queremos manifestar nossa mais viva gratidão por sua obra, que renovou a esperança do início de uma etapa no caminho do povo cubano que leve benefício para toda a nação.” O arcebispo Thomas Wenski, da Diocese de Miami, aquela com maior número de cubanos nos Estados Unidos, afirmou em comunicado: “O Papa Francisco fez o que os papas devem fazer: construir pontes e promover a paz.”

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O voto católico em Obama

Resolvemos propositalmente esperar até o fim de semana para escrever neste blog sobre a reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, que ocorreu na última terça-feira (6). Queríamos ver qual seria a reação da mídia católica e dos jornalistas de religião e, como imaginávamos, muito se falou sobre as supostas “incertezas” nas relações diplomáticas entre a Santa Sé e os Estados Unidos. Mas essa não parece ser a grande questão neste momento.

Se o presidente é o mesmo, os partidos são os mesmos, o Papa é o mesmo, a relação continua sendo a mesma: delicada, especialmente no que diz respeito às questões da chamada “defesa da vida”. Já tratamos neste blog da insatisfação dos bispos católicos dos Estados Unidos com a reforma da saúde do governo Obama, que obriga empresas  a fornecerem plano de saúde para seus funcionários (com acesso a anticoncepcionais, pílulas do dia seguinte e aborto em alguns casos) e sobre a mudança de posição pessoal de Obama a respeito do casamento de pessoas do mesmo sexo. Ele se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a aprovar o “casamento gay”. Em ambos os casos, as decisões foram fortemente contrárias ao posicionamento oficial da Igreja, o que ajuda a explicar por que a relação está abalada.

A grande questão que precisa ser analisada e estudada por especialistas agora é o fato de que metade dos eleitores que se dizem católicos votou em Obama, ou seja, contra a recomendação dos bispos católicos de seu país. Está na cara que temos aí um conflito. Os bispos americanos vinham insistindo há meses principalmente na questão do direito à vida e à família, criticando qualquer iniciativa do governo Obama em favor do aborto e da contracepção. E, mesmo assim, deu Obama.

Candidato derrotado, Mitt Romney

Mais do que isso, em referendo realizado no mesmo dia da eleição presidencial, eleitores de Washington, Maine e Maryland aprovaram medidas que legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em Maine, apenas três anos atrás os cidadãos haviam rejeitado a mesma emenda. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o “casamento gay” foi aprovado em todos os Estados em que foi colocado à prova. E, em Minnesota, uma proposta de proibição para essa união foi rejeitada pela população.

Em outras palavras, mesmo após uma intensa e agressiva campanha dos bispos, muita gente, inclusive católicos, votou em Obama. O que poderia ter causado isso? São várias possibilidades. Mas fato é que vem ocorrendo uma forte mudança nos padrões culturais e comportamentais de muitos países, não só nos Estados Unidos, que vai de encontro ao ensinamento da Igreja, cuja mensagem vem sendo rejeitada por grupos que antes a aceitavam sem questionar muito. São cada vez mais fortes e mais presentes os grupos feministas que defendem o aborto, os grupos de defesa dos direitos dos homossexuais e os ateus engajados, por exemplo. É a tal da “secularização” dando as caras novamente, e com força.

Cardeal Timothy Dolan, de Nova York

Outra forma de se encarar a questão é analisar a maneira como a Igreja vem transmitindo sua mensagem. Fazer a chamada “defesa da vida” com discursos agressivos pode não ser a forma mais eficiente. O sarcasmo, a ironia e as mensagens indiretas podem ser interpretados como arrogância e abuso de autoridade, lembrando a imagem da antiga Igreja que mais reprimia do que acolhia. “Chamar para a briga” num cenário de divisão pode não ser a forma mais inteligente de mobilizar a sociedade.

E é exatamente o que a Igreja tem feito – pedido uma firme mobilização em favor da liberdade religiosa, da defesa da vida e da família. Em editorial, o jornal L’Osservatore Romano afirmou que a Igreja não sai derrotada e que os católicos devem defender o ensinamento da Igreja diante de ideologias politicamente corretas que invadem todas as culturas do mundo e contrariam as bases de nossa sociedade.

O presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), Cardeal Timothy Dolan, grande porta-voz da campanha dos bispos contra Obama, disse que eles rezam pelo presidente, mas pediu que Obama busque o bem comum, especialmente cuidando dos mais vulneráveis, “o que inclui os não nascidos, os pobres e os imigrantes”. Segundo Dolan, os bispos católicos vão continuar defendendo “a vida, o casamento e nossa mais querida liberdade, a liberdade religiosa”. Para ele, obrigar católicos a obedecer leis que favorecem a contracepção, por exemplo, é um atentado à liberdade religiosa.

Há que se observar, ainda, que Obama não ganhou a eleição sozinho. Ele disputou contra Mitt Romney, que tem lá suas qualidades e defeitos, e cujo Partido Republicano tem nos assuntos bélicos tradição e gosto mais do que comprovados. Sendo assim, o que pode ser “defesa da vida” para alguns eleitores católicos pode não ser a mesma “defesa da vida” para outros. É uma questão de avaliar qual é a prioridade. E as prioridades mudam.

De qualquer forma, o Papa Bento XVI saudou o presidente eleito, oferecendo suas orações para que Deus o ajude a conduzir suas sérias responsabilidades (o texto da mensagem não foi divulgado). No seu discurso de vitória, Obama disse que volta à Casa Branca mais inspirado e determinado. “O reconhecimento de que temos esperanças e sonhos comuns não acaba com todos os impasses, nem resolve nossos problemas ou substitui o cuidadoso trabalho de construir consensos e assumir compromissos difíceis e necessários para conduzir este país adiante”, declarou.

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Rio+20: o que têm a Igreja e os direitos reprodutivos da mulher a ver com isso

Já havíamos adiantado neste post um pouco do que seria a atuação da Santa Sé na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Mas o noticiário chamou a atenção para o fato de que o Vaticano pressionou o Brasil, que preside a Conferência, contra a inclusão no texto final de que os países se comprometeriam com a garantia dos “direitos de sexualidade e reprodução” da mulher. No lugar, entrou “serviços de saúde” da mulher.

A primeira coisa a se entender aí é o que tem a saúde da mulher a ver com o meio ambiente. Pois bem, muitos ambientalistas afirmam que as mulheres são as pessoas mais prejudicadas nos ambientes de extrema pobreza. Em muitos lugares onde a degradação ambiental é resultado da pobreza, como numa favela, por exemplo, as mulheres são as principais responsáveis por manter e cuidar das famílias. Às vezes têm muitos filhos e uma vida sexual descontrolada. Se a degradação ambiental agrava a pobreza, portanto, as mulheres são uma parcela da população mundial significativamente prejudicada.

O Brasil, que hoje é presidido por uma mulher, Dilma Rousseff, simpatizante da causa feminista, havia colocado no rascunho o termo “direitos de sexualidade e reprodução”, que no meio diplomático é conhecido como outra forma de dizer “métodos contraceptivos e aborto”. E como todo mundo sabe, a Igreja é contra o aborto em qualquer circunstância.

Mary Robinson criticou o documento final

Nesse contexto, alguns grupos políticos e de ambientalistas criticaram o Vaticano por ter defendido essa posição. Uma delas foi a ex-presidente da Irlanda e ex-comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, Mary Robinson, que em entrevista ao jornal O Globo disse que “as mulheres são essenciais para o desenvolvimento sustentável”. Ela lamentou muito o resultado e afirmou que a questão não avança “por uma guerra política” da qual a Igreja faz parte.

No discurso proferido na Rio+20, o Arcebispo de São Paulo e presidente da delegação da Santa Sé, Cardeal Dom Odilo Scherer, falou diretamente sobre as delegações que tentam promover “questões como ‘dinâmica populacional’ ou ‘direitos reprodutivos’, como uma forma de desenvolvimento sustentável”. Segundo ele, “estas propostas são baseadas em uma noção errada de que o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental só podem ser alcançados através da garantia de que haja menos pessoas em nosso planeta”.

Dom Odilo Scherer

Não aprofundaremos a discussão sobre qual posição é a mais correta ou melhor para o desenvolvimento sustentável. Mas há que se ponderar que a Santa Sé não foi a única contrária à inclusão do termo “direitos de sexualidade e reprodução”. Também o fizeram Chile, Nicarágua, Costa Rica, República Dominicana, Egito, Síria e Rússia. Defenderam o termo Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suíça, União Europeia e Estados Unidos.

Na verdade, o grande problema dessas conferências não é o fato de um país ou outro defender essa ou aquela posição, sobre qualquer temática que seja. Afinal, cada país é soberano em suas decisões, tem suas próprias leis, legisladores, governantes e eleitores (no caso das democracias, claro).

