Arquivo da tag: dom odilo scherer

Dom Odilo Scherer visita Papa Francisco no Vaticano

Pela primeira vez, o papa Francisco e o cardeal Odilo Pedro Scherer puderam conversar em particular sobre alguns dos temas mais importantes para a Igreja em São Paulo. Em entrevista exclusiva ao O São Paulo em Roma, o Arcebispo de São Paulo revelou que os dois refletiram sobre a necessidade de se realizar uma verdadeira “retomada missionária” nas grandes metrópoles urbanas de todo o mundo. Eles recordaram o forte exemplo do Beato Padre José de Anchieta, um dos primeiros jesuítas enviados por Santo Inácio de Loyola ao Brasil, em 1553, cuja canonização “está próxima”.

Leia aqui a íntegra da nossa reportagem publicada em O São Paulo

2 Comentários

Arquivado em Igreja no Brasil, Vaticano

Uma geral sobre a renúncia do Papa, o conclave e os problemas na Igreja

papa-bento-XVI-233Como era de se esperar, a renúncia do Papa Bento XVI tem provocado muita especulação. Queremos neste post tentar organizar um pouco certas ideias e, sem grandes pretensões, na medida do possível, formar uma base para que o leitor possa pensar melhor sobre o que está acontecendo, num momento tão único e delicado para a Igreja Católica.

Como dizemos na descrição deste blog, o mundo é mais complexo do que gostaríamos. Nem tudo são flores, mas tampouco é o fim do mundo ou da Igreja – pelo contrário. O post está longo, porque o tema é grande. Por isso, dividimos o texto em 5 tópicos curtos, para facilitar sua leitura:

A RENÚNCIA – O que vimos foi um fato histórico: a última vez que um Papa renunciou foi há quase 600 anos. E, como todo fato histórico, não aconteceu de uma hora para outra. Foi uma decisão pessoal e livre. Evidência: como já havíamos dito em março de 2012, a saúde de Bento XVI é frágil e ele, que tem 85 anos, há muito tempo considerava essa possibilidade. Bento XVI disse há mais de dois anos que não hesitaria em fazê-lo caso não se sentisse em condições “físicas, psicológicas e espirituais” para ser Papa. Ele governará a Igreja até as 20 horas de 28 de fevereiro de 2013.

Agora, duas semanas após o anúncio, ficou mais claro que nenhum fato específico levou o Papa à decisão, mas sim toda uma conjuntura, uma série de fatores, que aos poucos o fizeram perceber que o “ministério petrino” (referência ao apóstolo Pedro) se tornou pesado demais. Entre eles: a rotina intensa de reuniões, celebrações, viagens longas, preparação de documentos, nomeações, aparições públicas, etc; os grandes desafios que a Igreja enfrenta no mundo, como a secularização, o distanciamento dos jovens, o crescimento dos grupos evangélicos, dificuldades no diálogo com outras religiões; e os recentes escândalos, como a divulgação de documentos sigilosos (VatiLeaks), a corrupção em obras da Igreja, a pedofilia praticada por membros do clero, as disputas de poder na Cúria Romana…

imageangelos873Para lidar com tudo isso, “é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”, afirmou Bento XVI no momento da renúncia. Ou seja, não foi só o cansaço físico, nem só problemas de saúde, nem só os escândalos, nem só disputas de poder. O Papa está ciente de que a Igreja precisa de um líder com mais disposição e mais força para enfrentar todos esses grandes desafios, que vão da Nova Evangelização até os problemas estruturais. Enfim, Bento XVI afirmou na Quarta-Feira de Cinzas que a Igreja precisa ser “verdadeiramente renovada”.