O problema é a lógica ingênua de exigir  que o documento final da Rio+20 seja fruto de um consenso entre todos os países representantes. Desse modo, qualquer membro tem direito de discordar de uma vírgula e pressionar para mudar o texto nesse ou naquele sentido – o que é totalmente legítimo nesse cenário. É por isso que essas reuniões raramente chegam a resultados concretos, como foi  o caso da Rio+20.

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Igreja Católica também discute sobre o futuro do meio ambiente na Rio+20

Espaço “Futuro que queremos” na Rio+20

Começou hoje a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e a Igreja Católica também participa das discussões.

O Papa Bento XVI nomeou o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, como enviado especial da Santa Sé à conferência. Além de Dom Odilo, que preside a delegação, estarão lá também Dom Francis Chullikatt, Observador Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, os adidos Pe. Philip J.Bené e Pe. Justin Wylie, além do advogado Lucas Swanepoel.

O encontro deve reunir representantes dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), além de membros da sociedade civil, como Organizações Não Governamentais (ONGs), empresas e outras instituições.

Em entrevista à televisão católica Canção Nova (veja aqui), Dom Odilo Scherer explicou o motivo de a Igreja também estar na Rio+20: “A palavra da Igreja, representada pela Santa Sé, tem um peso e por isso a Igreja não pode deixar de dizer sua palavra e apresentar a sua posição“, afirmou. “O Homem foi colocado como zelador do jardim, do paraíso, então deve assumir a sua responsabilidade de cuidar bem, e não de estragar o jardim, o paraíso terrestre, ou seja, o mundo em que nós vivemos.”

Dom Odilo Scherer, enviado especial do Papa para a Rio+20

Pode parecer talvez que a Igreja está caindo de paraquedas nas discussões sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, mas essa ideia é um engano. Nunca um Papa falou tanto sobre a proteção do meio ambiente como Bento XVI, que é chamado por alguns ambientalistas de o “Papa Verde”.

Uma das ocasiões em que abordou o tema foi em 2009, enviando mensagem para os representantes da ONU em conferência sobre as mudanças climáticas, Bento XVI afirmou que “os custos econômicos e sociais na utilização dos recursos comuns devem ser reconhecidos com transparência”, dedicando atenção às futuras gerações. Em sua encíclica Caritas in Veritate (Caridade na Verdade), defendeu que o desenvolvimento deve ser “inspirado nos valores da caridade na verdade” e pediu uma transformação do modelo de desenvolvimento, com maior valorização do ser humano.

A pobreza é degradação

Também hoje, a entidade Caritas Internationalis – mais famosa e reconhecida instituição católica de caridade – divulgou documento pedindo “uma mudança de paradigma, a uma nova civilização do amor pela humanidade, que coloque a dignidade e o bem-estar de homens e mulheres no centro de toda ação”. A Caritas estimulou os líderes transmitirem “uma mensagem de esperança para a humanidade, sobretudo para os pobres e excluídos”.

A grande discussão que se faz sobre a Rio+20 é se ela realmente chegará a alguma conclusão prática e concreta sobre a sustentabilidade, pois muito se fala sobre o meio ambiente e pouco se faz em âmbito global. Os países raramente chegam a acordos sobre essas questões.

De qualquer forma, especialistas dizem que conferências desse tipo são importantes assim mesmo, nem que seja apenas para se formar uma nova “cultura”, um novo pensamente de preservação, de reutilização, e não mais somente de exploração e descarte.

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Pergunta: Qual é a diferença entre bispo, arcebispo e cardeal?

O Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo, e o Arcebispo de Campinas, Dom Airton

No último domingo estive na cerimônia de posse do novo Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos, e, conversando com outros colegas jornalistas, que trabalhavam na cobertura da cerimônia, surgiu a dúvida que dá título a este post. Dom Airton, que era bispo da Diocese de Mogi das Cruzes, foi recentemente nomeado para assumir a Arquidiocese de Campinas, tornando-se, portanto, arcebispo.

Além do seu endereço, o que mais muda para ele? E os cardeais, são os “chefes” dos bispos e arcebispos?