Fato é que a renúncia abre um precedente histórico, segundo o vaticanista italiano Andrea Tornielli (leia mais aqui). Outros haviam pensado em renunciar no passado – como João Paulo II, por exemplo – mas nunca o fizeram porque temiam que o papado pudesse perder força, como instituição. Temiam ser mal interpretados e abrir as portas para outras renúncias inadequadas ou até golpes contra o sumo-pontífice. Mas, consciente de que não seria mais de capaz de responder à altura a necessidades urgentes, Bento XVI renunciou “para o bem da Igreja”. Para os próximos Papas, certamente fica mais fácil fazer o mesmo se for preciso.  Não se sabe que efeitos isso terá no futuro, mas sabe-se que Bento XVI reagiu de forma corajosa e nova, num mundo que exige respostas novas a problemas novos.

Outros Papas idosos também cogitaram renunciar

Outros Papas também cogitaram renunciar

DIVISÕES NA IGREJA – Já mencionamos alguns dos principais desafios da Igreja atualmente. Mas um dos problemas sobre os quais mais se falam por aí são as disputas internas. Como já dissemos, elas são relevantes, mas não são a única causa para a renúncia.

De qualquer forma, basta observar as mensagens do Papa Bento XVI nas últimas semanas de pontificado para ver que esse problema não é para ser ignorado, nem por seu sucessor nem pela sociedade. Numa mensagem para todos os fiéis do mundo, ele criticou o que chamou de “hipocrisia religiosa” e a instrumentalização da fé para benefício pessoal, praticadas por alguns membros do clero. São essas algumas de suas maiores preocupações.

Por quê? Porque Bento XVI tentou fazer grandes reformas na estrutura e na administração da Igreja e, de fato, conseguiu melhorar muita coisa. As maiores delas foram a criação de padrões para combater a pedofilia e uma mudança de comportamento em relação ao problema. Existem documentos claros sobre como evitar e agir nessas situações, como atender as vítimas, etc. Também foi ele quem começou a reformar o sistema financeiro do Vaticano, adaptando-o aos padrões internacionais – reforma importantíssima sobre a qual já falamos detalhadamente (Leia mais).

Porém, em ambos os casos há muita coisa ainda só no papel. Quando se fala em mexer em estruturas antigas e consolidadas, é previsto que exista forte resistência interna. Portanto, o Papa fez o que podia fazer e preferiu deixar o caminho livre para alguém com mais vigor, inclusive politicamente. Com sua saída, um governo novo pode chegar, possibilitando melhorias mais radicais.

INVESTIGAÇÃO VATILEAKS – Outro assunto importante que está circulando hoje diz respeito à comissão de cardeais que investigou o vazamento de documentos sigilosos do Papa e do Vaticano, nomeada por Bento XVI. Esses cardeais se reuniram com o Papa e ficou decidido que o relatório final da investigação, sigiloso, não será divulgado aos cardeais eleitores, mas apenas ao novo pontífice. A imprensa italiana – mais especificamente a revista Panorama e o jornal La Reppublica – publicaram fortes reportagens sobre esse assunto nas últimas semanas, dizendo que o conteúdo dos documentos envolve problemas como corrupção e prostituição praticadas por membros da Cúria Romana. Bento XVI e os cardeais da comissão, conscientes da complexidade do problema e de que não dá para resolver só com documentos, decidiram que somente um novo Papa terá os instrumentos necessários para resolver tudo isso. 

downloadconclave333CONCLAVE – Nesse grande contexto, ainda não se sabe ao certo o que os cardeais eleitores querem para o futuro da Igreja. Agora eles são 116, depois da desistência de um cardeal indonésio, por doença, e da renúncia de um cardeal inglês, por ter supostamente mantido relações pessoais inapropriadas. De qualquer forma, o que se fala em Roma é que muito provavelmente o próximo Papa será um sexagenário ou, no máximo, alguém que está na casa dos 70 anos. Afinal, não faria muito sentido eleger um Papa muito velho depois da renúncia de um Papa idoso.