Não é bem assim. Conforme explicamos neste post (“O que é um diácono?”), na Igreja Católica existem apenas três graus para o sacramento da Ordem: diaconato, presbiterato e episcopado. Todos os bispos e arcebispos (inclusive o Papa) são ordenados no terceiro grau. Nesse aspecto são todos iguais e, como costumam dizer, “irmãos no episcopado”.

Para a Igreja Católica, os bispos são os sucessores dos apóstolos como “pastores da Igreja”. Conforme o Catecismo da Igreja Católica, por meio da imposição das mãos durante a ordenação episcopal, o sacerdote assume os deveres de “santificar, ensinar e reger”. Diz o número 1558 que  os bispos, “pelo Espírito Santo que lhes foi dado, foram constituídos como verdadeiros e autênticos mestres da fé, pontífices e pastores”.

A diferença do arcebispo é que ele assume uma missão considerada talvez mais importante para a Igreja, ou pelo menos que exige uma responsabilidade ainda maior. A Wikipedia parece explicar bem quais são os diversos tipos de arcebispos, veja neste link. Os núncios apostólicos – embaixadores da Santa Sé em vários países – geralmente são arcebispos. Também na Cúria Romana há diversos arcebispos que trabalham em funções burocráticas, mas estratégicas.

Porém, a maioria dos arcebispos recebe esse título porque administra uma diocese reconhecida como das mais importantes, seja por causa do número de fiéis, pela extensão de seu território ou por questões históricas – o que, na verdade, é uma “arquidiocese“.

Além disso, as dioceses estão agrupadas em áreas territoriais chamadas “províncias eclesiásticas” e as arquidioceses são as sedes dessas províncias. Assim, os arcebispos (nestes casos “arcebispos metropolitanos”) têm alguns deveres de supervisão e jurisdição sobre as outras dioceses que compõem a mesma província – chamadas “dioceses sufragâneas”.

No caso da Arquidiocese de Campinas, citada no início deste post, sufragâneas são as Dioceses de Limeira, São Carlos, Bragança Paulista, Amparo e Piracicaba.

No entanto, os bispos de cada diocese não devem satisfações ao arcebispo no que diz respeito à ação pastoral. Cada um deles é soberano para organizar sua diocese e responde diretamente ao Papa.

Já o título de “cardeal” é outra coisa. Costuma designar um sacerdote que por algum motivo tem uma proximidade maior com o Papa, geralmente pela relevância da missão que desempenha. A maioria dos cardeais é de bispos e arcebispos, mas padres e diáconos também podem ser nomeados cardeais. No último consistório – cerimônia de criação dos cardeais pelo Papa – dois padres viraram cardeais.

Os cardeais são escolhidos pessoalmente pelo Papa. E, muitas vezes, algumas dioceses são tão importantes para a Igreja que os bispos que as assumem são quase que automaticamente criados cardeais – dois exemplos são a Arquidiocese de São Paulo e a Diocese de Hong Kong, para citar uma arquidiocese e uma diocese.

Consistório em que o Arcebispo Dom João de Aviz foi criado cardeal por Bento XVI

Ou seja, embora um cardeal geralmente esteja numa posição hierárquica mais elevada, isso não é obrigatório para chegar lá. Alguns são renomados professores universitários, por exemplo. Um cardeal não é mais bispo do que um bispo de uma pequena diocese ou um arcebispo de uma grande arquidiocese. Mas de modo geral ele está mais próximo do Papa, o que lhe confere uma autoridade e um título singulares.

Além disso, é essencial lembrar que apenas os cardeais votam nos conclaves, aquelas reuniões a portas fechadas que elegem o Papa. Todo cardeal com menos de 80 anos pode votar. E qualquer cardeal pode ser eleito Papa.

Essas diferenças todas aqui citadas podem ser notadas de várias formas, como nas roupas que usam e nos brasões de cada um deles. Os bispos e arcebispos usam roupas na cor violeta, enquanto os cardeais usam vermelho-púrpura (veja as fotos). Os brasões também têm símbolos a mais ou a menos, que sinalizam os títulos daquele bispo.

Existem outros detalhes nessa diferenciação, que podem ser encontrados por aí na internet. Mas as características que citamos aqui talvez sejam as mais básicas.

Envie você também sua dúvida sobre a Igreja nos espaços para comentários e veja aqui as outras perguntas já respondidas neste blog.