A grande notícia hoje foi o fato de que Bento XVI mudou algumas regras para o conclave, reunião em que se elege o novo Papa. Ele deixou aberta a opção para que os cardeais decidam se querem antecipar ou não o início da votação. De acordo com a norma anterior, elaborada por João Paulo II em 1996, o conclave só poderia começar depois de 15 dias do início da chamada sede vacante, isto é, o período em que não se tem um Papa e a Igreja é governada pelo colégio de cardeais. O objetivo da regra original era permitir que todos os cardeais pudessem chegar a Roma em tempo para a votação.

Alguns cardeais preferem iniciar logo o conclave, já no início de março, considerando que desta vez não houve a morte de um Papa e, portanto, todos os eleitores já sabem há duas semanas que terão de estar em Roma. Assim, haveria um Papa novo antes da Páscoa. Tampouco há necessidade de realizar funerais, pois o antigo Papa está vivo. Por outro lado, outros cardeais querem chegar a Roma com calma e ter tempo de conversar com todo mundo, ver o que está acontecendo e o que os outros acham. Temem que apressar o conclave possa favorecer a eleição de “nomes prontos”, ou seja, uma eleição com pouca reflexão, meio no piloto automático, que acabaria levando ao trono de bate e pronto um dos favoritos ao papado. Talvez encontrem um meio termo nessa questão do tempo.

A IMPRENSA –  Realmente alguns representantes da imprensa internacional estão exagerando na especulação neste momento  – esquecendo princípios básicos do jornalismo – e aproveitando a chance para mostrar todos os problemas da Igreja. Vale lembrar também que grandes veículos de comunicação têm lá seus grandes proprietários com seus grandes objetivos.

A imprensa, que atualmente funciona a mil quilômetros por hora, com poucos recursos e jornalistas muitas vezes mal informados, quer a cada segundo revelar algo novo. Acaba se esbaforindo e deixando de lado o compromisso de se ater aos fatos, e não aos boatos, às intrigas internas, às fontes duvidosas.

Por outro lado, também a Igreja, como instituição, ainda não aprendeu a lidar com um mundo em que a informação corre rapidamente e onde, se a informação não for divulgada por vias oficiais, pode acabar sendo divulgada por vias paralelas.

images-salastampaExemplo: coisas aparentemente pequenas, como a cirurgia de rotina que Bento XVI fez no coração para trocar a bateria de seu marca passo, viraram grandes especulações internacionais porque o Vaticano não divulgou essa informação no momento oportuno, há meses.

Enfim, temos aí uma relação delicada entre duas instituições que veem o mundo de forma totalmente diversa. A Igreja, busca uma visão mais intelectual, refletida, espiritual, organizada e lenta; a Imprensa quer uma visão mais materialista, prática, objetiva, quantificada, secular e rápida. Esse descompasso não é novo e ainda vai dar muito problema no futuro.

De qualquer forma, apesar de todos os problemas e especulações aparentemente negativas com relação à Igreja, o momento pode ser altamente favorável. Se os cardeais eleitores souberem aproveitar os limões para fazer limonada, uma grande mudança positiva para a Igreja e para o mundo pode estar por vir. A Igreja tem uma chance única de iniciar novas reformas estruturais com um novo pontificado mais moderno na forma – já sobre o conteúdo não cabe a nós discutir aqui, mas aos filósofos, teólogos, religiosos, etc.

Talvez seja a hora de aparecer um líder com experiência administrativa e pastoral. Talvez alguém com um olhar  diferente, moderno, com soluções inovadoras e criativas. Talvez.

1 comentário

Arquivado em Igreja, Igreja no Mundo, Vaticano

O atual problema da PUC-SP não é exatamente uma surpresa

Tínhamos em mente uma série de coisas para escrever aqui no blog, mas não podemos deixar de falar do problema atual da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) .

Alunos e funcionários da PUC-SP estão de greve há mais de duas semanas, em protesto contra a nomeação da professora doutora Anna Cintra para a reitoria pelo Arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Odilo Scherer, que é também o grão-chanceler da PUC e, por isso, tem o direito de escolha com base em uma lista tríplice apresentada por assembleia universitária.

O problema está instaurado, mas não é uma surpresa. Veremos neste post o porquê e qual é o desafio para a Igreja daqui pra frente.

Antes de mais nada, não se sabe ainda se a nova reitora vai assumir. Embora a posse estivesse prevista para sexta-feira, dia 30, hoje o Conselho Universitário da PUC-SP suspendeu a validade da lista tríplice de indicados. A crise lembra muito o problema vivido pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), sobre a qual falamos mais de uma vez neste blog e que perdeu oficialmente os títulos de “Pontifícia” e “Católica” conferidos pela Igreja.

Dom Odilo Scherer, cardeal e grão-chanceler da PUC-SP

O grande impasse na PUC-SP iniciou quando Dom Odilo resolveu nomear a terceira colocada da lista tríplice, coisa que tradicionalmente não acontece. Geralmente, o grão-chanceler costuma apenas confirmar a decisão da assembleia, escolhendo o candidato mais votado – neste caso, o atual reitor, Dirceu de Mello, de 81 anos. Fato é que a decisão do cardeal é legal e está dentro das normas e estatutos da PUC e do Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja).

OS DOIS LADOS – O que centenas de alunos, professores e funcionários questionam neste momento é a legitimidade da decisão. Dizem que a Igreja está “interferindo” na autonomia e na democracia da universidade. Em nota que circulou pelos corredores da PUC, os grevistas dizem que “a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP tem adotado medidas antidemocráticas que remontam ao regime autocrático, antes tão combatido”.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, em protesto, com alunos, o diretor de teatro Zé Celso afirmou que o “Vaticano tem de entrar pelo cano” e que o Papa “é um ditador”. Também conforme a Folha, o candidato mais votado, Dirceu Mello, disse que “todos na universidade ficaram decepcionados com esse desfecho”. Acrescentou: “Se eu fosse estudante, estaria procedendo da mesma forma. Os universitários de hoje sabem perfeitamente aquilo que é certo e o que é errado.”

Já os defensores da decisão do cardeal, como o jurista Ives Gandra Martins, dizem que ele tem uma “prerrogativa estatutária, que foi exercida, legal e legitimamente”. Também é interessante este post do filósofo Gabriel Ferreira, que reflete sobre o papel das universidades pontifícias e defende o direito da Igreja de participar da gestão das PUCs. Outro que merece ser lido é o canonista Edson Luiz Sampel, cujo artigo saiu também na Folha. Entre os argumentos, ele menciona que outras instituições universitárias ligadas a religiões, como os presbiterianos, metodistas e judeus, têm direção claramente confessional.

Anna Cintra é da área de Letras

E AGORA? – Nosso foco aqui é o papel da Igreja no Brasil e no mundo. Vale lembrar que por muito tempo a instituição Igreja foi relapsa na condução de algumas universidades pontifícias. E agora, de uma hora para outra, está claro que ficou meio difícil retomar essa participação, embora seja um direito garantido por leis e estatutos.

Simplificando muito uma situação bem complexa: tanto a PUC-SP quanto a PUCP (aquela do Peru) foram expoentes da chamada “Teologia da Libertação”, corrente que se destacou por ser uma interpretação do Cristianismo à luz do Marxismo e, por esse motivo, contrária ao pensamento oficial da Igreja, centralizado em Roma. Num contexto de combate às violentas ditaduras de direita, durante a Guerra Fria, os grupos de esquerda ganharam força nos âmbitos universitário e religioso.

O problema para a Igreja é que, mesmo depois do fim da Guerra Fria, das ditaduras na América Latina e após uma série de mudanças políticas por aqui, aparentemente não houve um esforço real de retomar sua influência ideológica nessas duas universidades. É verdade que houve uma série de reformas e intervenções administrativas (na PUC-SP uma delas para resolver um rombo nos cofres), mas que não mudaram muito a linha acadêmica e o viés político, talvez justamente para não gerar tanto conflito.