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O Papa Bento XVI visita o México e paga uma dívida de sete anos

Bento XVI chega ao México, recebido pelo presidente Felipe Calderón e pela a primeira-dama Margarita

Bento XVI estava em dívida com os mexicanos. Em sete anos de pontificado, ele foi duas vezes à África, esteve no Brasil, nos Estados Unidos, no Oriente Médio, na Terra Santa, na Turquia, em diversos países da Europa (Alemanha, França, Portugal, Espanha, Polônia, Áustria, República Tcheca, Malta, Chipre, Reino Unido, Croácia) – não necessariamente nesta mesma ordem – e até à Austrália ele foi. Olha que a Austrália fica bem longe. Isso tudo sem contar as viagens dentro da Itália, que foram quase 30.

Mas o Papa Ratzinger ainda não tinha  dado nem um pulinho no segundo país com maior número de católicos no mundo, depois do Brasil: o México. Se todos temos a obrigação de fazer algumas coisas antes de morrer, podemos dizer que visitar o México estava na lista do Papa.

Agora, em sua 23ª “viagem apostólica”, o pontífice paga a dívida e cumpre uma tarefa que foi adiada por tempo demais. Serão quase três dias no México e dois em Cuba. Mas o mais importante aí não é tanto o fato de Bento XVI ir ao México, e sim, por que resolveu fazer essa viagem justo agora. São três os motivos principais:

O primeiro, meio óbvio, é pastoral. Trata-se do enfraquecimento dos valores cristãos em parte da sociedade mexicana. Não só no México, mas também em outros países da América Latina, a Igreja Católica vem perdendo influência junto aos governos e à sociedade como um todo. Em muitos lugares, as tradições perdem espaço para a globalização,  o consumo e os tais “valores mundanos” – deixar Deus de lado e cuidar só das coisas práticas da vida. Isso inclui o enfraquecimento das religiões tradicionais.

De acordo com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, um dos objetivos da visita de Bento XVI é “refundar” o México nos valores cristãos, que constituem “o DNA do povo mexicano”. Dentro desse objetivo, segundo Bertone, o Papa falará aos jovens, estimulando-os “a não se deixar seduzir pelo dinheiro fácil”.

João Paulo II esteve cinco vezes no México

O segundo motivo é político. É bom para a Igreja que o México continue sendo um país de maioria católica. E, muito perto das eleições federais no México, que serão em julho deste ano, é importante para a Santa Sé mostrar que está aberta a manter relações diplomáticas com qualquer governo, qualquer partido, mesmo que seja um governo mais distante dos cristãos.

Bento XVI quer mostrar que a Igreja continuará presente ali, mantendo sua firme atuação, ainda que o partido do presidente Felipe Calderón (PAN, que é pró-católico) perca a disputa. Nesse sentido, o Papa deve reafirmar, entre outras coisas, a importância da “família tradicional” e da “valorização da vida desde a concepção até a morte natural”.

O terceiro motivo é social e envolve a grave onda de violência e o narcotráfico no México, que atingiu níveis assustadores nos últimos meses. Mais de 50 mil pessoas morreram em cinco anos e meio, segundo o Los Angeles Times. Disputas entre cartéis de drogas acabaram com a paz de boa parte da população mexicana e transformaram regiões do país em zonas de guerra.

Não é à toa o fato de que o Papa vai direto para o Estado de Guanajuato. Ali, a violência é intensa e os cartéis são mais fortes . As principais gangues prometeram manter a paz durante a visita do Papa ao país. Bento XVI não vai à Cidade do México por causa da altitude elevada, que pode ser nociva à sua saúde (que está boa, mas é frágil, segundo o Vaticano – aliás, pela primeira vez ele apareceu publicamente usando bengala).

Também há relatos de envolvimento do tráfico de drogas com as comunidades paroquiais no México, seja por meio de doações, seja por meio de interferências nas atividades pastorais. Bento XVI pediu o fim dessas relações desde 2005, quando assumiu. Mas pouco se avançou nisso.

No avião rumo ao México ele afirmou que é preciso “desmascarar o mal e a mentira”. E acrescentou que “os problemas do narcotráfico e da violência pesam sobre a Igreja de um país com 80% de católicos”.

Depois do México, o Papa segue para Cuba, onde terá compromissos mais tensos, embora o governo tenha dito que o pontífice será ouvido “com respeito”. As relações entre o governo socialista de Cuba e a Igreja Católica melhoraram com João Paulo II, mas permanecem delicadas. Falaremos dessa outra visita em um novo post.

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