Ou seja, em muitas faculdades dessas duas PUCs (talvez de outras mais) quase sempre se destaca a linha que vai contra o ensinamento da Igreja. É normal ver nos corredores e salas de aula da PUC-SP alunos e professores defendendo o aborto, a legalização da maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – para citar apenas alguns temas mais controversos. Porém, supostamente, segundo os documentos da Igreja (como a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae – Sobre as universidades católicas), é missão das PUCs fazer florescer uma “cultura cristã”, de modo que, a rigor, ao menos a linha geral da universidade deveria seguir o que a Igreja ensina.

Dirceu Mello, atual reitor da PUC-SP

O que torna ainda mais semelhante os casos da PUC-SP e da PUCP é que ambos os arcebispos resolveram tomar uma atitude de uma hora para outra. Sem querer julgar se foram decisões certas ou erradas, podemos dizer que em ambos os casos foram bruscas. Tanto Dom Odilo Scherer quanto o cardeal de Lima, Dom  Juan Luis Cipriani Thorne, chocaram a comunidade universitária de suas PUCs porque fugiram do padrão adotado já há algum tempo, no qual aceitavam aquilo que vinha pré-definido. Antes, era só assinar embaixo.

Percebe-se que nas universidades onde a instituição Igreja sempre se manteve presente (como naquelas geridas pelos padres jesuítas, por exemplo, como a PUC-RJ) este tipo de conflito não ocorre. As intervenções não são só comuns e aceitas normalmente, como muitas vezes o reitor é um padre. E as universidades pontifícias muito frequentemente recebem estudantes de outras religiões – e, no caso de Roma, alguns são até convidados oficialmente pelo Vaticano, com bolsas de estudos, para promoverem o diálogo entre diversas correntes de pensamento. Isso flui razoavelmente bem.

Não se sabe ao certo o que vai acontecer agora com a PUC-SP, mas Dom Odilo Scherer não é do tipo que volta atrás em suas decisões. Pode ser que com muito diálogo, mudanças na lista tríplice e eventual renúncia da reitora nomeada, a situação mude um pouco e esse incêndio seja apagado.

Porém, se a Igreja quiser manter certo controle sobre suas universidades precisará em algum momento realizar verdadeiras reformas. Caso contrário, terá de aceitar a realidade atual, na qual o pensamento contrário ao da Igreja é firme e forte dentro de algumas PUCs, e aprender a lidar com toda sorte de reação às suas pequenas intervenções pontuais.

Deixe um comentário

Arquivado em Igreja no Brasil, Outras crenças

Quem será o próximo Papa? Veja alguns nomes de possíveis ‘papáveis’

Algum tempo atrás, o Papa Bento XVI reconheceu que, aos 85 anos de idade, já está “no último trecho da viagem” de sua vida.

Por isso, embora ele esteja com boa saúde, não é crime ou desrespeito começarmos a pensar em quem poderia ser o próximo “sucessor de Pedro”. Neste post, vamos olhar para o cenário atual de “papáveis” sem compromisso nem torcida, com a ajuda do renomado jornalista americano John Allen Jr.

Allen publicou uma lista dos nomes mais citados quando o assunto é “quem será o próximo Papa?”. O vaticanista já avisa que esses levantamentos são falíveis e, portanto, devemos levá-los em conta apenas como “aquilo que se ouviria nas mesas de jantar em Roma”. Para quem lê bem em inglês recomendo que vá ao blog de John Allen clicando aqui.

Ele fez uma espécie de consulta a observadores do Vaticano – jornalistas, diplomatas, acadêmicos, religiosos – e chegou a 12 nomes de eventuais candidatos ao papado. Entre as “possibilidades”, há um brasileiro. Mas antes de resumir a lista de Allen, cabe questionar o que se espera de um Papa? São quatro pontos principais a serem avaliados pelos cardeais num conclave:

1) A experiência pastoral e o apego ao ensinamento teológico da Igreja, isto é, a essência do que é ser o “pastor” do rebanho, afinal, antes de mais nada o Papa é um líder religioso; 2) o caráter administrativo, para saber lidar com o funcionamento do Vaticano, fazer nomeações ou, pelo menos, saber delegar; 3) o caráter político, isto é, saber mediar conflitos e, ao tomar decisões, evitar desagradar partes envolvidas; 4) avaliando o “conjunto da obra”, os cardeais devem pensar no que cada um representaria em termos de transição e evolução ante os Papas anteriores e também no contexto histórico atual.

Se você não sabe como funciona a eleição do Papa, recomendo que clique aqui. Pois bem, vamos à pesquisa de John Allen:

Cardeal Scola

TRÊS FAVORITOS – Eis os “front-runners”: Cardeal Angelo Scola, Arcebispo de Milão, italiano de 70 anos; Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congreação para os Bispos, canadense de 67 anos; e Cardeal Leonardo Sandri, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, argentino de 68 anos.

O Cardeal Scola é especialista em antropologia teológica e muito alinhado ao Papa Bento XVI, o que é uma qualidade. Além disso, é mais extrovertido e, segundo Allen, mais otimista. Fãs dizem que Scola mistura a autoconfiança de João Paulo II com a intelectualidade de Bento XVI. Contra Scola está o fato de ser italiano, pois alguns cardeais querem renovar. Ele também nunca ocupou um cargo no Vaticano. Além disso, representaria o segundo pontificado consecutivo de intensos ensinamentos teológicos, o que poderia ser considerado um excesso.

Cardeal Ouellet

Cardeal Ouellet é outro discípulo intelectual de Bento XVI. Embora seja canadense, já viveu também na Áustria, na Alemanha e na Colômbia, o que é uma qualidade, além já ter trabalhado no Vaticano e como Arcebispo de Quebec. Seria o primeiro Papa das Américas. Fãs dizem que ele é humilde e um grande professor de fé. Porém, alguns dizem que ele é parecido demais com Bento XVI.

Cardeal Sandri

Cardeal Sandri tem a vantagem de ser de uma família italiana na Argentina, um país em desenvolvimento. Durante cinco anos trabalhou como sostituto no Vaticano, uma espécie de administrador-geral, função em que se saiu bem. Portanto, conhece bem o Vaticano, mas pode ter sua imagem “contaminada” por erros da gestão de que participou. Ele é teologicamente alinhado, mas moderado em questões políticas – foi diplomata nos EUA. Alguns acreditam que ele seria um ótimo Secretário de Estado, e não Papa. Além disso, seu cargo atual não é de grande destaque.

Cardeal Scherer

POSSIBILIDADES – Segundo Allen, estes nomes também são muito mencionados: Cardeal Péter Erdő, Arcebispo de Budapeste, húngaro de 59 anos; Cardeal Angelo Bagnasco, Arcebispo de Gênova, suíço de 69 anos; Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, brasileiro de 62 anos.

Vamos começar pelo brasileiro. O Cardeal Scherer lidera uma importante arquidiocese da América Latina, o que lhe atribui grande visibilidade. Ele tem ampla experiência em Roma, onde viveu por sete anos. Outra qualidade é o fato de ser alinhado às tradições, mas dialogar com novos movimentos. Porém, os brasileiros em geral, segundo Allen, costumam ser vistos em Roma como “caras legais”, mas não firmes o suficiente para o papado. Outra dúvida a ser levantada é se Dom Odilo vem respondendo à altura ao crescimento do pentencostalismo e do secularismo no Brasil. Contra ele pesa também o fato de ser de família alemã o que, para alguns, representaria o segundo Papa alemão consecutivo.

Cardeal Erdő

Cardeal Erdő foi eleito duas vezes presidente da Conferência Episcopal Europeia, o que lhe atribui razoável vantagem porque quase metade dos cardeias é europeia. Ele também tem boas relações na África. Segundo Allen, ele é considerado tradicionalista na doutrina, mas bom em estabelecer consensos entre diferentes correntes. Contra ele pesa o fato de ser bastante jovem, o que consistiria num papado talvez longo demais. Além disso, é especialista em direito canônico, o que para alguns limita um pouco sua visão pastoral.

Cardeal Bagnasco

Cardeal Bagnasco é visto como um líder capaz na Itália, com habilidades para lidar com questões políticas e com a mídia. Pode favorecê-lo o fato de às vezes discordar do atual Secretário de Estado, Cardeal Tarciso Bertone, pois outros cardeais enxergam muitas fraquezas em Bertone. Porém, Bagnasco é muito conhecido apenas na Itália e nunca trabalhou fora de lá, o que pode limitar sua visão de mundo e sua visibilidade.

CHUTES – John Allen menciona outros cinco nomes menos prováveis, tidos como “chutes a longa distância”: Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, italiano de 69 anos; Cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho para Justiça e Paz, ganês de 63 anos; Cardeal Robert Sarah, Presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”, guineense de 66 anos; Cardeal Timothy Dolan, Arcebispo de Nova York, americano de 62 anos; Arcebispo Luis Antonio Tagle, de Manilla, filipino de 54 anos.

Cardeal Ravasi

Cardeal Ravasi é visto como um intelectual brilhante em diversas áreas, como teologia, arte, ciências e filosofia, e atua de forma eficiente tanto no meio acadêmico quanto na imprensa popular, aproximando-se dos não católicos. É considerado gentil, afável, engraçado. Mas não tem grande base de apoio na Itália, onde pesa o lado político. Além disso, pode ser visto como europeu demais.

Cardeais Turkson e Sarah

Os africanos Cardeais Turkson e Sarah são as principais apostas para um Papa africano. Ambos trabalharam em grandes dioceses e hoje ocupam cargos importantes no Vaticano. Turkson tem mais experiência pastoral, mas Sarah tem mais laços internos no Vaticano e atua nos bastidores. Porém, os dois dividiriam os votos de cardeais que apostam na África. Além disso, Turkson não teve chances ainda de mostrar se é bom governador e, quanto a Sarah, falta a certeza de que ele se daria bem com toda a publicidade que exige a missão de um Papa.

Cardeal Dolan

Cardeal Dolan ganhou muito destaque nos últimos meses por causa das desavenças com o governo de Barack Obama, nos Estados Unidos, e foi o centro das atenções no último consistório de cardeais. O discurso que fez diante do Papa Bento XVI sobre a “Nova Evangelização” o tornou uma estrela, segundo Allen. Ele tem um estilo de governar pouco rigoroso, mas confiante e bem-humorado. Em Roma, diz-se que ele é o primeiro americano “papabile“. Porém, Dolan nunca trabalhou no Vaticano, seu italiano não é fluente e não se sabe se ele conhece a realidade da Igreja fora do Ocidente. Dolan pode ser visto como extravagante demais para o papado.

Arcebispo Tagle

Arcebispo Tagle é um verdadeiro chute, pois sequer é cardeal (ainda). Isso pode mudar no ano que vem, pois ele tem ganhado bastante destaque no Oriente. Entre suas qualidades estão os fatos de ter posições fortes e saber se comunicar muito bem. Um comentarista filipino disse que Tagle tem “a mente de um teólogo, a alma de um músico e o coração de um pastor”. Porém, além de não ser cardeal, ele nunca morou em Roma e não se sabe se ele conhece a realidade do Ocidente. Tagle também pode ser jovem demais por enquanto: com apenas 54 anos, um eventual papado seu poderia durar mais de 30.

Esse é o cenário atual. Mas, com o passar do tempo, é claro que tudo pode mudar. E vale lembrar que muitos dos Papas eleitos no passado foram azarões, verdadeiras zebras. O mais recente foi um tal de Karol Wojtyła, polonês cujo nome os outros cardeais mal sabiam pronunciar direito.

14 Comentários

Arquivado em Igreja, Igreja no Mundo, Vaticano